| Publicado por: | vander.christian |
| Data: | 12/09/2009 |
| Hora: | 20:11:59 |
| Página: | biblioteca_ler |
| Livro | LEMBRANÇAS DE UM PASSADO |
| Capítulo | 3 |
| Leituras: | 304 |
Quando José Sales se mudou para a cidade de Garcia, fazia apenas três meses que ele havia se casado com Carolina. Era tudo muito bonito, tudo maravilhoso; era beijinho pra cá e beijinho pra lá. José precisava trabalhar, saía cedo, Carolina ficava dormindo. Formavam um casal lindo. As pessoas logo deram um jeito de fazer amizade com eles. Queriam saber de onde veio, como descobriram aquela cidade, qual eram os seus planos...
No meio dessas pessoas tinha o Ivan. Sabe aqueles homens que adoram mexer com todas as mulheres que passam na rua? Então, Ivan era assim. E com Carolina não foi diferente. No primeiro dia em que a viu foi um “bom-dia” pra lá de malicioso. Carolina na hora demonstrou que não gostou nem um pouco daquela maneira de falar bom-dia.
A casa de Ivan não era muito longe da casa dos dois. Volta e meia ele era visto passando em frente da casa do casal.
-Por que esse cara passa tanto aqui em frente amor?
José perguntou enquanto entrava no banheiro para tomar banho (já estava com quase dois meses que eles estavam morando em Garcia).
-Não sei – respondeu Carolina displicente. – Como foi o seu dia?
-Bom, é que eu já vi ele passar bem umas três vezes aqui em frente, pra ser sincero, não gosto muito do jeito dele.
Carolina olhou para a sua imagem no espelho, abriu a boca para falar alguma coisa, mas se calou.
José Sales havia deixado a capital do Paraná para morar em Umuarama, foi lá que conheceu Carolina. Um amigo do pai dela que indicou a cidade de Garcia e quando se casaram resolveram morar em um lugar totalmente novo e tranqüilo. A cidade de Garcia era tudo isso.
O trabalho de José Sales era carregar a ração para o gado, gradear a terra e transportar os funcionários para as partes mais distantes da fazenda de um empresário que morava em São Paulo, e era dono de uma fábrica de tapete na capital paulista.
José Sales sempre gostou de trabalhar sossegado sem ninguém pegando em seu pé. Acontece que o administrador da fazenda era um homem que adorava mandar em um tom muito ignorante. José Sales quase não tinha contato com ele, mas chegou uma época que o gado precisava ser vacinado e o administrador começou a rodear o local em que José Sales freqüentava. E ele não perdeu tempo em ser ignorante:
-Não quero que você deixe nenhum serviço para ser executado amanhã, esta ouvindo?
-Sim senhor, mas eu...
-Amanhã nós temos muito que fazer, tem muita coisa aqui que esta atrasada!
-Senhor...
-Senhor esta no céu caramba!
Aquilo foi o pontapé inicial para uma discussão.
-Olha aqui João Bartolomeu, eu não vou admitir que você fale assim comigo certo?
Não estou vendo nada atrasado aqui e depois que comecei a trabalhar nesta fazenda nunca deixei serviço acumulado e ao contrário de você, eu tenho muita educação!
-Alem de tudo é respondão! – exclamou João Bartolomeu com um sorriso de ironia. – Olha aqui José Sales, preste bastante atenção: eu mando nesta fazenda, na ausência do Osvaldo, eu mando aqui! E eu se fosse você se preocupava mais com a sua mulher que...
-O que a minha mulher tem a ver com o que estamos discutindo?!- cortou José espumando de raiva. – Deixa ela fora da nossa discussão, por favor!
-Isso, vai, grita mais! Aqui você quer bancar o durão, mas em casa... – e dizendo essas palavras João Bartolomeu se aproximou de José Sales. – Se eu fosse você ficava mais atento com o comportamento da sua esposa; se eu fosse você deixava para gritar na sua casa com a sua esposa, sabe por quê? Porque ela esta sendo vista de conversa com aquela mala- sem- alça do Ivan. Estão casados há tão pouco tempo... tenho pena de você, sabe, tão novo já com xi...
-Cale a boca! – explodiu José Sales. – Cale a boca! Não fale do que não sabe!
-Isso, grita mais. Sabe que a moda era os mais velhos serem cornos, mas vejo que me enganei...
José Sales agarrou o colarinho da camisa de João Bartolomeu com a mão direita e falou:
-Já disse: não fale do que não sabe; deixe a minha mulher fora disso, ta legal! Não adi mito que fale dela dessa maneira!
-Desculpe, mas é o que o povo está comentando...
João Bartolomeu disse essas palavras em um tom brando como se ninguém estivesse agarrando a sua camiseta e gritando perto do seu rosto. José Sales soltou o colarinho do seu patrão e se afastou pisando pesado na grama do pasto.
-Seu corno manso – falou João sorrindo, mas José já tinha ido embora.
E chegando em casa, José foi ter com sua esposa uma conversa séria.
-Quero saber o que você tem conversado com o Ivan?
Carolina não entendeu:
-Como?
-O que você tem conversado com o Ivan? Eu quero saber.
-Não tenho conversado com o Ivan – declarou Carolina ainda sem entender porque o seu marido estava lhe perguntando aquilo.
José chegou mais perto de sua mulher e falou:
-O povo esta comentando que você só espera eu sair para o trabalho e sai para conversar com aquele cara que mora aqui na nossa rua, Carolina. Quero saber o que vocês têm conversado e por que tem conversado com ele, por um acaso não tem o que fazer aqui em casa durante o dia? Você já costurou aquela blusa? Aquele monte de milho que esta lá para colher, esta esperando secar as espigas é isso?
-José eu...
-Tenho notado que você mudou muito de uns dias pra cá! Deixou de fazer os seus deveres de casa, esta gastando todo o tempo com aquele sujeito!
-José Sales! – gritou Carolina com as mãos na cintura. - Esta dizendo que eu estou de caso com o Ivan, José Sales? Esta dizendo que eu sou uma vagabunda?
-O povo esta comentando; o meu patrão falou que você foi vis...
-E agora você esta disposto a acreditar no que o povo esta falando? Vai acreditar na palavra de João?
-Ele me...
-Ponha-se no seu lugar José Sales! Fale direito comigo e outra coisa: não sou mulher de ficar por aí dando trela pra marmanjo; sou uma mulher de respeito!
-Esse Ivan vive rondando a nossa casa, eu já notei e já falei que não gosto dele!
-O que você quer? Que eu proíba ele de passar na rua?
-Com que cara que eu vou sair na rua quando a cidade toda ficar sabendo dessa história?
-Aqui ó José Sales: se você não confia em mim o problema é seu. Eu sou a sua mulher e se não existe confiança no nosso casamento eu estou voltando para a casa da minha mãe agora mesmo.
Carolina saiu do quarto furiosa. José foi atrás.
-Espera Carolina, também não é bem assim!
-É assim sim, José! Ou você confia em mim, ou não confia!
-Sim, eu confio, mas é que...
-Me deixa!
E saiu para os fundos do quintal, atravessou a cerca e foi sentar de baixo do pé de manga. Começou a chorar e a pensar em sua mãe, que estava há quilômetros de distancia dali. Era a primeira vez depois de casada que ela sentia aquela saudade de sua mãe. Carolina sentiu vontade de se jogar nos braços de sua mãe como fazia quando criança e chorar enquanto os seus cabelos eram acariciados pelas mãos daquela que sempre gostou de ver a sua filha feliz.
-Nunca dê motivos para o seu marido reclamar do seu comportamento minha filha – dissera a sua mãe semanas antes dela subir ao altar com José Sales.
Não dera motivos. Mas aquele tal de Ivan sempre se debruçava na cerca e ficava olhando ela limpar as janelas e a regar as flores. Muitas das vezes, Carolina deixava essas tarefas de lado e refugiava-se dentro de casa para não ficar exposta aquele olhar pouco agradável que Ivan lançava todas as vezes que a via. E agora o homem que Carolina amava estava questionando o que ela conversava com Ivan; sendo que ela nunca trocou uma palavra sequer com aquele rapaz.
José Sales viu que a sua esposa ficou chateada com aquele assunto, por isso não insistiu mais. Resolveu assumir uma nova postura. Foi falar com Ivan.
-Não estou entendo José – disse Ivan com um misto de ironia e cinismo na voz. – Esta dizendo que eu estou dando em cima de sua mulher?
-Não foi isso que eu disse – objetou José – só quero saber por que espera eu sair para conversar com ela? Aqui é uma cidade muito pequena e tem gente aqui que é fofoqueira, por isso saiu essa conversa; que você e a minha mulher vivem de conversinhas.
-José Sales, a única coisa que eu faço é cumprimentar a Carolina e ela, muito educada, também me cumprimenta somente isso.
-Sim, mas eu não quero, a partir de hoje, não quero que você cumprimente mais ela estamos entendido?
-Não – falou Ivan fazendo uma careta. - E a educação onde fica?
-A educação que vá para outro lugar! A Carolina nem gosta de você.
-Não é o que ela diz.
José chegou mais perto de Ivan, as mãos fechadas como um lutador de boxe pronto para dar um soco no adversário.
-Fique longe da Carolina. Você não me conhece, não sabe do que sou capaz.
-Você esta me ameaçando? José Sales me ameaçando por conta de uma bobagem? Não estou acreditando!
-Pra mim não é bobagem!- gritou José com muita raiva. Ivan limpou com a mão as salivas que voaram para o seu rosto.
-Você tem que ficar com ciúmes mesmo – disse Ivan se afastando de José, mas com uma expressão dura no rosto. – Veja você, é todo desajeitado, estranho... Agora olha pra mim; as mulheres me desejam, tenho um corpo sarado, os cabelos loiros, os olhos verdes...
-A Carolina não se casou comigo por um belo corpo nem por um cabelo amarelo e nem pelos olhos – falou José Sales chegando mais uma vez perto de Ivan. – Ela se casou comigo por amor. Mais uma vez Ivan, fique longe dela.
Dessa vez Ivan não se afastou, pelo contrario chegou mais perto.
-Vai ter que dizer isso para a Carolina.
Ficaram os dois se fuzilando com o olhar até que José se virou e foi embora. E Ivan deu um largo sorriso.
Não foi a primeira briga e nem a ultima do casal. Na verdade, Ivan só parou de cantar Carolina quando ela anunciou que estava grávida de um menino. E esse menino se chamaria Aroldo.
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