| Publicado por: | vander.christian |
| Data: | 26/09/2009 |
| Hora: | 19:48:38 |
| Página: | biblioteca_ler |
| Livro | KARINA - A MINHA HISTÓRIA |
| Capítulo | 10 |
| Leituras: | 672 |
Refiz o caminho de volta ao ponto de ônibus completamente arrasado. Reconheci que o meu ato não tinha perdão. Não sei dizer ao certo o que aconteceu para eu ter beijado Karina na casa em que ela vivera com Fabiano, pior no quarto que era do casal! O problema é que eu queria mostrar a ela que eu estava ali, pronto para lhe dar todo o amor do mundo; que existia sim alguém capaz de amá-la tanto quanto o Fabiano, ou talvez, até mais do que ele! Eu estava era sendo egoísta, um aproveitador como dissera Karina.
Passei do lado do corsa que ainda estava estacionado no mesmo lugar de antes. Parecia incrível que horas atrás eu estava me divertindo, porque Karina batera a bengala no corsa e o alarme havia disparado.
Os acontecimentos que se seguiram depois desse incidente chegaram ao meu conhecimento através da boca de Leonardo, Flavio e Michele. Não tive coragem de procurar Karina para conversar e tentar explicar o que me fizera lhe dar aquele beijo – embora eu tivesse os meus motivos – sentia que aquele beijo era uma coisa muito grave que eu havia feito.
Entretanto, conforme eu fiquei sabendo, Karina não mostrara irritação ao explicar para a minha mãe que estava tudo bem entre nós dois.
-Eu não nasci ontem Jéferson, sei que vocês estão brigados – disse mamãe ao telefone.
O problema é que eu escolhi a casa do Leonardo para me distrair e esquecer que não estava falando com Karina e por mais que eu tenha feito essa escolha tomando cuidado para não bater com os dias das aulas de Braille dela, percebi que ela também escolhera o Leonardo para disfarçar a minha ausência.
-Eu já vou indo Léo – disse eu meio sem-jeito na terceira vez seguida em que fui à casa do Leonardo e logo em seguida Karina chegou.
-Algum problema Jéferson?
Já estava quase chegando ao portão quando dona Matilde apareceu na janela da sala e me fez essa pergunta.
-Não – menti – eu só me lembrei que tenho uns papéis para analisar, sabe coisas do trabalho.
-Ah ta. É que você nunca mais apareceu lá em casa – falou dona Matilde olhando nos meus olhos. – Todas as vezes que a Karina chega aqui você vai embora... Esses papéis estão te deixando bem ocupado.
-É – disse e fui embora.
Eu sabia que dona Matilde tinha conhecimento sobre a situação constrangedora entre eu e Karina. Mas se tinha uma pessoa que eu não queria discutir sobre como eu estava me sentindo com aquela situação era exatamente com a mãe de Karina.
E com Leonardo, Flavio e Michele sendo os meus informantes, fui levando a vida, sabendo que eu mesmo teria que chegar na Karina, tentar me explicar e pedir mais uma vez desculpas.
O afastamento momentâneo entre nós dois provocou em Karina uma mudança bruta de postura. Segundos relatos de Michele, Karina estava se esforçando o máximo para aprender a andar sozinha.
-Isso não tem o menor cabimento! – falei irritado quando Michele me contou que Karina já estava indo a casa de Leonardo sozinha.
-Por que não tem menor cabimento Jéferson? – perguntou Michele.
-Ela esta aprendendo a andar sem ninguém em sua companhia, aprendendo ainda! Como é que já vai se aventurando a entrar nesses ônibus, que mau você entra o motorista já da à partida?! Ela ta fazendo isso só pra me provocar!
-Te provocar por quê? – indagou mais uma vez Michele.
-Pra dizer que não sente minha falta; que não precisa mais de mim!
-Ah Jéferson, você esta sendo infantil. Achei que você ia gostar de saber desse grande passo que a Karina esta dando.
Foi indo Karina se acostumou a andar de ônibus do centro de Franco da Rocha ao Jardim Bandeirante. E não foi só; ela finalmente estava andando (com certa dificuldade) sem a bengala dentro de sua casa. E se inscreveu como voluntária no instituto Luz do Sol. Incrível o progresso que Karina conseguiu em tão pouco tempo. Já estava até formando frases de “v” a letra “z” (sem o w) encerrando assim a terceira série das aulas de posições dos pontos.
-Estou te dizendo Jéferson, ela melhorou bastante depois que parou de falar com você - comentou Leonardo por telefone, um mês após o nosso desentendimento.
-Não sei se isso é ruim ou é bom – falei em dúvida.
-É bom, aliás, é ótimo Jéferson.
-Então eu era uma má influência pra ela?
-Não. Só que depois que a Karina se afastou de você ela passou a preencher o tempo que geralmente vocês passavam juntos em uma dedicação às atividades, que mais cedo ou mais tarde ela teria que fazer.
-Certo. Eu tenho que falar com ela Leonardo, mas eu não consigo encontrar um lugar e uma hora exata pra isso.
-Eu tenho uma idéia – disse Leonardo contente. – Mas você vai ter que ser discreto.
-Como assim? – perguntei intrigado.
-Bem... Não sei se você sabe, mais a Banda Ponto de Vista vai se apresentar aí em Jundiaí no sábado...
-E o que tem isso?
-A Karina fez questão de ir assistir. Você pode fazer o seguinte: chega depois que a banda estiver se apresentando e vai direto à mesa aonde ela vai estar; não vai ter como ela querer sair, uma vez que ela não conhece o bar.
-Será que isso vai dar certo?
-Claro que vai.
Confiando na idéia de Leonardo, no penúltimo sábado do mês de junho, eu me dirigi ao bar da avenida nove de julho, local onde a banda Ponto de Vista iria se apresentar. Estava me sentindo péssimo porque não tinha a menor idéia do que falar para Karina. Sem contar que ela poderia muito bem se recusar a me ouvir. De qualquer forma eu teria que pedir desculpas...
Já passava das vinte e uma horas quando eu cheguei ao bar indicado por Leonardo. Vários carros estavam chegando ao estacionamento que ficava na parte de trás do bar. A frente do bar era completamente oculta por uma espécie de lona apoiada em bambus fincados no chão. Do lado esquerdo uma cortina branca e vermelha enfeitava a entrada. A única luz acesa dentro do bar vinha de uma enorme bola pendurada no teto bem no meio do salão. O bar ainda não estava completamente lotado, mas podia se ver que restavam poucas mesas vazias. Mais ao fundo, a banda tocava a música velha infância. Corri os olhos nas mesas a procura de Karina. Localizei-a em uma mesa perto dos banheiros. Hesitei um pouco, mais fui em sua direção.
-Oi Karina – falei com a voz rouca.
-Jéferson?! O que você esta fazendo aqui? – Karina ficou tensa e afastou o pacote de batata frita de sua frente.
-Nós precisamos conversar Karina – disse eu sem perder a coragem.
-Jéferson eu estou assistindo o show.
-Por favor, você precisa me ouvir! – insisti.
-Não, agora não. Estou...
-Karina eu vim até aqui pra te pedir perdão e eu não saio daqui sem ouvir uma resposta sua!
Por um momento ninguém disse nada. Tinha certeza de que Karina estava avaliando a situação.
-Certo – falou lentamente após um breve silêncio. – Estou ouvindo.
Puxei a cadeira para mais próximo dela. Quando falei, falei olhando nos olhos de Karina, como se ela estivesse me encarando.
-Karina eu preciso que você me perdoe pelo que fiz lá em Perus naquele dia... eu preciso do seu perdão, para que a minha mente fique sossegada; você pode me dar o seu perdão?
editado por:cleudismar da silva
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