| Publicado por: | vander.christian |
| Data: | 26/09/2009 |
| Hora: | 19:51:26 |
| Página: | biblioteca_ler |
| Livro | KARINA - A MINHA HISTÓRIA |
| Capítulo | 11 |
| Leituras: | 360 |
O silêncio que se estendeu após a minha pergunta foi maior do que quando eu disse que não sairia dali sem ouvir uma resposta de Karina. Até a banda havia parado o show e formavam um círculo e falavam em voz baixa. Por todo o bar só o que se ouvia era murmúrios e a mesa em que eu estava com Karina parecia ser a única a não emitir som alguma.
-Jéferson... – iniciou ela, mais parou em seguida. A banda Ponto de Vista parecia finalmente ter chegado a um acordo sobre a próxima música a ser tocada. Bruno começou e depois Michele o acompanhou:
EU TENHO TANTO PRA LHE FALAR;
MAIS COM PALAVRAS NÃO SEI DIZER;
COMO É GRANDE O MEU AMOR POR VOCÊ...
-Jéferson, eu...
-Karina, eu só preciso que você me entenda e me perdoa pelo que te fiz – interrompi-a pegando em sua mão. – Eu só queria que você soubesse que quando eu te beijei não foi pra te ofender, não foi com a intenção de... não foi com a intenção de ferir os seus sentimentos. Eu só queria mostrar que eu estava ali, com todo o meu amor para lhe oferecer, talvez tenha parecido egoísmo meu, mas a minha intenção não era essa. Por isso eu vim até aqui, pra te pedir perdão.
Senti a minha boca seca e o coração bater acelerado. A banda continuava o show e ninguém parecia notar a tensão que se apoderou do meu ser naquele instante.
-Jéferson, eu não quero te enganar – disse Karina um pouco baixo do que o normal. – Eu não quero me enganar... – Karina fez uma ligeira pausa, em seguida completou: - E é o que vai acontecer se eu disser que te perdoei.
Baixei a cabeça. Só então me deu conta de que eu continuava segurando a mão dela. Soltei-a.
-Puxa Karina – falei – você não era assim; nunca foi de guardar rancor.
-Não se trata só de guardar rancor Jéferson. Aquele beijo foi em uma hora muito complicada pra mim. Semana que vem o ano que vem, talvez, eu possa te perdoar, mas hoje, hoje eu posso te perdoar, eu não tenho condições.
-Então esse é o fim da nossa amizade?
Karina deu um longo suspiro antes de responder.
-Eu reconheço que você tenha feito aquilo para demonstrar o seu amor, mais poderia ter sido em um outro momento... A gente pode sair juntos conversar... mais só como colegas, porque o posto de meu melhor amigo, você perdeu... junto coma a confiança e a admiração que eu tinha por você.
-Não acha que esta sendo radical demais? – Falei quase num sussurro.
-Estou fazendo o que eu acho justo Jéferson. Se você gosta realmente de mim vai me entender.
Fiquei em silêncio. Na verdade aquele não era um preço alto a ser pago.
-Certo – disse eu me levantando. – Vamos continuar sendo apenas colegas.
-Que bom que você entendeu – declarou Karina parecendo contente. – Agora, por favor, me deixe assistir- figurativamente- o show – encerrou-a voltando a beliscar a batata frita.
Afastei-me de Karina. Cheguei ao balcão e pedi uma coca-cola. Tomei ali mesmo, olhando para Karina e ouvindo a voz de Bruno e Michele cantando:
MAIS NÃO SE ESQUECE NEM UM SEGUNDO;
QUE EU TENHO AMOR MAIOR DO MUNDO...
Depois disse, ficou estranha a situação da minha vida. Quando saímos juntos eu e Karina passávamos a maior parte do tempo em silêncio, era como se a fase deprimente de Karina após o acidente estivesse voltado. Mas o grande responsável pelo silêncio era eu, que tinha medo de falar alguma coisa e Karina não concordar. De fato, alguma coisa se quebrara em nossas vidas e não adiantava tentar consertar.
Havia também uma garota chamada Anita que, conforme fui informado, estava interessada em mim. Eu bem que estava desconfiado, porque todos os dias ela passava em frente da secretaria junto de suas amigas para me dizer “oi Jéferson”. Ela era bonita e educada, mas eu não achava que ela queria algo sério comigo, por isso não dava muita importância. Acontece que a Anita descobriu –não sei como- aonde era a minha casa e foi lá me buscar para ir ao cinema. Como eu não estava mais visitando Karina com tanta freqüência, resolvi aceitar o convite de Anita. Não posso negar, eu me diverti bastante, embora sempre me lembrasse de Karina. No meio do filme nós nos beijamos...
Mas logo, uma dúvida nasceu dentro de mim: por que eu tinha tanto medo de me envolver com Anita? Afinal eu era um homem livre e Anita também, além de ser adulta. O problema é que de alguma forma eu estava sempre ligado em Karina. E não demorei a perceber, Karina começou a agir como se nada tivesse acontecido entre nós dois. Ela não me perdoara pelo beijo, mas agia como se tivesse perdoado... Mulheres, sempre complicadas!
O fato de Karina estar andando sozinha na rua de sua casa deixou transparecer o preconceito existente na sociedade. Karina era vítima de brincadeiras e comentários dos marmanjos que não tinham o que fazer.
-Não liga não Karina, no começo é assim mesmo - dizia Michele.
Karina estava bem adepta ao “mundo dos cegos”. A sua audição começou a funcionar como um radar, capaz de ouvir qualquer ruído que fosse.
No final do mês de novembro de 2003, eu fui pela primeira vez, no instituto como acompanhante de Karina ver as suas atividades como voluntária na brinquedo teca.
A sala que abrigava a brinquedoteca, era extensa com cinco mesas quadradas juntas, formando um enorme balcão. Havia ali varias crianças cegas, todas elas entretidas com alguma atividade. Mas o que me chamou mesmo a atenção foi um garoto negro de mais ou menos uns sete anos, ele fazia um passarinho com um sul fite – ao final, garoto segurou na cabeça do passarinho com a mão esquerda e com a mão direita segurou a calda do pássaro que ao ser puxado abria as asas.
-Ele tem oito anos e se chama Elias – falou Karina depois de consultar a professora Sonia, responsável pelas crianças. – Ele perdeu a visão há um ano...
-Incrível como ele dobra a folha com facilidade – comentei admirado.
-A Sonia tava me falando – disse ainda Karina – que tem muitas crianças talentosas aqui. Tem a Roberta e a Natalia que fazem balé, elas já até se apresentaram no centro cultural de Pinheiros.
Mas a brinquedoteca não era só um lugar de fazer origamis e brincar. Ali as crianças aprendiam a conviver entre outras crianças, estavam aprendendo a respeitar a deficiência do outro e a encarar os obstáculos da vida. Como dizia a professora Sonia: no rosto de cada criança daqui, vejo um futuro brilhante.
-Jéferson eu quero te mostrar uma coisa.
Karina estava andando com a bengala do meu lado. Eu não me lembrava direito em que andar ficava o refeitório, por isso não estranhei quando nos dirigimos por um corredor aparentemente deserto.
-Agora nós vamos de elevador – disse Karina toda misteriosa.
-Só que... hum, Karina nós vamos entrar no elevador de serviço? – perguntei parando de andar.
-Confie em mim – declarou ela sorrindo.
Quando descemos do elevador rumamos à esquerda em um corredor com apenas duas portas; no caminho, encontramos com funcionários empurrando um carrinho de lixo. Eu já estava quase perguntando a Karina o que ela pretendia me mostrar, quando o corredor chegou ao fim. Uma porta de vidro finalizava o corredor, atravessamos ela fomos sair em uma pequena sala que era guardado os mantimentos da cozinha.
-Tem uma porta a direita, não tem? – perguntou Karina que parecia estar se divertindo com aquela situação. E de fato havia sim uma porta a direita quase do mesmo jeito da porta anterior, só que um pouco mais estreita. Atravessamos a porta e para a minha surpresa, fomos sair no refeitório.
-O que você achou da passagem secreta para se chegar até aqui? – perguntou Karina.
-Legal, como foi que você descobriu?
-Dora uma colega minha me ensinou o caminho.
-Bacana, chega rapidinho aqui.
O refeitório era um aposento grande e com uma extensa mesa central.
-Legal te ver assim, feliz – disse eu mais tarde enquanto saboreávamos uma deliciosa macarronada com sardinha no meio. – Estamos aí na última semana de novembro, o fim do ano esta chegando... Aconteceram tantas coisas este ano, não é?
-Sim – confirmou Karina limpando a boca com o guardanapo. – Esse é um ano que jamais eu vou esquecer.
-Eu acho que você tem razão, esse ano foi um ano diferente dos outros.
Ficamos conversando sobre as expectativas do próximo ano que viria e eu querendo perguntar se ela me perdoava pelo beijo, mas me faltava coragem.
-Eu talvez não tivesse chegado aqui se não fosse pela minha família, pelos meus amigos... e claro, por você. Vou lhe ser grata Jéferson pelo resto da vida.
Essas palavras afastaram de vez a possibilidade de tocar em um assunto tão constrangedor como aquele...
Na primeira semana de dezembro a professora de mobilidade de Karina lhe propôs o seguinte desafio: Karina teria que ir sozinha do instituto até a sua casa em Franco da Rocha.
-Professora, ir até a estação, pegar o metrô, depois o trem sozinha, sozinha, ou sozinha, sozinha? – exigiu saber Karina nervosa.
-Sozinha, sozinha – brincou a professora.
-Ah, eu acho perigoso – confessou Karina.
-Não é tão perigoso – explicou Ilda. – Olha só, você vai sozinha, mas o Jéferson pode ir um pouco distante de você, pelo menos até você descer do metrô; no trem vocês embarcam juntos. Na próxima vez, vocês embarcam juntos no metrô e quando for entrar no trem vocês se separam combinado?
-Combinado, Ilda.
-E então Karina, você topa o desafio?
Karina respondeu um “sim” meio inseguro, porém ela sabia que iria chegar um dia em que teria de fazer aquilo.
Na semana seguinte, depois que nos despedimos do pessoal do instituto, Karina se adiantou a minha frente para ir à estação de metrô Marechal Deodoro. Embora eu tivesse dito um monte de coisas para tranqüilizar a minha amiga, não podia deixar de sentir um nervoso dentro do peito. As ruas de São Paulo eram cheias de armadilhas e Karina representava uma presa fácil; contudo era de extrema importância que ela se tornasse uma pessoa independente.
Karina não teve muita dificuldade na calçada do quarteirão do instituto, uma vez que o piso direcional ajudava bastante. Ao chegar ao cruzamento, Karina bateu varias vezes a bengala no mastro do semáforo para ter certeza se era ali mesmo afixa de pedestres. Com o coração batendo um pouco acelerado, eu vi Karina baixar a cabeça e deixar a bengala junto do corpo. Aproximei-me lentamente do semáforo. Nesse momento, surgiu uma senhora e quando o semáforo ficou vermelho ela ajudou Karina a atravessar. Eu estava me sentindo estranho fazendo aquilo: deixar minha amiga “se virar sozinha”.
Até entrar na estação do metrô, Karina deu muitas trombadas em placas, postes, orelhões e até mesmo em pessoas distraídas que circulavam pela calçada. Quando finalmente ela chegou a estação, novamente a sorte esteve do seu lado: um guarda da estação a levou até a plataforma e ficaram esperando o metrô conversando. Tive que redobrar a minha atenção, pois a plataforma estava lotada, e eu teria que me juntar à Karina quando fossemos descer na estação Barra-Funda. Fiquei bem próximo dela; podia até ouvir o guarda dizendo as precauções que Karina teria de tomar todos os dias em que fosse embarcar no metrô ou no trem sozinha.
Quando o metrô chegou e abriu as portas, ocorreu aquele empurra-empurra tradicional de sempre... Assim que entrei localizei um rapaz guiando Karina até um lugar vazio. A minha posição não era muito favorável; tive de aproximar de Karina pedindo licença para as pessoas – não consegui chegar tão perto conforme eu esperava. Já estava começando a entrar em pânico... Na hora de descer, novo empurra-empurra. O mesmo rapaz que levou Karina ao lugar vazio assim que entramos no metrô a ajudou a descer...
-Karina! Karina!
Gritei já fora do metrô. E foi nesse momento que aconteceram varias coisas.
-Jéferson, você por aqui?
Olhei para o lado e me deparei com Anita e as suas amigas.
-Oi pra vocês! – falei procurando Karina. Localizei-a na escada rolante ao lado do mesmo rapaz. Fui em direção a escada rolante. Anita bloqueou o caminho dizendo:
-Espera Jéferson, vamos conversar! Eu e minhas amigas estávamos planejando ir ao Memorial da América Latina, vem com a gente!
-Olha Anita, agora não da, eu estou um pouco com pressa! – ao pronunciar essas palavras, eu consegui chegar à escada rolante; já não era mais possível ver Karina, que provavelmente estaria apavorada com aquela situação.
-Jéferson, o que esta havendo?- perguntou Anita dois degraus a baixo do que eu estava. – Puxa você nem me beijou quando me viu, aliás, nem sequer olhou nos meus lhos!
Quando eu saí da escada, em meio a varias pessoas, consegui vislumbrar Karina fazendo a transferência do metrô para o trem. Parei rapidamente e disse a Anita:
-Sinceramente Anita, agora eu não posso te dar atenção, esta bem? – e comecei a caminhar. Anita ia do meu lado perguntando:
-Jéferson, o que esta acontecendo?
-A Karina vai me matar! – deixei escapar.
Passei pela catraca quase correndo; Anita vinha logo atrás...
-Quem é essa Karina? – tornou a perguntar Anita se esforçando o máximo para andar rápido e falar com a voz firme.
-É uma garota – respondi me aproximando da escada que dava para a plataforma destino Francisco Morato.
-E ela é mais importante do que eu, Jéferson?
-Sim – falei sem pensar.
-É Jéferson?!
-Sim, a Anita é uma garota especial! – repeti sem pensar.
-Especial?!- Anita parou parecendo enterrar os pés no chão.
Só então percebi que tinha falado besteira. Ainda tentei consertar, mas acho que piorou foi mais.
-Ela é especial por que...
-Não precisa me dizer por que essa tal Karina é especial Jéferson! – rebateu Anita agora parecendo uma onça. – O nosso rolo termina aqui!
-Não é nada disso Anita, você entendeu tudo errado! – gritei, mas logo me calei, pois as pessoas me olhavam de maneira estranha e Anita já havia me dado as costas. Chamei-a para tentar explicar o que estava acontecendo, mas ela nem ligou... Nesse momento, escutei uma campainha e antes que eu desse um passo à frente, o trem deixou a plataforma levando a minha amiga cega embora e me deixando ali, sem saber o que fazer.
editado por: cleudismar da silva
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