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NOITE DE NATAL

Publicado por: vander.christian
Data: 18/10/2009
Hora: 14:30:14
Página: biblioteca_ler
Livro KARINA - A MINHA HISTÓRIA
Capítulo 12
Leituras: 384

 

Disparei alguns desaforos para o resto do trem que eu consegui ver antes de me dar conta do mico que eu estava pagando. Cheguei a conclusão que um mico era pequeno; um King - Kong, era isso que eu havia acabado de pagar.Veio então o desespero. Karina jamais havia andado de trem sozinha, ela jamais praticara o caminho do centro de Franco da Rocha a sua casa, no Jardim Progresso. Pensei em ligar para dona Matilde – mudei de opinião em seguida, pois não queria que ela se apavorasse, além do mais eu não estava disposto a perder o próximo trem, por isso fiquei ali na plataforma me recriminando por ter deixado aquela situação acontecer.A primeira coisa que eu fiz ao sair da estação em Franco da Rocha for ir o mais depressa possível à casa dos Toledos. Sem saber direito o que dizer a Karina e dona Matilde apertei a campainha e fiquei esperando alguém me atender.-Olá dona Matilde – falei completamente sem jeito quando a mãe de Karina surgiu na porta. Parecia muito séria.-Jéferson! Que surpresa te ver aqui há essa hora!Algo na maneira com que dona Matilde pronunciou essas palavras me deixou com a estranha sensação de que eu estava diminuindo e dona Matilde crescendo mais do que o normal.-Não estou entendendo o motivo da surpresa em me ver aqui – falei sem convencer.-Ah, porque eu achei que hoje você estaria muitíssimo ocupado, que nem iria se lembrar de algo assim... como trazer a minha filha até aqui em casa, conforme foi combinado.-Peço desculpas dona Matilde, é que eu tive um contratempo...-Entre Jéferson, a Karina esta na sala esperando uma explicação sua.Quando entrei na sala, avistei Karina sentada trajava a mesma roupa de horas antes.-Karina eu sinto muito pelo que aconteceu – disse eu me sentando. Dona Matilde sentou-se do lado da filha, ambas de frente pra mim.-O que foi que aconteceu Jéferson? Eu tive que ligar para a minha mãe ir me buscar na estação, e se não fosse pela boa vontade de algumas pessoas a minha mãe teria que ir me buscar na Barra Funda!Também não gostei do tom de voz de Karina. A situação estava complicada pra mim.-Então Karina – iniciei – aconteceu que eu tive um contratempo...-Contratempo não! – Rebateu Karina indignada. – O que aconteceu foi que você esqueceu do combinado entre a gente; foi uma tremenda sacanagem, isso sim!  -Não foi sacanagem, eu nunca ia imaginar que a...-Da próxima vez eu vou com qualquer outra pessoa menos com você!-Também não é bem assim Karina, eu tive um motivo para te deixar vir embora sozinha.-E você é capaz de me dizer qual é esse motivo?-É o que estou tentando dizer, mais você não me deixa falar.Com calma expliquei o encontro com Anita e como eu perdi o trem...-Quer dizer que você me “perdeu” de vista por causa dessa tal Anita? – Ironizou Karina.-De certa forma sim – confirmei.-Vamos fazer o seguinte: a mãe vai voltar a ser a minha acompanhante e você fica com a Anita certo?Se a situação fosse outra eu teria ficado feliz com aquela pequena demonstração de ciúmes que Karina manifestou.Esse pequeno desentendimento logo desapareceu até que comecemos a dar boas risadas do ocorrido. Na outra vez que Karina tentou vir da estação Marechal Deodoro a Barra Funda de metrô, dona Matilde a acompanhou, pois eu não pude ir; tive que trabalhar.No dia dezenove de dezembro, Karina manifestou o seu desejo de ir visitar a sua prima que morava no interior do estado de São Paulo.-Eu estou devendo uma visita pra ela Jéferson – disse Karina – prometi que iria a casa dela com mais tempo. A última vez em que eu fui a casa dela ia fazer um mês que eu e o Fabiano estávamos casados.Surgiu um silêncio melancólico após as últimas palavras de Karina. Enquanto pensava em até quando teríamos que suportar aquela situação constrangedora todas as vezes que pronunciávamos o nome do Fabiano, perguntei:-Qual é nome da cidade?-Teodoro Sampaio, a casa dele não é bem na cidade é num sítio – respondeu Karina parecendo contente com a mudança de assunto. – Na verdade é um assentamento; é bem legal lá, tenho certeza que você vai gostar.-E quando partiremos?-Depois de amanhã à noite.Aquele convite me deixou bastante empolgado, porque desde que o avião caiu eu não havia sentido mais vontade de fazer alguma viagem longa. E depois também, seria o terceiro natal seguido que eu iria passar em Jundiaí, então era hora de variar um pouco.Tranquilamente arrumei as minhas bagagens. Estava levando mais roupas de calor, pois segundo Karina o sol era forte aquela época do ano na cidade.Durante a viagem, Karina foi me contando que estava querendo trabalhar e fazer uma mudança radical em sua vida. Para mim essa “mudança radical” já deveria ter acontecido, a Karina havia sim feito grandes progressos durante o ano todo, mas sempre com um empurrãozinho de alguém, já estava na hora de Karina dar um passo sem estar apoiando em nada.Conforme as horas foram passando, as paisagens foram se modificando até ficar em definitivo os pastos com gados e algumas plantações de milho. Era a primeira vez que eu visitava o interior e pelo que eu estava vendo pela janela do ônibus, o interior não era cheio de mato como eu ouvira falar. O contraste do verde dos pastos com as terras vermelhas e o branco dos gados, formava uma bela imagem. Hora e outra podia ver ao longe pequenas casas de madeiras.Quando chegamos a Presidente Prudente embarcamos em um micro-ônibus que nos levaria até Teodoro Sampaio, de lá, pagaríamos uma perua para o assentamento onde a prima de Karina morava. Andamos cerca de uns quatro quilômetros no asfalto e depois mais dois em estrada de terra. Passamos por uma placa onde estava escrito: “ASSENTAMENTO CHEGUE-VARA”.A casa da prima de Karina não era muito diferente das outras casas que avistei no caminho até ali. Era feita de madeira – com exceção do banheiro e da cozinha, que eram de tijolos – na frente havia uma pequena área com quatro cadeiras e varias samambaias plantadas em vasos coloridos. Assim que eu entrei com Karina no quintal, uma pequena cachorra preta veio latindo a abanando a calda como se já nos conhecêssemos.-Entrem e fiquem a vontade – disse Rita.A prima de Karina era uma mulher de trinta e cinco anos, tinha os cabelos cortados em chanel com alguns fios ruivos e a pele bem morena.-Então é você, o famoso Jéferson? – Perguntou após me servir um copo de suco.-Bem, não sei quanto ao famoso, mas o Jéferson sou eu sim – falei sorrindo.Pouco depois chegou Davi, marido de Rita com a filha mais velha Renata e o caçula Igor. Gastamos então o resto da manhã falando da queda do avião e das dificuldades e conquistas de Karina como deficiente visual.Surpresa mesmo foi na hora do almoço. Rita preparou um verdadeiro banquete: arroz à grega com frango no meio, feijão com pedaços de lingüiças no meio, asas de frango empanado, carne de boi cozida com cenoura e chuchu, molho de salsicha e salada de tomate com alface. Sem contar que na última hora, Davi pediu que Renata fosse comprar refrigerante na mercearia; estava tudo uma delícia, nunca me lembro de ter comido tanto!-Vocês me desculpem – falou Rita minutos depois de tirar os pratos da mesa – mas eu só consegui fazer gelatina com creme de leite de sobremesa.Comecei a imaginar como seria a ceia de natal daquela família.À tarde, andei um pouco pelo assentamento. Pelo que pude perceber, a maioria das famílias dali sobreviviam de suas lavouras e do bicho-da-seda, pois, cada casa tinha um galpão e uma plantação de amora do tipo próprio para criar o bicho-da-seda.Karina preferiu ficar junto com a prima em casa. Davi se encarregou de me apresentar as outras pessoas e me mostrar às riquezas naturais daquele lugar.No dia seguinte a agitação tomou conta do assentamento Chegue-Vara. Por todas as redondezas, era possível ver grupos de homens matando porcos; crianças e mulheres correndo atrás de galinhas e som ligados em música sertaneja, outros em músicas natalinas. Aquela sem dúvida alguma foi a véspera de natal mais diferente que eu presenciara em minha vida.Enquanto eu ajudava Davi a preparar as mesas do lado de fora da casa, Rita e a filha Renata iam preparando as comidas. Algumas pessoas, que eram conhecidas de Karina, vieram conversar com ela, notei que para aquelas pessoas simples, Karina era uma espécie de celebridade, com a diferença que ela não estava gostando daquela situação.Entrementes, a noite chegou para por fim as expectativas de todos. E no meu caso, trazer muitas surpresas.Acontece que Davi fez questão me mostrar somente o lado norte do assentamento, onde se localizava uma pequena cachoeira e um lago com patos nadando tranquilamente. O lado sul, pra mim, era completamente desconhecido e naquela noite de vinte e quatro de dezembro, chamei Karina para passearmos um pouco. Já passava das vinte horas quando rumamos para o lado sul.Havia um movimento grande por toda a rua. Fiquei imaginando o que estaria causando tamanha euforia. Mas era uma euforia alegre, era um clima gostoso. As pessoas que passavam por nós desejavam boa-noite, coisa tão rara em Jundiaí, até mesmo na noite de natal. Alguns casais andavam pela rua comentando os enfeites natalinos das casas, enquanto que várias crianças corriam pela rua. Fui dizendo isso à Karina, que ressaltou ainda, o fato de que toda aquela gente, um dia, foi chamada de sem-terras.Karina ia me perguntando as coisas e eu ia dizendo com calma... Três garotos aparentando ter uns cinco ou seis anos, veio em nossa direção e falou:-Ela é cega?-Claro que é - disse um dos garotos com os olhos fixos em Karina antes que eu respondesse. Logo em seguida, na esquina, apareceu um outro garoto e o grupo que estava perto de nós se espalhou em várias direções correndo. Mais à frente, um outro grupo de garotos e garotas pulava cantando:MARCHA SOLDADOCABEÇA DE PAPEL,SE NÃO MARCHARDIREITO, VAI PRESO NO QUARTEL;QUARTEL PEGOU FOGO, FRANCISCO DE SINAL:ACORDA, ACORDA, ACORDA BANDEIRA NACIONAL!!Chegamos então em uma descida. E estávamos diante de algo maravilhoso. De cada lado da rua havia um pé de pinheiro plantado e eles estavam todos enfeitados; era uma espécie de árvore de natal real. Quando um ascendia o outro apagava. Um lona transparente cobria o pedaço de rua; havia desenhos de diferentes cores na lona como sinos e estrelas. Em meio ao caminho, vários presépios todos completos em seus detalhes. E por fim, uma enorme árvore de natal feita de garrafas pet, do lado direito, um papai-noel fazia a alegria da garotada.-É incrível! – Exclamei. – Sabe Karina, eu desejo do fundo do meu coração que você estivesse enxergando, para ver como esta bonito aqui!  -Esta maravilhoso! – Falou ela. Fiquei em silêncio, então ela completou: - Posso imaginar como esta bonito essa parte da rua...-É a primeira vez que você fica sem ver as luzes de natal, não é? – Disse eu triste.-Sim.Karina respondeu tranquilamente.-Eu sinto muito – acrescentei.Alguém soltou fogos de artifícios não muito longe de onde estávamos. Os coloridos dos fogos iluminaram por uns segundos a escuridão da noite.-Tudo bem – retomou o assunto Karina. – Eu agora estou enxergando com o coração... Importante é que eu estou aqui, viva, para sentir a alegria que é o natal! Pra mim não mudou nada; o natal continua sendo motivo de paz, união, esperança, alegria... renascimento... amor...perdão...Outros fogos brilharam na noite. Eu estava bem próximo de Karina. Podia até sentir o seu cheiro. Percebi então que ela estava como a Karina de antes do acidente. Os seus cabelos estavam soltos e à leve brisa mexiam-se rapidamente. O seu rosto estava lindo – as cicatrizes já estavam sumindo, umas nem davam mais pra ver. A Karina estava linda.-Jéferson...Karina ergueu a mão direita lentamente. Com suavidade tocou em minha face. Vieram mais fofos... Ao longe, uma voz feminina cantava:NOITE FELIZ...NOITE FELIZ...A mão de Karina deslizou até a minha boca. Estávamos muito próximo um do outro...publicado por: cleudismar da silva

 

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