| Publicado por: | luis.campos |
| Data: | 14/12/2008 |
| Hora: | 16:51:37 |
| Página: | biblioteca_ler |
| Na categoria: | ------ |
| Leituras: | 121 |
Parte XI
O sol já havia colorido o céu quando Danyl decidiu procurar um lugar
para pernoitar. Do alto de uma colina que acabara de subir, avistou,
não muito longe, um moinho e deduziu que chegaria por lá antes que a
noite caísse. Caminhou por cerca de uma hora e meia até chegar na
cancela do sítio. Percebeu, pelo estado da casa, do estábulo e do
moinho que há muito tempo estaria abandonado. A noite já chegara e,
como do alto da colina fora a única propriedade que ele vira naquela
estrada deserta,não havia razão para continuar a caminhada em busca de
coisa melhor. Abriu a cancela e caminhou em direção à casa. Embora as
janelas estivessem fechadas, a porta encontrava-se entreaberta. Dentro
da casa a escuridão era total e ele não enxergava um palmo adiante do
nariz. Cautelosamente caminhou procurando um canto onde o vento dessa
fria noite outonal que entrava pelas frestas das janelas, portas e
buracos no telhado, não chegasse. De repente chocou-se com algo macio
e caiu por cima de um bicho enorme que estava deitado bem no meio da
sala. Assustou-se ainda mais quando, com um vozeirão, o animal disse:
- Que é isso? Será que o céu está caindo sobre mim?
- Desculpe-me, amigo! - conseguiu dizer Danyl.
- Quem é você e o que faz por aqui?
- Eu sou um gato e procurava um canto para descansar!
- A sala tem quatro cantos... é só escolher um e deitar!
- Mas é que esse vento encanado está muito frio!
- Aqui onde estou ele não chega... deite aí do lado!
- Posso recostar-me em você?
- Qual é a sua? Você é gato ou engana a torcida?
- Não é isso, amigo... é que você está tão quentinho!
- Tá legal! Pode recostar-se desde que não ronque e fique quietinho!
- Obrigado, amigo!
Danyl recostou-se nas costas do bicho e, por estar muito cansado, logo
pegou no sono e sonhou que dormia sobre aquelas almofadas de seda e veludo
que ficaram no castelo. Na manhã seguinte levantou-se antes do amigo e
descobriu que seu parceiro de pernoite era um jegue. Como estava com
sede e tinha a garganta seca, saiu para procurar água potável. Atrás
da casa viu um poço e foi averiguar se não estaria seco. Por sorte
havia bastante água no poço e este não era muito fundo. Procurou em
volta algum vasilhame para pegar a água mais não achou nada. Resolveu
ir até o estábulo para ver se achava uma vasilha. Além da poeira e
das teias, encontrou alguns cacarecos amontoados a um canto e, quem
diria, no meio dos trastes um velho balde de ordenha e até um pedaço
de corda. Volto ao poço, amarrou a corda na alça do balde e o jogou
n'água. Mesmo o balde vindo cheio, tinha tantos furos que Danyl teria
que ser rápido se quisesse matar sua sede. Mais uma vez a sorte lhe
sorria, pois os furos do balde estavam do meio para cima. Após saciar
a sede, aproveitou e lavou a cara. Nesse momento, o jegue aproximou-se
dele e pediu-lhe que pegasse água pra ele beber...
- Bom-dia, amigo gato! Poderia pegar um pouco de água pra mim?
- Bom-dia, amigo jegue! Claro que sim!
Danyl voltou a jogar o balde no poço e, ao retirá-lo, disse ao jegue:
- Seja rápido, amigo, senão você ficará sem água!
- É mesmo, amigo gato!
Depois que o jegue também matou a sede, Danyl lhe perguntou:
- Por acaso, sabe se há alguma coisa por aqui para comermos?
- Eu também cheguei ontem à noite... só um pouquinho mais cedo do que
você e fui logo dormir!
- Bem, vamos procurar o que comer! Saco vazio não fica em pé, né?
- Tem razão! Acredito que algumas dessas árvores atrás do moinho sejam
frutíferas! De fome é que não morreremos, amigo gato!
- Eu ontem nem vi essa floresta, só prestei atenção no moinho!
- É que o moinho se destaca na paisagem por ficar mais próximo da
estrada!
- É verdade! A mata está muito lá pra trás! Vamos até lá?
- É pra já!
O jegue caminhou na direção que falara e Danyl o seguiu de perto. Era
um verdadeiro paraíso aquele lugar. Havia árvores de todas as espécies
conhecidas, arbustos, plantas pequenas e flores, numa variedade de dar
inveja a qualquer jardim botânico. Antes mesmo de entrar na mata, o
jegue encontrou uma iguaria que o fez lamber os beiços...
- Amigo gato, essas jacas estão maduras e com cara de gostosas! Vamos
dividir algumas?
- Eu vou procurar frutas mais leves... quero continuar esbelto!
- Eu fico por aqui! Preciso de muita energia, amigo gato! Sou muito
pesado!
- Você é gordo, isso sim, amigo jegue! - disse Danyl desaparecendo
entre as árvores.
Danyl retornou cerca de uma hora depois e encontrou o jegue recostado
na jaqueira e sentou-se ao lado dele...
- Achou comida, amigo?
- Você não imagina quantas árvores frutíferas existem nessa mata!
- Umas duas jaquinhas já saciam minha fome... mas quais frutas você
encontrou por lá?
- Uma verdadeira salada de frutas... abacate, abiu, abricó, açaí,
ameixa, amêndoa, amora, araçá, babaçu, bacuri, buriti, cacau, cajá,
cajarana, caju, caqui, carambola, castanha-do-pará, cupuaçu, figo,
fruta-do-conde, fruta-pão, goiaba, graviola, groselha, guabiroba,
guaraná, guariroba, ingá, jabuticaba, jaca, jambo, jatobá, jenipapo,
licuri, manga, mangaba, maracujá, maria-preta, marmelada-nativa,
murici, pequi, pindaíba, pinha, pitanga, pitomba, pupunha, sapoti,
tamarindo e umbu. Também vi por lá, abacaxi, acerola, amendoim, cana,
banana, laranja, lima, mamão, milho, tangerina e até coco, dendê,
limão, palmito e tomate!... e olhe que nem fui até o outro lado!
- E aí você fez a festa, hein, amigo...
- Meu nome é Danyl, e o seu?
- Me chamo "Irmão"!
- Vai ser muito engraçado ouvir um gato chamar um jegue de irmão!
- Diz a Bíblia que somos filhos do mesmo Pai, né?
- Desde quando um jegue entende de religião?
- Meu ex-dono se dizia cristão e sempre lia passagens da Bíblia para
mim!
- Ele queria catequizá-lo, Irmão?
- Que nada, Danyl! Era só pra treinar... ele queria ser Pastor da
igreja que participava! Um hipócrita, isso sim!
- Por que, Irmão?
- Ele se dizia cristão, porém me fazia trabalhar de sol-a-sol e ainda
me maltratava!
- Qual era seu trabalho?
- Eu fazia de um tudo naquele sítio, desde carregar água potável em
quatro barris, a grandes pedras nos dois panacus... era o dia todo e
todos os dias, de segunda a sábado com aquela cangalha sobre o lombo!
Foram vinte anos nessa vida, amigo Danyl!
- Mas agora você está aposentado, né Irmão?
- Aposentado? Eu estou é velho e cansado!
- Você não é velho nada!
- Não foi isso que ouvi do meu ex-dono, Danyl! E tem mais: se eu não
fugisse, iria virar charque!
- Que maldade, Irmão! Como ele pôde pensar em fazer isso com você?
- Você não conhece da missa, um terço, amigo! O que apanhei nesses
anos, não está no gibi!
- Ele o espancava sem você fazer nada?
- Às vezes, no domingo, eu estava tão cansado que me recusava a
levá-lo à igreja dele... aí eu empacava e nem me mexia!
- E ele batia em você?
- Ora, amigo Danyl... pra que existe chicote e pau? O safado, com a
Bíblia debaixo do braço, dava pauladas e chicotadas no meu lombo, mas
eu não derramava uma lágrima... não ia dar esse gostinho pra ele!
Ele que fosse andando... era só meia légua!
- E o que você vai fazer agora?
- Eu sempre sonhei viver da música e estou indo pra Nemerb!
- Você toca que instrumento, Irmão!
- Nenhum... eu vou ser cantor!
- E que tipo de música pretende cantar?
- Ópera, talvez... em último caso, música popular desmediana!
- Acho que irei com você!
- Porreta! A gente pode formar uma dupla sertaneja, né?
- E por que não? Vamos lá, Irmão!
- É isso aí, Danyl... vamos fazer o maior sucesso!
- Vamos pôr o pé na estrada, Irmão, Nemerb deve ser bem longe daqui!
- Que nada, Danyl... se esse autorzinho não enrolar, chegaremos em
Nemerb no próximo capítulo!
- Então é melhor que partamos já!
- Vamos lá, Danyl! Se cuida, Chitãozinho!
Cantarolando, eles saíram do sítio e pegaram a estrada!
- - -
Fim da Parte XI.
- - -
Luís Campos (Blind Joker)
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