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Parte XII

Publicado por: luis.campos
Data: 14/12/2008
Hora: 16:53:08
Página: biblioteca_ler
Na categoria: ------
Leituras: 102

 

Luís Campos (Blind Joker)

Parte XII


Enquanto caminhavam, os amigos discutiam os planos da nova carreira.
Sabiam as dificuldades que enfrentariam, mas eram perseverantes e não
iriam desistir ao primeiro obstáculo. Após caminharem umas três horas,
perceberam há cerca de trezentos metros que alguma coisa se mexia no
meio de um arbusto à beira da estrada. Receosos, aproximaram-se com
bastante cautela, afinal, não gostariam de surpresas desagradáveis...

- Será um leão, amigo Danyl?

- Não existem leões por estas bandas, Irmão!

- Mas ele poderia ter fugido do zoológico, Danyl!

- Também não há zoológicos por aqui, Irmão... e antes que você invente
mais uma, também não temos circo nessa historinha, tá?

Eles pararam defronte da moita, como se estivessem tomando coragem
para averiguar o que lhes chamara a atenção. Quando menos esperavam,
ouviram um gemido e ficaram assustados...

- Aiiiiii! Uiiiiiii!

- Que bicho será esse, Danyl?

- Não reconheço o sotaque, Irmão! Vamos até la!

- Eu não vou nada! E se for uma onça?

- Que onça, Irmão! Deixe de ser frouxo e vamos até lá!

- Por que você não vai sozinho e depois me diz que bicho é?

- So-sozinho? É-é qu-que eu so-sou pe-pequeno! - gaguejou Danyl.

- Você também tá com medo, né? Confesse logo!

- Tô sim, mas temos que ir ver o que está acontecendo, Irmão!

- Está bem... vamos lá! Ainda tenho força pra dar um belo coice!

Danyl subiu nas costas do jegue e este foi em direção à moita...

- Ora, ora, Danyl... é apenas um velho cão!

- Está ferido, amigo? - indagou Danyl.

O cachorro, arfando, virou-se na direção deles e ganiu...

- Auuuuuuuuu! Só moralmente, amigos!

Irmão e Danyl sentaram-se em frente ao cão. O animal olhou pra eles
com uma cara triste de dar dó...

- Que aconteceu, amigo? - perguntou Irmão.

- É a idade, amigo jegue!

- Que idade, que nada, amigo...

- Geléia... meu nome é Geléia!

- Eu me chamo Irmão e esse aí é o Danyl!

- Muito prazer, amigos! Mas não se preocupem comigo... podem deixar-me
aqui e seguir viagem!

- Não antes de saber que você ficará bem! - disse Danyl.

- Isso mesmo, Danyl! Só iremos se você estiver legal!

- Eu ficarei bem!

- O que aconteceu, Geléia? O que você faz aqui no meio desse nada?

- Meu dono me trocou por um cão mais jovem, amigo Danyl!

- Meu dono fez o mesmo comigo, amigo Geléia, e eu estou aqui, firme e
forte! - falou Irmão.

- Ele disse que era hora de eu me aposentar, que não tinha mais força
nem agilidade para acompanhá-lo nas caçadas, que já não servia como
cão de guarda, que só dava despesas. Por isso iria colocar-me num
abrigo para cães ou entregar-me à carrocinha!

- Que sacanagem, Geléia! - exclamou Irmão.

- Que cara casquinha! - exclamou Danyl.

- Pois é, amigos... mas quando ele deu bobeira, eu fugi!

- Fez muito bem, Geléia! A gente serve a essa gente por toda a nossa
vida e quando ficamos velhos, qual é o nosso prêmio? A ingratidão!

- Ninguém respeita um velho, Irmão! Velho só serve pra que riam às
custas dele!

- Você tem razão em parte, Geléia! Graças a deus, ainda há muita
gente nova que respeita o idoso!

- Mas é uma minoria, Danyl!

- Que seja, mas essa minoria pode fazer a diferença, Geléia! - disse
Irmão.

- Bem, desculpem-me por atrasar a viagem de vocês!

- Não se preocupe, Geléia... quem é personagem desse autorzinho baiano
tem que ter paciência e tem todo o tempo do mundo! - disse Irmão.

- E ter saco também, né Irmão? - completou Danyl.

- Eu sei o que é isso, amigos... em oito anos de convivência, essa é a
segunda vez que sou personagem dele! - disse Geléia.

- Bem, Geléia... você quer fazer o quê?

- Ficarei por aqui, Danyl, esperando minha hora!

- Quem sabe faz a hora, não espera acontecer, Geléia!

- Você quer dizer com isso que devo me matar, Irmão?

- Que se matar, que nada, Geléia... eu quero dizer que você deve vir
conosco pra Nemerb!

- E o que vocês vão fazer em Nemerb? - perguntou Geléia.

- Nós iremos cantar... eu e o Danyl faremos uma dupla sertaneja!

- Que bacana, caras... eu sempre gostei de música!

- Então... topa ir conosco? - perguntou Irmão.

- Claro! Posso ajudar nos bastidores!

- Que bastidores, que nada, Geléia... você estará conosco sob os
holofotes! - disse Irmão.

- Mas vocês não vão montar uma dupla sertaneja? - perguntou Geléia.

- Nada mais de dupla sertaneja... agora seremos um trio romântico e
cantaremos seresta! Se cuida, Trio Irakitan!

- É isso aí, Irmão! - disse Danyl.

- Então vamos voltar à estrada... a fama nos espera, amigos!

- É isso aí, Irmão! - disse Danyl.

E os três saíram do mato e retornaram à estrada. Durante a caminhada
conversavam sobre como seria o trio e quais músicas escolheriam como
repertório inicial...

- A gente pode cantar em portunhol, pessoal! - disse Irmão.

- Eu gosto muito de música latina! - disse Geléia.

- Estou pensando em compor alguns boleros pra gente! O que acham?

- Acho uma boa idéia, Danyl!

- A gente também pode cantar os clássicos, né?

- Claro, Irmão... e quando a gente conquistar a fama, a gente canta
nossas próprias composições, Irmão!

- Brilhante, Geléia! - disse Danyl.

Eles já haviam caminhado umas duas léguas e a prosa ia animada...

- Có-có-córi-có! Có-có-córi-có!

- Quem estará cantando assim tão triste e desafinado?

- Deve ser um galo, né, Irmão? Hahahahahaha!

- A não ser que alguém esteja imitando um galo, né, Danyl? Hahahahaha!

- Vocês dois são muito engraçadinhos... eu sei que é o canto de um
galo... perguntava aonde ele poderia estar!

Nem bem Irmão acabou de falar, eles avistaram um galo empoleirado numa
cerca duma granja abandonada ao lado da estrada...

- Vamos até ele, rapazes! - disse Irmão.

Os três se aproximaram do galo que os olhou surpreso...

- Que fazem os camaradas por essas paragens?

- Vamos à Nemerb, amigo... - interrompeu-se Danyl.

- Meu nome é Carijó! - disse o galo.

- Prazer, Carijó! Eu sou Danyl e esses são meus amigos, Irmão e
Geléia!

- Muito prazer, rapaziada!

- O prazer é nosso! - responderam Irmão e Geléia a uma só voz.

- Por que está sozinho nesse lugar desolado, Carijó?

- Por estar velho e não dar mais conta das franguinhas, Irmão!

- Ih! Até parece o Corno Velho Babão! Hahahahahaha!

- É mesmo, Danyl! Hahahahahahaha! - disse Irmão sorrindo.

- Tenho pena desse velho aí, rapaziada! - disse Carijó.

- Não era bem isso que eu via, rapazes! falou Geléia.

- Acho melhor continuarmos essa história antes que "alguém" se rete e
desista de escrever o resto dessa novelinha! disse Danyl, irônico.

- Você tem razão, Danyl!
E aí, Carijó... qual é o motivo desse canto tão melancólico?

- Eu era o garanhão numa granja aqui pertinho, até que fui ficando
velho e o dono me trocou por um galo jovem!

- Até aí, nada demais, né, Carijó?

- Eu sei que já não dava conta do recado, Geléia, mas daí a ser
ameaçado de ir parar na panela, é demais, né não?

- Isso é um absurdo! - respondeu Irmão.

- Pois é, rapaziada... e para não virar canja, eu fugi e aqui estou!

- Estamos indo a Nemerb para cantar! - disse Danyl.

- Vamos nos tornar músicos! - falou Geléia.

- Você tem uma boa voz, Carijó! Quer ir conosco? - perguntou Irmão.

- Claro, claro, rapaziada! - exclamou Carijó entusiasmado.

- Pronto, amigos... agora somos um quarteto! - disse Irmão.

- Ficaremos mais famosos do que aqueles caras de Liverpool!

- É mesmo, Danyl! E do que os... esqueci!

- Relaxe, Geléia! Seremos mais famosos até do que o autorzinho dessa
novelinha! Hahahahahaha!

- Tem razão, Irmão! Hahahahahahahaha!- disse a sorrir, Carijó.

- Então vamos nos pôr a caminho, gente! - disse Danyl.

E os quatro voltaram à estrada. Após caminharem umas três léguas,
encontraram, caído ao lado desta, um velho gato. Eles se olharam e...

- Será que está morto? - perguntou Danyl.

- Acho que não... sua barriga está subindo e descendo! - disse Carijó.

- Deve estar dormindo! - disse Geléia.

- Vamos acordá-lo! - falou Irmão decidido.

Assim que os quatro se aproximaram do gato, este levantou-se de um
pulo...

- Miauuuuuuuu! Quem são vocês?

- Calma, amigo gato... somos de paz! - respondeu Geléia.

- O que você faz aqui nesse ermo, amigo? - perguntou Irmão.

- Estou viajando sem destino! - respondeu o gato tristemente.

- E qual a causa dessa sua tristeza? - perguntou Danyl.

- Quem viaja está sempre alegre, amigo... - disse Irmão esperando o
complemento da sua frase.

- Eu me chamo Mimi!... e sou uma gata!

- Que maravilha! - exclamou Danyl com um sorriso de orelha a orelha.

- Não entendi o entusiasmo, Danyl? - interpelou Carijó.

- Né por nada não! - respondeu Danyl sem esconder o sorriso.

- E aí, Mimi... o que lhe aconteceu para motivar essa viagem?

- Amigo...

- Irmão, Mimi... e esses são o Danyl, o Geléia e o Carijó!

- Prazer, rapazes! - disse Mimi com um sorriso.

- O prazer é nosso, Mimi! - responderam os quatro em uníssono.

- Mas nos conte sua história, Mimi! - falou Danyl educadamente.

- Bem... estou ficando velha e prefiro uma almofada quentinha a ficar
correndo atrás de ratos. Por isso fui banida de casa por minha dona!

- Que maldade! - disse Danyl comovido.

- E eu ainda não gastei nenhuma das minhas sete vidas! - falou Mimi.

- Coisas da vida, Mimi! - disse Irmão.

- Quer ir conosco à Nemerb, Mimi? - perguntou Danyl.

- O que vocês vão fazer em Nemerb?

- Seremos músicos, Mimi! - disse Carijó.

- E ganharemos muito dinheiro, Mimi! - completou Geléia.

- E seremos mais famosos do que o povo do Fama e do Ídolos!

- É isso aí, Irmão! Venha conosco, Mimi! - disse Danyl.

- Está bem! Irei com vocês! - respondeu Mimi.

- Uau uau uau! - exclamou Danyl eufórico e... malicioso.

- - -

Fim da Parte XII


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