| Publicado por: | luis.campos |
| Data: | 31/01/2009 |
| Hora: | 19:43:46 |
| Página: | biblioteca_ler |
| Na categoria: | x |
| Leituras: | 80 |
E na beira do precipício, a conversa continuava...
- Embora esteja receoso, não errarei o salto, Danyl!
- Confiamos em você, Lyon!
- Obrigado, Dorothy! Scarecrow, suba em minhas costas e agarre-se à
minha juba!
O leão chegou até a beira do precipício, preparando-se para o salto...
- Por que não toma distância, Lyon? - perguntou o espantalho.
- Porque os leões não saltam desse jeito, Scarecrow!
Com um forte impulso Lyon atirou-se para a frente, alcançando com
segurança o outro lado do despenhadeiro...
- Iupiii! Viva!
Todos festejaram a proeza do leão e mais ainda o salto de volta. A
próxima a ser transportada foi Dorothy. Segurando Totó no colo, com a
outra mão, segurou a juba do leão e fechou os olhos na hora do salto.
Depois de transportar o Homem de Lata e Danyl, Lyon, ofegante, foi
obrigado a descansar um pouco, afinal, saltara por oito vezes sobre o
precipício. Assim que a respiração do leão voltou ao normal, eles
prosseguiram sua jornada. Após caminharem por meia hora, a floresta que
cercava a estrada tornou-se fechada e sombria. Os galhos das imensas
árvores ultrapassavam o leito da estrada, juntando-se e formando uma
espécie de túnel escuro e fantasmagórico. A disposição dos galhos e
das folhas formavam figuras grotescas, assustando ao passante que
tivesse uma imaginação fértil. Os viajantes, no íntimo, pensavam se
veriam novamente a luz do sol. Para aumentar a aflição, começaram a
ouvir ruídos estranhos e Lyon, em voz baixa, disse-lhes que estavam
na região dos Dakalis...
- Dakalis? Que coisa é esta?
- Dakalis são seres terríveis, Danyl!
- Como assim, Lyon? - indagou Dorothy.
- São animais monstruosos com corpo de urso e cabeça de tigre. Suas
garras são tão afiadas que podem me massacrar com a mesma facilidade
com que eu mataria Totó! Morro de medo dos Dakalis, gente!
- Seu medo é natural, Lyon! - replicou Dorothy.
Nem bem haviam caminhado dois quilômetros quando descobriram outro
precipício, ainda mais largo e profundo do que o anterior, a dividir a
estrada e, desta vez, o leão não conseguiria saltá-lo. Sentaram-se para
discutir o problema e,desta vez, Scarecrow teve uma brilhante idéia...
- Vejam aquela árvore enorme na beira do abismo. Se Tin conseguir
derrubá-la, teremos uma bela ponte!
- Genial! - exclamou Lyon. - Quem não soubesse, pensaria que você tem
um cérebro dentro da cabeça, ao invés de palha, Scarecrow!
- Então vou pôr mãos à obra!
O lenhador trabalhou com tanto afinco que, em pouco tempo a árvore
estava por cair. Com a ajuda de Lyon que, com as patas dianteiras deu
um empurrão no tronco, a árvore caiu com estrondo e seus galhos se
apoiaram na margem oposta do precipício. Eles iam iniciar a travessia
da ponte improvisada, quando ouviram grunhidos terríveis que deixou
todos apavorados. Duas feras se aproximavam ameaçadoramente do grupo,
aos urros...
- São os Dakalis! - exclamou Lyon, já tremendo.
- Depressa! - gritou Scarecrow.
Dorothy, com Totó nos braços, foi a primeira a atravessar a ponte,
seguida por Danyl, Scarecrow e Tin Man. Lyon, apesar do medo, voltou-se
para enfrentar os Dakalis e deu um rugido tão feroz que Dorothy deu um
grito de pavor e o espantalho caiu de costas no chão, com o susto. As
feras, admiradas com o urro do leão, pararam e ficaram a olhá-lo, mas
ao perceberem que eram maiores e tinham a vantagem numérica, voltaram a
investir contra Lyon. O leão, gritando para os demais, atravessou o
tronco rapidinho...
- Estamos perdidos! Eles não desistirão enquanto não nos reduzirem a
pedaços! Fiquem atrás de mim: vou lutar com eles até morrer!
Mas Scarecrow teve uma idéia melhor: pediu ao lenhador que cortasse a
extremidade do tronco que se apoiava no lado do abismo que eles
estavam. Tin Man trabalhou febrilmente com seu machado. Os Dakalis já
se encontravam a meio caminho da travessia, quando a árvore caiu com
estrondo no fundo do precipício, arrastando na queda as duas feras
ululantes, que se despedaçaram sobre as rochas pontudas...
- Ai! - exclamou o leão Covarde, com um profundo suspiro de alívio.
- Ainda estamos vivos! - disse Danyl.
- Morrer não deve ser nada agradável! - completou Dorothy.
- Meu coração está dando pulos até agora! - exclamou Lyon.
- Engraçado! - disse Tin. - Bem que eu gostaria de ter um coração que
batesse, mesmo que fosse de medo!
- Relaxe, amigo Tin... logo você ganhará seu coração! - disse Dorothy.
O episódio deixou a turma ainda mais ansiosa para sair dessa tenebrosa
floresta. Caminhavam tão depressa que logo Dorothy sentiu-se cansada...
- Amigo Lyon... posso subir em suas costas? Me sinto tão cansada!
- Claro que sim, Dorothy! Suba e segure-se em minha juba!
Para alegria geral, o arvoredo, aos poucos, ia ficando menos fechado e,
ao fim da tarde, atingiram a margem dum grande rio. Do outro lado a
estrada de tijolos amarelos avançava através de campos verdejantes,
pontilhados de flores e frutas coloridas. Foi uma festa. O problema era
saber como atravessar o rio...
- Temos que fazer uma jangada!
- Excelente idéia, Scarecrow! Vou começar agora mesmo!
E Tin Man pôs mãos à obra. Enquanto ele trabalhava, Dorothy, Danyl,
Lyon e Totó comiam algumas das guloseimas que Dona Maria lhes dera. A
construção da jangada demorou mais do que esperavam, embora o homem de
lata se esforçasse para trabalhar rapidinho. Eles tiveram que passar
a noite por ali e dormiram embaixo de algumas árvores.
Nesta noite, Dorothy, para proteger-se da friagem, dormiu recostada ao
corpo do leão e sonhou que o Mágico de Oz a levava de volta para casa.
Na manhã seguinte eles acordaram animados. Dorothy, após lavar o rosto
no rio, saciou a fome comendo alguns pêssegos e ameixas. Desta vez, Lyon
não se arriscou a entrar na floresta como fazia habitualmente nas
manhãs ou quando a fome batia, limitou-se a comer, assim como Danyl e
Totó, algumas frutas que lhes ofereceu a menina. Do outro lado do rio
a estrada de tijolos amarelos estendia-se entre um campo alegre e
luminoso, como um convite ao prosseguimento da caminhada em direção à
Cidade das Esmeraldas. Um pouco antes do meio-dia, Tin Man concluiu seu
trabalho. Com a ajuda de Danyl e de Scarecrow, colocaram a jangada na
água. Dorothy, com Totó ao colo, sentou-se no centro desta e Danyl
sentou-se ao seu lado. Quando Lyon subiu na embarcação, esta perdeu o
equilíbrio e adernou para um dos lados. Scarecrow e Tin Man correram
para o lado oposto a fim de evitar que a jangada virasse com o peso
do leão. Com as coisas ajeitadas, eles iniciaram a travessia. Fincando
no leito do rio as varas que o lenhador fizera, Danyl, Scarecrow e Tin
Man faziam a jangada navegar. Tudo ia muito bem, até que, ao chegaram no
meio do rio, a correnteza levou a jangada para longe da estrada de
tijolos amarelos. Os varapaus que serviam para empurrar a jangada,
agora se mostravam inúteis, pois já não atingiam o fundo do rio...
- A coisa está feia! - observou o homem de lata.
- Pelo visto, iremos parar no mar!
- Se não atingirmos a margem, Danyl, será muito pior do que parar no
mar!
- Como assim, Tin? - perguntou Dorothy.
- Seremos levados às terras da Bruxa Má do Oeste e ela nos fará seus
escravos para o resto das nossas vidas!
- Que terrível! - exclamou Dorothy.
- Lá se vai meu cérebro!
- E a minha coragem!
- E o meu coração!
- E a minha família!
- E as minhas aventuras!
- Chegaremos à Cidade das Esmeraldas de qualquer jeito! - gritou
Scarecrow, enfiando a vara na água com tanta força que esta ficou
presa no fundo com o pobre coitado agarrado na ponta, no meio da
correnteza, enquanto a jangada se afastava...
- Adeus! - gritou para os amigos.
Consternados, os amigos viram a jangada afastar-se cada vez mais do
espantalho...
- Au au au au!
Penalizado, Tin Man deixou escorrer algumas lágrimas, mas lembrando-se
de que poderia enferrujar suas dobradiças, tratou de enxugá-las na
barra do vestido de Dorothy. A situação de Scarecrow não era nada boa.
Pendurado naquela vara, no meio do rio, refletia angustiado...
- Estou agora em piores condições do que antes. No campo, pelo menos
podia fingir que assustava os corvos. Mas... de que serve um espantalho
cercado de água por todos os lados?
Scarecrow via a jangada afastar-se cada vez mais e suas esperanças de
sair daquela situação se desvaneciam. Lyon achou que era o momento de
tomar uma atitude, antes que o rio os levasse para mais longe ainda do
amigo espantalho...
- Preciso fazer alguma coisa!
- E o que pensa fazer, Lyon? - indagou Danyl.
- Acho que posso nadar até a margem, puxando a jangada comigo!
- Que idéia fabulosa, Lyon! - falou Dorothy.
- E como você puxara a jangada? - quis saber Tin Man.
- Você e Danyl seguram com firmeza minha cauda e eu puxo a jangada!
E assim foi feito. Lyon jogou-se na água, Danyl e Tin seguraram a
cauda dele com força e o leão nadou contra a forte correnteza do rio,
empregando todos os esforços necessários a façanha tão árdua e contando
com uma mãozinha de Dorothy que, com a vara que sobrara, procurava
tornar a missão do amigo menos penosa. Aos poucos foram se aproximando
da margem e logo pisavam em terra firme. Exaustos, deitaram-se na relva
para descansar um pouco. Perceberam que estavam bem longe da estrada de
tijolos amarelos...
- A correnteza nos deixou muito longe da estrada!
- E agora? - perguntou Tin.
- Temos que voltar à estrada! - falou Lyon, enquanto se espichava na
grama para secar-se.
- A melhor solução é subirmos outra vez a margem do rio, até chegarmos
à estrada! - observou Danyl.
*
Depois de descansados, puseram-se a caminho pela margem do rio, na
direção oposta a que este corria, atravessando um bosque florido.
Caminhavam depressa, parando às vezes um instantinho para que Dorothy
colhesse uma flor mais tentadora, até que um grito do homem de lata
chamou a atenção dos demais...
- Olhem o Scarecrow ali!
Eles avistaram o espantalho com uma expressão tristonha de abandono.
- Como faremos para salvá-lo? - perguntou Dorothy.
Sentaram-se todos à margem do rio e ficaram, pensativos, olhando para
o amigo, sem nada dizerem. De repente, uma voz os tirou do devaneio...
- Quem são vocês?
Era uma cegonha que pousara para beber um pouco de água que falara...
- Eu sou Dorothy! - respondeu a menina. - Os outros são meus amigos,
Danyl, Tin Man e Lyon!
- Para onde vão? - perguntou a cegonha.
- Vamos para a Cidade das Esmeraldas!
- Mas o caminho não é este! - replicou a cegonha, revirando o longo
pescoço para ver melhor aquele bando esquisito.
- Eu sei! - retrucou Dorothy.
- Se sabe, por que então estão aqui?
- É que perdemos o amigo Scarecrow e estamos pensando de que forma
poderemos salvá-lo!
- Onde está ele? - perguntou a Cegonha.
- Ali, no meio do rio!
- Se ele não fosse tão grande e pesado, eu poderia apanhá-lo para
vocês! - observou a Cegonha.
- Ele não pesa quase nada... é de palha! - disse Dorothy, ansiosa.
- Bem, vou tentar, mas, se ele for pesado demais, serei obrigada a
soltá-lo no rio!
- Ficaremos muito gratos se a senhora tentar salvá-lo, Dona Cegonha!
- Farei o possível, menina!
A cegonha voou até onde estava o espantalho e o segurou com as garras,
trazendo até a margem, para junto dos seus amigos...
- Iupiiii! Viva! - gritaram todos assim que a cegonha chegou na margem
com o espantalho.
- Que alívio, Scarecrow... estávamos aflitos! - disse Dorothy.
- Obrigado, Dona Cegonha, em nome de todos! - disse Danyl.
- Não foi nada, companheiros!
Scarecrow estava tão contente que abraçou a todos, inclusive Totó e a
cegonha...
- Muito grato, Dona Cegonha... sinto que nasci de novo!
- Não foi nada, amigo, essa é a minha função!
- Obrigada, Dona Cegonha! Não sabíamos como salvar nosso amigo!
- Tudo bem, menina Dorothy! Me desculpem, mas tenho que ir embora!
- Por que a pressa, Dona Cegonha? Fique mais um pouco!
- Não posso, amigo Scarecrow... tenho que entregar esse bebê a uma
ceguinha lá na Bahia! Tchau, amigos!
- Se eu conseguir um cérebro, irei procurá-la para demonstrar minha
gratidão, afinal, devo-lhe a vida!
- Não se preocupe com isso, Scarecrow... estou sempre pronta a ajudar a
quem se encontra em dificuldade!
- Tchau, Dona Cegonha e faça uma boa viagem!
- Obrigada, Dorothy! - respondeu a cegonha, alçando vôo.
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