| Publicado por: | vander.christian |
| Data: | 01/02/2009 |
| Hora: | 19:02:31 |
| Página: | biblioteca_ler |
| Na categoria: | x |
| Leituras: | 379 |
CAPÍTULO 1
O COMEÇO DE TUDO
Essa história teve íniçio em abril de 1995. Tudo que aconteceu naquele ano só foi ter conseqüência anos depois.
Fico olhando para o retrato de Karina. Seus olhos castanhos, os seus cabelos longos e a sua pele branca e suave. Se pelo menos eu tivesse dito tudo que sentia por ela naquela época talvez as coisas tivessem tomado um outro rumo.
Era quatro de abril de 1995, fui acompanhar minha mãe a um posto de saúde. A idéia não me agradou, mas eu não tinha nada pra fazer em casa num dia chuvoso como aquele; ainda mais uma sexta feira. Marcaram o conselho de classe para aquele dia o que significava que ficariam três dias sem aula.
Tinham decorridos uns quarenta minutos que mamãe havia entrado na sala da dentista, quando eu avistei, atravessando a rua e vindo em direção do posto de saúde, aquela linda garota. Caminhava como se flutuasse – tinha o cabelo preso num bonito rabo- de cavalo e alguns fios caiam de lado... Segurava perfeitamente o guarda - chuva, protegendo si mesma e a mãe da chuva.
Passou em minha frente. Por um momento os meus olhos se encontraram os dela; desviou em seguida, mais ao perceber que eu continuava a encará-la, tornou a olhar... Senti meu rosto esquentar. O coração disparar a boca ficar seca...
Morávamos em Franco da Rocha, cidade pequena, nunca a tinha visto por ali.
Foi lá, no posto de saúde que a nossa amizade começou.
Karina havia mudado pra Franco da Rocha há uns quinze dias, morava com o pai e com a mãe, não tinha irmãos. Era o orgulho dos seus pais e ele também se orgulhava muito deles. Trocamos os números do telefone e me dando um beijo na bochecha falou:
-Gostei muito de você Jéferson.
Quatro de abril de 1995, jamais esqueci essa data. E eu, que não era muito acostumado a ter tanta intimidade com uma garota, estava adorando aquela experiência.
Nós conversávamos sobre tudo. Falávamos do colégio, de profissão, de religião, casamento, sexo... Era uma grande amizade: eu ia a casa dela, ela ia na minha. Íamos ao cinema, no parque, na danceteria, na igreja... Confiávamos um no outro.
Foi a minha timidez que não deixou eu abrir o meu coração pra ela. O tempo foi passando e cada vez mais a minha coragem de dizer o quanto eu a amava ia ficando menor. Tinha medo de perder a amizade dela. E eu era também muito novo. Eu tinha dezessete e ela dezesseis – não me sentia preparado para assumir um compromisso sério. Deixei como estava. Hoje, anos depois, quando vejo o retrato dela, choro de saudade daquele tempo. Imagine, a gente começava a conversar no telefone as vinte e uma hora e só parávamos lá pra meia-noite! Éramos completamente loucos.
Mais a verdade é que Karina era uma garota incrível; ajudava seus pais em casa, era super humilde com as pessoas e adorava teatro.
- Um dia Jéferson, você vai estar lá na primeira fila do teatro municipal, aplaudindo de pé a minha peça – dizia ela sorrindo. Era o seu sonho escrever uma peça de teatro e fazer sucesso. Era o seu grande sonho.
Dois anos depois de conhecer Karina tudo mudou. Havíamos acabado de assistir uma peça no teatro em um shopping e estávamos comendo um lanche, foi quando ele mencionou Fabiano.
- Ele disse que quer namorar comigo. O que você acha?
Ignorando a pontada de ciúmes que se manifestou em meu peito, respondi sinceramente:
- Bom você decide não é? Se você gosta dele e ele de você...
- Eu gosto dele – disse Karina com firmeza.
- Nesse caso – continuei sincero – aceita o pedido dele.
Nem bem tinha chegado em casa direito e já estava arrependido de ter incentivado Karina a aceitar o pedido de Fabiano. Senti-me tentado a ir até a casa dela e dizer que era para ela não aceitar o pedido de Fabiano por que eu a amava. Mas não falei... Eu e a minha falta de coragem! Karina seguiu o meu conselho. Estava amarradona no tal Fabiano.
Para piorar, no dia da minha formatura foi o dia escolhido por Karina para me apresentar ao Fabiano pessoalmente.
-Cara, se você soubesse o tanto que a Karina fala de você! – disse Fabiano apertando a minha mão.
-Ela também de uns dias pra cá tem falado muito em você – falei tentando parecer contente em conhecê-lo.
Embora eu tivesse morrendo de ciúmes, uma coisa era certa: tal Fabiano era firmeza. Mesmo assim, eu procurei ficar o mais distante possível do casal; achei que me sentiria bem melhor não tendo que fingir para eles a minha falta de entusiasmo diante o fato deles estarem namorando. Comecei a pensar no dia em nos conhecemos e em tudo que eu deveria ter falado, que nem reparei em Karina na minha frente.
-Jéferson, ta tudo bem?
-Que?
-Esta tudo bem?
-Sim. Claro...
Ela olhou dentro dos meus olhos. Resolvi continuar mentindo.
-Eu estava pensando, vai ficar chato agora que terminei os estudos.
-Não vi não – falou Karina sem tirar os olhos dos meus. – É o fim de um ciclo e o começo de outro.
-Verdade, eu é que estou esquentando a cabeça à toa.
Ficamos em silencio. Eu estava me sentindo sem jeito; Karina falou:
-Tem certeza que esta tudo bem Jéferson? Parece que você não gostou muito do Fabiano.
- Não... Quero dizer... Gostei dele. Estou bem.
Pra minha surpresa, Karina sorriu e falou:
-Você esta precisando de uma namorada Jéferson!
-Por quê?
-Pra te fazer companhia.
Não consegui ficar a vontade. Brincadeira, na minha própria formatura! Tudo culpa da minha falta de coragem.
Uma vez terminado o terceiro ano do ensino médio, comecei a trabalhar em uma papelaria. O salário era pouco, mas eu tinha que se virar até conseguir um emprego melhor.
E foi nessa época que a minha amizade com Karina sofreu um forte abalo. Ela continuava estudando e com o meu novo emprego, tornava - se difícil conseguir um tempo para sairmos. Eu estava sentindo muito a falta dela, mas não fazia esforço algum para entrar em contato e tentar marcar um programa, Não retornava as suas ligações. O recado na secretaria eletrônica era sempre o mesmo:
“- Jéferson o que esta acontecendo? Você não liga mais pra mim. Estou morrendo de saudades. Me liga quando chegar, por favor. Um grande beijo.”
Não liguei. Apesar de tudo estava melhor sem ter que ouvi – la falando em Fabiano. Achava estar fazendo a coisa certa.
O tempo passou. Estava com vinte dias sem eu falar com Karina. Os sábados e os domingos não eram mais os mesmos sem ela; todas as nossas conversas faziam parte de um passado distante. Mamãe estranhou minha atitude:
-Você e a Karina brigaram?
E eu ali, calado. Se eu soubesse a repercussão que essa minha atitude teria anos depois eu faria tudo diferente.
Dias depois, através de boatos, fiquei sabendo do noivado de Karina e Fabiano. E não tenho vergonha de dizer que chorei. Mesmo sabendo que a minha amiga estava vivendo um momento especial.
O noivado foi no dia 10 de novembro de 1997. Na segunda – feira, dia 12, ao chegar do trabalho, eu tive uma surpresa.
-Oi Jéferson.
Sentada, no sofá da sala, estava Karina.
-Oi Karina. Que surpresa – tentei parecer calmo e feliz em vê - la. – Faz muito tempo que você chegou?
-Umas duas horas – respondeu ela sem sorrir.
-Te falei que eu só chegava às sete.
-Eu sei. Só que parece que você esta fugindo de mim.
Senti um assomo de culpa. Não consegui pensar em nada para dizer. E reparei também que Karina não desviou o olhar de mim um só instante. Sentei – me de frente pra ela.
-Jéferson eu vim aqui pra saber por que você esta fugindo de mim, e eu não vou embora sem ouvir a verdade.
Tive a ligeira impressão que o mundo desabara na minha cabeça. Ainda tentei mentir:
-Não estou fugindo Karina. Eu só estou muito ocupado...
-Eu te conheço Jéferson – interrompeu Karina pegando a minha mão. – Você esta mentindo. Conta pra mim Jéferson, eu sou a sua melhor amiga, lembra? Quem sabe eu posso te ajudar.
Baixei os olhos. Fiquei olhando a mão de Karina segurando a minha. Não adiantava mais mentir. Havia chegado a hora de dizer para ela o que eu de deveria ter dito há dois anos.
-Você sempre me ajudou – falei sorrindo e olhando nos olhos de Karina. Meu coração batia acelerado e a minha boca estava seca igual ao dia em que nos conhecemos. – Agora é um problema só meu. Não vai ter como você me ajudar.
Fiquei de pé dando as costas para Karina, que permaneceu calada.
-Eu amo você Karina – disse me virando. – Eu amo você desde o dia em que passou na minha frente pela primeira vez, olhou nos meus olhos desviou o olhar e depois olhou de novo.
Incrível como as palavras saíram facilmente da minha boca. Karina não disse nada, permaneceu imóvel no sofá com as mãos penduradas como se estivesse a espera que eu colocasse a minha mão junto da sua. Eu estava esperando qualquer tipo de reação da Karina. Contudo, ela só disse uma frase, uma frase que partiu ainda mais o meu coração.
-Sinto muito Jéferson, mas dessa vez eu não posso te ajudar.
Foi o que ela falou. Me deu um beijo na bochecha e foi embora. Pela primeira vez senti raiva de Karina. Aquele era um momento tão complicado pra mim, e a única coisa que ela conseguiu dizer foi “sinto muito Jéferson, mas dessa vez eu não poso te ajudar!” Eu queria dizer mais coisas, explicar tudo que estava sentindo naquele momento queria colocar tudo pra fora! Mas Karina já ia decidida pra rua e eu não consegui ir atrás.
Nos dias que se seguiram, eu fiquei me perguntando se aquele teria sido a ultima vez que via e falava com ela. A resposta veio dias depois com mais um telefonema. Não aceitei o convite de Karina para jantar em sua casa.
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