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delegado horacio

Publicado por: vander.christian
Data: 20/05/2009
Hora: 14:50:26
Página: biblioteca_ler
Na categoria: x
Leituras: 160

 

Horacio era o delegado responsável pela segurança de Vila das Arvores. As ocorrências são sempre as mesmas: vizinhos reclamando das galinhas dos outros vizinhos que invadem os seus quintais; briga de jovens.
Com uma calmaria dessas, Horacio passava a metade do tempo lendo um bom romance policial.
-Licença delegado. Tem uma moça aqui que deseja vê – lo.
Era o carcereiro pondo fim a calmaria.
-Pede pra ela entrar.
A porta se abriu e Bianca entrou. O delegado deixou cair a caneta que segurava enquanto lia.
-Sem te – se, por favor – disse sem saber se pegava ou não a caneta do chão. – Você é nova aqui?
-Isso – confirmou Bianca se divertindo com a confusão do delegado.
-Mais sim! Se é nova... Delegado Horacio a suas ordens.
-Muito obrigada – respondeu Bianca pegando na mão gigante do delegado com muita má vontade.
-O seu nome é...? – continuou ele ainda segurando a mão de Bianca.
-Sou Bianca Stefany.
-Encantado – falou finalmente soltando a mão da moça e se acomodando em sua cadeira. Bianca não escondeu o alivio por ter sua mão livre novamente.
-Delegado Horacio eu vim aqui fazer uma... não denuncia não, vim lhe dar um aviso.
-Um aviso?
-Sim, um aviso.
-Pode falar – disse o delegado com os olhos fixos em Bianca.
-Existe um homem nessa cidade – começou a moça – que herdou dos pais uma herança de setecentos mil reais.
A expressão do delegado Horacio mudou. Bianca continuou:
-E ele se encontra nesse momento, como refém de uma mulher.
-Não é possível! – exclamou Horacio ficando de pé.
-É a pura verdade – falou Bianca.
-Mas eu não fiquei sabendo nada disso! Os nomes, eu quero os nomes; dos seqüestradores da vitima, enfim, todos os detalhes, ou melhor, Bernardo não deixe de anotar nada! Bianca você poderia repetir tudo de novo, por favor? Para o meu escrivão registrar o seu depoimento.
-Tudo bem – disse Bianca um pouco irritada por ter que repetir as mesmas palavras novamente para o delegado. – Só que os nomes dos seqüestradores eu não sei. O da vitima é Marcio...
-Marcio do que?
-Eu não sei – respondeu Bianca começando a perder a paciência. – Delegado tem um grupo de adolescentes que pode lhe informar melhor do que eu.
-Esta bem. Vamos começar tudo de novo, por favor.
Enquanto Bianca narrava tudo que sabia, Bernardo digitava tudo.



Pra não parecer muito suspeito Edmundo certificou – se varias vezes se não tinha ninguém em especial o observando de longe para entrar na antiga capela. Marcio dissera que havia escondido a herança ali dentro... O plano de Edmundo era pegar todo dinheiro e fugir da cidade. Com o coração batendo acelerado ele empurrou a porta... para a sua surpresa a capela estava limpa, limpa e vazia.
-Você me paga Marcio!



-Mas o que é isso?
Rosana pegou o vaso de louça e fez a pergunta para si mesma já sabendo a resposta. Logo Diego chegou à sala com um copo de suco na mão.
-Diego o que significa isso?
-Ah isso aí eu achei lá dentro da capela, tava limpando...
-Pode jogar fora – disse Rosana colocando o pato de louça de volta à mesinha no centro da sala. – Agora todo lugar que você limpar vai trazer alguma coisa pra cá!
-Achei que você ia gostar.
-Deus me livre! – disse Rosana fazendo uma careta. – Isso deve ter uns setenta centímetros e ainda esta quebrado, por que eu ia querer uma coisa dessa na minha sala?
Com essas palavras Rosana encerrou o assunto. Diego pegou o pato e levou para o seu quarto.
-Vou ver se consigo vender para a dona Carmem – falou consigo mesmo. – Esta quebrado, mas ela adora esses enfeites de louça. Antes preciso tirar esses plásticos daqui de dentro. Bem, outra hora eu tiro. Só tenho que esconder em um lugar que a Rosana não encontre.



-Você esta achando eu sou otário é isso?!
Marcio foi jogado longe com o empurrão de Edmundo. O refém não tinha a menor idéia do que acontecera para ele ser agredido daquela maneira.
-Olha pra mim! – gritou Edmundo apertando o pescoço de Marcio. – Eu tenho cara de otário tenho?! – o rosto do rapaz ia ficando vermelho; Edmundo o soltou com violência. – Não tinha nada dentro daquela capela! Estava limpa, limpa e vazia!
-Co – como vazia?- perguntou Marcio com dificuldades.
-Você ta achando que pode bancar o engraçadinho comigo né?
-O que eu estou dizendo é sério. Alguém pegou a minha herança!
-Ah é? E o que a sua namorada esta esperando pra nos entregar o dinheiro?
-Talvez não foi ela que pegou...
-Cala a boca! Nós fizemos um trato, e você não cumpriu com a palavra; agora eu vou quebrar – lhe a cara!
-Não vai não! Edmundo se virou, era Viviane.
-O que o Marcio estava fazendo para você querer quebrar – lhe a cara?
-Ele esta tirando o pouco da paciência que eu tenho.
O rapaz andava de um lado pro outro. Ainda em tom autoritário, Viviane falou:
-Eu preciso dele inteiro. Cuidado com o que esta pensando em fazer.
-Cuidado você com o que o que esta pensando em fazer – disse Edmundo gravemente e deixou o cativeiro.
Após a saída de Edmundo, Viviane se virou para o Marcio e falou:
-Você esta dando muito trabalho, melhor se comportar...




Roberta retirou as revistas de dentro do guarda – roupa de Marcio, até encontrar uma fotografia dos pais do rapaz. Atrás da foto, escrito a caneta, a data: 04 / 04 76 – 06 / 01/ 93. Com o coração acelerado, Roberta foi até a sala e comparou a data da ultima carta escrita por Floriano do Rio de Janeiro a Madalena na Bahia.
-É isso! – exclamou Roberta.
-O que aconteceu? – perguntou Milena vendo a agitação da amiga.
-Aqui nessa foto tem a data 04 / 04 / 76, suponho que é o dia do casamento de Floriano e Madalena e a outra data é 06 / 01 / 93; que é o dia em que eles morreram. Isso quer dizer que pelo menos um pouco do dinheiro eles conseguiram guardar no banco!
-Esta dizendo – disse Milena surpresa – que desse “pouco” que eles conseguiram guardar no banco, restou setecentos mil reais?
-Sim! – confirmou Roberta feliz por Milena ter compreendido sua idéia.
-Pô, tinha bastante dinheiro eles hein?
-É. O Caio e o Guilherme devem ter feito...
Mas o que Caio e Guilherme devem ter feito Milena não soube, porque Roberta não terminou a frase. Simone vinha chegando à sala acompanhada por um homem.
-Pessoal temos visita – falou a jovem séria.
-Quem de vocês é a Roberta? – perguntou o homem.
-Sou eu.
-Delegado Horacio, como vai? – disse estendendo a mão. Roberta o comprimentou sem muito entusiasmo. Nesse momento Tadeu e Tico também chegaram à sala. O delegado continuou: - Roberta você é noiva do Marcio?
-Namorada – corrigiu a moça.
-Certo. E você sabe aonde esta a herança do seu namorado?
-Não – falou Roberta. – Olha só delegado, não era para o senhor estar aqui. Como foi que ficou sabendo da herança?
-Uma pessoa denunciou. Segundo a denuncia, o seu noivo...
-Namorado.
-... o seu namorado esta como refém de uma mulher. Confirma isso?
-Sim, o nome da mulher é Viviane. E ela deixou bem claro que não era para a policia se meter.
-Eu entendo a sua aflição Roberta. Mas eu tenho experiência em seqüestros. Antes de vir pra cá eu trabalhei numa cidade grande e a onda de seqüestros era enorme, prometo que não vou deixar que essa Viviane desconfie de nada. Inclusive já tenho um plano para conseguir a liberdade do seu noivo.
-É namorado delegado – disse Roberta com rispidez.
-E então, vocês aceitam minha ajuda? – perguntou o delegado aparentemente sem dar atenção no que Roberta dissera.
Todos ficaram meio apreensivos. Desde que tudo começou eles não receberam ajuda de ninguém mais velho. Agora vinha aquele homem fazendo perguntas e se dizendo delegado. O grupo olhou para Roberta... Mesmo sem muita emoção, Roberta concordou:
-Tudo bem, nós aceitamos a sua ajuda.
-Excelente. O plano é assim...




Viviane chegou quase às 21h10min minutos na pensão de dona Graça. Estivera jantando no modesto restaurante do Irineu, um português que já beirava os oitenta anos. A comida servida era boa e todos os turistas de Vila das Arvores comiam ali.
Entrementes, enquanto comia, Viviane decidiu que teria de mudar os seus planos com relação ao pagamento do resgate de Marcio. Queria se livrar logo dele e ir embora daquele lugar. Daria um ultimato para Roberta e seus amigos e também se livraria de Edmundo. Ainda traçava algumas idéias do seu plano, quando a voz de dona Graça a trouxe de volta a realidade.
-Você tem visita Viviane – disse a dona da pensão. Viviane parou com os pés no primeiro degrau da escada que dava para os quartos.
-“Quem viria me visitar numa hora dessas?” – se perguntou para si mesma.
-Aqueles dois rapazes – falou dona Graça que parece ter ouvido a pergunta de Viviane. -
Eles estão aqui há algum tempo.
Olhando atentamente os dois rapazes que dona Graça indicara, Viviane não os reconheceu. Intrigada, foi até onde os sujeitos estavam sentados.
-Estavam me esperando? – perguntou.
-Sim, estávamos – respondeu Guilherme.
-Queremos te pedir uma coisa – declarou Caio.
Como Viviane não disse nada, Guilherme se levantou e falou:
-Queremos que você deixe a herança do Marcio vir para as nossas mãos. Todo aquele dinheiro é nosso por direito. Você é capaz de nos ajudar?
Era nítido o cinismo. Viviane não deixou barato.
-Então vocês vieram aqui... me pedir que eu deixe os setecentos mil reais assim: como um presente? – falou Viviane também com cinismo.
-Se é esse o termo que você prefere usar, tudo bem – Caio falou tranquilamente. – Já dizia o meu primo Gasparetto: “existem muitas maneiras de se entender uma ordem”...
-Ah ta. Do nada vocês vêem aqui dizendo que é pra mim deixar o caminho livre porque a herança lhes perecem por direito... Isso não é possível, sabe por quê? Porque eu não costumo receber ordens de ninguém!
-Então você tem um problema – disse Guilherme elevando um pouco o tom da voz. – Pois já dizia a minha prima Flavianita: “se não vai por bem vai por mal”.
-Pro inferno os seus antepassados! Eu não vou...
-Calma Viviane! Nós só estamos tentando entrar num acordo.
-Não tem acordo!
-Ah vai ter sim – Guilherme se aproximou de Viviane. – Você não acha melhor aceitar os nossos termos? Se não seremos obrigados a dar um fim em você.
-Estou aqui, vamos não vão fazer nada?! – desafiou Viviane.
Caio e Guilherme a encaravam, ambos tinham o rosto impassível.
-Olha aqui – Viviane abriu a jaqueta de couro deixando a mostra que carregava uma pistola semi – automática na cintura. – Comigo não tem acordo nenhum. Acho melhor vocês saíram do meu caminho. Bem vindos ao século xxi e ao poder feminista.
Os dois irmãos se entreolharam aparentemente surpresos e preocupados.




-É ridículo! – explodiu Roberta ao ouvir o plano do delegado. – Eu não consigo ver a Viviane caindo num truque tão baixo como esse!!
-Não é truque – disse Horacio se levantando – é uma armadilha. Roberta é a única maneira que temos de tirar o Marcio das mãos da Viviane, sem que ela saiba que nós da policia estamos envolvidos.
-Delegado – Horacio parou de andar e encarou atentamente Tico – me deixa ver se entendi; nós vamos pagar o resgate com notas falsas?
-Sim – concordou Horacio recomeçando a andar. – Quando a Viviane pegar o dinheiro vai se mandar, entenderam? Ela não vai ficar aqui. Quando descobrir que o dinheiro é falso vai voltar e aí eu e a minha equipe prenderemos ela.
Roberta não se conformava:
-Ela não é boba delegado. Se descobrir que o dinheiro é falso antes de entregar o Marcio, vai acabar com a vida dele!
-Você esta agindo de maneira errada Roberta. A Viviane não vai matar o Marcio enquanto não tiver em mãos os setecentos mil.
Reinou o silencio. Parece que todos – até mesmo Roberta – haviam entendido que o delegado tinha certa razão.
-Não se preocupe, a minha equipe estará por perto se a caso tiver que intervir.
-Muito bem – disse Tico se levantando e pondo fim ao silencio – preciso fazer uma ligação.





O celular de Rogério tocou assim que ele saiu do chuveiro. Secando a mão na toalha e se embrulhando nela, foi até o seu quarto atender o aparelho. Era Tico querendo saber se fora ele que denunciara o seqüestro de Marcio ao delegado.
-Juro que não fui eu Tico. Apesar de não estar mais do lado de vocês eu continuo tendo muito respeito por todos e a Roberta disse que não queria a policia no meio, respeito a vontade dela.
-Tudo bem Rogério. Eu só precisava ter certeza.
Por um momento nenhum dos dois disse nada. Depois Tico falou:
-O delegado chegou aqui com um plano, não sei, mais acho que vai pintar sujeira.
-Qual é plano do delegado? – se interessou Rogério.
-Vai pagar a Viviane com notas falsas.
-Pode ser que funcione.
-É mais se ela descobrir que o dinheiro é falso e que a policia esta no meio, pode não sair boa coisa.
-O delegado não vai deixar que aconteça nada com o Marcio você vai ver.
-O problema que a equipe dele só tem dez policiais.
-E a Viviane é uma só – retrucou Rogério.
-Isso é verdade. Bom Rogério era só isso mesmo que eu queria saber.
-E tal concurso de fotografia?
-Olha eu vou confirmar a data na internet, aí eu te ligo beleza?
-Beleza. Até mais então.
-Até cara.
Quando Tico terminou de falar com Rogério, o vento já estava começando a mexer as folhas das arvores. Seria mais uma noite típica de inverno.

 

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