| Publicado por: | vander.christian |
| Data: | 12/09/2009 |
| Hora: | 20:01:06 |
| Página: | biblioteca_ler |
| Na categoria: | x |
| Leituras: | 448 |
Três dias depois Karina foi junto com sua mãe no instituto que o seu tio indicara. Segundo dona Matilde, uma assistente social iria fazer uma entrevista com Karina – entrevista esta conhecida como anaminési – a assistente social iria avaliar a condição social de Karina e quais seriam as suas necessidades físicas como pessoa. Karina não estava muito animada, mas prometeu se esforçar o máximo nas atividades.
No dia seguinte eu fiz questão de acompanhar Karina na visita a instituição. E foi naquele dia também que eu reparei uma coisa interessante: as reações das pessoas nas ruas. Elas se viravam para olhar; outras sussurravam algo para a pessoa ao lado; algumas desviavam com receio de atrapalhar o caminho. Olhei para Karina, os seus olhos mexiam de um de um lado pro outro, incapaz de ver um vulto sequer.
Quando entramos no trem naquela manha, senti pela primeira vez na vida indignação pelas aquelas pessoas que iam trabalhar. Consultei o meu relógio, faltavam dez pra sete. Fiquei em pé segurando Karina pelo braço durante cinco minutos. Para alguns, cinco minutos não é nada, mas o que mais me deixou indignado, era o fato de as pessoas olharem, sussurrarem para as outras, se esquivarem e na hora de ceder o lugar esperar o trem iniciar o movimento para poder cair em si. E aquilo era só o começo.
Descemos na estação Barra Funda. Pegamos o metrô sentido Itaquera. Logo que entramos, conseguimos nos sentar, embora fossemos descer na estação seguinte. Ao sairmos da estação Marechal Deodoro, dobramos a esquerda depois atravessamos mais uns três minutos, até que eu avistei a minha esquerda, a instituição.
-Espero me sentir mais confortável lá dentro - disse Karina após um longo silencio. – Ainda não me recuperei da sensação horrível de viajar nesses transportes coletivos; tenho certeza que todos me olhavam como se eu fosse um E.T.
-Calma – tranqüilizei- a – o pessoal olhou, apontou, mas pensa pelo lado bom: você não esta vendo eles te olharem.
-Não tem graça, Jéferson – disparou Karina furiosa.
A instituição era um prédio de quatro andares com a frente toda de vidro, um vidro verde bem escuro. Aproximamos-nos do segurança.
-Ela veio visitar o prédio – falei.
-Certo você vai até a recepção e procura a assistente Laura, é ela que vai mostrar o instituto a vocês.
Seguimos em direção a recepção. Do lado direito havia um elevador. Nos aproximamos da recepção e antes que eu dissesse alguma coisa, uma mulher magra com os cabelos escorridos até o ombro se adiantou exibindo um largo sorriso.
-Bom – dia, sou Laura Pedroso – disse ela pegando em minha mão. – E você é a Karina? – acrescentou para a minha amiga.
-Sim, sou eu.
-Ótimo, é um grande prazer recebe – la Karina- declarou Laura. – Tenho certeza que você vai gostar daqui. Conheço a sua estória, é uma situação delicada, mas tenho certeza que você vai superar tudo isso de cabeça erguida.
A assistente social virou – se pra mim e perguntou:
-Qual é o seu nome?
-Jéferson Aquino.
-E vocês são namorados? – tornou a perguntar Laura sem se importar em ser discreta.
Cheguei a abrir a boca para responder, mas Karina foi mais rápida:
-Não, não somos namorados. Vai demorar muito pra começar a visita?
Fiquei imaginando se a Laura percebera a frieza no tom da voz de Karina, que eu notara muito bem. O fato é que a visita começou. E tudo que vi era fantástico.
Um pouco a frente da recepção, passamos por duas catracas e seguimos em um corredor largo onde haviam dois elevadores – um de cada lado. Achei que entraríamos em um deles, mas não, continuamos em frente. Chegamos então numa espécie de trilha, que simulavam vários ambientes.
-Aqui nós temos a trilha – sensorial – explicou Laura. – São varias paisagens, Karina, todas elas repletas de detalhes, para que as pessoas que nunca enxergaram na vida, possam ter uma noção de como é, por exemplo, uma fazenda. Trás ela até aqui, por favor – e eu guiei Karina até a trilha que simulava uma fazenda. As outras paisagens simulavam o deserto; florestas e rochas.
Seguimos em frente. Ao longo da trilha, havia também alguns animais empalhados.
-Pode tocar – disse Laura a Karina.
Os animais empalhados eram: cachorro, cobra, lagarto e lobo.
-Nossa – falou Karina surpresa – é como se eu estivesse tocando em um lagarto de verdade!
-Exato – ponderou Laura – a idéia de empalhar esses animais é fazer com que os cegos saibam como esses animais são; porque existem pessoas que enxergam, mas nunca viram um lagarto de verdade, sabe... Então, a nossa idéia é transmitir esse conhecimento aos cegos, tanto com a trilha - sensorial quanto com esses animais empalhados.
Pra mim tudo aquilo era novidade. E no decorrer da visita surgiram mais novidades.
Depois da trilha – sensorial, fomos para a sala de Recriação. Segundo Laura a sala funcionava como uma espécie de espaço de convivência entre as pessoas.
-Os alunos se encontravam aqui nos intervalos das atividades – salientou Laura.
Era uma sala grande com mesas ao centro e um sofá confortável. Havia também uma geladeira, aonde as pessoas guardavam os lanches e podia se tomar água gelada a qualquer hora. Nos cantos, vitrines com projetos dos alunos. Inclusive, em uma das vitrines, eu reparei, tinha um papai – Noel, cuja cabeça era uma lâmpada. Contei para Karina e ela me respondeu: “serio!” Fiquei feliz de ver que ela estava gostando das surpresas da visita.
Não muito longe da sala de Recriação, uma saída para o elevador de serviço. Mais a frente e à direita, era possível ver a rua através do vidro que pegava de cima a baixo, formando, se é que pode – se dizer, uma parede de vidro com barras de ferro ao meio como divisório. Do lado esquerdo, havia janelas que dava para ver o muro do restaurante. Nesse espaço também havia armários encostados na parede. Perguntei a Laura para que serve os armários e ela respondeu que era para guardar brinquedos das crianças. E de fato, algumas crianças estavam ali, enquanto que uma mulher guardava uns brinquedos em um dos armários.
Quando chegamos à sala de informática, deparamos com uma sala ampla e fresca. O motivo que fazia a sala ser mais fria que as outras era porque havia ali seis computadores. Mais ao fundo, uma impressora Braille.
E finalmente chegamos à sala de aula. No meio, uma mesa redonda com quatro cadeiras e uma pequena mesinha para o professor, do lado esquerdo um armário com materiais usados durante as atividades com os alunos.
-Cada aluno tem três tipos de oficinas...
Laura teve a sua explicação interrompida por Karina.
-Oficinas?
-É, Karina, oficina é o termo que usamos para se referir ao atendimento. Durante – como eu ia dizendo – durante essas três oficinas, existe um pequeno intervalo de quinze minutos. Agora o professor Rogério vai explicar as atividades que você vai desenvolver nessas oficinas – Laura pegou na mão de Karina e falou: - espero que você tenha gostado da visita e mais uma vez: seja bem vinda.
-Obrigada – agradeceu minha amiga.
-Até mais Jéferson – disse Laura pegando em minha mão.
-Até e obrigado – agradeci.
Eu e Karina sentamos para ouvir e explicação do professor. O professor Rogério era um homem de meia – idade, auto e um pouco magro. Tinha a pele branca e os cabelos já com um leve tom grisalho, penteado de lado com muito gel. Cumprimentou Karina e depois a mim com muita simpatia.
Nas oficinas, disse o professor, Karina aprenderia informática, aulas de Braille e – principalmente – orientação e mobilidade. Teria também uma vez por mês a sessão psicoçial, onde os alunos discutiriam os problemas do cotidiano; cada sessão com um tema diferente.
-Cada época do ano tem uma festa – adiantou ainda Rogério. – Se não tiver a festa, há uma visita ao sítio da instituição. Em uma nova etapa Karina, nós recebemos a equipe PROSEJA. Essa equipe traz um pacote com varias opções de cursos e temos também a variação clínica, que avalia a pressão do olho.
Rogério fez uma pequena pausa. Depois continuou:
-Só que no momento é importante Karina você aprender mobilidade. Você precisa se acostumar a andar sozinha, principalmente aqui dentro do instituto.
-Como vai ser essa aula de... mobilidade? – questionou Karina um pouco apreensiva.
-Geralmente esse tipo de treinamento é feito em um corredor com varias cadeiras e brinquedos esparramados, você precisa passar por esses obstáculos, treinando assim o equilíbrio. Existe também o exercício de reconhecimento de área. Esse exercício permite que você aprenda a conhecer as paredes, ou seja, a parede será o seu guia.
-É possível treinar o equilíbrio em um corredor cheio de obstáculos? – espantou – se Karina. Rogério explicou:
-Você vai descobrir que é possível sim. Vai descobrir também que andar na rua sozinha é bem mais complicado.
Resolvi perguntar também.
-Professor Rogério, e as aulas de Braille?
-Aqui a Karina vai treinar o alfabeto Braille em uma máquina – e o professor se levantou e foi até a sua pequena escrivaninha, pegou a máquina e depositou-a sobre a mesa na frente de Karina. – Essa é a máquina de escrever em Braille – disse ele enquanto Karina tocava no objeto.
A máquina de Braille era menor do que a máquina de escrever comum. Não havia nenhum segredo em introduzir a folha – o segredo estava era nas teclas. Havia oito teclas, seis delas representavam as letras do alfabeto, explicou Rogério. Uma para a barra de espaço e a outra para o retrocesso (voltar atrás). Mais tarde, descobri que para cada regra de português e matemática, utilizava-se uma combinação de teclas diferente.
-Temos também a reglete – falou Rogério levantando- se novamente. Dessa vez ele foi até o armário e trouxe um objeto que me lembrou uma pasta fina.
-Essa é a reglete – disse entregando a reglete a Karina. – E isso é o punção – acrescentou ele. A ponta do punção parecia a ponta de um prego.
-Como se escreve nisso? – indagou Karina.
-Primeiro você abre a reglete – ensinou Rogério em seguida coloca a folha e fecha. Sempre que for escrever na reglete vai ser da direita para a esquerda, ou seja, você vai usar o verso da folha para escrever e quando for ler a frente da folha.
Eu acompanhei Karina no silêncio que se seguiu a explicação de Rogério. O professor entendeu que aquele silêncio só podia significar que não havíamos entendido nada; ele o punção e escreveu, depois pediu que Karina retirasse a folha.
-Aí esta escrito o seu nome – falou para Karina. – Nota-se que as letras estão em destaques na frente da folha e na parte de trás há apenas os furos feito pelo punção, chamados de protuberâncias.
-Esta escrito o meu nome aqui?
-Sim.
Peguei a folha da mão de Karina e só o que vi foi um monte de pontinhos.
-É complicada essa reglete – queixou- se Karina.
-Não é não – disse Rogério displicente. – Depois que você estiver familiarizada com o alfabeto Braille fica mais fácil. Em todo caso, nas aulas daqui, você vai usar a máquina. Mais vale lembrar que durante as aulas na sala de recursos, você deverá aprender a escrever na reglete.
Rogério levou a máquina e a reglete de volta para os seus lugares. Sentou-se entre eu e a Karina com uma expressão séria no rosto.
-Agora nós temos um problema Karina – falou brandamente. Karina se moveu na cadeira. – Você não esta estudando em nenhuma pública, de modo que você não pode se matricular para as aulas de Braille nessa sala de recursos.
-Como assim? – perguntei.
-A Karina mora em Franco da Rocha não é?
-Exato.
-A sala de recursos funciona em algumas escolas públicas de municípios que tem um número grande de cegos interessados a aprender, essa sala equipada com materiais especiais, os professores são treinados para atender os cegos e auxilia-los nas atividades escolares. Em Franco da Rocha, a sala de recursos funciona na escola Domingos Cambiazi – então os alunos cegos têm uma grande dificuldade em aprender a matéria na sala de aula normal, na sala de recursos eles podem estar tirando algumas dúvidas. Então fica difícil você ter aulas na sala de recursos, uma vez que já terminou os estudos.
No caminho de volta pra casa, um clima de incerteza pairava no ar. Pelo que eu entendi as aulas de Braille que Karina teria na instituição seria um complemento das aulas ensinadas na sala de recursos. Mas como Karina iria fazer o complemento das aulas que não teria? Rogério aconselhou Karina a procurar a professora Bruna, responsável pelas aulas de Braille na sala de recursos de Franco da Rocha, e conversar com ela, contar a sua história...
-Talvez ela chame você para ir conversar com a diretora da escola e tentar resolver o problema – disse Rogério.
Mas as chances de isso dar algum resultado eram pequenas, para falar a verdade.
-O que você achou do instituto? – perguntei discretamente para Karina dentro do trem.
-É muita coisa pra uma pessoa só.
Passaram-se os dias. Karina estava correndo atrás para conseguir fazer a sua carteirinha de transporte. Era uma tarefa que estava exigindo muita disposição. Primeiro ele foi à APAE conversar com a assistente social. No dia seguinte, Karina fez uma consulta e vinte dias depois seria realizada uma entrevista com o médico. Juntou todas essas coisas com as atividades da instituição, a expectativa de conversar com a diretora de ensino e o resultado não poderia ser outro: mau humor.
-Eu não estou preparada pra tudo isso! – suspirou Karina se jogando no sofá, após chegar da entrevista com o médico. No dia anterior, a professora Bruna havia ligado para dizer que a diretora não poderia recebê-las. O que significava que o impasse de aceitar ou não Karina na sala de recursos continuaria.
-Calma filha, vai dar tudo certo – tranqüilizou Matilde, a sua mãe.
Era impossível não ver o amor que Matilde e Ademar tinham pela filha. Tenho certeza que Karina jamais teria chegado aonde chegou se não tivesse esse amor para lhe dar forças e seguir em frente.
Todavia, uma coisa estava me tirando o sono durante a noite. Talvez em meio a tantos acontecimentos, o meu amor por Karina tenha ficado esquecido. Logo descobri que não era verdade. O que aconteceu foi que toda aquela expectativa de vê- la novamente, apagara- se no momento da queda do avião. Depois eu precisava ajudá-la a superar a perda do marido e da visão. Com os passar dos dias, fui ficando mais próximo de Karina, mais próximo como nunca estive antes. Eu não podia deixar de admitir: o meu amor por ela nunca morrera, só estava adormecido. À noite, deitado na cama, eu pensava em tudo isso. Sabia que dessa vez eu não me calaria com relação aos meus sentimentos.
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