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postado em 27/02/2010 às 18:05:06 na página biblioteca_ler
CAPÍTULO 18
SOZINHA NO CORREDOR
Karina estava acompanhada pela mesma amiga que a levou no meu trabalho uma vez para perguntar se era verdade ou não que eu ia embora.
-Onde eu estou indo? – Respondi com outra pergunta.
-É aonde você esta indo? – Disse Karina dando mais ênfase a pergunta.
-Com licença – pediu a amiga de Karina deixando-nos a sós.
-Estava indo no banheiro – disse finalmente. Desejei estar em qualquer outro lugar, menos ali.
-Esta tudo bem?
-Sim, esta.
-A sua voz ta estranha. Você esta chorando?
-É que eu fui pego de surpresa pelo seu depoimento – menti. – Fiquei emocionado, foi isso.
-Eu precisava falar aquilo. Estou me sentindo mais leve agora, mas tem outra coisa que eu preciso te dizer.
-Karina, eu...
-É algo muito importante.
-Olha só, Karina eu...
-Pode ir ao banheiro, depois a gente conversa.
-Não é que... Acho melhor você dizer por quê...
-Vai ao banheiro, conversaremos melhor depois.
-Não é que...
-Eu falo depois Jéferson.
-Posso te dar um abraço então?
-Por que me dar um abraço? Tem certeza de que esta tudo bem?
Me joguei nos braços de Karina.
-Jéferson, o que esta acontecendo?
-Eu preciso ir ao banheiro – falei afastando-me dela.
-O que esta acontecendo, Jéferson? Você esta estranho!
-Conversaremos melhor depois!
Karina se calou. Eu também. Andei pelo corredor de costas e acenando para Karina; as lágrimas escorrendo pelo rosto. Antes de sair pela porta, dei um último adeus a Karina, que ficara parada, incapaz de ver um vulto sequer, a espera que eu voltasse.
Os três primeiros meses que passei na cidade de Altamira, conforme eu previ, não foi fácil. Minha tia saia para trabalhar, o meu primo estudava de manhã e a tarde também ia trabalhar em um lava - rápido não muito longe do bairro Tira Dentes onde morávamos. Resumindo, eu ficava em casa sozinho. E era ruim porque os meus pensamentos iam lá para São Paulo, onde estava Karina. E ela era a última pessoa em quem eu queria pensar.
Na vida, precisamos aprender a fazer de tudo, é verdade. Oito meses depois de estar morando no estado do Espírito do Santo, resolvi tentar fazer alguma coisa para ajudar a minha tia. Comecei a trabalhar de lavador na garagem de uma empresa de ônibus. Foi bom, fiz novas amizades e conheci várias pessoas que me ajudaram a se sentir mais a vontade naquela cidade.
Conversava algumas vezes com mamãe e papai, estavam todos muito bem, graças a Deus.
Um ano depois, aluguei uma casa, ainda na cidade de Altamira e consegui um outro emprego. O cargo de recepcionista em um hotel permitiu que eu voltasse a estudar. E foi mais ou menos nessa época que fiquei sabendo notícias de Karina.
Dentro do meu peito nascera um buraco. Não queria ficar relembrando os momentos em que eu estava com Karina, pois dava a impressão que aquele buraco ficava três vezes maior enquanto eu diminuía e me transformava num ser frágil. Por mais complicado que seja uma separação, com o tempo acaba caindo na rotina. E aquele buraco dentro de mim caiu na rotina também. O vazio já fazia parte de mim, mas o bom era que eu não precisava culpar alguém pelo buraco estar dentro do meu peito; o culpado era eu. E me punha a olhar para o retrato – uma foto que ela me dera quatro meses depois de ter me conhecido – ficava olhando para o retrato de Karina. Seus olhos castanhos, os seus cabelos longos e a pele branca e suave. Se pelo menos eu tivesse dito tudo que sentia por ela naquela época em que ela me dera o retrato, talvez as coisas tivessem tomado um outro rumo. Mas não falei. E ali estava eu, com o coração partido, distante do amor da minha vida e fingindo não querer notícias, mas implorando para que viesse um telefonema, uma carta, ou até mesmo, uma visita...
Em 2009 a comunicação pela internet entre as pessoas se tornou mais comum que os telefones fixos eram utilizados raras vezes por pessoas que não tinham condições de comprar um computador. Porém, não foram pela página de relacionamento que Karina me deu notícias. Era costume meu levar o notbook para o trabalho, chegava lá ficava ouvindo os programas das radias paulistas pela internet. Ao meio-dia, havia um programa que os ouvintes mandavam recados para alguém especial. O programa chamava-se Cantinho do Coração. E qual não foi a minha surpresa quando o locutor anunciou:
-“Nós temos aqui o recado da Karina de Franco da Rocha, ela escreveu para o Cantinho do Coração, e manda o seu recado para o Jéferson de Altamira no estado do Espírito Santo. Alô Jéferson da cidade de Altamira no Espírito Santo, aqui vai o recado da Karina de Franco da Rocha. Ela diz assim”:
JÉFERSON,
POR QUE VOCÊ FEZ ISSO COMIGO? POR QUE ME DEIXOU AQUI SOZINHA? TUDO QUE EU FAZIA ERA PENSANDO EM VOCÊ, PENSANDO NO SEU BEM... FICOU UM ENORME VAZIO DENTRO DO MEU PEITO, ESSE VAZIO SÓ EXISTE PORQUE VOCÊ LEVOU UMA PARTE DE MIM, JUNTO QUANTO VOCÊ PARTIU.
SINTO TANTO A SUA FALTA. SINTO FALTA DA SUA VOZ, DO SEU SORRISO, DA SUA COMPANHIA, DOS NOSSOS PASSEIOS... PARECE QUE TUDO ISSO FAZ PARTE DE UM PASSADO TÃO DISTANTE, EU PRECISO DE VOCÊ AQUI, DO MEU LADO. VOLTA! VOLTA JÉFERSON! VEM PREENXER ESSE VAZIO DENTRO DO MEU PEITO. TALVEZ EU NUNCA TENHA DITO – NÃO TÃO CLARAMENTE – MAS VOCÊ, VOCÊ É A RAZÃO DO MEU VIVER. VOLTA, EU ESTOU TE ESPERANDO DE BRAÇOS ABERTOS... DE CORAÇÃO ABERTO.
Veio então a vinheta do programa. Baixei a cabeça e falei:
-Foi você que ficou com uma parte de mim, Karina. Acredite.
Quando terminei a frase, começou a tocar uma música. Uma música que marcou pra sempre a minha vida. Por isso, faço questão de escrever a letra desta música nessa história.
DE TARDE QUERO DESCANSAR
CHEGAR ATÉ A PRAIA E VER
SE O VENTO AINDA ESTA FORTE VAI
SER BOM SUBIR NAS PEDRAS.
SEI QUE FAÇO ISSO PRA ESQUECER,
EU DEIXO A ONDA ME ACERTAR
E O VENTO VAI, LEVANDO TUDO EMBORA...
AGORA ESTA TÃO LONGE, VÊ,
A LINHA DO HORIZONTE ME DISTRAI
OS NOSSOS PLANOS É QUE TENHO MAIS SAUDADE,
QUANDO OLHAVAMOS JUNTOS NA MESMA DIREÇÃO.
AONDE ESTA VOCÊ AGORA,
ALÉM DE AQUI, DENTRO DE MIM?
AGIMOS CERTO SEM QUERER, FOI SÓ O TEMPO QUE ERROU.
VAI SER DIFICIL SEM VOCÊ, PORQUE VOCÊ ESTA COMIGO O TEMPO TODO E QUANDO VEJO O MAR,
EXISTE ALGO QUE DIZ QUE A VIDA CONTINUA
E SE ENTRGAR É UMA BOBAGEM.
JÁ QUE VOCÊ NÃO ESTA AQUI,
O QUE POSSO FAZER É CUIDAR DE MIM.
QUERO SER FELIZ AO MENOS.
LEMBRA QUE O PLANO ERA FICARMOS BEM.
OLHA SÓ O QUE EU ACHEI: CAVALOS MARINHOS...
Após o término da música, percebi que os meus olhos estavam escorrendo lágrimas. Desliguei o computador e fui ao banheiro lavar o rosto. É, existem obstáculos na vida que precisamos superar. É difícil, na verdade, ninguém disse que era fácil. Por isso, segui em frente...
postado em 27/02/2010 às 18:01:57 na página biblioteca_ler
CAPÍTULO 17
TRÊS AMORES
Não foi fácil. Ir embora exigiu de mim muita paciência e determinação. Tive que responder a todos os porquês do pessoal na faculdade. No trabalho, todos pareciam mais preocupados do que eu com o fato de não obter sucesso em outro estado. Explicar para os amigos era mais difícil. Ainda que eles dissessem que me compreendiam e respeitavam a minha decisão, havia um quê de desapontamento em seus argumentos e conselhos. Mas eu estava determinado a seguir em frente.
No meu aniversario de vinte e nove anos, Karina me deu de presente o CD da banda Skank. Dentro do encarte do CD havia um bilhete:
FELIZ ANIVERSÁRIO JÉFERSON!
ESPERO TE DAR MUITOS E MUITOS PRESENTES.
NÃO VÁ EMBORA, POR FAVOR!
E então vinha a fraqueza. E dava vontade de cancelar tudo. Dava vontade de desfazer as malas, chegar em Karina e dizer que ela não precisava mais mandar bilhetes me pedindo que eu não fosse embora. Com certeza, ir partir para tentar esquecer Karina era uma coisa que eu não contava ter que fazer. Mas eu não podia fraquejar, afinal de contas eu passara aquele tempo todo sendo um sujeito fraco. Aquele era o momento de assumir uma outra postura. Antes, porém...
O ano de 2008 avançou de maneira assustadora. Quando o mês de agosto chegou, eu me vi novamente como no ano de 1997 – a Karina me procurando e eu não dando a mínima. Isso porque, o dia da minha partida estava chagando. Eu viajaria no dia 16 para o estado do Espírito do Santos.
Dois dias antes, na festa de lançamento do CD da banda Ponto de Vista, Karina não largou do meu pé, quase nem conversou com Aloísio. Mais nada daquilo me fez mudar de idéia...
Estava tudo pronto. O sol estava mais forte comparado aos outros anos. Havia qualquer coisa no ar indicando que aquele sábado seria diferente.
Me despedi de papai e mamãe às 10:4min. Na noite anterior, deixei o trabalho e fui direto para a casa de meus pais. Foi a última noite que passei com eles.
Cheguei ao teatro Gloria às 12h10min. Para a minha surpresa, já havia um grande número de pessoas na platéia. Sentei em uma cadeira na quinta fileira. Estava fazendo de tudo para ficar calmo, mas estava difícil.
Seria a estréia da peça escrita por Karina. De alguma forma, eu sentia que deveria estar lá; que eu deveria me sentar nas cadeiras do teatro e assistir a peça até o final.
Minutos depois, avistei Karina com um grupo de pessoas. Ela parecia estar explicando algo para um homem de meia-idade. Karina usava um vestido preto, tinha o cabelo solto – estava linda.
Depois de muitos murmúrios e muita expectativa, as cortinas se abriram e a exibição da peça feita por Karina, teve início.
Da minha posição, não dava para ver Karina, embora eu soubesse que ela estava junto com os cegos que ela convidara. Nas poucas vezes em que avistei Karina, antes da peça começar a ser exibida, senti uma pontada no peito; pontada esta causada pelo pensamento do que eu iria fazer ao sair do teatro. Naquela altura, eu já estava sendo egoísta como dissera Karina, uma vez.
Uma hora e meia depois, a platéia prorrompeu-se em aplausos, os atores agradeceram o carinho do público e a cortina se fechou. Foi então que aconteceram muitas coisas.
O homem de meia-idade, que eu avistara conversando com Karina, subiu no palco com um microfone na mão e começou o seu discurso. Ele era coordenador de um projeto chamado Teatro em Nossas Vidas. Aqueles atores que haviam representado a peça Dononça Faz Quitutes, segundo ele, eram crianças de rua. Com doações, muita ajuda e força de vontade surgiu o projeto Teatro em Nossas Vidas.
-Tenho muito que agradecer a todas as pessoas que assumiram esse compromisso junto comigo – encerrou. O povo aplaudiu. – Muito obrigado. Gostaria de chamar aqui no palco, a autora dessa peça que vocês acabaram de assistir. Tenha a bondade de subir até aqui Karina, por favor, e falar um pouco sobre o seu trabalho.
Houve novamente uma leva de aplausos no momento em que seu Ademar levou Karina ao palco.
Fiquei feliz por ver aquela cena. Por que a Karina que surgiu depois do acidente, não demonstrava nem de longe que um dia estaria ali, empunhando um microfone e sendo aplaudida de pé por aquelas pessoas que nunca a viram antes.
-É difícil falar – iniciou ela nervosa. – Sei que estão todos olhando pra mim e eu fico um pouco nervosa com isso...
Ao ouvir essas palavras eu sorri. Na verdade ela não estava um pouco nervosa – mas sim muito nervosa.
-Mesmo assim – continuou ela – sinto que esse é o momento de falar um pouco da minha vida.
Os cochichos cessaram. Estavam todos de olhos e ouvidos atentos em Karina. E ela ganhou firmeza na voz conforme falava.
-Sempre gostei de fazer peças teatrais. E esse era o meu sonho; assistir a apresentação, ver os atores em cena. Isso tudo que vocês viram aqui é o resultado de um trabalho maravilhoso desses alunos do projeto Teatro em Nossas Vidas. Você Manoel esta de parabéns.
O homem de meia-idade sorriu quando Karina mencionou o seu nome.
-Eu queria também agradecer a todos vocês que estão aqui, que confiaram no meu trabalho e veio assistir. – Karina fez uma pausa. Acredito que ela surpreendeu a todos nós com aquele discurso. Olhei para o relógio e senti uma pontada no peito, pois dali a algumas horas eu estaria partindo para bem longe de Karina. O som da voz dela me fez voltar a atenção para as suas palavras.
-Muita gente não acreditou que um dia eu chegaria aqui – disse Karina. – Eu mesma cheguei a duvidar disso. Em 2003 a minha vida mudou por completo. Eu perdi o meu marido em um acidente de avião e perdi a visão também... E todos os planos e sonhos, eles se perderam. O mundo desabou em minha cabeça, perdi a vontade de viver, não conseguia planejar mais nada, eu me sentia incapaz de voltar de ater sonhos, de pensar no futuro; fiquei sem perspectiva, desacreditada de tudo...
Karina tomou fôlego. Dona Matilde chorava abraçada ao marido. Puxei na minha memória e não consegui me lembrar de ter visto ou ouvido Karina falar sobre o seu passado para três ou mais pessoas ao mesmo tempo. Ela enxugou as lágrimas com a própria mão e continuou:
-Estou chorando porque ainda dói falar desse assunto, porém não tenho medo de falar, eu venci esse medo e a dor... bem, a dor... ela já foi mais forte, graças a Deus eu consegui ameniza-la. E vocês sabem por que eu consegui vencer o medo de falar sobre o passado? Sabem por que a dor, que era enorme, que me dominava por completa se tornou amena? Porque em meio a dor, em meio ao medo, havia três amores. O meu pai – aqui a voz de Karina falhou – ele... ele não saia para trabalhar sem antes me dar um beijo, pedir que eu me cuidasse e tivesse juízo, sempre muito otimista, o meu pai. Sei que ele fazia um enorme esforço para falar comigo com aquele tom de voz alegre, mas sei que no fundo ele estava sofrendo muito, entretanto eu não precisava de alguém do meu lado que chegasse chorando, que tivesse pena de mim, eu não precisava de nada disso – Karina engoliu as salivas que se acumularam na boca prosseguiu: - E quando meu pai voltava do serviço ia direto perguntar como eu estava; pra falar de Deus, dizer que ele nunca fecha uma porta sem antes ter aberto outra. Um grande beijo pai. Eu te amo demais. E a minha mãe... Nossa, ela vivia pra mim. A minha dor era a dor dela.
Percebi que várias pessoas ao meu redor estavam chorando. Eu também já estava emocionado. Karina continuou a falar de sua mãe:
-Eu acho que se fosse possível ela queria estar em meu lugar. Eu lembro que, não tenho vergonha de dizer, eu cheguei a perguntar pra ela se algum dia algum rapaz iria olhar pra mim, porque a sensação que dava era que eu estava horrível, eu não tinha a mínima idéia de como eu estava, não conseguia me ver bonita. E a minha mãe falou com todas as letras que eu continuava linda como uma princesa. E na palavra dela eu acreditava. Por isso, eu quero chamar aqui no palco, a minha mãe e o meu pai, para que todos vocês conheçam os melhores pais do mundo!
Emocionados, dona Matilde e seu Ademar foram até onde a filha estava. Os três se tornaram um só, em um abraço forte sob os olhares e aplausos do público.
O que veio depois eu não esperava. O que veio depois colocou em dúvida a minha decisão de fugir para outro lugar que visse ou ouvisse falar em Karina.
A minha mente estava cheia de pensamentos que nem toquei quando Karina disse “havia três amores”, que o terceiro amor só podia ser eu.
-O outro amor – falou Karina se afastando de seus pais – é uma pessoa que... esta comigo há treze anos. E já foram tantos os momentos em que um ajudou o outro. Apesar de que ele me ajudou mais do que eu ajudei ele.
Senti o meu rosto esquentar. Dona Matilde, um pouco atrás da filha, me encarava. Me encarava como entes, sem aquele olhar cheio de censura que ela me lançara quando me viu abraçar Karina um dia. Voltei a sentir afeição por ela. Novamente.
-Esse homem, que se chama Jéferson, se tornou uma pessoa de extrema importância em minha vida. Tornou-se uma pessoa importante na minha vida a partir de 04 de abril de 1995. E quase dez anos depois, quando eu perdi a visão e o meu marido, ele continuou do meu lado, me dando força.
Karina voltou a chorar. E dos meus olhos também começaram a brotar lágrimas.
-Muitas pessoas se afastaram de mim quando eu fiquei cega; pessoas que se diziam ser meus amigos. E o Jéferson não saiu do meu lado um só instante. No primeiro dia que nós nos vimos depois do acidente, eu falei que havia perdido tudo, e ele me respondeu o seguinte: “eu estou aqui, Karina.” E vou te ajudar a viver – Karina fez uma pequena pausa. Algumas pessoas olhavam pra mim, outras permaneciam em silêncio, ouvindo atentamente as palavras de Karina. – Naquele momento – continuou ela – eu estava precisando tanto de um amigo que me dissesse alguma coisa, uma palavra que me confortasse, que me desse um abraço.
“E Jéferson estava ali, do meu lado. Estava do meu lado quando eu andei pela primeira vez na rua segurando uma bengala. Estava comigo no meu primeiro contato com outras pessoas cegas. O Jéferson me convidava para ir ao cinema, comprar livros, ir a igreja, comer pizza, ele fazia de tudo para que eu me sentisse bem, fazia de tudo para que eu levasse a vida, se não igual, mas parecida com a de antes do acidente. Porque a vida precisava continuar. O Fabiano morrera, eu fiquei sem enxergar, mas estava viva! Foi difícil entender tudo isso...
Eu abaixei a cabeça e comecei a refletir sobre o que Karina estava dizendo. Ainda que ela desse todos os méritos para os seus pais ou para mim, a sua força de vontade e determinação contribuirão para tamanha superação. A menção do meu nome fez com que eu voltasse a atenção para Karina, que dizia:
-Nós passamos um natal no interior do estado de São Paulo e havia uma rua que estava toda enfeitada, e eu me lembro que o Jéferson falou: “eu queria que você estivesse enxergando só para ver como esta bonito aqui.” Então ele descreveu como eram os enfeites de natal. Era como se eu estivesse enxergando com os olhos dele.
Karina secou as lágrimas com o lenço que o seu pai lhe dera. Depois falou:
-Tenho certeza que o Jéferson esta aqui. E eu só estou dizendo tudo isso porque jamais vou esquecer um só instante que passamos juntos... Jéferson, eu não tenho nem palavra pra te agradecer, eu poderia ficar aqui tentando te agradecer, mas sei que não vou conseguir... Eu queria te fazer um pedido, e quero que saiba que ao atender este meu pedido, você vai estar me fazendo a pessoa mais feliz do mundo. Eu espero que, do fundo do meu coração, que você continue do meu lado até quando Deus quiser e sendo assim, espero que seja pro resto da vida.
Karina se calou. Não sei se ela iria me chamar para subir no palco como fizera com os seus pais. O fato é que quando ela terminou de falar, eu me levantei, atravessei o corredor e subi no palco se ser convidado. Lá abracei Karina. Abracei-a como há cinco anos, quando ela disse ter perdido tudo. Havia algo naquele abraço, pois seria o último abraço. Havia também algo nas lágrimas, algo que eu não conseguia explicar. Acho que não tinha explicação, não adiantava nem tentar buscar...
-Por quê? – Dizia uma voz dentro da minha cabeça. – Por quê? Justo naquele dia, que eu estava pronto para ir embora, a Karina resolveu dizer coisas tão bonitas. Por que ela plantou aquela semente dentro do meu peito? Uma semente de dúvida. Será que realmente ela não me amava? Será que ela realmente na sentia nada por mim? Tarde demais para saber as respostas.
E ela havia pedido que eu ficasse do seu lado até quando Deus quisesse. Ele não queria mais.
Quando todos foram cumprimentar a Karina eu afastei-me para a direção oposta. O meu estômago começou a revirar, o coração batia acelerado como se eu tivesse corrido sem pausa alguma. Dispensei o drink e rumei para a saída do teatro. De repente a voz de Karina chegou aos meus ouvidos como um sino que toca uma vez, mas devido ao eco fica parecendo que tocou mais de uma vez.
-Aonde você vai Jéferson?
postado em 14/02/2010 às 20:44:09 na página biblioteca_ler
Foi a minha vez de ficar de pé. Ao mesmo tempo em que mamãe se virava e repetia:
-Eu não vou permitir que você faça uma loucura dessas.
Cheguei mais próximo dela.
-A minha decisão já esta tomada, mãe. E eu não vou mudá-la. E também não vou falar para a Karina, espero que me entenda.
-Sou sua mãe, não vou permitir que você cometa essa burrice só por causa de um sentimento bobo!
-Bobo não! O que eu sinto pela Karina é amor; desse amor que faz a gente querer construir uma história para toda a vida – virando para a porta completei: - Mãe, eu não sou mais uma criança para confundir amor por uma coisa pequena, sem importância. Eu não vou conseguir deixar de amá-la ficando aqui, ouvindo o nome dela, o que ela esta fazendo... cruzando com ela na rua!
-Pense em você filho! Na sua vida, na sua faculdade, na sua casa, nos seus amigos! Será que vale a pena deixar tudo isso pra trás?
Fiquei de frente para a minha mãe e falei:
-Eu preciso ir, mãe. Vai ser melhor assim.
-A Karina te adora, filho.
Voltei a me sentar. Mamãe sentou ao meu lado e passou de leve a mão em meus cabelos.
-Você já imaginou – disse ela ainda passando a mão esquerda em meus cabelos – o choque que vai ser pra Karina quando descobrir que você se foi, sem se despedir, sem deixar endereço... Ela te adora, Jéferson. Para ela você é como um irmão.
-É exatamente por ela me ter como irmão que vou deixá-la, mãe. Ela me tem como irmão e eu a tenho como mulher. Eu quero começar tudo de novo, em outro lugar.
Mamãe se levantou e com a voz firme falou:
-Se você não contar para a Karina que vai embora eu conto.
-Eu não quero mais fazer as coisas pensando na Karina. Mas me despedir dela é uma coisa que eu sinto que não estou preparado; não vou conseguir. Não quero que ela saiba que vou embora. Se a senhora contar para ela que vou embora vou ficar muito chateado.
Saí da sala. Estava com a mão no trinco da porta quando mamãe declarou:
-Eu amo você. Mas gosto muito da Karina. Não vou deixar que ela fique sem tomar conhecimento da sua decisão.
Fui para casa decidido a manter firme a minha decisão de ir embora de Jundiaí. Não contava com aquela atitude de mamãe, esperava que ela compreendesse a minha situação. Mais também se ela quisesse contar para a Karina que eu ia embora podia contar – de um jeito ou de outro, Karina iria saber mesmo.
Com efeito, quatro dias depois, Karina surgiu no meu horário de almoço do meu trabalho acompanhada por uma amiga. Foi o meu teste para ver se eu estava pronto para deixar a mulher que era o amor da minha vida, e tentar tirá-la do meu coração.
-Jéferson a sua mãe me contou que você vai embora – disse ela sem rodeios. – É verdade?
-Sim, é verdade – respondi sem hesitar.
-Por que isso agora?
-Porque eu quero começar uma vida nova, em outro lugar – respondi prontamente. Estávamos na biblioteca da escola. Karina estava sentada e eu andava no meio das estantes; de alguma forma aquilo fazia com que eu me sentisse melhor, pelo fato de eu não querer encará-la nos olhos. – Quero – continuei – fazer novos planos... e quero também tirar você do meu coração.
Quando terminei a frase, olhei diretamente para Karina para ver a sua reação. Ela simplesmente se mexeu na cadeira e falou:
-Você acha que indo embora daqui vai conseguir me esquecer?
-Sim.
Karina se levantou. Empurrou uma cadeira com a bengala. Isso parece ter feito ela mudar de idéia com relação à ir em minha direção.
-Eu digo que isso não vai resolver Jéferson – disse ela encostando-se à mesa. – Você vai achar que deixou de amar, mas o amor vai estar aí, adormecido dentro do seu peito e quando você me encontrar... esse amor vai despertar de novo.
-E quem disse que eu quero te ver depois que eu for embora.
Até hoje não sei como consegui dizer aquilo para Karina. Acho que eu estava era com raiva dela, não sei... Mas doeu muito em mim ter que dizer aquilo.
-Você esta me fazendo sentir culpada por essa situação – falou ela um pouco alto. – Esta criando dificuldade pra mim e quem ama não faz isso!
-Quem ama faz qualquer coisa... Inclusive fugir para esquecer a pessoa que se ama.
-Quem ama, fica e luta, não foge.
-Não há sentido em ficar e lutar quando existe uma grande parede invisível separando eu desse amor. Este caso não tem solução, Karina... Preciso voltar para o meu trabalho.
Saí deixando-a sozinha com os seus pensamentos. No corredor, encontrei com a amiga dela que estava vendo os quadros de formaturas expostos na parede do corredor.
-Pode levar a sua amiga, a conversa entre eu e ela acabou.
Fui para o banheiro e chorei... chorei pelo que eu tinha acabado de fazer.
publicado por: cleudismar da silva
postado em 14/02/2010 às 20:34:55 na página biblioteca_ler
Eu considerei um tremendo absurdo aquela pergunta. Mas respondi com educação.
-A Karina me chamou para que eu avaliasse a peça que ela escreveu.
-Vamos entrar – chamou Karina como se Aloísio e eu não estivéssemos conversando.
A situação não melhorou. Karina ficava diferente diante da presença de Aloísio, parecia só ter ouvidos para ele.
-Eu adorei o filme Sexo, Amor e Traição – dizia Karina.
-Realmente, o texto é de primeira – emendava Aloísio.
E eu parecendo uma besta, sentado só ouvindo. Pra não fazer nenhuma besteira, resolvi ir embora.
-Esta cedo Jéferson – falou Karina sorrindo de uma piada de Aloísio. – Fica mais um pouco.
-Não – afirmei me pondo de pé. – Eu estou um pouco cansado e... Eu não tenho mais nada pra fazer aqui.
-Certo, eu te acompanho até o portão.
Falei um até logo para Aloísio e segui Karina até a porta. No portão encontramos com dona Matilde, que vinha do supermercado. Quase perguntei a ela o que estava acontecendo quando ela me disse tchau sem olhar pra mim.
-Mãe, fica fazendo companhia para o Aloísio enquanto eu acompanho o Jéferson até o ponto – disse Karina na hora em que eu abri a boca para fazer a pergunta.
-Não precisa Karina – falei com cordialidade.
-Eu preciso te dizer uma coisa, vamos?
No caminho da casa de Karina até o ponto, conversamos sobre o atual prefeito que não estava trabalhando direito. Mas foi quando chegamos no ponto e ficamos esperando o ônibus, que Karina falou a “coisa” que ela queria me contar. No entanto, eu também tinha uma coisa para dizer a ela.
-Karina, antes de você me falar o que você tem pra me dizer, quero te fazer uma pergunta – fiz uma pequena pausa na qual Karina falou:
-Pode perguntar.
-Eu fiz alguma coisa de errado com a sua mãe? Por que se eu fiz, eu quero saber o que foi.
-É exatamente sobre isso que nós vamos conversar.
Karina falava baixo e parecia estar escolhendo as palavras. Uma nuvem tampou o sol; havia qualquer coisa no ar indicando que em breve teríamos chuva.
-Mamãe me contou que o povo está comentando – disse Karina parecendo tensa.
-E o que o povo esta comentando? – Perguntei sem entender nada.
-De nós dois.
-E o que o povo esta comentando exatamente de nós dois? Escuta Karina, você esta escondendo alguma coisa?
Eu já estava começando a ficar com raiva. Por que ela não dizia logo de uma vez o que estava acontecendo?
-O comentário do povo é que você e eu estamos namorando e que você jamais teria feito tudo o que fez por mim se não estivesse esperando que eu te desse algo em troca.
-Ah! Povo da mente pequena, sempre vendo mais do que o necessário.
Realmente aquela notícia me deixou numa situação incomoda. O ônibus chegou me restava apenas vinte minutos para conversar com Karina.
-E o que isso tem a ver com o fato de dona Matilde estar me tratando de maneira tão fria? - Perguntei.
-O povo esta dizendo que você esta me ajudando por interesse...
-E a sua mãe esta disposta a acreditar nas fofocas desse povo?! Ora, francamente Karina eu esperava mais da dona Matilde!
-E eu estou numa situação complicada – disse Karina como se eu não tivesse criticado a sua mãe. – O Aloísio veio me perguntar...
-Karina escuta – interrompi-a. – O que você, a sua mãe e o Aloísio têm que entender é o seguinte: isso tudo é fofoca, não vale a pena ficar dando atenção!
-O problema Jéferson é que essa fofoca partiu da boca de quem nos conhece há tempos são pessoas conhecidas, por isso, a minha mãe esta achando que você saiu por aí dizendo que estava tendo um caso comigo.
-E se fosse verdade? – Desafiei. – E se realmente estivéssemos namorando?
-Acontece Jéferson que o Aloísio...
-O que tem o Aloísio?! – Gritei. Algumas pessoas chagaram a olhar pra mim. – Eu não estou entendendo o que o Aloísio tem a ver com o que estamos discutindo. Olha aqui Karina, você me desculpe, mas esse Aloísio só o que esta fazendo é encher a sua cabeça e a cabeça da sua mãe com bobagens!
-Não fale assim do Aloísio!
-Eu falo porque é verdade!
As pessoas entraram no ônibus. Percebi que a minha conversa com Karina só estava começando.
-O Aloísio é um grande homem – disse Karina.
-Grande homem?! Grande, grande homem sim, você acha que ele tinha o direito de me fazer àquela pergunta? Aliás, que pergunta foi aquela? No mínimo quem tinha que fazer aquela pergunta era a sua mãe!
-É o jeito dele Jéferson...
-Eu não gosto daquele sujeito!
Senti que Karina não esperava ouvir aquilo. Ela demorou a se recuperar. O ônibus ligou o motor, minutos depois partiu, eu estava só com Karina.
-Eu sei por que você não gosta do Aloísio – afirmou Karina com rispidez. – O seu grande problema Jéferson, é achar que ninguém mais pode me ajudar. Você acha que eu só posso sair se for com você; que eu só tenho que ligar pra você; que eu só posso contar as novidades primeiro pra você; não é bem assim que as coisas funcionam, isso é egoísmo, sabia?
-Isso é o que você pensa de mim? – Falei azedo. – Depois de tudo que eu fiz, depois de tudo que passamos juntos; agora você vem me dizer que eu sou egoísta? Olha, eu achei que te conhecia... mais estava enganado.
-Me desculpe Jéferson, mas você pediu pra ouvir isso. E eu não estou dizendo que você é egoísta, porem às vezes você age como se ninguém mais fosse capaz de me ajudar a atravessar a rua, por exemplo.
-Realmente o Aloísio conseguiu transformar você...
-O Aloísio não tem nada a ver com o que estamos conversando aqui!
-Tem a ver sim! – Gritei me descontrolando completamente. – Você pensa que eu não percebi como você mudou depois que começou a andar com ele! – Karina se afastou um pouco e se se encostou ao muro que havia atrás de nós. – Presta atenção! – Peguei o seu braço fazendo-a ficar de frente pra mim.
-Solta o meu braço Jéferson! – Pediu ela se esquivando.
-Você fala em egoísmo, só que o Aloísio não é melhor do que ninguém! Ele não é perfeito pra você fingir que não tem mais ninguém por perto quando esta com ele! Esse Aloísio é uma má influência pra você!
-Jéferson, pára! Chega! Você já passou dos limites!
-Eu não tenho limites!
-Eu gosto do Aloísio e não vou ficar aqui, ouvindo você dizer cobras e lagartos sobre ele!
Ficamos em silêncio por um momento. Meus caros leitores, naquele sábado, as conseqüências daquela minha atitude – de não abrir o meu coração para Karina quando a conheci – chegou à frente dos meus olhos e ficou parada, para garantir que eu visse e não escapasse nenhum detalhe.
-Por que, Karina? – falei com a voz rouca. – Por que você esta fazendo isso comigo novamente? Será que vai ser sempre assim; pessoas vão entrar na sua vida e eu... vou continuar sendo apenas o seu amigo?
-Jéferson, eu não quero te enganar, eu não quero que você se engane comigo. Eu gosto de você, te admiro pra caramba, você é um homem especial, por isso eu não quero que você sofra por mim... Eu não tenho pra te dar o que você quer. Eu sinto muito ter que te falar isso, sei que é difícil, mas hoje... hoje quando terminei de escrever aquela peça e que pensei em te ligar, eu falei: senhor, me ajude, me dê forças, porque hoje eu vou dizer ao Jéferson o que eu deveria ter falado desde o dia em que me casei com o Fabiano. Não há sentimento... eu sinto muito, mas não há sentimento Jéferson. Por favor, não me peça pra te dar o que eu tenho não tenho.
Demorou um pouco para que eu absorvesse o significado daquelas palavras.
-Você ama o Aloísio? – Perguntei quase num sussurro.
-Existe uma grande atração, talvez essa atração se acabe ou se transforme em amor. – Karina respondeu com um tom de quem não entende o motivo daquela pergunta.
-Então você acha que eu só estou do seu lado esse tempo todo, por que amo você? E dessa forma, ficando do seu lado, te ajudando, você me aceitaria como homem? Quer dizer que eu fiz tudo isso por interesse?
Karina ficou calada. Eu continuei:
-Só que você gostou, a sua mãe gostou, todo mundo dizia que era bom pra você ter um amigo que estivesse sempre do seu lado e agora, na primeira oportunidade inventam essas fofocas e você acredita!
-Eu só quero que você não entenda errado Jéferson. Eu não estou dizendo que é pra você se afastar de mim e que eu não sei reconhecer o que você fez por mim. Só estou dizendo que se você fez tudo para me ajudar esperando ganhar em troca, foi tudo em vão. Essas fofocas podem ser verdadeiras sim...
-Não me conformo que você acredita numa coisa dessas. Verdadeiras uma ova...
-Jéferson, escuta, quando você chegar na sua casa pense sobre isso que nós conversamos aqui; talvez essas fofocas são verdadeiras sim. Será que lá no fundo você não esta esperando algo em troca? Será que se você não me amasse como mulher você teria ficado do meu lado, teria feito tudo que fez por mim? Ou teria se afastado como muita gente fez quando eu perdi a visão? Esta na hora de tudo ficar no seu devido lugar... Eu preciso viver a minha vida, e você precisa viver a sua. Eu não quero atrasar a sua vida e nem quero atrasar a minha por sua causa. E depois, misturar amizade com amor pode estragar a nossa relação.
Quando Karina parou de falar, eu cheguei bem perto dela e falei:
-A nossa relação já esta estragada.
Virei as costas e saí. Não tive coragem de olhar para trás. Fui caminhar no centro, mas a sensação era que não tinha chão para por os meus pés. Não demorou nada a chuva caiu...
Aquilo pra mim foi o fim da picada. Enquanto observava a paisagem pela janela do ônibus, eu já estava com um plano dentro da minha cabeça. Seria difícil, mas era preciso ser feito.
Meus pensamentos voltaram no tempo. Voltaram exatamente na época em que eu ensaiava para dizer à Karina o quanto eu a amava. Foram muitas às vezes em que eu saía de casa decidido a ir a casa dela e me declarar, mas me faltava coragem. E quando alguém me perguntava se rolava um clima entre nós, eu desconversava dizendo que era impossível rolar alguma coisa entre a gente, pois éramos grandes amigos. As conseqüências daquela minha atitude demoraram mais veio, e eu só via uma única saída...
No domingo de manhã fui à casa de mamãe lhe avisar da decisão que eu tomara.
-Mãe eu vou embora.
-Você vai o quê?
-Embora, vou me mudar daqui – reforcei sem hesitar.
-Se mudar pra onde e por quê?
-Não da mais mãe. Eu não posso continuar vivendo aqui, a situação entre eu a Karina não anda nada bem.
-E isso é motivo pra você se mudar?
Senti que não seria tão fácil conforme imaginei. Mamãe era do tipo de pessoa que sempre apresenta um argumento, ainda que isso pareça impossível.
-Mãe, eu acho melhor te explicar o que esta acontecendo.
-Eu sei o que esta acontecendo – disse mamãe me surpreendendo. – Você esta com ciúmes da Karina com o Aloísio. E eu te digo que isso é uma bobagem, por que...
-Eu amo a Karina, mãe. Presumo que a senhora também sabe disso.
-Será que é mesmo amor filho?
-Com certeza. E ontem ela me disse que não pode me oferecer algo que não tem dentro do seu coração, que é amor por mim. Pela primeira vez durante todos esses anos, eu vi que esse amor que tenho por ela, me faz sofrer, me deixa fraco... Eu não quero mais isso pra mim.
Mamãe me encarou. Havia muito tempo em que não conversávamos um assunto sério. Notei que ela estava bem velha, conseqüência dos anos que passaram rápido demais. Apesar do olhar penetrante que ela me lançou, senti que podia contar com a sua ajuda e compreensão.
-Pra onde você pretende ir? – Perguntou mamãe ainda com o olhar penetrante sobre mim.
-Eu vou pra casa da tia Fernanda. Mas eu não vou dizer à Karina que vou embora.
-Como?
-Não quero mais vê-la. Não quero mais falar com ela. Pior me despedir dela... Não quero que ela saiba que vou embora. Espero que a senhora me entenda.
Mamãe se levantou. Deu-me as costas e com as mãos na cintura falou:
-Então nós temos um problema filho. Eu não vou deixar que você faça isso.
publicado por: cleudismar da silva
postado em 14/02/2010 às 20:31:32 na página biblioteca_ler
postado em 06/02/2010 às 19:26:54 na página biblioteca_ler
CAPÍTULO 14
ALOISÍO
Janeiro de 2008
Quando eu saí casa de Karina de Sandra naquele sábado, tive o meu trajeto modificado por causa de uma ligação de Karina.
-Eu preciso que você venha até aqui – dissera ela no celular.
Muitas coisas haviam mudado desde o dia em que eu cheguei na casa da prima de Karina e o seu marido, juntamente com a filha Renata, riram da minha cara porque eu caíra do cavalo, fora picado por marimbondos e ainda caí no brejo ao tentar trazer o cavalo de volta pra sua casa.
No início de 2004 eu retomei a faculdade de biologia. Eu e Karina estávamos um pouco afastados um do outro. Ela estava trabalhando numa agência de viagens no shopping de Jundiaí. Mas era do trabalho pra casa e da casa para o trabalho.
O Leonardo estava de férias no trabalho – segundo Karina, ele tinha viajado para Recife e quando retornasse das férias entraria para a faculdade de análise de sistema.
Quanto ao Flavio e a Michele, eles estavam bem casados e felizes.
Já o Bruno, bem... este estava realmente se achando por ser vocalista e compositor da Banda Ponto de Vista.
E falando em “Ponto de Vista”, segundo Flavio o CD de estréia da banda estava marcado para ser lançado no meio do ano de 2008.
-O nome vai ser “Por do Sol” – disse Flavio se referindo ao nome do CD.
Na maior parte das vezes, essas novidades chegavam ao meu conhecimento através do computador. A maioria dos brasileiros tinha uma página de relacionamento na internet. Assim como os computadores, os celulares também estavam em alta. O Brasil havia mudado, o mundo mudara. Nos jornais, TVs e rádio a notícia era a mesma: aquecimento global. No Brasil também se falava em aquecimento global, mas também se falava em autorizar ou não pesquisa com células tronco. Também falavam da violência, da dengue e de quantas pessoas haviam morrido nos acidentes de carro. Há pouco mais de um ano, houve o maior acidente aéreo já registrado no país: 200 pessoas morreram na queda de um aerbâns em Congonhas... Novamente as lembranças do acidente daquele 10 de janeiro de 2003 veio em minha mente.
O Brasil mudara, o mundo mudara, a vida mudara, porém o meu amor por Karina continuava do mesmo jeito: pronto para ser oferecido a ela quando quisesse. Mas Karina estava jogando todo o seu charme para um cego chamado Aloísio, que ela conhecera no trem. Eu e Karina estávamos mais distante um do outro depois de uma viagem de trem que fizemos juntos de Jundiaí a Franco da Rocha. Karina ficou conversando com Aloísio a viagem toda, como se eu não estivesse a acompanhando.
Ela percebera que eu não gostei nada daquele comportamento, mas também não disse nada; fez como eu: não me procurou mais. Por isso, naquele sábado, fui até a sua casa completamente intrigado, isso porque ela não dissera o que queria falar comigo.
-É melhor você vir aqui pessoalmente - dissera quando perguntei se tinha acontecido alguma coisa.
Ao chegar em sua casa encontrei- a sentada na frente do computador. Após uma passagem rápida pelo Dosvox (que é um editor de texto, leitor de documentos, configuração de impressão, navegador de arquivos, entre outros utilitários falados), Karina estava usando o Jaws, um leitor de tela que converte a som todo conteúdo apontado na tela, permitindo o uso do ambiente Winds. O monitor estava desligado, mas ainda assim vi que Karina digitava algo.
-Pronto o que você quer? – Perguntei depois de dizer oi e dar um beijo em seu rosto.
-Nossa que frieza.
Puxei uma cadeira e me sentei.
-Desculpa, é que eu estou um pouco cansado, sabe, acabei de vir da casa da Sandra, nós estávamos fazendo um trabalho da faculdade...
Passei as mãos no rosto e deixei escapar um suspiro.
-Esta bem – disse Karina com uma expressão séria. – É que eu queria que você visse o texto, fizesse uma análise da minha peça.
-Peça? – Estranhei. – Você esta escrevendo uma peça?
-Escrevendo não, já terminei de escrever.
-Nossa que legal!
-Eu falei pra você – disse Karina radiante – o meu sonho era escrever uma peça de teatro e eu consegui!
-E cadê a peça, eu quero ler!
-Aqui no computador – falou ela.
-Karina o monitor esta desligado – falei curioso.
-Ah, é verdade. Eu gosto de trabalhar assim, com o monitor desligado; me sinto mais a vontade.
Karina ligou o monitor. Eu puxei a cadeira para mais perto da rack. Finalmente o clima ruim entre eu e ela havia ido embora.
-Antes de você ler e dar a sua opinião eu quero te falar outra ciosa – adiantou Karina prendendo o cabelo com uma presilha. – Uma amiga do Leonardo conseguiu falar com um grupo e esse grupo vai fazer essa peça que eu escrevi, a apresentação vai ser no dia 14 de agosto, no teatro Gloria, lá em Jundiaí.
-Maravilha! – Exclamei. – Ótima noticia!
-Eu não mereço um abraço?
-Claro, merece até dois! – Falei abraçando- a. Aquela noticia me pegou de surpresa, uma vez que eu estava achando que Karina não levaria adiante o sonho de ser escritora de peças teatrais.
Ainda estávamos abraçados quando dona Matilde apareceu na porta da sala, dizendo que iria ao supermercado. Percebi que ela me olhou de um jeito estranho. Apressei-me a dizer:
-A Karina me contou que a peça vai ser exibida no teatro de Jundiaí... Estava... dando os parabéns a ela.
-Claro – disse dona Matilde – a Karina esta mesmo de parabéns.
Achei estranho aquele modo de agir da mãe de Karina. Aquele olhar cheio de censura não fazia parte de sua personalidade. Dona Matilde sempre gostou de me ver junto com Karina, mas de repente...
-É uma peça infantil – declarou Karina me trazendo de volta a realidade. – Espero que você goste e lembre-se: a sua opinião é muito importante.
Peguei o mouse e cliquei na barra de rolamento e comecei a ler. O relógio marcava 16h: 07 minutos...
O título era:
“DONONÇA FAZ QUITUTES”
Os personagens eram: Dononça, Raposo, Levir e Lê.
O cenário era: praticável dividido ao meio por uma parede. Não havendo praticável giratório haverá só a parede, e os propios interpretes comporão o cenário à medida que entram. Do lado da floresta: o forno, a cadeira e a mesa da Dononça. Do outro lado, em correspondência: a televisão e o trono do rei Lê. Ou seja, de um lado a floresta, do outro o palácio. Ao iniciar a cena Dononça, na cadeira de balanço, faz tricô.
CENA I
Dononça (usa óculos, avental e birote, como uma avozinha, cantarola): Larilaralá... Um ponto... Duas meias; outro ponto... Outra meia... Larilaralá... Larilaralá...
Raposo (é espigado, muito ágil e gesticulador, entra cantando): Eu sou Rap Rap Oso, Rap Oso! Farejo qualquer coisa, e por isso sou famoso! (Pausa.) Ah! Quando falo em farejar... Meu nariz começa a coçar e a trabalhar! (Aspira, fechando os olhos, nariz para cima.) Humhum! Hum! Hum!
Dononça (olhando por cima dos óculos, a meia voz): Aiaiaiaiai! Que será que esse nariz fino veio fazer por aqui?
Raposo: Hum! Hum! Que sinto? Hum, que sinto?
Dononça espirra: Aaatchim!!...
Raposo (sem olhar para ela): Jasmim?
Dononça: Aí de mim!
Raposo (após farejar um instante): Algo esta a me cheirar nas ventas... (Dá uns passos por ali. Torna-se a cantar.) Eu sou o Rap Rap Rap Oso! Farejo qualquer coisa...
Dononça (o interrompe): É um intrometido!
Raposo (concluindo seu cantar): Por isso sou famoso!
Dononça (continua a cantarolar, sem tomar conhecimento do Raposo, que se aproxima): Larararilará...
Raposo (com hipocrisia): Ah! Mas que vejo! Dononça esta em casa!
Dononça (cínica): Não, estou na floresta!
Raposo (sem perder o jeito): Ora, ora...
Dononça (afastando Raposo, que mete o nariz no seu trabalho): Vá até lá e vê se me encontra.
Raposo (examinando o tricô): Que é isso?
Dononça: Tricô, não enxerga?
Raposo: Claro! Tenho uma excelente vista!
Dononça: Tem um grande nariz!
Raposo (fazendo mesuras): Obrigado... Obrigado... (outro tom.) Então, como vai Dononça?
Dononça (continuando a tricotar): Fala Raposo.
Raposo: Trabalhando?
Dononça: Então não vê?!
Raposo: Vejo; mas como bom repórter gosto que me confirmem os fatos! Um fato não confirmado é boato!
Dononça (em tom de mofa): Ora, como estamos...
Raposo: Por isso sou famoso!
Dononça (espirra): Aaaaaatchim!
Raposo: Deus te guarde Dononça!
Dononça: Aí de mim!
Raposo: A senhora trabalha bem... (examina o tricô.) Hum...
Dononça (afastando-se): Deixa pra lá... (outro tom.) Que novidades trás?
Raposo: Novidades?
Dononça: Você quase nunca vem pra estes lados da floresta; se veio é porque alguma coisa acontece...
Raposo: Não aconteceu e nem acontece nada!
Dononça: Então, o que quer aqui?
Raposo (dissimula): Nada... Nada... Procuro noticias novas para a televisão.
Dononça (como a entender): Ah!
Raposo: Tem visto televisão?
Dononça: Só as novelas.
Raposo: Ah! Ah!
Dononça: Ah, ah, por quê?
Raposo: E o telejornal?
Dononça: De vez em quando...
Raposo: Deve ouvir mais; para saber as novidades.
Dononça: Que novidades?
Raposo: Do mundo.
Dononça: Que me interessa o mundo? Ou o Raimundo?
Raposo: É preciso acompanhar o mundo!
Dononça: O mundo só tem barulho, fumaça e confusão! E que confusão!
Raposo: O mundo é vida! O mundo é alma!
Dononça: No mundo falta calma!
Raposo: Mas é no mundo que estão as novidades.
Dononça: Eu lá quero saber do mundo?
Raposo: Mas bem que gosta de novidades.
Dononça (concorda): É... Gosto... E que novidades me trás? Você que esta sempre farejando tudo?
Raposo: Farejando tudo e ficando famoso!
Dononça: Famoso bisbilhoteiro.
Raposo: Famoso repórter no mundo dos vivos!
Dononça (ri): Ah, ah, ah! Santa vaidade! (Cantarola, trabalhando.) Laralari... Laralari...
Raposo: Pode zombar, mas eu sou o Rap Rap Rap Oso, Rap Oso. Farejo qualquer coisa por isso sou famoso!
Dononça: Lá isso é... Tem o maior nariz do mundo!
Raposo: E estou farejando...
Dononça (espirra): Aatchim!
Raposo: Saúde!
Dononça: Que dizia mesmo?
Raposo: Estou farejando algo!
Dononça (apreensiva): Esta mesmo Raposo?
Raposo (concorda): Humhum!
Dononça: Tem certeza?
Raposo: Absoluta!
Dononça: Por aqui?
Raposo (farejando): Hum, hum!
Dononça: Não vem de lá não?
Raposo: De lá onde?
Dononça: Da serra... O vento sopra de lá.
Raposo: Não, não, não! Algo por aqui Dononça.
Dononça (a parte): Aiaiaiai! Esse nariz fino... (Para o Raposo): Por aqui?
Raposo (fareja): Humhum!
Dononça (intrigada): Que é?
Raposo: Coisa boa!
Dononça: Duvido, não há nada de bom por aqui!
Raposo: Tem certeza?
Dononça: Pois claro! Não moro aqui!
Raposo: Mora.
Dononça: Não vivo aqui?
Raposo: Vive.
Dononça: Esta parte da floresta não é minha?
Raposo: É.
Dononça: Então, se digo que não há nada aqui é porque não há.
Raposo (fareja pelos cantos, seguido por Dononça que larga o tricô): Hum, hum... Hum!
Dononça: Seu nariz farejador esta enganado!
Raposo (ri, contestando): Ah, ah, ah! Não, não, não! Meu nariz esta dando sinal de novidade... Novidade há. Raposo não se engana.
Dononça: Desta vez sim.
Raposo (continua farejando): Não, não, não! Sinto algo no ar que respiro... E não suspiro!
Dononça: É espirro!?
Raposo: Não!
Dononça: É o aroma das nuvens! Olha quantas nuvens lá em cima.
Raposo: Não é de lá não, elas estão muito altas.
Dononça: É o cheiro do sol!
Raposo: Sol cheira?
Dononça (fingida): Nossa! Você nunca sentiu o cheiro do sol Raposo?
Raposo: Eu não... Acho que não...
Dononça: Que vergonha!
Raposo: Pelo que consta, o sol não cheira!
Dononça: Cheira! Pode perguntar a qualquer um!
Raposo: É pode ser... (Outro tom): Mas não é cheiro de sol que eu estou sentindo!
Dononça: De chuva?
Raposo: Ah! De chuva não é, que eu já senti o cheiro de chuva. Cheiro de chuva é diferente!
Dononça: Hum! Tem certeza de que esta cheirando?
Raposo: Nem há dúvida... E coisa muito boa!
Dononça: Ah! Já sei.
Raposo: Que é?
Dononça: O vento!
Raposo: Hum, hum! Não, não é o vento!
Dononça: Das flores?
Raposo: Não são as flores.
Dononça: As estrelas?
Raposo (procurando lembrar): Estrelas...
Dononça: Ah! Acertei?
Raposo: A senhora já viu estrelas de dia?
Dononça: É verdade... Nunca vi. Estrelas de dia a gente não vê.
Raposo: Pois então, não são estrelas... Não é nada assim do céu... Meu nariz farejador não falha: é aqui da terra.
Dononça (espirra): Aaaatchim!
Raposo: Deus te guarde!
Dononça: Obrigada... E por falar em guarda, vou guardar meu tricô.
Raposo: Espere!
Dononça: Que é?
Raposo: Que é que a senhora esta fazendo Dononça?
Dononça: Um casaco de lã para o inverno.
Raposo: Ah! O inverno demora ainda.
Dononça: Gosto de me prevenir. (Outro tom.) Não viu como já estou espirrando.
Raposo: É já reparei que a senhora esta num espirra-espirra que não pára.
Dononça: Não vou sentir no inverno.
Raposo: Muito bem, muito bem! Vou dar a noticia em primeira mão, posso?
Dononça: Que noticia?!
Raposo: Que a senhora se prepara para o inverno.
Dononça (aliviada): Ah... Onde vai dar a noticia?
Raposo: Na televisão!
Dononça: Oh, meu Deus?
Raposo: Hoje em dia todo mundo vê televisão!
Dononça (depois de guardar o tricô, apanha uma enxada e vai cultivar um canteiro): Vou ficar calada!
Raposo: Garanto que vai gostar. Todo mundo gosta de ser famoso.
Dononça: Desse jeito vou virar noticia!
Raposo: Grande noticia!
Dononça; Mas tem de ser na televisão?
Raposo: A televisão é a maior divulgadora de noticias!
Dononça: E você esta mesmo na TV, Raposo?
Raposo: Claro!
Dononça: Com essa cara!
Raposo: Com essa cara que Deus me deu!
Dononça: Qual... esse mundo esta mesmo perdido!
Raposo: É por isso que sou famoso!
Dononça (a parte): Só se for por meter o nariz onde não é chamado.
Raposo (com ênfase, como locutor de vídeo): Todos os dias no telejornal do canal Um – o meu, o seu, o nosso: telejornal canal Um! Um sempre o primeiro!
Dononça: Se tiver tempo, vou ligar pra ver.
Raposo: Se tiver tempo?
Dononça: Claro!
Raposo: Mas eu sou Raposo, o famoso repórter!
Dononça: Não duvido.
Raposo: A senhora sabia que fui eu quem transmitiu a chegada do homem à lua?
Dononça: E o homem, ficou lá ou já voltou?
Raposo: Voltou lógico!
Dononça (falsa admiração): Ah!
Raposo: Entrevistei o primeiro macaco...
Dononça: Que virou gente?
Raposo: Que voou pelo espaço!
Dononça (novamente): Ah!
Raposo: Ganhei os maiores prêmios da floresta.
Dononça (a parte): Como o maior mentiroso!
Raposo: Como o melhor repórter.
Dononça (ainda a parte): Acho que foi de melhor linguarudo!
Raposo: O melhor entrevistador.
Dononça: O melhor gabola.
Raposo: O melhor melhor!
Dononça (finge indiferença): Ora... Isso não me impressiona.
Raposo (amuado): Ah... Não me dão valor...
Dononça (afastando Raposo): Cuidado... Não vá pisar nos meus alecrins...
Raposo (zangado): Pode ficar com seus alecrins, suas verduras; vou cuidar da minha vida!
Dononça: É melhor mesmo!
Raposo (resmungando): Lidar com gente tonta é o que dá! Tomara que se embarace com o tricô! Tomara que dê um nó danado!
Dononça: Que é que esta resmungando feito velho?
Raposo: Estou filosofando.
Dononça: Ora veja!
Raposo: Fique aí tratando de seus capins...
Dononça (corrigindo): Alecrins...
Raposo: A senhora pode falar de mim o que quiser, mas eu sou o Rap Rap Rap, o Rap Raposo farejo qualquer coisa, por isso sou famoso!
Dononça (espirra): Aaaaatchim!
Raposo: Outra vez!
Dononça (persignando-se): Que Deus me proteja ou me arrebento!
Raposo: Olha que ainda estou farejando!
Dononça (conformada): Então fareja!
Raposo: Não me provoque...
Dononça (insiste): Vá, fareja! Banca o cachorro de caça!
Raposo (adverte): A senhora ainda vai se arrepender!
Dononça (impedindo que Raposo fareje no forno): Que é que vai fazer?
Raposo (inocência fingida): Farejar!
Dononça (protesta): Aí não...
Raposo (como a entender qualquer coisa): Ah!
Dononça (imita): Ah!
Raposo (sagaz): Aha!
Dononça (imita): Aha!
Raposo (apontando para o forno): Aqui tem coisa!
Dononça: No meu forno não tem nada!
Raposo: Eu acho que tem!
Dononça (pondo-se a frente, procurando afasta-lo do forno): Não tem!
Raposo (teima): Tem!
Dononça: Tem teu nariz!
Raposo (canta, teimando): Tem, tem, tem! Tem, tem, tem!
Dononça (espanta Raposo com a pá do forno): Vá farejar noutro lugar.
Raposo (deixa fugir): Ah!
Dononça: Que é?
Raposo (levando a mão no nariz): Meu nariz farejador esta dando sinal... O forno esta funcionando.
Dononça (mão na cintura): Aqui não tem nada funcionando.
Raposo (aspirando o ar): Humhum!
Dononça: Que negócio de humhum! Vamos lá, dê o fora.
Raposo: Ah!
Dononça: Que é agora?
Raposo: A senhora esta assando pão de minuto!
Dononça: Não estou.
Raposo: Torta de morango?!
Dononça: Torta é a sua cabeça!
Raposo: Humhum!
Dononça: Tire esse nariz do meu forno!
Raposo: Ah!
Dononça: Que foi agora?
Raposo: Esta assando broa de milho!
Dononça: Broa de milho teu nariz!
Raposo (sempre farejando): Humhum... Agora sei! Bolo de chocolate!
Dononça (assustada – a parte): Oh, meu Deus!
Raposo: Acertei?!
Dononça: Que bolo nada!
Raposo (insiste): É sim!
Dononça: Acha que eu ia fazer bolo de chocolate?! O rei Lê não quer bolo de chocolate no reino. É uma coisa proibida!
Raposo (teima): Mas é bolo de chocolate que tem aí.
Dononça: É nada!
Raposo: E bolo de chocolate esta proibido por lei pelo rei Lê. (Fazendo menção de abrir o forno.) Quero ver!
Dononça (afasta-o): Não vai ver nada!
Raposo: Se o rei souber!
Dononça: Você é um bobo!
Raposo: Ah, ah, ah! Adivinhei! Adivinhei! Adivinhei!
Dononça (zangada, mão na cintura): Se não for embora daqui eu não sei o que faço!
Raposo: Bolo de chocolate esta proibido há cem anos!
Dononça: Não há bolo nenhum!
Raposo: Chiiii... Se o rei Lê souber!
Dononça: Ele não vi saber de nada, porque aí não tem nada!
Raposo (desafia). Então abre!
Dononça: Não abro!
Raposo: Por quê?
Dononça: Vai esfriar. Depois eu vou ter que esquentar tudo de novo! Esquentar o forno leva muito tempo!
Raposo: Então é porque tem bolo!
Dononça (enxotando): Dê o fora!
Raposo: Abra pra eu ver!
Dononça: Vou abrir a cabeça de alguém... (Ameaça-o com a pá e corre a volta do forno.) Deixe meu forno em paz!
Raposo (de longe, em desafio): Ahahah! Tem bolo de chocolate!
Dononça (corre atrás de Raposo, que foge; depois volta): Não gosto de gente abelhuda! (Espirra.) Aaaaatchim! Que coisa! Sempre que o Raposo esta por perto me da uma coceira no nariz. Parece que ele vive soltando pêlos pelo ar! (Abre o forno e olha seu interior.) Humhum! Vai ficar bem gostoso... Minha receita de bolo de alecrim é a melhor do mundo! (Fecha o forno e vai tricotar.) Se o rei nem pode ouvir falar em bolo de chocolate, não tenho nada com isso! Quem manda ser guloso: é o leão mais guloso que já vi. (Espirra.) Aaaaatchim!! Puxa! Ainda bem que Raposo já foi embora, senão meu nariz virava do avesso de tanto atchim! (Volta a cantarolar.) Lari larilará... Duas meias... Um ponto... Outra meia, outro ponto! Larilará... Lari... (Raposo entra ser visto pela Dononça; escondendo-se aqui e ali vai até o forno).
Raposo (espiando dentro, esfrega as mãos satisfeito): Ah! Meu nariz farejador não falha! (Aspira.) Ah! Hum... Que delicia! (Exclamativo.) Ahah! Hoje no meu, no seu, no nosso telejornal do canal Um, o primeiro! A grande noticia: bolo de chocolate ameaça todo o reino. (Ri.) Ah, ah, ah... (Sai cantando.) Eu sou Rap Rap Rap, o Rap Raposo farejo qualquer coisa, por isso sou famoso!
CENA II
Lê (é gordo, denotando gulodice; sentado no trono, geme, esfregando a barriga): Aí, aí, aí! Uí, uí, uí! (Fazendo caretas, gemendo longo.) Aiii... Uiii... Uí! (Levanta andando de lado pro outro.) Como é triste ser rei com a barriga doendo... Aiii... Aiii... Uiii... Uí! (Outro tom.) Se não fosse à televisão para me distrair, não sei o que faria! (Geme.) Uiii...
Levir (tipo versátil sabe ser vulgar quando ocupa função baixa, é refinado quando em posição melhor. Entra de avental correndo, balde e vassoura na mão como se fosse faxineiro).
Lê (de mau humor): Que é que você quer aqui Levir?
Levir: Não esta me chamando?
Lê: Não... Não estou não.
Levir: Eu ouvi: uuuu...
Lê: Estava gemendo!
Levir: E para gemer precisa uivar?
Lê: Sou rei, faço o que quero.
Levir: Então de um gemido de rei!
Lê: Como é gemido de rei!
Levir: Não sei não sou rei!
Lê (desdenhando Levir): Então dou gemido de dor de barriga!
Levir: Outra vez majestade?
Lê (concorda): Outra vez!
Levir: Essa barriga não pára, não é?
Lê: Ah! Daria metade do meu reino para sarar!
Levir: Hum... (Zomba.) E alguém vai querer?
Lê: Mas é um bom reino!
Levir: E daí?
Lê: É fácil de governar... Não se tem nada pra fazer.
Levir: Por isso mesmo. Um reino tão fácil de governar que nem precisa rei!
Lê: Quer dizer então que eu sou um inútil, não é senhor faxineiro real?!
Levir (irônico): Claro que não majestade. Um reino precisa ter quem lhe dê alegria...
Lê (geme): Aiaiaiai... Uiii... Como dói!
Levir: Vossa majestade andou comendo outra vez?
Lê (confirma): É... Andei...
Levir: Bolo de chocolate!
Lê (choroso): Foi um pedacinho só!
Levir (em tom de reprovação): Ah... Esses reis não endireitam mesmo! (Outro tom.) Não sabe que dá dor de barriga?
Lê: Sei...
Levir: Mesmo assim comeu, não é?
Lê (justificando-se): Estava tão gostoso!
Levir: Pois agora gema!
Lê: Ai... Ai... Uí... Uí... E agora, que é que eu faço?
Levir: Esfrega que passa!
Lê (esfregando a barriga): Ai... Ai... Não passa!
Levir: Esfrega com força!
Lê (esfregando freneticamente): Uí, ui, ui, ui!
Levir: Melhorou?
Lê: Esquenta pra burro!
Levir: Não passou?
Lê: Ai... Esta indo... (Levir continua a limpeza, enquanto o rei vai se acomodando – à medida que a dor some, ele adormece.) Ai... Ui...
Levir (falando sozinho): É. Nunca vi tão guloso! Já sabe que bolo de chocolate da dor de barriga e fica comendo! Parece criança! Como até pelos olhos! (Outro tom.) Agora geme rei! Rei também tem barriga! (Pausa.) “Comi um pedacinho só!” Sim, garanto que comeu um bolo desse tamanho (abre os braços.) E sozinho... (Procurando pelo chão.) Será que não sobrou nada pra mim! Bem feito que deu dor de barriga!
Lê (desperta, subitamente, gemendo): Ai, ai! Ui, ui!
Levir (de um salto esta junto de Lê): Vossa majestade esta chamando?
Lê: Não estou chamando!
Levir: Eu ouvi!
Lê: Estava gemendo!
Levir: Pensei que chamava: uuuuuuu!
Lê: O que é isso?
Levir: É assim que nós chamamos alguém.
Lê: Pois então sossegue. No palácio só eu posso urrar!
Levir: Pois urre majestade!
Lê: Ai, ai! Não posso.
Levir: Esta vendo?
Lê: Acha que posso urrar, com dor de barriga?!
Levir: A gente que só urra com dor de barriga!
Lê: Ah... Queria ver se fosse com você.
Levir: Comigo nunca acontece! (A parte.) Nunca sobra um cisquinho de bolo!
Lê (fazendo careta): Ui, como dói!
Levir: Quem manda ser guloso? (A parte.) Pensa que bolo de chocolate é água? Agora geme “seu”!
Lê (chegando por trás): Que é que esta dizendo?
Levir (assustado desculpa-se): Nada majestade... O reino é vosso... Pode gemer, pode urrar... Quando quiser!
Lê: Que é que faz aí, com esse balde e vassoura?
Levir: Estou varrendo e lavando.
Lê (em dúvida, desconfiado): É mesmo?
Levir: Ou se quiser: lavando e varrendo. Ou então, se vossa majestade insiste: estou lavando e varrendo...
Lê: Aí, você me deixa tonto, Levir.
Levir (fingindo): Eu majestade?
Lê (mudando de assunto): Ah! Se eu pudesse cuidar desse palácio.
Levir: Eu cuido!
Lê: Você é um relaxado!
Levir (espanto fingido): Eu majestade?
Lê: Faz três dias que procuro aquela caixa de bolo de chocolate e não encontro!
Levir: Mas bolo de chocolate é proibido!
Lê: E daí?
Levir: Há mais de cem anos que esta proibido!
Lê: Quem proibiu?
Levir: Vossa majestade...
Lê (conformado): Proibi, mas gosto. E se gosto, mando buscar noutro lugar, se mando buscar noutro lugar, quero comer, entendeu?
Levir: Sim, majestade.
Lê: Onde esta a caixa?
Levir: Vossa majestade comeu.
Lê: Tudo?!
Levir: Tudo! (A parte.) Por isso esta com essa bruta dor de barriga!
Lê: Procurei até de baixo da cama. Nada!
Levir: Não tem mais majestade: só mandando buscar.
Lê (desapontado): Só no mês que vem parte um avião para Chocolatolândia.
Levir: Já procurou no depósito?
Lê (geme esfregando a barriga): Ui, ui, ui! Só de pensar em chocolate me dói... Ai, ai! Eu morro!
Levir: Uma dorzinha não mata.
Lê: Queria ver se fosse na sua barriga.
Levir: Vou buscar um remedinho que passa.
Lê: Que “remedinho” é esse?
Levir: Chá de alecrim!
Lê: Bah! Isso é pra criança!
Levir: É lógico. Criança vive com dor de barriga. (A parte.) Principalmente criança gulosa!
Lê (mão na barriga): Me traga logo Levir. Eu não agüento mais!
Levir (calmo): Trago já. (Enquanto o rei geme num lado, Levir diz a parte.) Tudo cai nas minhas costas. É pra limpar: Levir! Pra cozinhar: Levir! Atender a porta: Levir! Fazer chazinho: Levir! Ir à feira: Levir! Ligar a televisão: Levir! Remendar as meias: Levir! Contar historinhas pra dormir: Levir! (Pausa.) Este palácio é muito grande para uma pessoa só cuidar. Tudo eu!
Lê (geme): Ai, ai...
Levir (saindo): É pra já majestade.
Lê: Ah... Ah... (Outro tom.) A cara desse criado me da dor... Ah, ah... Esta passando... (Aliviado, cara alegre): Esta passando...
Levir (volta, trazendo o chá numa bandeja): Prontinho majestade.
Lê: Obrigado Levir amigo... (Senta-se para tomar chá).
Levir (cerimonioso): Com a televisão ligada, vossa majestade se sentirá melhor.
Lê: É mesmo. (Interessado.) Liga, liga.
Levir: Esta na hora do telejornal.
Lê: Não tem desenhos?
Levir: Ainda é cedo. Desenho só bem mais tarde da noite.
Lê (decepcionado): Ah... (Interessado.) E filme de bandido?
Levir: Também só mais tarde.
Lê: Que televisão chata!
Levir (procurando acertar a imagem na tevê): O telejornal do canal Um-o primeiro, é bom... Traz novidades.
Lê: No meu reino nunca há novidades!
Levir: Vamos ver.
Lê (aborrecido): Meu reino é chato! Não acontece nada. Nunca vi lugar mais parado do que esse.
Levir (a parte): Parado porque não é ele que se vira! Eu é que me mato de tanto trabalhar! (Noutro tom.) Fica aí, belo e folgado, comendo tudo quanto é bolo de chocolate que aparece.
Lê (pedindo silêncio): Shhh! Vai começar.
Levir (contesta): Shhh... Você.
Lê: É assim que fala com seu soberano?!
Levir (desculpando-se): Perdão majestade...
Lê (ao aparecer a imagem): Aí esta. (A televisão se ilumina ao som do prefixo do telejornal. Aparece Raposo que, solenemente, começa a locução).
Raposo: Senhores telespectadores, boa-noite.
Lê (responde): Boa-noite.
Raposo: Mais uma vez em seu lar: O meu, o seu, o nosso telejornal Quaráquaquá!
Lê: Isso é jornal ou conversa de pato!
Levir (pede silêncio): Shhh...
Raposo: Temos, nesta noite, sensacional revelação a fazer. Mas antes, porém, a mensagem de nossos patrocinadores.
Lê (protesta): Da a noticia agora!
Raposo: Primeiro a mensagem majestade.
Lê: É perder tempo!
Levir: A televisão é assim.
Raposo: Depois da propaganda, darei a noticia.
Lê: Mas é boa mesmo?
Raposo: Pra lá de boa majestade.
Lê (conformado): Então eu espero! (Raposo coloca um cartaz à frente, com a figura do produto anunciado. Uma voz feminina faz a locução).
Voz: Você é jovem?
Lê (responde): Claro que sou!
Voz: Pra frente?
Lê (mostra a barriga estufada, concorda): Olhe só!
Voz: Ou você é ainda daquele tempo que os homens falavam e os animais não entendiam?
Lê: Que nada sou moderno.
Voz: Lembre-se que de agora os tempos são outros.
Levir (a parte.) A gente trabalha demais!
Voz: Hoje me dia, já os animais falam e os homens não se entendem.
Lê (impaciente): Anuncia logo!
Voz: Já vai majestade.
Lê: Fica aí com frescura!
Voz: Já que você é moderno, pra frente, então tome chá de alecrim!
Lê: Já estou tomando!
Voz: É bom pra você é bom pra mim!
Levir (a parte): Que coisa boba!
Voz (encerrando): Chá de alecrim é o fim!
Lê (zangado): Ainda vou fazer um decreto. Na televisão só desenhos animados.
Levir: Só desenho vai enjoar... Pode até dar dos de barriga.
Lê (geme, esfregando a barriga): Ai, ai! Não fale disso!
Raposo (retornando a aparecer): E agora, a grande novidade: Num furo de reportagem nosso enviado especial descobriu que neste reino, veja bem, neste reino, estão fazendo bolo de chocolate!
Lê (pula do trono, bravo): No meu reino?!
Levir: Não acredito!
Raposo (confirma): É a pura verdade.
Levir (para Raposo): O proibido, combatido, banido, o detestado bolo de chocolate esta sendo feito?
Raposo (confirma): Exatamente!
Levir (incrédulo): No nosso reino?
Raposo: Neste reino.
Lê (interessado): Por quem? Por quem?
Levir (a parte): Quem será esse danadinho?
Lê: Diga quem é essa pessoa?
Raposo: Dononça.
Levir e Lê: Dononça?
Raposo (concorda): Humhum.
Levir: Dononça da geringonça?
Raposo: Ela mesma!
Lê (para Levir): Não é geringonça é forno.
Raposo: É no forno que ela esta fazendo!
Levir: Na floresta?
Lê: Ela não sabe que é proibido?
Raposo: Sabe.
Levir: E faz? É proibido fazer bolo de chocolate!
Lê (enquanto isso geme, esfregando a barriga): Ai, ai, ui, ui! Não falem que dói mais!
Levir (para Raposo): Você pode provar?
Raposo: Eu vi!
Levir: Olhe que se for mentira... Sabe muito bem que eu também sou o delegado deste reino, hein!
Raposo: Não se esqueçam que eu sou o Rap, o Rap Oso. Farejo qualquer coisa e por isso sou famoso!
Lê: Como dói!
Raposo: Tome um gole de água majestade.
Lê: E vou ficar com barriga de água?
Levir: Tome chá de alecrim!
Raposo (enquanto Lê toma o chá servido por Levir): E após esta sensacional noticia, encerramos o meu, o seu, o nosso telejornal.
Lê (para Levir): Chame esse camarada aqui.
Levir: Pra que majestade?
Lê: Vai ter de contar tudo direitinho.
Levir (para a televisão): O seu repórter, o rei quer falar com você.
Raposo: Agora?
Levir (ordena): Venha já!
Raposo: Esta bem, eu vou.
Levir (para o rei): Ele já vem.
Raposo (entrando): Que quer de mim?
Lê: Conta aí, como é esse negócio de Dononça.
Raposo: Já contei.
Lê: Quero ouvir tim-tim por tim-tim.
Raposo: Eu estava passeando na floresta... (Vai demonstrando e se abaixando enquanto fala.): Assim, farejando, farejando... Nariz pra cá... Nariz pra lá... Quando, de repente: pumba!
Levir: Deu com o nariz no chão!
Raposo: Comecei a sentir um cheiro...
Lê: Ah! E cheirou?
Raposo: Cheirei... (Representando.) Fui cheirando: hum, hum! Fui cheirando: hum, hum... E de repente: pumba!
Levir: Agora deu com o nariz no chão!
Raposo: Vi a casa de Dononça. Fui chegando... Farejando... Farejando e chegando... Chegando e farejando...
Lê (interessado): E daí?
Raposo: Cada vez mais perto... De repente: pumba!
Levir: Desta vez! Deu com o nariz no chão.
Raposo (para desapontamento de Levir): Vi o forno de Dononça.
Lê: E daí?
Raposo: Meu nariz começou a funcionar. Tic, tac, tic, tac, tic, tac.
Levir: É nariz ou relógio?
Raposo (continuando): Ia de um lado para o outro. Hum, hum...
Lê: Sentia cheiro de que?
Raposo: De bolo.
Lê: Que bolo?
Raposo: De chocolate!
Lê (exclama): Ah!
Raposo: Chocolate gostoso; e cheiro vinha do forno de Dononça.
Levir e Lê (ao mesmo tempo): Dononça! Quem diria!
Levir: Justo Dononça da geringonça!
Lê: Aquilo é forno.
Levir (corrige-se): Dononça do forno!
Raposo: Meu nariz não se engana. Fareja e pumba!
Levir: Nariz no chão!
Raposo (desaponta mais uma vez Levir.) Vi com meus próprios olhos. Era bolo de chocolate que estava assando. O bolo proibido.
Lê: Dononça vai ter de explicar direitinho essa historia de fazer bolo proibido. Se não... Era uma vez uma onça!
Raposo: Isso mesmo majestade, castigo nela!
Lê (para Levir): Secretario, telefone para Dononça. Quero vê-la imediatamente!
Levir (dirige-se ao telefone, disca, aguarda, e fala): Alô? Dononça? Aqui é secretario social de sua majestade, o rei Lê. (Pausa.) Como que rei!? Rei deste reino! (Pausa.) Como que reino!? A senhora vive no mundo da lua? (Pausa.) Olhe, preste atenção, eu sou o secretario do rei. (Pausa.) O rei Lê. (Pausa.) Entendeu? Bem... A senhora precisa vir urgentemente até aqui. (Pausa.) Aqui, é o palácio. Sim tem que ser agora. (Insiste.) Já! (Pausa, ouvindo para o rei.) Diz que esta ocupada.
Lê: Mas eu sou o rei! Eu mando!
Levir (no telefone): Ele é o rei. (Ouve, depois para Lê.) Diz que não tem condução.
Lê: Que tome um táxi.
Levir: Pode tomar um táxi que rei paga.
Lê (protesta): Eu não pago nada; quem paga é você.
Levir: Tudo comigo! (Ao telefone.) Mas vem logo. (Desliga.) Ela disse que num piscar de olhos estará aqui.
Lê: Se não for num piscar de olhos de bicho preguiça!
Raposo (dissimulador): Bem... Já que não precisam mais do meu nariz farejador... Acho que vou indo...
Lê: Não quer ficar?
Raposo (desculpa-se): Tenho muito que fazer.
Levir (oferece): Tome um chazinho.
Raposo (com urgência): Prefiro morrer a tomar essa água choca!
Lê: Se não quer ficar...
Raposo: Preciso ir, sabem como é a vida de repórter. A gente tem farejar aqui, farejar ali... De repente: pumba!
Levir (insiste): Nariz no chão!
Raposo: Acha-se uma boa noticia.
Levir (sem se conter): Não acerto uma!
Lê: Apareça de vez em quando, Raposo.
Raposo: Quando puder eu volto. (Sai, mas quando Dononça chaga volta às escondidas e fica ouvindo a conversa).
Lê: E Dononça que não chega.
Levir: Ela disse num piscar de olhos!
Lê: Já estou cansado de piscar e ela não vem!
Dononça (vem de chale na cabeça, avental e cesta no braço, cantarolando): Larilari larilará... (Da umas voltas em cena; depois se dirige aos outros.) Olá, cheguei! (Outro tom.) Que querem de mim?
Lê: É verdade que você esta fazendo bolo?
Dononça (fingindo): Eu?!
Levir (zomba): Não, eu.
Dononça: Fazer bolo é crime?
Lê: Bolo de chocolate é.
Dononça: De cho-co-la-te?
Lê: É.
Dononça: Eu não faço...
Lê (interrompendo): Faz sim!
Dononça: Eu?!
Lê: Não adianta fingir que eu sei de tudo!
Dononça: Se sabe por que pergunta?
Levir: Soubemos pela televisão.
Dononça: Ah! (Espirra.) Aaaaaaatchim!
Lê: Saúde!
Dononça (olhando desconfiada para os lados, enquanto Raposo se esconde): Sinto pêlo outra vez no meu nariz e não sei por que... Então foi o Raposo que contou.
Levir: Não sabe que é proibido fazer bolo de chocolate?
Lê: Que eu sou doido por chocolate?
Dononça: Todo mundo sabe!
Lê: Que quando vejo bolo de chocolate, eu quero comer?
Dononça: Todo mundo sabe!
Lê: Que nem posso sentir o cheiro?
Dononça: Todo mundo sabe!
Lê: Todo mundo. A senhora não!
Dononça: Não é o caso de derrubar o mundo. Eu fiz um bolinho “assim”.
Levir: Sabe que se o rei comer, fica com dor de barriga? Não pensa na barriga real? Por que meu bolo não faz mal.
Lê: Não existe bolo que não me faça mal. Vivo com dor de barriga.
Dononça: Meu bolo não faz mal.
Levir: Esta é contando vantagem.
Dononça: Moço, mais respeito comigo, ouviu? Nunca dei essas confianças pra me falar assim.
Levir: Sou secretario do rei.
Dononça: Secretario ou não, mais respeito.
Lê: Esse bolo é bom mesmo?
Dononça: É muito bom.
Lê: Tem mesmo chocolate?
Dononça: Muito chocolate.
Lê: Não faz mal? Não dói a barriga?
Dononça: Nem um pouco.
Lê: Não acredito!
Dononça: Não quer acreditar, não acredite. Mas palavras de boleira. Meu bolo de chocolate não da dor de barriga de jeito nenhum! Nem que coma uma tonelada!
Lê: De verdade?
Dononça: Palavra de Dononça.
Lê: Será que ela esta falando a verdade, ou é mentira?
Levir: É preciso ter certeza majestade.
Lê: Tenho uma bruta vontade de provar o bolo dela.
Levir: Se fizer mal? Pode dar uma bela dor de barriga!
Lê (concorda): É pode... (Outro tom.) Uma dor a mais, uma dor a menos... Vou me arriscar. A senhora pode provar o que diz que o bolo não faz mal?
Dononça: Posso provar!
Levir: Como podemos saber se o seu fabuloso bolo não faz mal?
Dononça: Fazendo um bolo para o rei!
Lê (interessado): Não demora?
Dononça: É rápido majestade; faço e mando entregar.
Lê: Não, a senhora mesma vai trazer.
Dononça: Tenho que trazer?
Lê: Se me der dor de barriga... (Faz um gesto como a indicar pescoço cortado).
Dononça: Pode confiar.
Levir: Ele confia a barriga não.
Lê (despedindo Dononça): Pode ir e traga o bolo.
Dononça: Quem paga a despesa?
Lê (para Levir): Tesoureiro pague a cidadã.
Levir (a parte): O pior é que é do meu bolso. (Para Dononça.) Vinte moedas dão?
Dononça: Vinte moedas eu gastei de táxi até aqui.
Levir: Por que não veio de ônibus?
Dononça: mandaram vir de táxi.
Levir (pagando): Mais cinqüenta para o bolo.
Dononça (protesta): Não, não... Para o bolo mais mil.
Levir: Mil?!
Dononça (para Lê): Então não faço bolo!
Lê (para Levir): Não seja pão duro! Pague logo mil moedas!
Levir (cede): Esta bem... Mil.
Dononça (guardando as moedas e saindo): Trago o bolo amanhã, sem falta. (Espirra.) Aaaaatchim!! Puxa vida, não é que estou espirrando outra vez?!
Lê (assim que Dononça saí): Ai, ai, ai... Eu, ui... Acho que tenho que ir lá dentro...
Levir: Não quer mais chá?
Lê (saindo em seguida a Lê, levando a bandeja): Será que o Raposo nunca da com o nariz no chão?!
Raposo (após a saída de todos, deixando o esconderijo): Ahah! Dononça pensa que vai fazer o bolo para o rei, mas esta muito enganada... (Retira-se rindo.) Ahahaha... Ahahahah!
CENA III
Diante da mesa cheia de sacos e latas, formas etc. Dononça abre uma livro à cata da receita e prepara o bolo; vez em quando da uma espiada no forno. Raposo, sem se deixar ver, ora mexe aqui, ora mexe ali, procurando atrapalhar.
Dononça (cantarolando): Larilará... Larilará... Hum... Vejamos: primeiro a página do livro... (Folheia.) Página vinte e sete... Ah! Aqui esta: bolo, bolo de chocolate. (Deixa o livro aberto e vai fechar o forno. Raposo vira a página do livro; Dononça, lendo.) Primeiro escolha uma dúzia de morangos bem maduros... Morangos?! O bolo é de chocolate! (Começa a procurar no livro.) Ah! Esse vento vai virando a página...
Raposo (vai até o forno e o deixa aberto).
Dononça (continuando): Página vinte e sete... Bolo... (Olha o forno.) Puxa vida! Eu tinha fechado o forno! (Lendo.) Primeiro um quilo e meio de manteiga... (Abre um pote e põe o ingrediente na vasilha maior, de preferência uma grande tigela): Vamos pondo aos pouquinhos... (Espirra.) Aaaatchim! (Olha desconfiada para os lados, enquanto Raposo se esconde.) É melhor fechar o forno.
Raposo (enquanto Dononça se afasta, saí do esconderijo e toma o leite que esta na mesa).
Dononça (volta cantarolando): Larilará... Larilará... (Limpando as mãos no avental.) Bem... Agora vem... (Olhando a garrafa de leite vazia.) Ué! (Verifica se ela não esta furada.) Onde foi parar o leite?
Raposo (escondido): Hi, hi, hi!
Dononça (ouvindo à escuta; depois sem desconfiar): Os passarinhos hoje estão alegres!
Raposo (continua rindo): Hi, hi, hi!
Dononça (continuando): Em segundo lugar o açúcar! (Abre várias latas à procura do que precisa, prova o conteúdo de uma delas, faz careta, cuspindo forte.) Ahah! É bicabornato puro “seu”!
Raposo (ainda ri): Hi, hi, hi!
Dononça (coça a cabeça, intrigada): Onde estará o açúcar? (Prova de outra lata.) Ah, aqui! Vamos por o quanto basta.
Raposo (enquanto isso vai por baixo da mesa e fura o saquinho de farinha, depois fica ali escondido).
Dononça (espirra): Aaaaatchim! Aaaatchim! (Exclama.) Minha nossa senhora! Meu nariz cheio de pêlos! (Olha desconfiada para os lados.) Aquele Raposo larga pêlos em todo lugar! Aaaaaaaatchim!
Raposo (ri): Hi, hi, hi!
Dononça (mão ao ouvido à escuta): Hum... A passarada hoje não pára...
Raposo (continua): Hi, hi, hi!
Dononça (continuando): Agora a farinha de trigo. (Apanha o saquinho.) Onde foi mesmo que coloquei a balança? (Procura de um lado para o outro, andando com o saquinho furado, derramando tudo.) Coloquei essa balança... Onde mesmo? (Cantarolando enquanto procura, derramando farinha pelo caminho.) Larilarálarilará... (Procura dentro do forno.) Larilarálarila... (Vai à direção da mesa, olha por baixo justo a tempo de o Raposo escapar sem ser visto.) Não esta aqui! Lariralá... (Lembrando-se.) Ah! (Vai apanhar a balança na cesta; volta para a mesa).
Raposo (rindo, vai abrir o forno outra vez): Hi, hi, hi!
Dononça (quando vai pesar, vê que o saquinho esta vazio): Ué! Quede a farinha?! (Olha à volta e para o chão.) Meu Deus! A farinha do rei toda espalhada! (Pausa.) Bom agora tenho que usar a minha farinha! (Vai até a cesta, de passagem nota o forno novamente aberto.) Onde será que estou com a cabeça? Desse jeito esfria! (Torna a fechá-lo).
Raposo (Enquanto isso, junto à mesa, enche os bolsos de ovos).
Dononça (volta com a farinha e pesa): Larilará... Lari... Lara... Dois quilos de farinha... Mas vamos devagar!
Raposo (ri): Hi, hi, hi!
Dononça (ouvidos à escuta): Não esta me parecendo passarinho!
Raposo (corta o riso, à espreita, assustado): Hum!
Dononça (voltando ao trabalho): Acho que são os ratinhos que saíram para tomar sol.
Raposo (aliviado continua rindo): Hi, hi, hi!
Dononça (espirra): Aaaaaatchim!
Raposo (deixa escapar): Deus te crie!
Dononça (desconfiada): Ué!
Raposo (Esconde-se, calado, encolhido).
Dononça (finge espirrar): Aaaaaathcim! (Não obtém resposta.) Acho que ando tonta; esse negócio de fazer bolo de fazer bolo mandado deixa a gente nervosa. (Outro tom, lendo.) Vinte e cinco ovos... Onde estão os ovos?!
Raposo (ri): Hi, hi, hi!
Dononça (depois de olhar na cesta): Aqui não estão! (Vão olhar dentro do forno.) Hum, aqui também não. (Deixa o forno fechado).
Raposo (Sem ser visto por Dononça, abre o forno e vai se esconder debaixo da mesa).
Dononça: Será que dona galinha veio buscar os ovos de volta? Não podia, ela sabe que é para o rei Lê! (Pausa.) Será que deixei debaixo da mesa?
Raposo (Assustado, faz o sinal da cruz e fica de mãos postas rezando).
Dononça (mudando de idéia): Não, não, não... Não estão debaixo da mesa – eu já olhei não tinha nada!
Raposo (Tira um lenço do bolso e enxuga o suor).
Dononça: Palavra que se não achar os ovos eu telefono para a policia e faço virar a floresta de cabeça pra baixo! Viro tudo pelo avesso. (Ameaça.) Quem pegou os ovos vai acabar frito! Frito sem gordura ainda por cima! (Indo até o forno.) Raio de forno que não fica fechado! Ta sempre de boca aberta, feito bobo!
Raposo (Aproveita para por os ovos no lugar, enquanto Dononça atende ao telefone).
Dononça: Alô? (Pausa.) Sim, é ela mesma. (Pausa.) Como vai senhor secretário social... (Outro tom.) Não é? Mas eu conheço sua voz senhor Levir! (Pausa.) Ah! Agora você esta como relações públicas... (Outro tom.) Muito bem... E sua majestade, como vai? (Pausa, ouvindo.) Ah coitadinho... Não sai do troninho?! (Outro tom.) Não tem tomado chazinho? Tem? Mas isso é bom. (Pausa.) Vai indo... Estou preparando... Demora porque tenho andado um pouco distraída. Como? Acho que é por causa da idade.
Raposo (aproveita para sair de baixo da mesa e, de passagem torna a abrir o forno).
Dononça: Fica pronto amanhã. Pode esperar, sem falta. (Pausa.) Esta bem; obrigada, muito obrigada... Tchau! (Desliga, sai cantarolando.) Larilará... (Olha o forno, desanimada, mão na cintura.) Puxa, forno, como você cansa a gente! (Deixa o forno fechado e volta para a mesa.) Ah! Os ovos. Bem no meu nariz! Desse jeito vou ter de trocar de óculos! (Vai quebrando os ovos e colocando na tigela.) Larilará... Larilará.
Raposo (Vai abrir o forno, quando Dononça se volta).
Dononça: Onde deixei acolher de pau?
Raposo (Rápido se esconde debaixo do forno).
Dononça (acha a colher): Aqui esta. (Senta-se na cadeira de balanço, defronte ao forno e começa a bater o bolo na tigela.) Agora quero ver “seu” forno, se o senhor é capaz de abrir a boca de novo! Não vou tirar os olhos daí... Nem uma vez. Nem que você se arrebente de esquentar. (Espirra.) Aaaaaatchim!
CENA IV
Sala do trono, deserta. Raposo entra arrebentado, vem cantando desafinado e se arrastando.
Raposo: Eu sou Rap Rap, o Rap Raposo... Farejo qualquer... Qua- qua- qualquer coisa... E por is- is- por isso... por isso sou fa- fa- famoso! (Deixa-se cair no trono.) Aí, meu Deus! Pareço um pato assado! Como me queimei debaixo daquele forno! (Outro tom.) A danada da Dononça ficou dez horas ali, mexendo o bolo, derretendo o chocolate... Nada de sair, eu me queimando... Ai!
Levir (entra como faxineiro, espanando a poeira, canta): É pó pra cima, é pó pra baixo, é pó pra todo lado! Se eu não fosse tão bobo, não estaria como criado!
Raposo (esconde-se): Se ele me encontrar, estou frito! (Corrige-se.) Aí, frito eu já estou!
Levir (limpando o trono): Preciso ter tudo em ordem. Dononça já esta a caminho, trazendo o bolo de chocolate. Se não der dor de barriga, o rei Lê ficará muito feliz! (Outro tom.) Sempre cai tudo nas minhas costas. (Canta.) É pó pra cima! É pó pra baixo! É pó pra todo lado! E se não fosse tão bobo! Não estaria como criado!
Raposo (depois que Levir sai): Mas o bolo ainda não foi entregue. (Astuto.) Até lá muita água vai correr... (Outro tom.) Duvido que o bolo não dê dor de barriga. O rei Lê é um barriga mole! (Nesse instante uma campainha din-don anuncia alguém à porta. Raposo se esconde depressa).
Levir (passa para atender, vestido de mordomo): Ai, ai! É um corre-corre nesta casa.
Lê (fora de cena): Vê quem é!
Levir: Já estou indo.
Lê: Se for Dononça, manda entrar que eu já vou.
Levir (resmungando): Vê quem é! Manda entrar! (Outro tom.) Gosta de mandar! Eu sei das minhas obrigações. (Ouvindo novamente a campainha.) Já vou, já vou!
Raposo (rindo, astuciosamente, esfrega as mãos satisfeito): Ah, ah, ah, ah! Ah, ah, ah, ah!
Levir (volta acompanhado de Dononça): Pode esperar que o rei já vem.
Dononça: Não demora?
Levir: Vem já, esta saindo do banho.
Dononça (com a cesta na mão): Onde deixo o bolo de chocolate?
Levir: Aí mesmo no trono.
Dononça (coloca a cesta no trono; não percebe Raposo que esta ali escondido.) Aaaaaaatchim! Aaaaaatchim!
Levir (a cada espirro): Saúde!
Dononça: Nossa! Se não estivesse no palácio ia dizer que Raposo anda por perto.
Levir: Ele não aprece aqui desde aquele dia.
Dononça: É bom mesmo. Vive metendo o nariz onde não é chamado.
Levir: Mas nunca enfia o nariz no chão.
Dononça: Seria bem feito.
Raposo (Enquanto eles conversam vai comendo o bolo às escondidas, gulosamente).
Levir (imita Raposo no modo de farejar): A senhora vê, ele vai farejando, farejando, farejando e pumba!
Dononça: Bate com o nariz no chão!
Levir (contesta): Até agora não bateu.
Dononça: Além de nariz grande, acho que ele tem boca muito grande também.
Levir: A boca?!
Raposo (Suspende a comilança; à espreita).
Dononça: E linguarudo...
Levir (concorda): Tem razão.
Dononça (outro tom): Como é o rei vem ou não vem?
Levir: Tem que vir. (Grita para dentro.) Ô rei! Vem ou não vem?
Lê (responde): Já vou!
Levir (para Dononça): Já vem.
Dononça: Espero que não demore toda vida.
Levir: Pode esperar, o rei vem logo. (Saindo.) Com sua licença... Tenho muitas coisas para arrumar...
Dononça (ficando a sós, começa a passear pela sala, cantarolando): Larilará... Lari-lará... (Curiosa vai olhando, ora aqui, ora ali, enquanto isso Raposo, comendo o bolo, vai trocando de lugar para não ser encontrado.) Larilará, larilará... Larilará, larilará.
Lê (entrando, bem arrumado, seguido por Levir em roupa bem elegante): Ora, ora... Que surpresa Dononça! A que devo a honra da visita?
Dononça: Vim trazer o bolo.
Lê (fingindo surpresa): Oh, o bolo... (Para Levir.) Ouviu caro ministro, a cidadã veio trazer um bolo para seu rei! (Para Dononça.) E que bolo?
Dononça: De chocolate!
Lê (leva a mão à barriga): Ai!
Dononça: Não foi o que combinamos? Eu faria um bolo de chocolate que não desse dor de barriga.
Lê (geme, esfregando a barriga): Ai, ai, ai, ai! Não fale que dói!
Levir (balançando a cabeça): Hoje ele esta pior...
Dononça: Mas foi ele que mandou fazer o bolo!
Lê (amuado): Puxa vida, a senhora não sabe nem brincar...
Dononça: Que brincadeira?
Lê: De rei e sua cidadã!
Levir: Como fazem os homens: o rei é tratado com respeito e os cidadãos trazem presentes.
Dononça: Ah! E rei gosta de brincar?
Lê: Quem é que não gosta?
Dononça: Então desculpe, eu não sabia!
Levir: Trouxe o bolo?
Dononça (tirando o cesto para o rei sentar): Esta aqui.
Lê (alegre, gulosamente): Ah!
Levir: É de chocolate?
Dononça (confirma): Cho-co-la-te!
Lê: Só de ouvir falar...
Levir: Da água na boca!
Lê: Da dor de barriga!
Dononça: Esse não da. É uma receita minha...
Tira o pano enfeitado e mostra a cesta ao rei.
Lê (olhando a cesta, admirado): Ah!
Dononça: Uma beleza, não?
Levir (olhando): Aqui não tem nada!
Dononça (virando o cesto): Ora essa! O bolo estava bem aqui em cima.
Lê: Tem certeza?
Dononça: Tenho sim!
Lê (desapontado): Fiquei sem meu bolo.
Raposo (escondido ri): Hi, hi, hi, hi, hi!
Dononça (ouvido à escuta): Ué... Será que os ratinhos vieram para cá?
Lê: Que fizeram com meu bolo? O bolo que eu paguei!
Levir (à parte): Quem pagou fui eu!
Dononça (removendo um segundo pano também enfeitado de dentro do cesto): Aqui esta.
Lê (exclama): Ah!
Dononça: O que estava em cima era um bolo comum.
Lê: Não era de chocolate?
Dononça: Era de chocolate, mas não era minha receita. Era um bolo que da dor de barriga. Meu bolo é este aqui (mostra) feito com minha receita.
Raposo (Começa a esfregar a barriga, aflito).
Levir (consultando Dononça): Não dói a barriga?
Dononça: Não.
Lê: Por que não?
Dononça: Chá de alecrim não é bom pra dor de barriga?
Levir e Lê (ao mesmo tempo): Claro que é!
Dononça: Então, eu misturei chá de alecrim no chocolate e fiz um bolo com chá de alecrim.
Lê: Que inteligência! (Para Levir.) Por que você nunca pensou nisso?
Levir: Eu é que tinha que pensar?
Lê: Você não é cientista real?
Levir: Já nem sei mais o que sou!
Dononça: Quem quiser, pode comer bolo que não fica com dor de barriga.
Lê (ansioso): Me da logo um pedaço.
Dononça (servindo): Coma devagar.
Lê: Não vai doer nada, não é?
Dononça: Doer não dói, mas engolir depressa faz mal.
Levir: Engasgar é pior que dor de barriga.
Lê (já com a boca cheia): Hum... É gostoso.
Dononça: Esta bom?
Lê (de boca cheia): Hum, hum.
Levir: Mastiga direito rei!
Lê: Vê se come um pedaço e não me amole.
Levir: Sou mestre de etiqueta real, exijo que me respeitem.
Lê: Exijo que comas o bolo!
Levir: Esta bem, esta bem...
Dononça: Não é uma delícia?
Lê (contente): Muito bom muito bom! (Enquanto isso Raposo continua aflito a esfregar a barriga; faz caretas de dor).
Dononça: A minha receita é boa mesmo.
Lê: A senhora até merece uma medalha. Quer saber mais? A senhora, Dononça, fica nomeada a boleira oficial do reino.
Dononça: Obrigada.
Levir (para Dononça que ia saindo): Espere!
Dononça: Que é?
Levir: Diga-me uma coisa: que vai acontecer com quem comeu o primeiro bolo? Aquele que estava aí no cesto?
Dononça: Quem comeu aquele bolo vai ficar com uma bruta baita dor de barriga!
Raposo (Nesta altura esta dando pulinhos de dor).
Lê: Bem feito!
Levir: Uma dor de barriga de arrebentar!
Raposo (não agüentando mais, geme): Ai, ai... Ui, ui!
Lê: Estão ouvindo?
Dononça: Parece uma porta enguiçada.
Lê: É gemido.
Raposo (torna a gemer): Ai, ai...
Levir: É gemido mesmo!
Dononça (espirra): Aaaaaaatchim!
Levir: Deus te salve!
Dononça: Aaaaaaatchim! Não tenho dúvidas, Raposo deve andar por aqui.
Levir: O Raposo?
Raposo (não agüentando a dor, saí do esconderijo, esfregando a barriga): Ai, ai, ui, ui... Me ajudem! Como dói! Como dói! Como dói! Ui, ui, ai, ai!
Lê: Você comeu o bolo?
Raposo: Comi, comi... (Geme.) Ai... Comi, comi...
Lê: Bem feito!
Raposo: Eu vinha farejando... Sabe majestade... Farejando e de repente: pumba!
Levir: Bateu com o nariz no chão!
Raposo (desapontando Levir): Vi o bolo. Tão bonito, tão cheiroso, tão fofinho... Não agüentei! Me deu uma baita vontade de comer... Eu comi!
Dononça: Agora agüenta guloso.
Raposo: Eu quero sarar...
Levir: Quem mandou comer o bolo que não é seu!
Raposo: Eu queria ver Dononça castigada.
Dononça (entendendo): Ah... Bem que eu ficava espirrando e não achava nada em casa!
Raposo: A, ai, ai, ai, ai... Me curem que eu não faço mais...
Lê: Promete?
Raposo: Prometo palavra.
Levir: É preciso tomar chá.
Raposo (protesta com repugnância): Não vou tomar essa água choca.
Levir: Ou toma ou fica com dor de barriga. Escolha.
Raposo (geme): Ai, ai, ai...
Levir: Como é, quer chá ou não?
Raposo (após indecisão, não contendo a dor): Ai, ai... Tomo o chá!
Levir (grita para fora): Chá para todos na sala real! (Sai correndo).
Lê (comendo o bolo, oferece): Comam... Esta uma delícia.
Dononça (comendo): E não dói a barriga.
Raposo (mão na cabeça e na barriga): Ai, não fale em barriga... (Geme.) Ai, ai, ui, ui...
Dononça (espirra): Aaaaatchim!
Lê: Saúde!
Levir (entra vestido como criado, empurrando um carrinho de chá): Chá para todos na sala real!
Lê (exclama): Levir!
Levir: Que é majestade?
Lê: Um pouco de música.
Levir (em voz alta): Maestro musica para todos! (Enquanto se servem do chá, Levir corre para o trono, apanha um microfone e um violão e se põe a tocar, todos cantam).
Coro: Viva o bolo
Viva o bolo,
Chocolate e alecrim!
Viva o bolo,
Viva o bolo,
Cantemos sempre assim.
Viva o bolo
Viva o bolo,
Chocolate e alecrim
Viva o bolo,
Cantemos sempre assim!
(O pano fecha lentamente, enquanto Dononça convida: “Venham comer... Comam bolo de chocolate!!)”
-E então? – Perguntou Karina sorrindo.
-Gostei, gostei muito – respondi também sorrindo.
-Diga uma nota de zero a dez.
-Bem – disse eu fazendo uma cara de displicência – considerando que foi você que escreveu e, por ser a primeira peça, dou nota dez!
-Credo Jéferson você falou de um jeito!
-Você sabe que é brincadeira. A peça esta ótima, agora me responde uma coisa: como é que você conseguiu escrever sem me contar nada?
-Eu queria fazer uma surpresa, de modo que pedi sigilo absoluto ao Aloísio, ele era o único que sabia.
-Ah, ta.
Fiquei em silêncio. Então o Aloísio estava por dentro do assunto, não é? Pensei. O relógio na parede marcava 16h00minh e 36 minutos. Foi o momento que a campainha tocou...
Levantei para atender ao pedido de Karina. Abri a porta e reconheci na hora que era o Aloísio. Destranquei o portão em silêncio e ele se virando falou:
-Karina?
-Olá Aloísio – falei.
-Jéferson?
-Eu mesmo.
Aloísio ficou parado. Karina surgiu na porta.
-Quem é Jéferson? – Perguntou. Antes que eu respondesse, Aloísio falou:
-Sou eu Karina.
-Aloísio! Que surpresa! Você não falou que vinha em casa hoje!
Karina se aproximou do portão lentamente. Aloísio entrou, eu fechei o portão com uma sensação estranha por dentro.
-Eu queria te fazer uma surpresa – disse Aloísio estendendo o braço para cumprimentar Karina. – No entanto, acho que cheguei em uma hora imprópria. – Aloísio beijou a bochecha de Karina e depois disparou: - O que você estava fazendo Jéferson? No caminho, eu encontrei dona Matilde, ela me disse que você estava aqui; o que exatamente você estava fazendo?
postado em 06/02/2010 às 19:20:13 na página biblioteca_ler
CAPÍTULO 13
MUITAS RISADAS
Não me lembro de ter feito outra coisa, se não gritar feito um louco. Karina segurava com toda a força na minha cintura. O vento, que parecia não existir, de repente soprava com toda a força em meus ouvidos.
-Jéferson não solta a rédea!- Gritou Karina como se eu estivesse há quilômetros de distância.
-Nós vamos cair Karina! – Gritei em pânico.
Castelinho corria no meio da estrada sem se importar com as broncas que Karina disparava.
-Esquece Karina, ele não vai te ouvir!
-Puxe a rédea! – Falou Karina.
-Se eu puxar nós vamos cair!
-Puxe a rédea mais não solte Jéferson!
-Eu não vou puxar!
O pânico se apoderou de mim por completo. Parecia não haver possibilidade alguma de Castelinho parar de correr.
-Jéferson você tem que puxar a rédea! – Repetiu Karina. Eu já estava sem saber a que distância estava da casa de Rita.
-Eu não vou conseguir! – Falei com os olhos fixos na estrada à frente.
-Se você não puxar a rédea, o Castelinho não vai parar!
-Eu não consigo!
-Consegue sim! O Castelinho não é acostumado a se afastar muito do sítio do Davi, precisamos parar!
-Eu falei que não era uma boa idéia sairmos a cavalo! Agora nós vamos cair!
-Puxa a rédea Jéferson rápido!
-Ah não, pra onde ele ta indo?!
Saímos da estrada. Passamos por uma cerca tombada; aprofundamos-nos em um pasto cheio de pés de manga e pés de goiaba – o pasto estava completamente deserto. Karina segurava em minha cintura com tanta força, que eu já estava me sentindo incomodado. A corda, em minha mão, parecia estar pegando fogo. Teve uma hora que senti o meu corpo vacilar para o lado do lombo de Castelinho, então segurei a rédea coma mais firmeza.
Havia uma cerca do lado esquerdo. Estávamos correndo muito próximo dela, até parecia que o Castelinho não estava enxergando; mais esse problema, no entanto, durou pouco, olhei para frente e vi uma fileira de pés de manga bem no caminho em que passaríamos.
-KARINA NÓS VAMOS BATER!! – Berrei desesperado.
-Bater no quê?! – Gritou Karina em resposta.
-SE ABAIXA RÁPIDO!!
Karina se abaixou no momento em que um galho passou raspando sobre as nossas cabeças.
-O QUE VOCÊ ESTA FAZENDO SEU CAVALO MALUCO!! – Explodi com raiva. Outro pé de manga se aproximava e Castelinho parecia estar indo em sua direção.
-SE ABAIXA! – Berrei novamente – outro galho havia passado.
-Jéferson, o Castelinho é...
O que o Castelinho era eu só soube minutos depois; pois Karina não terminou a frase.
-SEGURA FIRME EM MIM KARINA!! – Berrei com força. O galho que se aproximava de nós era mais baixo do que os outros e havia...
-SE JOGA KARINA, AGORA!
-O QUE ESTA HAVENDO?!
-SE JOGA!
Saltamos juntos, mas sem antes termos batido e destruído uma casa de marimbondos.
Parece incrível eu e Karina não ter quebrado nada quando fizemos contato com o chão. Porem, o galho com a casa de marimbondos não estava muito longe de nós e o enxame não era pequeno. Segurei o braço da minha amiga e corremos pelo menos uns vinte metros à frente.
-Eu não acredito no que acabou de acontecer – falei cansado e esfregando a mão no rosto e no pescoço, onde os marimbondos haviam picado. – Aquele cavalo, tão manso que até o Igor e a Renata montam quase nos assassinou!
-Jéferson eu acho que você não percebeu e eu também me esqueci de te dizer, mas o Castelinho é cego – falou Karina respirando com dificuldade e esfregando o braço esquerdo.
-O Castelinho é o que?
-Cego.
-E agora que você me avisa! – Disse eu fazendo uma careta; os lugares inchados rapidamente. – Você é cega, eu não sei cavalgar, portanto... e você me chama para montarmos e sairmos andando por aí num cavalo cego! – Dei um longo suspiro e terminei: - Francamente Karina, tivemos sorte de estarmos aqui agora, sentindo essa dor chata causada pelas picadas daqueles marimbondos e não estarmos mortos!
-Desculpa Jéferson – disse Karina dando risada.
-Do que você esta rindo?
-Você, gritando: nós vamos cair Karina! Como se cair fosse uma coisa totalmente absurda de acontecer num momento como aquele.
-Não tem graça nenhuma. Eu nunca mais monto naquele cavalo biruta!
-Aonde ele esta? – Perguntou Karina ainda dando risada.
-Não sei ele continuou correndo quando nós se jogamos – expliquei olhando para a direção que Castelinho foi.
-Você precisa trazer ele de volta Jéferson – dessa vez Karina não estava dando risada. – O Davi não vai gostar nem um pouco de voltarmos sem o Castelinho.
-Ainda mais essa!
Seguimos em frente. O meu rosto já estava inchando; Karina teve mais sorte de que eu, pois os marimbondos só haviam picado os seus braços.
Achamos Castelinho pastando perto de uma represa no meio do pasto. Karina ficou me esperando de baixo de uma sombra produzida por uma árvore. Me aproximei de Castelinho e senti o meu pé afundar no brejo que rodeava a represa. Arrisquei dar mais um passo, e quando fui ver já estava sentado sob a lama.
-Ah Jéferson, diz que você não caiu! – Falou Karina já dando risada.
-Seria feio se eu dissesse que não – disse eu me levantando, as minhas roupas estavam imundas.
-Hoje não é o seu dia Jéferson! – Debochou Karina.
-Sinceramente Karina, eu reconheço que tirei o maior sarro da sua cara no dia que eu deixei você ir da Barra - Funda a Franco da Rocha sozinha, mas eu achei que você já havia superado isso, sabe... To vendo que eu estava completamente enganado – falei sorrindo e pegando na rédea de Castelinho; que por sinal estava cheia de lama.
Quando chegamos à casa de Rita, tive que suportar as gozações de Davi e Renata. Decidi então tomar um banho demorado e tentar esquecer o ocorrido. Mas era difícil fingir que não havia acontecido nada...
Sem dúvida alguma foi o natal mais diferente da minha vida, e aquele ano tinha todos os ingredientes para se tornar um ano inesquecível.
postado em 08/11/2009 às 19:41:42 na página biblioteca_ler
Se Karina me daria um beijo eu não sei. Na verdade, a resposta para essa pergunta (sei que os leitores vão perguntarem: “Karina iria te beijar ou não”?) eu só fui conseguir muitos anos depois. Eu estaria sendo leviano se não dissesse que estávamos no clima. Mas por ironia, um grupo de garotas passou em cima de uma caminhonete naquele exato momento jogando pedaços de papéis coloridos no ar e cantando:
HOJE A NOITE É BELA,
JUNTOS EU E ELA
VAMOS A CAPELA FELIZ A REZAR.
AO SOAR I SINO,
SINO PEQUENINO
VENHA O DEUS MENINONOS ABENÇOAR:
BATE O SINO, PEQUENINO, SINO DE BELÉM.
JÁ NASCEU DEUS MENINO PARA O NOSSO BEM
PAZ NA TERRA PEDE O SINO ALEGRE A CANTAR,
ABENÇOE DEUS MENINO ESSE NOSSO LAR!
-Nossa, o pessoal aqui adora cantar, não é? – Comentou Karina. Não sei se foi impressão minha, mas tinha um quê de desapontamento em sua voz.
-É parece que gostavam sim – disse pensativamente.
Depois disso, retornamos a casa de Rita. Conforme eu previra, a ceia de natal estava repleta de delicias caseiras. O melhor a se fazer era provar de tudo em pouco; nunca repetir as mesmas coisas, pois você corria o risco de não saborear nem metade das guloseimas. Parecia uma tradição do assentamento, cada família passava na casa de Rita para provar um pouco dos doces.
-O natal aqui é compartilhado com todo mundo – falou Davi comendo um espetinho de lingüiça. – Deveria em todo lugar! O povo tem que compartilhar o renascimento, o amor e paz!
A meia-noite o céu se iluminou com os fogos de artifícios. Ao longe um sino deu as suas badaladas. Abraçamos-nos desejando feliz natal e comendo panettone começamos a abrir os presentes.
No dia seguinte, eu e Karina tivemos o privilégio de levantar às dez da manhã. Isso porque só fomos deitar às quatro horas da madrugada. Rita estava na pia lavando uma enorme quantidade de louças sujas, enquanto Renata limpava o chão. Tomei uma xícara de café junto com Karina e saímos para o quintal. Davi já estava preparando a churrasqueira para assar mais carne.
-É uma pena que o revellion não seja como o natal – disse Davi depois de um breve comentário sobre a noite passada. Do dia vinte e oito em diante aqui vira um deserto. Todos vão para as cidades grandes, ver os fogos que demoram doze, quinze minutos de duração.
O fogo ficou bem aceso na churrasqueira. Estava pronto para receber os espetos.
-Davi, e o Castelinho? – Perguntou Karina bebendo refrigerante.
-O Castelinho esta bem, continua esbanjando saúde – completou Davi radiante.
Olhei de Karina para Davi sem entender nada.
-Onde ele esta? – Perguntou ainda Karina.
-Lá embaixo, perto do rio. Leva ela até lá, Jéferson.
-Até aonde?
-Aqui ó – explicou Davi indicando os pés de amora. – Você atravessa toda a lavoura de amora e segue o pasto até o rio, o Castelinho ta lá, pastando.
-Ah o Castelinho é um cavalo! – Conclui.
-Isso mesmo – confirmou Karina – vamos lá.
-Guiei Karina pelo caminho que Davi me mostrou. Chegamos perto de um rio estreito. E às margens do rio um cavalo marrom pastava tranquilamente. Karina se aproximou do animal e passou a mão de leve no tronco dizendo:
-Lembra de mim Castelinho? Sou eu a Karina, como você ta?
Eu também toquei de leve nos pelos do cavalo enquanto ouvia Karina dizer que montara no Castelinho da ultima vez que visitara a sua prima. Renata chegou minutos depois trazendo a cela do cavalo.
-Foi o pai que pediu pra eu trazer a cela – falou olhando pra mim – obviamente você vai montar né?
-Não – me apressei a dizer – eu não sei montar.
-Mas eu sei – disse Karina. – E já que a Renata trouxe a cela, nós dois vamos montar.
-Nós dois?! Olha Karina, eu não acho uma boa idéia!
-Não precisa ter medo Jéferson – declarou Renata.
Um pouco desconfiado, aceitei montar no Castelinho. Renata preparou as rédeas, posicionou a cela no lombo do animal e falou:
-Pronto, pode montar.
Meio sem jeito, montei no Castelinho. Renata me deu as rédeas e ajudou Karina a montar.
-Eu ainda acho que não é uma boa idéia – falei quando Karina passou os braços na minha cintura.
-Larga de ser medroso Jéferson – retrucou ela mandando o Castelinho ir.
-Até a volta! – Gritou Renata sorrindo.
Castelinho foi indo devagar pelo pasto.
-Deixa a rédea um pouco larga – pediu Karina. – Agora pode ficar tranqüilo que o Castelinho conhece tudo aqui.
-Eu não estou me sentindo bem guinado o Castelinho – confessei. - É a primeira vez que eu cavalgo!
-Sossega Jéferson. O Castelinho é um cavalo manso, até o Igor e a Renata montam nele.
Conforme os minutos foram passando eu comecei a me sentir mais confiante. Em um determinado momento, Castelinho parou e Karina disse para eu soltar mais a rédea e mandar ele ir.
-Vai, vai Castelinho, vai! – Ordenei. Castelinho recomeçou a andar.
Saímos então em uma estrada rodeada de eucaliptos. Mesmo aquela manhã o sol já estava forte, contudo as sombras dos eucaliptos não permitiam que o sol chegasse à estrada. Karina encostou o rosto nas minhas costas e ia dizendo que chegou a pensar que jamais andaria a cavalo novamente... Eu estava gostando daquele momento; quem nos visse juntos não era capaz de dizer que um dia Karina propôs que fossemos apenas colegas...
Estava bom demais pra ser verdade. Eu deveria ter imaginado...
Foi numa curva. Havia uma densa vegetação... Castelinho se assustou com uma caminhonete que vinha a toda arrancando poeira da estrada. E Castelinho imitou a caminhonete: disparou na corrida.
publicado por: cleudismar da silva
postado em 18/10/2009 às 14:30:14 na página biblioteca_ler
Disparei alguns desaforos para o resto do trem que eu consegui ver antes de me dar conta do mico que eu estava pagando. Cheguei a conclusão que um mico era pequeno; um King - Kong, era isso que eu havia acabado de pagar.Veio então o desespero. Karina jamais havia andado de trem sozinha, ela jamais praticara o caminho do centro de Franco da Rocha a sua casa, no Jardim Progresso. Pensei em ligar para dona Matilde – mudei de opinião em seguida, pois não queria que ela se apavorasse, além do mais eu não estava disposto a perder o próximo trem, por isso fiquei ali na plataforma me recriminando por ter deixado aquela situação acontecer.A primeira coisa que eu fiz ao sair da estação em Franco da Rocha for ir o mais depressa possível à casa dos Toledos. Sem saber direito o que dizer a Karina e dona Matilde apertei a campainha e fiquei esperando alguém me atender.-Olá dona Matilde – falei completamente sem jeito quando a mãe de Karina surgiu na porta. Parecia muito séria.-Jéferson! Que surpresa te ver aqui há essa hora!Algo na maneira com que dona Matilde pronunciou essas palavras me deixou com a estranha sensação de que eu estava diminuindo e dona Matilde crescendo mais do que o normal.-Não estou entendendo o motivo da surpresa em me ver aqui – falei sem convencer.-Ah, porque eu achei que hoje você estaria muitíssimo ocupado, que nem iria se lembrar de algo assim... como trazer a minha filha até aqui em casa, conforme foi combinado.-Peço desculpas dona Matilde, é que eu tive um contratempo...-Entre Jéferson, a Karina esta na sala esperando uma explicação sua.Quando entrei na sala, avistei Karina sentada trajava a mesma roupa de horas antes.-Karina eu sinto muito pelo que aconteceu – disse eu me sentando. Dona Matilde sentou-se do lado da filha, ambas de frente pra mim.-O que foi que aconteceu Jéferson? Eu tive que ligar para a minha mãe ir me buscar na estação, e se não fosse pela boa vontade de algumas pessoas a minha mãe teria que ir me buscar na Barra Funda!Também não gostei do tom de voz de Karina. A situação estava complicada pra mim.-Então Karina – iniciei – aconteceu que eu tive um contratempo...-Contratempo não! – Rebateu Karina indignada. – O que aconteceu foi que você esqueceu do combinado entre a gente; foi uma tremenda sacanagem, isso sim! -Não foi sacanagem, eu nunca ia imaginar que a...-Da próxima vez eu vou com qualquer outra pessoa menos com você!-Também não é bem assim Karina, eu tive um motivo para te deixar vir embora sozinha.-E você é capaz de me dizer qual é esse motivo?-É o que estou tentando dizer, mais você não me deixa falar.Com calma expliquei o encontro com Anita e como eu perdi o trem...-Quer dizer que você me “perdeu” de vista por causa dessa tal Anita? – Ironizou Karina.-De certa forma sim – confirmei.-Vamos fazer o seguinte: a mãe vai voltar a ser a minha acompanhante e você fica com a Anita certo?Se a situação fosse outra eu teria ficado feliz com aquela pequena demonstração de ciúmes que Karina manifestou.Esse pequeno desentendimento logo desapareceu até que comecemos a dar boas risadas do ocorrido. Na outra vez que Karina tentou vir da estação Marechal Deodoro a Barra Funda de metrô, dona Matilde a acompanhou, pois eu não pude ir; tive que trabalhar.No dia dezenove de dezembro, Karina manifestou o seu desejo de ir visitar a sua prima que morava no interior do estado de São Paulo.-Eu estou devendo uma visita pra ela Jéferson – disse Karina – prometi que iria a casa dela com mais tempo. A última vez em que eu fui a casa dela ia fazer um mês que eu e o Fabiano estávamos casados.Surgiu um silêncio melancólico após as últimas palavras de Karina. Enquanto pensava em até quando teríamos que suportar aquela situação constrangedora todas as vezes que pronunciávamos o nome do Fabiano, perguntei:-Qual é nome da cidade?-Teodoro Sampaio, a casa dele não é bem na cidade é num sítio – respondeu Karina parecendo contente com a mudança de assunto. – Na verdade é um assentamento; é bem legal lá, tenho certeza que você vai gostar.-E quando partiremos?-Depois de amanhã à noite.Aquele convite me deixou bastante empolgado, porque desde que o avião caiu eu não havia sentido mais vontade de fazer alguma viagem longa. E depois também, seria o terceiro natal seguido que eu iria passar em Jundiaí, então era hora de variar um pouco.Tranquilamente arrumei as minhas bagagens. Estava levando mais roupas de calor, pois segundo Karina o sol era forte aquela época do ano na cidade.Durante a viagem, Karina foi me contando que estava querendo trabalhar e fazer uma mudança radical em sua vida. Para mim essa “mudança radical” já deveria ter acontecido, a Karina havia sim feito grandes progressos durante o ano todo, mas sempre com um empurrãozinho de alguém, já estava na hora de Karina dar um passo sem estar apoiando em nada.Conforme as horas foram passando, as paisagens foram se modificando até ficar em definitivo os pastos com gados e algumas plantações de milho. Era a primeira vez que eu visitava o interior e pelo que eu estava vendo pela janela do ônibus, o interior não era cheio de mato como eu ouvira falar. O contraste do verde dos pastos com as terras vermelhas e o branco dos gados, formava uma bela imagem. Hora e outra podia ver ao longe pequenas casas de madeiras.Quando chegamos a Presidente Prudente embarcamos em um micro-ônibus que nos levaria até Teodoro Sampaio, de lá, pagaríamos uma perua para o assentamento onde a prima de Karina morava. Andamos cerca de uns quatro quilômetros no asfalto e depois mais dois em estrada de terra. Passamos por uma placa onde estava escrito: “ASSENTAMENTO CHEGUE-VARA”.A casa da prima de Karina não era muito diferente das outras casas que avistei no caminho até ali. Era feita de madeira – com exceção do banheiro e da cozinha, que eram de tijolos – na frente havia uma pequena área com quatro cadeiras e varias samambaias plantadas em vasos coloridos. Assim que eu entrei com Karina no quintal, uma pequena cachorra preta veio latindo a abanando a calda como se já nos conhecêssemos.-Entrem e fiquem a vontade – disse Rita.A prima de Karina era uma mulher de trinta e cinco anos, tinha os cabelos cortados em chanel com alguns fios ruivos e a pele bem morena.-Então é você, o famoso Jéferson? – Perguntou após me servir um copo de suco.-Bem, não sei quanto ao famoso, mas o Jéferson sou eu sim – falei sorrindo.Pouco depois chegou Davi, marido de Rita com a filha mais velha Renata e o caçula Igor. Gastamos então o resto da manhã falando da queda do avião e das dificuldades e conquistas de Karina como deficiente visual.Surpresa mesmo foi na hora do almoço. Rita preparou um verdadeiro banquete: arroz à grega com frango no meio, feijão com pedaços de lingüiças no meio, asas de frango empanado, carne de boi cozida com cenoura e chuchu, molho de salsicha e salada de tomate com alface. Sem contar que na última hora, Davi pediu que Renata fosse comprar refrigerante na mercearia; estava tudo uma delícia, nunca me lembro de ter comido tanto!-Vocês me desculpem – falou Rita minutos depois de tirar os pratos da mesa – mas eu só consegui fazer gelatina com creme de leite de sobremesa.Comecei a imaginar como seria a ceia de natal daquela família.À tarde, andei um pouco pelo assentamento. Pelo que pude perceber, a maioria das famílias dali sobreviviam de suas lavouras e do bicho-da-seda, pois, cada casa tinha um galpão e uma plantação de amora do tipo próprio para criar o bicho-da-seda.Karina preferiu ficar junto com a prima em casa. Davi se encarregou de me apresentar as outras pessoas e me mostrar às riquezas naturais daquele lugar.No dia seguinte a agitação tomou conta do assentamento Chegue-Vara. Por todas as redondezas, era possível ver grupos de homens matando porcos; crianças e mulheres correndo atrás de galinhas e som ligados em música sertaneja, outros em músicas natalinas. Aquela sem dúvida alguma foi a véspera de natal mais diferente que eu presenciara em minha vida.Enquanto eu ajudava Davi a preparar as mesas do lado de fora da casa, Rita e a filha Renata iam preparando as comidas. Algumas pessoas, que eram conhecidas de Karina, vieram conversar com ela, notei que para aquelas pessoas simples, Karina era uma espécie de celebridade, com a diferença que ela não estava gostando daquela situação.Entrementes, a noite chegou para por fim as expectativas de todos. E no meu caso, trazer muitas surpresas.Acontece que Davi fez questão me mostrar somente o lado norte do assentamento, onde se localizava uma pequena cachoeira e um lago com patos nadando tranquilamente. O lado sul, pra mim, era completamente desconhecido e naquela noite de vinte e quatro de dezembro, chamei Karina para passearmos um pouco. Já passava das vinte horas quando rumamos para o lado sul.Havia um movimento grande por toda a rua. Fiquei imaginando o que estaria causando tamanha euforia. Mas era uma euforia alegre, era um clima gostoso. As pessoas que passavam por nós desejavam boa-noite, coisa tão rara em Jundiaí, até mesmo na noite de natal. Alguns casais andavam pela rua comentando os enfeites natalinos das casas, enquanto que várias crianças corriam pela rua. Fui dizendo isso à Karina, que ressaltou ainda, o fato de que toda aquela gente, um dia, foi chamada de sem-terras.Karina ia me perguntando as coisas e eu ia dizendo com calma... Três garotos aparentando ter uns cinco ou seis anos, veio em nossa direção e falou:-Ela é cega?-Claro que é - disse um dos garotos com os olhos fixos em Karina antes que eu respondesse. Logo em seguida, na esquina, apareceu um outro garoto e o grupo que estava perto de nós se espalhou em várias direções correndo. Mais à frente, um outro grupo de garotos e garotas pulava cantando:MARCHA SOLDADOCABEÇA DE PAPEL,SE NÃO MARCHARDIREITO, VAI PRESO NO QUARTEL;QUARTEL PEGOU FOGO, FRANCISCO DE SINAL:ACORDA, ACORDA, ACORDA BANDEIRA NACIONAL!!Chegamos então em uma descida. E estávamos diante de algo maravilhoso. De cada lado da rua havia um pé de pinheiro plantado e eles estavam todos enfeitados; era uma espécie de árvore de natal real. Quando um ascendia o outro apagava. Um lona transparente cobria o pedaço de rua; havia desenhos de diferentes cores na lona como sinos e estrelas. Em meio ao caminho, vários presépios todos completos em seus detalhes. E por fim, uma enorme árvore de natal feita de garrafas pet, do lado direito, um papai-noel fazia a alegria da garotada.-É incrível! – Exclamei. – Sabe Karina, eu desejo do fundo do meu coração que você estivesse enxergando, para ver como esta bonito aqui! -Esta maravilhoso! – Falou ela. Fiquei em silêncio, então ela completou: - Posso imaginar como esta bonito essa parte da rua...-É a primeira vez que você fica sem ver as luzes de natal, não é? – Disse eu triste.-Sim.Karina respondeu tranquilamente.-Eu sinto muito – acrescentei.Alguém soltou fogos de artifícios não muito longe de onde estávamos. Os coloridos dos fogos iluminaram por uns segundos a escuridão da noite.-Tudo bem – retomou o assunto Karina. – Eu agora estou enxergando com o coração... Importante é que eu estou aqui, viva, para sentir a alegria que é o natal! Pra mim não mudou nada; o natal continua sendo motivo de paz, união, esperança, alegria... renascimento... amor...perdão...Outros fogos brilharam na noite. Eu estava bem próximo de Karina. Podia até sentir o seu cheiro. Percebi então que ela estava como a Karina de antes do acidente. Os seus cabelos estavam soltos e à leve brisa mexiam-se rapidamente. O seu rosto estava lindo – as cicatrizes já estavam sumindo, umas nem davam mais pra ver. A Karina estava linda.-Jéferson...Karina ergueu a mão direita lentamente. Com suavidade tocou em minha face. Vieram mais fofos... Ao longe, uma voz feminina cantava:NOITE FELIZ...NOITE FELIZ...A mão de Karina deslizou até a minha boca. Estávamos muito próximo um do outro...publicado por: cleudismar da silva
postado em 26/09/2009 às 19:51:26 na página biblioteca_ler
O silêncio que se estendeu após a minha pergunta foi maior do que quando eu disse que não sairia dali sem ouvir uma resposta de Karina. Até a banda havia parado o show e formavam um círculo e falavam em voz baixa. Por todo o bar só o que se ouvia era murmúrios e a mesa em que eu estava com Karina parecia ser a única a não emitir som alguma.
-Jéferson... – iniciou ela, mais parou em seguida. A banda Ponto de Vista parecia finalmente ter chegado a um acordo sobre a próxima música a ser tocada. Bruno começou e depois Michele o acompanhou:
EU TENHO TANTO PRA LHE FALAR;
MAIS COM PALAVRAS NÃO SEI DIZER;
COMO É GRANDE O MEU AMOR POR VOCÊ...
-Jéferson, eu...
-Karina, eu só preciso que você me entenda e me perdoa pelo que te fiz – interrompi-a pegando em sua mão. – Eu só queria que você soubesse que quando eu te beijei não foi pra te ofender, não foi com a intenção de... não foi com a intenção de ferir os seus sentimentos. Eu só queria mostrar que eu estava ali, com todo o meu amor para lhe oferecer, talvez tenha parecido egoísmo meu, mas a minha intenção não era essa. Por isso eu vim até aqui, pra te pedir perdão.
Senti a minha boca seca e o coração bater acelerado. A banda continuava o show e ninguém parecia notar a tensão que se apoderou do meu ser naquele instante.
-Jéferson, eu não quero te enganar – disse Karina um pouco baixo do que o normal. – Eu não quero me enganar... – Karina fez uma ligeira pausa, em seguida completou: - E é o que vai acontecer se eu disser que te perdoei.
Baixei a cabeça. Só então me deu conta de que eu continuava segurando a mão dela. Soltei-a.
-Puxa Karina – falei – você não era assim; nunca foi de guardar rancor.
-Não se trata só de guardar rancor Jéferson. Aquele beijo foi em uma hora muito complicada pra mim. Semana que vem o ano que vem, talvez, eu possa te perdoar, mas hoje, hoje eu posso te perdoar, eu não tenho condições.
-Então esse é o fim da nossa amizade?
Karina deu um longo suspiro antes de responder.
-Eu reconheço que você tenha feito aquilo para demonstrar o seu amor, mais poderia ter sido em um outro momento... A gente pode sair juntos conversar... mais só como colegas, porque o posto de meu melhor amigo, você perdeu... junto coma a confiança e a admiração que eu tinha por você.
-Não acha que esta sendo radical demais? – Falei quase num sussurro.
-Estou fazendo o que eu acho justo Jéferson. Se você gosta realmente de mim vai me entender.
Fiquei em silêncio. Na verdade aquele não era um preço alto a ser pago.
-Certo – disse eu me levantando. – Vamos continuar sendo apenas colegas.
-Que bom que você entendeu – declarou Karina parecendo contente. – Agora, por favor, me deixe assistir- figurativamente- o show – encerrou-a voltando a beliscar a batata frita.
Afastei-me de Karina. Cheguei ao balcão e pedi uma coca-cola. Tomei ali mesmo, olhando para Karina e ouvindo a voz de Bruno e Michele cantando:
MAIS NÃO SE ESQUECE NEM UM SEGUNDO;
QUE EU TENHO AMOR MAIOR DO MUNDO...
Depois disse, ficou estranha a situação da minha vida. Quando saímos juntos eu e Karina passávamos a maior parte do tempo em silêncio, era como se a fase deprimente de Karina após o acidente estivesse voltado. Mas o grande responsável pelo silêncio era eu, que tinha medo de falar alguma coisa e Karina não concordar. De fato, alguma coisa se quebrara em nossas vidas e não adiantava tentar consertar.
Havia também uma garota chamada Anita que, conforme fui informado, estava interessada em mim. Eu bem que estava desconfiado, porque todos os dias ela passava em frente da secretaria junto de suas amigas para me dizer “oi Jéferson”. Ela era bonita e educada, mas eu não achava que ela queria algo sério comigo, por isso não dava muita importância. Acontece que a Anita descobriu –não sei como- aonde era a minha casa e foi lá me buscar para ir ao cinema. Como eu não estava mais visitando Karina com tanta freqüência, resolvi aceitar o convite de Anita. Não posso negar, eu me diverti bastante, embora sempre me lembrasse de Karina. No meio do filme nós nos beijamos...
Mas logo, uma dúvida nasceu dentro de mim: por que eu tinha tanto medo de me envolver com Anita? Afinal eu era um homem livre e Anita também, além de ser adulta. O problema é que de alguma forma eu estava sempre ligado em Karina. E não demorei a perceber, Karina começou a agir como se nada tivesse acontecido entre nós dois. Ela não me perdoara pelo beijo, mas agia como se tivesse perdoado... Mulheres, sempre complicadas!
O fato de Karina estar andando sozinha na rua de sua casa deixou transparecer o preconceito existente na sociedade. Karina era vítima de brincadeiras e comentários dos marmanjos que não tinham o que fazer.
-Não liga não Karina, no começo é assim mesmo - dizia Michele.
Karina estava bem adepta ao “mundo dos cegos”. A sua audição começou a funcionar como um radar, capaz de ouvir qualquer ruído que fosse.
No final do mês de novembro de 2003, eu fui pela primeira vez, no instituto como acompanhante de Karina ver as suas atividades como voluntária na brinquedo teca.
A sala que abrigava a brinquedoteca, era extensa com cinco mesas quadradas juntas, formando um enorme balcão. Havia ali varias crianças cegas, todas elas entretidas com alguma atividade. Mas o que me chamou mesmo a atenção foi um garoto negro de mais ou menos uns sete anos, ele fazia um passarinho com um sul fite – ao final, garoto segurou na cabeça do passarinho com a mão esquerda e com a mão direita segurou a calda do pássaro que ao ser puxado abria as asas.
-Ele tem oito anos e se chama Elias – falou Karina depois de consultar a professora Sonia, responsável pelas crianças. – Ele perdeu a visão há um ano...
-Incrível como ele dobra a folha com facilidade – comentei admirado.
-A Sonia tava me falando – disse ainda Karina – que tem muitas crianças talentosas aqui. Tem a Roberta e a Natalia que fazem balé, elas já até se apresentaram no centro cultural de Pinheiros.
Mas a brinquedoteca não era só um lugar de fazer origamis e brincar. Ali as crianças aprendiam a conviver entre outras crianças, estavam aprendendo a respeitar a deficiência do outro e a encarar os obstáculos da vida. Como dizia a professora Sonia: no rosto de cada criança daqui, vejo um futuro brilhante.
-Jéferson eu quero te mostrar uma coisa.
Karina estava andando com a bengala do meu lado. Eu não me lembrava direito em que andar ficava o refeitório, por isso não estranhei quando nos dirigimos por um corredor aparentemente deserto.
-Agora nós vamos de elevador – disse Karina toda misteriosa.
-Só que... hum, Karina nós vamos entrar no elevador de serviço? – perguntei parando de andar.
-Confie em mim – declarou ela sorrindo.
Quando descemos do elevador rumamos à esquerda em um corredor com apenas duas portas; no caminho, encontramos com funcionários empurrando um carrinho de lixo. Eu já estava quase perguntando a Karina o que ela pretendia me mostrar, quando o corredor chegou ao fim. Uma porta de vidro finalizava o corredor, atravessamos ela fomos sair em uma pequena sala que era guardado os mantimentos da cozinha.
-Tem uma porta a direita, não tem? – perguntou Karina que parecia estar se divertindo com aquela situação. E de fato havia sim uma porta a direita quase do mesmo jeito da porta anterior, só que um pouco mais estreita. Atravessamos a porta e para a minha surpresa, fomos sair no refeitório.
-O que você achou da passagem secreta para se chegar até aqui? – perguntou Karina.
-Legal, como foi que você descobriu?
-Dora uma colega minha me ensinou o caminho.
-Bacana, chega rapidinho aqui.
O refeitório era um aposento grande e com uma extensa mesa central.
-Legal te ver assim, feliz – disse eu mais tarde enquanto saboreávamos uma deliciosa macarronada com sardinha no meio. – Estamos aí na última semana de novembro, o fim do ano esta chegando... Aconteceram tantas coisas este ano, não é?
-Sim – confirmou Karina limpando a boca com o guardanapo. – Esse é um ano que jamais eu vou esquecer.
-Eu acho que você tem razão, esse ano foi um ano diferente dos outros.
Ficamos conversando sobre as expectativas do próximo ano que viria e eu querendo perguntar se ela me perdoava pelo beijo, mas me faltava coragem.
-Eu talvez não tivesse chegado aqui se não fosse pela minha família, pelos meus amigos... e claro, por você. Vou lhe ser grata Jéferson pelo resto da vida.
Essas palavras afastaram de vez a possibilidade de tocar em um assunto tão constrangedor como aquele...
Na primeira semana de dezembro a professora de mobilidade de Karina lhe propôs o seguinte desafio: Karina teria que ir sozinha do instituto até a sua casa em Franco da Rocha.
-Professora, ir até a estação, pegar o metrô, depois o trem sozinha, sozinha, ou sozinha, sozinha? – exigiu saber Karina nervosa.
-Sozinha, sozinha – brincou a professora.
-Ah, eu acho perigoso – confessou Karina.
-Não é tão perigoso – explicou Ilda. – Olha só, você vai sozinha, mas o Jéferson pode ir um pouco distante de você, pelo menos até você descer do metrô; no trem vocês embarcam juntos. Na próxima vez, vocês embarcam juntos no metrô e quando for entrar no trem vocês se separam combinado?
-Combinado, Ilda.
-E então Karina, você topa o desafio?
Karina respondeu um “sim” meio inseguro, porém ela sabia que iria chegar um dia em que teria de fazer aquilo.
Na semana seguinte, depois que nos despedimos do pessoal do instituto, Karina se adiantou a minha frente para ir à estação de metrô Marechal Deodoro. Embora eu tivesse dito um monte de coisas para tranqüilizar a minha amiga, não podia deixar de sentir um nervoso dentro do peito. As ruas de São Paulo eram cheias de armadilhas e Karina representava uma presa fácil; contudo era de extrema importância que ela se tornasse uma pessoa independente.
Karina não teve muita dificuldade na calçada do quarteirão do instituto, uma vez que o piso direcional ajudava bastante. Ao chegar ao cruzamento, Karina bateu varias vezes a bengala no mastro do semáforo para ter certeza se era ali mesmo afixa de pedestres. Com o coração batendo um pouco acelerado, eu vi Karina baixar a cabeça e deixar a bengala junto do corpo. Aproximei-me lentamente do semáforo. Nesse momento, surgiu uma senhora e quando o semáforo ficou vermelho ela ajudou Karina a atravessar. Eu estava me sentindo estranho fazendo aquilo: deixar minha amiga “se virar sozinha”.
Até entrar na estação do metrô, Karina deu muitas trombadas em placas, postes, orelhões e até mesmo em pessoas distraídas que circulavam pela calçada. Quando finalmente ela chegou a estação, novamente a sorte esteve do seu lado: um guarda da estação a levou até a plataforma e ficaram esperando o metrô conversando. Tive que redobrar a minha atenção, pois a plataforma estava lotada, e eu teria que me juntar à Karina quando fossemos descer na estação Barra-Funda. Fiquei bem próximo dela; podia até ouvir o guarda dizendo as precauções que Karina teria de tomar todos os dias em que fosse embarcar no metrô ou no trem sozinha.
Quando o metrô chegou e abriu as portas, ocorreu aquele empurra-empurra tradicional de sempre... Assim que entrei localizei um rapaz guiando Karina até um lugar vazio. A minha posição não era muito favorável; tive de aproximar de Karina pedindo licença para as pessoas – não consegui chegar tão perto conforme eu esperava. Já estava começando a entrar em pânico... Na hora de descer, novo empurra-empurra. O mesmo rapaz que levou Karina ao lugar vazio assim que entramos no metrô a ajudou a descer...
-Karina! Karina!
Gritei já fora do metrô. E foi nesse momento que aconteceram varias coisas.
-Jéferson, você por aqui?
Olhei para o lado e me deparei com Anita e as suas amigas.
-Oi pra vocês! – falei procurando Karina. Localizei-a na escada rolante ao lado do mesmo rapaz. Fui em direção a escada rolante. Anita bloqueou o caminho dizendo:
-Espera Jéferson, vamos conversar! Eu e minhas amigas estávamos planejando ir ao Memorial da América Latina, vem com a gente!
-Olha Anita, agora não da, eu estou um pouco com pressa! – ao pronunciar essas palavras, eu consegui chegar à escada rolante; já não era mais possível ver Karina, que provavelmente estaria apavorada com aquela situação.
-Jéferson, o que esta havendo?- perguntou Anita dois degraus a baixo do que eu estava. – Puxa você nem me beijou quando me viu, aliás, nem sequer olhou nos meus lhos!
Quando eu saí da escada, em meio a varias pessoas, consegui vislumbrar Karina fazendo a transferência do metrô para o trem. Parei rapidamente e disse a Anita:
-Sinceramente Anita, agora eu não posso te dar atenção, esta bem? – e comecei a caminhar. Anita ia do meu lado perguntando:
-Jéferson, o que esta acontecendo?
-A Karina vai me matar! – deixei escapar.
Passei pela catraca quase correndo; Anita vinha logo atrás...
-Quem é essa Karina? – tornou a perguntar Anita se esforçando o máximo para andar rápido e falar com a voz firme.
-É uma garota – respondi me aproximando da escada que dava para a plataforma destino Francisco Morato.
-E ela é mais importante do que eu, Jéferson?
-Sim – falei sem pensar.
-É Jéferson?!
-Sim, a Anita é uma garota especial! – repeti sem pensar.
-Especial?!- Anita parou parecendo enterrar os pés no chão.
Só então percebi que tinha falado besteira. Ainda tentei consertar, mas acho que piorou foi mais.
-Ela é especial por que...
-Não precisa me dizer por que essa tal Karina é especial Jéferson! – rebateu Anita agora parecendo uma onça. – O nosso rolo termina aqui!
-Não é nada disso Anita, você entendeu tudo errado! – gritei, mas logo me calei, pois as pessoas me olhavam de maneira estranha e Anita já havia me dado as costas. Chamei-a para tentar explicar o que estava acontecendo, mas ela nem ligou... Nesse momento, escutei uma campainha e antes que eu desse um passo à frente, o trem deixou a plataforma levando a minha amiga cega embora e me deixando ali, sem saber o que fazer.
editado por: cleudismar da silva
postado em 26/09/2009 às 19:48:38 na página biblioteca_ler
Refiz o caminho de volta ao ponto de ônibus completamente arrasado. Reconheci que o meu ato não tinha perdão. Não sei dizer ao certo o que aconteceu para eu ter beijado Karina na casa em que ela vivera com Fabiano, pior no quarto que era do casal! O problema é que eu queria mostrar a ela que eu estava ali, pronto para lhe dar todo o amor do mundo; que existia sim alguém capaz de amá-la tanto quanto o Fabiano, ou talvez, até mais do que ele! Eu estava era sendo egoísta, um aproveitador como dissera Karina.
Passei do lado do corsa que ainda estava estacionado no mesmo lugar de antes. Parecia incrível que horas atrás eu estava me divertindo, porque Karina batera a bengala no corsa e o alarme havia disparado.
Os acontecimentos que se seguiram depois desse incidente chegaram ao meu conhecimento através da boca de Leonardo, Flavio e Michele. Não tive coragem de procurar Karina para conversar e tentar explicar o que me fizera lhe dar aquele beijo – embora eu tivesse os meus motivos – sentia que aquele beijo era uma coisa muito grave que eu havia feito.
Entretanto, conforme eu fiquei sabendo, Karina não mostrara irritação ao explicar para a minha mãe que estava tudo bem entre nós dois.
-Eu não nasci ontem Jéferson, sei que vocês estão brigados – disse mamãe ao telefone.
O problema é que eu escolhi a casa do Leonardo para me distrair e esquecer que não estava falando com Karina e por mais que eu tenha feito essa escolha tomando cuidado para não bater com os dias das aulas de Braille dela, percebi que ela também escolhera o Leonardo para disfarçar a minha ausência.
-Eu já vou indo Léo – disse eu meio sem-jeito na terceira vez seguida em que fui à casa do Leonardo e logo em seguida Karina chegou.
-Algum problema Jéferson?
Já estava quase chegando ao portão quando dona Matilde apareceu na janela da sala e me fez essa pergunta.
-Não – menti – eu só me lembrei que tenho uns papéis para analisar, sabe coisas do trabalho.
-Ah ta. É que você nunca mais apareceu lá em casa – falou dona Matilde olhando nos meus olhos. – Todas as vezes que a Karina chega aqui você vai embora... Esses papéis estão te deixando bem ocupado.
-É – disse e fui embora.
Eu sabia que dona Matilde tinha conhecimento sobre a situação constrangedora entre eu e Karina. Mas se tinha uma pessoa que eu não queria discutir sobre como eu estava me sentindo com aquela situação era exatamente com a mãe de Karina.
E com Leonardo, Flavio e Michele sendo os meus informantes, fui levando a vida, sabendo que eu mesmo teria que chegar na Karina, tentar me explicar e pedir mais uma vez desculpas.
O afastamento momentâneo entre nós dois provocou em Karina uma mudança bruta de postura. Segundos relatos de Michele, Karina estava se esforçando o máximo para aprender a andar sozinha.
-Isso não tem o menor cabimento! – falei irritado quando Michele me contou que Karina já estava indo a casa de Leonardo sozinha.
-Por que não tem menor cabimento Jéferson? – perguntou Michele.
-Ela esta aprendendo a andar sem ninguém em sua companhia, aprendendo ainda! Como é que já vai se aventurando a entrar nesses ônibus, que mau você entra o motorista já da à partida?! Ela ta fazendo isso só pra me provocar!
-Te provocar por quê? – indagou mais uma vez Michele.
-Pra dizer que não sente minha falta; que não precisa mais de mim!
-Ah Jéferson, você esta sendo infantil. Achei que você ia gostar de saber desse grande passo que a Karina esta dando.
Foi indo Karina se acostumou a andar de ônibus do centro de Franco da Rocha ao Jardim Bandeirante. E não foi só; ela finalmente estava andando (com certa dificuldade) sem a bengala dentro de sua casa. E se inscreveu como voluntária no instituto Luz do Sol. Incrível o progresso que Karina conseguiu em tão pouco tempo. Já estava até formando frases de “v” a letra “z” (sem o w) encerrando assim a terceira série das aulas de posições dos pontos.
-Estou te dizendo Jéferson, ela melhorou bastante depois que parou de falar com você - comentou Leonardo por telefone, um mês após o nosso desentendimento.
-Não sei se isso é ruim ou é bom – falei em dúvida.
-É bom, aliás, é ótimo Jéferson.
-Então eu era uma má influência pra ela?
-Não. Só que depois que a Karina se afastou de você ela passou a preencher o tempo que geralmente vocês passavam juntos em uma dedicação às atividades, que mais cedo ou mais tarde ela teria que fazer.
-Certo. Eu tenho que falar com ela Leonardo, mas eu não consigo encontrar um lugar e uma hora exata pra isso.
-Eu tenho uma idéia – disse Leonardo contente. – Mas você vai ter que ser discreto.
-Como assim? – perguntei intrigado.
-Bem... Não sei se você sabe, mais a Banda Ponto de Vista vai se apresentar aí em Jundiaí no sábado...
-E o que tem isso?
-A Karina fez questão de ir assistir. Você pode fazer o seguinte: chega depois que a banda estiver se apresentando e vai direto à mesa aonde ela vai estar; não vai ter como ela querer sair, uma vez que ela não conhece o bar.
-Será que isso vai dar certo?
-Claro que vai.
Confiando na idéia de Leonardo, no penúltimo sábado do mês de junho, eu me dirigi ao bar da avenida nove de julho, local onde a banda Ponto de Vista iria se apresentar. Estava me sentindo péssimo porque não tinha a menor idéia do que falar para Karina. Sem contar que ela poderia muito bem se recusar a me ouvir. De qualquer forma eu teria que pedir desculpas...
Já passava das vinte e uma horas quando eu cheguei ao bar indicado por Leonardo. Vários carros estavam chegando ao estacionamento que ficava na parte de trás do bar. A frente do bar era completamente oculta por uma espécie de lona apoiada em bambus fincados no chão. Do lado esquerdo uma cortina branca e vermelha enfeitava a entrada. A única luz acesa dentro do bar vinha de uma enorme bola pendurada no teto bem no meio do salão. O bar ainda não estava completamente lotado, mas podia se ver que restavam poucas mesas vazias. Mais ao fundo, a banda tocava a música velha infância. Corri os olhos nas mesas a procura de Karina. Localizei-a em uma mesa perto dos banheiros. Hesitei um pouco, mais fui em sua direção.
-Oi Karina – falei com a voz rouca.
-Jéferson?! O que você esta fazendo aqui? – Karina ficou tensa e afastou o pacote de batata frita de sua frente.
-Nós precisamos conversar Karina – disse eu sem perder a coragem.
-Jéferson eu estou assistindo o show.
-Por favor, você precisa me ouvir! – insisti.
-Não, agora não. Estou...
-Karina eu vim até aqui pra te pedir perdão e eu não saio daqui sem ouvir uma resposta sua!
Por um momento ninguém disse nada. Tinha certeza de que Karina estava avaliando a situação.
-Certo – falou lentamente após um breve silêncio. – Estou ouvindo.
Puxei a cadeira para mais próximo dela. Quando falei, falei olhando nos olhos de Karina, como se ela estivesse me encarando.
-Karina eu preciso que você me perdoe pelo que fiz lá em Perus naquele dia... eu preciso do seu perdão, para que a minha mente fique sossegada; você pode me dar o seu perdão?
editado por:cleudismar da silva
postado em 26/09/2009 às 19:46:02 na página biblioteca_ler
-E VOCÊ ACHA QUE É FÁCIL PRA EU FICAR TE OUVINDO DIZER QUE AMA O FABIANO?! – cheguei mais perto dela com o coração batendo acelerado. – Você sabe que eu te amo, eu não sou feito de ferro... Não agüentei te ver chorando e... por favor, me desculpe!
-Não – disse ela gravemente; o seu rosto estava muito vermelho. – A nossa amizade termina aqui Jéferson, vai embora, por favor!
-Não... não, não faz isso, Karina! – pedi segurando em seu braço; ela se esquivou repetindo:
-Jéferson, por favor, saia! Me deixa sozinha!
Inconformado sai. Fiquei encostado no portão me xingando e me questionando: o que fizera eu agir daquela maneira?
-O que eu fiz meu Deus? – suspirei em voz alta.
Pra minha surpresa, Karina pediu que a vizinha trancasse a casa. Minutos depois, chegou um táxi que provavelmente Karina mandara chamar. Sem dizer uma palavra sequer, ela entrou no carro; e eu não tive coragem de impedi-la.
editado por: cleudismar da silva
postado em 12/09/2009 às 20:13:21 na página biblioteca_ler
Quando José Sales saiu do hospital e maternidade estadual da cidade de Maringá naquela tarde, sentiu algo que jamais imaginou sentir. Minutos atrás pegara em seu colo pela primeira vez o seu primeiro filho. Ficou pensando em como aquilo era possível: uma pessoa gerar uma outra pessoa.
-Só o senhor Deus, só o senhor para me dar esta alegria – disse para si mesmo enquanto descia as escadas do hospital. – Obrigado senhor por dar um filho lindo e saudável.
Chegando em casa foi para o quarto alisou novamente o lençol do berço pegou o mordedor que estava na gaveta da cômoda deixou junto da chupeta, tirou as fraldas de lugar desdobrou, tornou a dobrar e a guardar no mesmo lugar e por fim sentou na cama de casal e se pos a pensar em como seria a vida dele e de sua esposa dali pra frente. Saiu então para ir ao mercado comprar umas vitaminas para quando Carolina chegasse; no meio no caminho encontrou com Ivan.
-Fiquei sabendo que nasceu o seu filho – disse Ivan sem parar de andar. – Parabéns, é o seu primeiro filho?
-Sim, por quê? – perguntou José.
-Parabéns – dizendo isso seguiu o seu caminho.
E quando Carolina chegou em casa com Aroldo nos braços logo recebeu a visita dos vizinhos e ganhou muitos presentes e a benção do padre Ezequiel. José Sales parecia um bobo com o pequeno Aroldo no colo.
João Bartolomeu não teve esse mesmo comportamento com relação a menina que nascera. Isso porque, ele já era pai de um menino. E as visitas foram menos porque muita gente não gostava de João. E um pouco relutante, José Sales foi com a sua esposa visitar a vizinha – João fingiu que nem viu José.
-Qual é o problema entre vocês? – perguntou Carolina discretamente enquanto saiam para o quintal.
-Nada, ele só vai com a minha cara e eu também não vou com a dele – respondeu José dando de ombro.
-Mas ele é o seu patrão!
-Não, ele não é o meu patrão.
Quando o casal iam se aproximando de sua casa, passaram em frente a casa de Ivan. José nem olhou para a casa, mas Carolina disfarçou que estava tirando a manta de cima do rosto de Aroldo e olhou para a direção da casa, e pôde jurar que Ivan estava atrás da janela espiando eles dois.
No ínicio da tarde, começou o movimento na casa da família Cramer. O apartamento estava cheio de bexigas cor- de- rosa e cartazes com frases do tipo: “seja bem vinda Tainara”, espalhada por toda a casa. E sob o berço, uma pilha de brinquedos que vizinhos parentes e amigos deram sem dó. Havia também um bolo, feito por uma das confeiteiras mais conhecidas do Morumbi, para garantir a diversão da garotada que iriam acompanhadas de seus pais. Às treze horas e vinte a quatro minutos, o carro entrou na garagem e minutos depois, Fátima e Euclides entravam na casa com a pequena Tainara no colo. E todos gritaram “viva!”e todos pegaram a menina no colo...
Aí esta, os acontecimentos que se seguiram após o nascimento de três crianças ( quase ao mesmo tempo).
postado em 12/09/2009 às 20:12:44 na página biblioteca_ler
A diferença era de apenas três meses. Mônica Bartolomeu estava grávida de uma menina. Este era um fato inusitado na cidade de Garcia, a algazarra foi grande. O padre Ezequiel não se esqueceu de falar na missa de domingo que o nascimento de duas crianças quase ao mesmo tempo era divino e que Deus estava abençoando cada vez mais a cidade de Garcia.
José Sales não batia de frente com João Bartolomeu, mas Carolina e Mônica eram colegas fizeram o acompanhamento médico juntas. E o Ivan se mostrava distante já não cantava Carolina, não ia mais pra frente do portão da casa dela.
-Ele dizia que eu parecia uma sereia – confidenciou Carolina a Mônica.
-E você o que achava dele?- perguntou Mônica interessada.
-Me sentia incomodada é claro! Eu sou casada, mesmo se não fosse... não gosto dele.
A vida de José Sales e Carolina mudou; eles estavam vivendo como se estivesse acabado de se casar. Finalmente José havia tirado de foco o Ivan e só pensava no menino que estava pra nascer. E João Bartolomeu dizia que a sua filha jamais seria vista andando com o filho de José Sales. O problema é que nem tudo é como esperamos; mais tarde João Bartolomeu descobriria que a sua filha não o obedeceria e que o filho de José Sales se tornaria o melhor amigo da filha de João.
Se for pra dizer a verdade Aroldo era daqueles garotos complexos que ficava horas sentado sozinho sem dizer uma palavra; tinha dificuldade em assimilar as coisas e quase sempre fazia as tarefas que lhe era incumbido duas ou três vezes. Tal comportamento não acontecia quando estava junto de Anita, quando estava junto de sua amiga, Aroldo parecia dotado de uma esperteza incrível, sem falar na criatividade.
Já Anita era educada com as pessoas; sempre falava cumprimentava quem encontrasse na rua, se estava comendo alguma coisa oferecia para quem estivesse por perto. Mas havia um problema: dentro de sua casa Anita não era assim. Respondia a sua mãe e não obedecia ao seu pai, não tinha cuidado com as suas bonecas (onde estava brincando deixava os brinquedos todos ali e não preocupava em guardá-los). E todas as vezes que brincava com Aroldo, ela pegava os brinquedos e guardava nos seus devidos lugares.
A mesma idade, eram vizinhos e de comportamentos diferentes, embora quando estavam juntos um completava o outro. Assim era Aroldo e Anita.
O que João Bartolomeu e sua esposa, José Sales e Carolina, Anita e Aroldo não sabiam era que há exatos seiscentos e quarenta quilômetros dali, havia uma garota que nascera um dia depois de Aroldo e que independente da diferença de classe, receberia a ajuda de Anita e assim ajudaria Aroldo. O nome dessa garota era Tainara.
postado em 12/09/2009 às 20:11:59 na página biblioteca_ler
Quando José Sales se mudou para a cidade de Garcia, fazia apenas três meses que ele havia se casado com Carolina. Era tudo muito bonito, tudo maravilhoso; era beijinho pra cá e beijinho pra lá. José precisava trabalhar, saía cedo, Carolina ficava dormindo. Formavam um casal lindo. As pessoas logo deram um jeito de fazer amizade com eles. Queriam saber de onde veio, como descobriram aquela cidade, qual eram os seus planos...
No meio dessas pessoas tinha o Ivan. Sabe aqueles homens que adoram mexer com todas as mulheres que passam na rua? Então, Ivan era assim. E com Carolina não foi diferente. No primeiro dia em que a viu foi um “bom-dia” pra lá de malicioso. Carolina na hora demonstrou que não gostou nem um pouco daquela maneira de falar bom-dia.
A casa de Ivan não era muito longe da casa dos dois. Volta e meia ele era visto passando em frente da casa do casal.
-Por que esse cara passa tanto aqui em frente amor?
José perguntou enquanto entrava no banheiro para tomar banho (já estava com quase dois meses que eles estavam morando em Garcia).
-Não sei – respondeu Carolina displicente. – Como foi o seu dia?
-Bom, é que eu já vi ele passar bem umas três vezes aqui em frente, pra ser sincero, não gosto muito do jeito dele.
Carolina olhou para a sua imagem no espelho, abriu a boca para falar alguma coisa, mas se calou.
José Sales havia deixado a capital do Paraná para morar em Umuarama, foi lá que conheceu Carolina. Um amigo do pai dela que indicou a cidade de Garcia e quando se casaram resolveram morar em um lugar totalmente novo e tranqüilo. A cidade de Garcia era tudo isso.
O trabalho de José Sales era carregar a ração para o gado, gradear a terra e transportar os funcionários para as partes mais distantes da fazenda de um empresário que morava em São Paulo, e era dono de uma fábrica de tapete na capital paulista.
José Sales sempre gostou de trabalhar sossegado sem ninguém pegando em seu pé. Acontece que o administrador da fazenda era um homem que adorava mandar em um tom muito ignorante. José Sales quase não tinha contato com ele, mas chegou uma época que o gado precisava ser vacinado e o administrador começou a rodear o local em que José Sales freqüentava. E ele não perdeu tempo em ser ignorante:
-Não quero que você deixe nenhum serviço para ser executado amanhã, esta ouvindo?
-Sim senhor, mas eu...
-Amanhã nós temos muito que fazer, tem muita coisa aqui que esta atrasada!
-Senhor...
-Senhor esta no céu caramba!
Aquilo foi o pontapé inicial para uma discussão.
-Olha aqui João Bartolomeu, eu não vou admitir que você fale assim comigo certo?
Não estou vendo nada atrasado aqui e depois que comecei a trabalhar nesta fazenda nunca deixei serviço acumulado e ao contrário de você, eu tenho muita educação!
-Alem de tudo é respondão! – exclamou João Bartolomeu com um sorriso de ironia. – Olha aqui José Sales, preste bastante atenção: eu mando nesta fazenda, na ausência do Osvaldo, eu mando aqui! E eu se fosse você se preocupava mais com a sua mulher que...
-O que a minha mulher tem a ver com o que estamos discutindo?!- cortou José espumando de raiva. – Deixa ela fora da nossa discussão, por favor!
-Isso, vai, grita mais! Aqui você quer bancar o durão, mas em casa... – e dizendo essas palavras João Bartolomeu se aproximou de José Sales. – Se eu fosse você ficava mais atento com o comportamento da sua esposa; se eu fosse você deixava para gritar na sua casa com a sua esposa, sabe por quê? Porque ela esta sendo vista de conversa com aquela mala- sem- alça do Ivan. Estão casados há tão pouco tempo... tenho pena de você, sabe, tão novo já com xi...
-Cale a boca! – explodiu José Sales. – Cale a boca! Não fale do que não sabe!
-Isso, grita mais. Sabe que a moda era os mais velhos serem cornos, mas vejo que me enganei...
José Sales agarrou o colarinho da camisa de João Bartolomeu com a mão direita e falou:
-Já disse: não fale do que não sabe; deixe a minha mulher fora disso, ta legal! Não adi mito que fale dela dessa maneira!
-Desculpe, mas é o que o povo está comentando...
João Bartolomeu disse essas palavras em um tom brando como se ninguém estivesse agarrando a sua camiseta e gritando perto do seu rosto. José Sales soltou o colarinho do seu patrão e se afastou pisando pesado na grama do pasto.
-Seu corno manso – falou João sorrindo, mas José já tinha ido embora.
E chegando em casa, José foi ter com sua esposa uma conversa séria.
-Quero saber o que você tem conversado com o Ivan?
Carolina não entendeu:
-Como?
-O que você tem conversado com o Ivan? Eu quero saber.
-Não tenho conversado com o Ivan – declarou Carolina ainda sem entender porque o seu marido estava lhe perguntando aquilo.
José chegou mais perto de sua mulher e falou:
-O povo esta comentando que você só espera eu sair para o trabalho e sai para conversar com aquele cara que mora aqui na nossa rua, Carolina. Quero saber o que vocês têm conversado e por que tem conversado com ele, por um acaso não tem o que fazer aqui em casa durante o dia? Você já costurou aquela blusa? Aquele monte de milho que esta lá para colher, esta esperando secar as espigas é isso?
-José eu...
-Tenho notado que você mudou muito de uns dias pra cá! Deixou de fazer os seus deveres de casa, esta gastando todo o tempo com aquele sujeito!
-José Sales! – gritou Carolina com as mãos na cintura. - Esta dizendo que eu estou de caso com o Ivan, José Sales? Esta dizendo que eu sou uma vagabunda?
-O povo esta comentando; o meu patrão falou que você foi vis...
-E agora você esta disposto a acreditar no que o povo esta falando? Vai acreditar na palavra de João?
-Ele me...
-Ponha-se no seu lugar José Sales! Fale direito comigo e outra coisa: não sou mulher de ficar por aí dando trela pra marmanjo; sou uma mulher de respeito!
-Esse Ivan vive rondando a nossa casa, eu já notei e já falei que não gosto dele!
-O que você quer? Que eu proíba ele de passar na rua?
-Com que cara que eu vou sair na rua quando a cidade toda ficar sabendo dessa história?
-Aqui ó José Sales: se você não confia em mim o problema é seu. Eu sou a sua mulher e se não existe confiança no nosso casamento eu estou voltando para a casa da minha mãe agora mesmo.
Carolina saiu do quarto furiosa. José foi atrás.
-Espera Carolina, também não é bem assim!
-É assim sim, José! Ou você confia em mim, ou não confia!
-Sim, eu confio, mas é que...
-Me deixa!
E saiu para os fundos do quintal, atravessou a cerca e foi sentar de baixo do pé de manga. Começou a chorar e a pensar em sua mãe, que estava há quilômetros de distancia dali. Era a primeira vez depois de casada que ela sentia aquela saudade de sua mãe. Carolina sentiu vontade de se jogar nos braços de sua mãe como fazia quando criança e chorar enquanto os seus cabelos eram acariciados pelas mãos daquela que sempre gostou de ver a sua filha feliz.
-Nunca dê motivos para o seu marido reclamar do seu comportamento minha filha – dissera a sua mãe semanas antes dela subir ao altar com José Sales.
Não dera motivos. Mas aquele tal de Ivan sempre se debruçava na cerca e ficava olhando ela limpar as janelas e a regar as flores. Muitas das vezes, Carolina deixava essas tarefas de lado e refugiava-se dentro de casa para não ficar exposta aquele olhar pouco agradável que Ivan lançava todas as vezes que a via. E agora o homem que Carolina amava estava questionando o que ela conversava com Ivan; sendo que ela nunca trocou uma palavra sequer com aquele rapaz.
José Sales viu que a sua esposa ficou chateada com aquele assunto, por isso não insistiu mais. Resolveu assumir uma nova postura. Foi falar com Ivan.
-Não estou entendo José – disse Ivan com um misto de ironia e cinismo na voz. – Esta dizendo que eu estou dando em cima de sua mulher?
-Não foi isso que eu disse – objetou José – só quero saber por que espera eu sair para conversar com ela? Aqui é uma cidade muito pequena e tem gente aqui que é fofoqueira, por isso saiu essa conversa; que você e a minha mulher vivem de conversinhas.
-José Sales, a única coisa que eu faço é cumprimentar a Carolina e ela, muito educada, também me cumprimenta somente isso.
-Sim, mas eu não quero, a partir de hoje, não quero que você cumprimente mais ela estamos entendido?
-Não – falou Ivan fazendo uma careta. - E a educação onde fica?
-A educação que vá para outro lugar! A Carolina nem gosta de você.
-Não é o que ela diz.
José chegou mais perto de Ivan, as mãos fechadas como um lutador de boxe pronto para dar um soco no adversário.
-Fique longe da Carolina. Você não me conhece, não sabe do que sou capaz.
-Você esta me ameaçando? José Sales me ameaçando por conta de uma bobagem? Não estou acreditando!
-Pra mim não é bobagem!- gritou José com muita raiva. Ivan limpou com a mão as salivas que voaram para o seu rosto.
-Você tem que ficar com ciúmes mesmo – disse Ivan se afastando de José, mas com uma expressão dura no rosto. – Veja você, é todo desajeitado, estranho... Agora olha pra mim; as mulheres me desejam, tenho um corpo sarado, os cabelos loiros, os olhos verdes...
-A Carolina não se casou comigo por um belo corpo nem por um cabelo amarelo e nem pelos olhos – falou José Sales chegando mais uma vez perto de Ivan. – Ela se casou comigo por amor. Mais uma vez Ivan, fique longe dela.
Dessa vez Ivan não se afastou, pelo contrario chegou mais perto.
-Vai ter que dizer isso para a Carolina.
Ficaram os dois se fuzilando com o olhar até que José se virou e foi embora. E Ivan deu um largo sorriso.
Não foi a primeira briga e nem a ultima do casal. Na verdade, Ivan só parou de cantar Carolina quando ela anunciou que estava grávida de um menino. E esse menino se chamaria Aroldo.
postado em 12/09/2009 às 20:11:14 na página biblioteca_ler
Um homem que buscou os seus ideais. Um homem que lutou para conseguir uma vida melhor. Um mito. Uma lenda. Para muitos, mais um político com pinta de bonzinho. Há vários adjetivos para descrever Pablo Garcia. Pablo Garcia era um homem que lutou pelos seus ideais e jamais se deixou amedrontar diante dos problemas. De simples empregado, a um líder de uma colônia. Na época do café, Pablo criou um jeito novo de trabalhar, fez com que o respeitasse não como um “peão”, mas sim como um patrão.
Para Pablo, todos que saiam de suas casas de madrugada para colher café, merecia ter um pequeno pedaço de chão para plantar. Não demorou muito, ele já estava construindo uma aldeia. E a aldeia cresceu até se tornar uma vila. E aquelas pessoas começaram a crer numa nova hera, aquilo fez com que os moradores do norte do estado do Paraná sentissem vontade de mudar o lugar em que moravam; mudar suas vidas. De líder, a prefeito, pois chegou um tempo que a aldeia de Garcia precisou de um prefeito e ninguém mais completo e justo para assumir tal posto do que o próprio Pablo. Mas nem tudo agrada a todos, e foi indo algumas pessoas começaram a questionar o jeito de Pablo administrar a cidade. Surgiram então vários adversários políticos dispostos a ocupar o lugar de prefeito da cidade de Garcia; cidade que Pablo construiu. Desgostoso, ele ficou nervoso, dizendo que todos os moradores eram uns ingratos. Numa tarde de domingo, Pablo sofreu uma parada cardíaca e veio a falecer.
O seu corpo foi o primeiro a ser enterrado no cemitério recém construído; enquanto os coveiros baixavam o caixão, os moradores se questionavam como seria o amanhã sem Pablo Garcia.
Mas a cidade de Garcia sobreviveu sem o seu grande e inesquecível fundador. Agricultores plantaram na entrada da cidade muitos pés de fruta, de modo que a rua formasse uma espécie de um corredor no meio das plantas. Foi criado um posto de saúde, uma creche, uma escola e uma cabine telefônica. Tudo foi criado em memória de Pablo Garcia. Tempos depois, a cidade se tornou distrito de Bentópolis, cidade que ficava há doze quilômetros de distancia de Garcia. Aí melhorou as coisas paras os trezentos e onze habitantes de Garcia. Foi construída uma igreja na praça e um mercado juntamente com uma farmácia. As ruas ganharam asfaltos e iluminação, e foi mais ou menos nessa época que José Sales se casou com Carolina.
postado em 12/09/2009 às 20:10:25 na página biblioteca
INTRODUÇAÕ
Elias corria o mais rápido possível. As suas pernas curtas não ajudavam nada, pelo contrario, estava deixando-o mais cansado. Mas ele precisava chegar logo. Precisava dar o recado a João Bartolomeu... Aquele terrível recado...
A poeira levantava conforme os pés de Elias batiam no chão – a poeira era conseqüência de exatos trinta dias sem chuva. Tal como a poeira se espalhava no ar, aquela imagem terrível espalhava – se dentro da cabeça de Elias. Como dizer a João Bartolomeu que a sua filha estava... João Bartolomeu, aquele homem famoso por resolver as coisas tudo na violência; famoso por não deixar nada barato; aquele homem... bravo! Como dizer a ele sobre aquela tragédia?
Elias respirava com dificuldades; as lagrimas misturando com o suor em seu rosto, e a sua cabeça estava em ponto de explodir com aqueles pensamentos.
Dez anos. Elias tinha apenas dez anos a acabara de ver uma cena horrível, uma imagem que por mais que ele tentasse, jamais esqueceria.
-Corre lá, Elias, avisa o João Bartolomeu! – dissera o seu pai.
-Mas logo eu pai? – respondera Elias chorando.
-Vai correndo filho! Eu vou avisar o José!
-Pai, o João vai me matar...
-Não discuta Elias! Vai avisar o João!
E ali estava ele, na propriedade de João Bartolomeu. Tinha os pensamentos agora em seu amigo Aroldo. O que ia acontecer com ele? Por que ele estava com aquela arma? O que acontecera afinal?
Elias congelou. Apenas uma cerca de arame liso o separava de João Bartolomeu, que estava agachado plantando eucalipto. O garoto passou e cerca, limpou o suor do rosto com o braço e antes de abrir a boca, o cavalo que estava pastando do lado oposto em que João Bartolomeu estava, relinchou. Isto fez com que João se virasse para trás e ficasse de pé ao ver Elias ali, parado chorando e respirando com dificuldade.
-O que você quer aqui moleque? – perguntou com ignorância.
Elias engoliu em seco. Soluçando e sem olhar para o rosto do homem a sua frente falou:
-Nin... ninguém... ninguém sabe como... como foi acontecer aqui- aquilo seu João!
-Acontecer o que moleque?! – disse João Bartolomeu se aproximando de Elias. O garoto deu dois passos para trás.
-Ju- ju- juro que não sei não, seu João!
-E o que você jura que não sabe? Por um acaso você esta tentando me fazer de idiota?!
-A sua filha, senhor – começou a dizer Elias, porem foi interrompido.
-O que tem a Anita?!
Elias estremeceu.
-Ela esta... esta... juro senhor, que não sei como aquilo foi acontecer!
Quando Elias se deu conta já estava com os pés fora do chão. João Bartolomeu o agarrara pelo colarinho de sua camiseta com a maior facilidade.
-Vou perguntar mais uma vez – disse João Bartolomeu com rosto quase colado com o de Elias. Havia uma expressão de fúria e pânico na fisionomia de João, como se ele soubesse o que tinha acontecido.
-Mor - morta, senhor. Anita esta morta!
João Bartolomeu arregalou os olhos, jogou Elias no chão como uma pessoa joga um fio de cabelo da roupa; correu até o cavalo e saiu em disparada pela mesma estrada que Elias correra.
Sentado no chão, Elias chorou mais. A saída de João Bartolomeu daquela maneira significava muitas coisas. Significava o fim da paz, o fim daquela tranqüilidade há muito existente na cidade de Garcia; significava o inicio de uma confusão que ninguém saberia dizer quando e como terminaria.
Elias não sabia por que, naquele dia, aconteceu aquela tragédia. Não sabia como e por qual motivo Aroldo conseguiu aquela arma e disparou em Anita. Por que aquele dia não foi como os outros?
-Adoro brincar com Anita – dissera Aroldo a Elias na noite anterior. – Só que às vezes ela diz umas coisas que eu não gosto, mas é legal brincar com ela.
Lentamente Elias refez o caminho de volta para a cidade. Era preciso voltar.
postado em 12/09/2009 às 20:04:23 na página biblioteca_ler
As casas da Rua das Oliveiras eram bem trabalhadas – não de luxo – tudo bem simples, mas que ainda assim provocava interesse em quem passava na Rua. A maioria era pequeno sobrado com modelos diferentes. Karina ia segurando em meu braço calada, depois de falar mal por não ter lhe avisado do carro parado.
A casa de Karina era a ultima de uma Rua onde havia uma igreja evangélica. Não era um sobrado, mas assim como as outras, chamava a atenção. Havia um muro a meia altura com grades pintadas de branco. Uma pequena área à frente e a garagem do lado direito. As paredes eram pintadas de azul bem claro e a porta, cromada, com vidros ao centro.
Girei a chave na fechadura e empurrei a porta. Fiquei um pouco surpreso ao ver que por dentro a casa não era tão grande. A sala era um cômodo médio com vários móveis conservados. Dava a impressão que ninguém havia morado ali. Nos cantos da sala, vasos com flores e muitos enfeites de louça na estante. Uma enorme cortina tampava toda a janela ali existente. À cima do batente da porta que dava para a cozinha, havia uma imagem de Cristo na cruz. O chão estava encerado, pelo me pareceu embora houvesse tapete que cobria quase todo o chão.
-Esta bem arrumado – falei olhando para o lustre.
-Mamãe veio aqui e junto com a vizinha limpou tudo – respondeu Karina com a voz fraca. Imaginei que a sua mente estava cheia de lembranças. Deixei-a na sala e fui para a cozinha.
Passei por um corredor não muito grande, onde do lado esquerdo era o banheiro e do lado direito dois quartos. No final do corredor a cozinha. Ao ver a decoração da cozinha, tive certeza de que a casa tinha a face de Karina. Abri a porta e sai no quintal, apesar de ser todo cimentado, perto do muro da divisa com a casa ao lado, havia um pequeno canteiro de terra preta com couves e alfaces plantadas e mais flores. Do lado oposto, a lavanderia com um tanque e um pequeno armário embutido na parede que servia para guardar produtos de limpeza. Tive a minha atenção despertada por um par de tênis, que eu sabia, não era de Karina.
-A Karina esta aí com você? – perguntou uma voz. Não peguei o par de tênis e me virei para o quintal vizinho. Uma mulher, já de idade, estava do outro lado do muro olhando para mim.
-Esta sim. Eu vou chamá-la.
Ficamos conversando durante alguns minutos com a vizinha. Quando eu retornei pra dentro da casa, Karina me chamou para ir ao quarto de casal. Um pouco receoso eu a acompanhei. Achei o quarto escuro, talvez porque o guarda – roupa fosse preto e, a exemplo da sala, uma cortina enorme cobria a janela e o pedaço restante da parede. Uma colcha marrom estava forrando a cama; Karina se dirigiu até lá e se sentou, eu me acomodei em uma pequena poltrona localizada no lado oposto a janela. Karina tateou até conseguir pegar o retrato na mesa – de – cabeceira.
-Esta vendo essa foto? – perguntou ela – foi tirada em Angra dos Reis, na nossa lua – de – mel.
Fiquei em silencio.
-Foram tão bons aqueles dias que passamos lá – prosseguiu ela com a voz trêmula. - Sinto tanta falta dele!
-É deve ser muito difícil pra você – falei. Tentei dizer algo mais, contudo minha voz falhou.
Karina se levantou e foi em direção ao guarda – roupa. Teve certa dificuldade em encontrar o trinco para abrir a porta.
-As roupas dele ainda estão aqui – falou pegando um cabide, nele havia uma camisa branca pendurada. – Não há um único dia em que não penso nele.
Já era possível ver as lágrimas escorrendo nos olhos dela.
-Essas coisas estão te fazendo sofrer – falei desejando ir embora dali. – Você não deveria ter vindo...
-Eu tinha que vir – enfatizou Karina deixando o cabide de lado e voltando a sentar-se na cama. –Eu tenho que chorar; tenho que colocar tudo pra fora.
E ela estava fazendo isso. Estava desabafando, estava colocando pra fora todo o pesar...
-Ainda acho – desabafou – que se ele tivesse ido comigo ao seu encontro... talvez ele estivesse aqui... preenchendo o vazio dessa casa e o vazio do meu peito.
Karina tentou conter as lágrimas com a manga da blusa. Eu também comecei a chorar. Estava chorando porque Karina foi dizendo aquelas coisas, sem nem se importar com os meus sentimos, parecia não se lembrar, de um dia eu ter me declarado a ela.
-Foi uma fatalidade Karina – disse eu abraçando- a.
-Nós estamos juntos! – declarou ela aos plantos. – E estamos vivos...
Reinou o silêncio. Só a dor falava.
-Você o amava não é? – perguntei comovido.
-Mais do que jamais imaginei amar alguém – confirmou Karina dando um soluço.
A vida precisa continuar...
Karina balançou a cabeça negativamente.
-Não sei se vou amar alguém como amei o Fabiano.
Aquelas palavras tiveram um efeito de uma navalha. Não uma navalha que fez um corte profundo, mas que doeu tanto como se o tivesse feito.
-E eu não sei se existe outra pessoa capaz de me fazer tão feliz como o Fabiano me fez.
E eu respondi:
-Às vezes... essa pessoa esta mais perto do que se imagina.
Karina estava muito próxima... De repente não existia mais nada, só eu e Karina. Meus lábios tocaram na boca dela bem suave. O beijo não durou mais que um minuto... Não durou mais porque não existia só eu e a Karina. Tinha as roupas, a casa, o tênis, as fotos, as lembranças, o Fabiano... havia toda uma historia.
E eu havia me esquecido disso tudo, mas Karina não esqueceu.
-Por que você fez isso? – senti que a voz dela já estava mais firme do que momentos antes.
-Karina, eu... – tentei juntar as palavras, porem elas fugiram do meu controle. – Desculpa, e- e- eu não sei o que deu em mim...
-Você não tinha esse direito! – Karina gritou se levantando. Ainda havia lágrimas em seus olhos, só que ela parecia muito firme.
-Karina, desculpa...
-Você feriu os meus sentimentos Jéferson! Você sabe o que essa casa e tudo que tem dentro dela significa pra mim?! Eu morei aqui por quase cinco anos com o homem da minha vida Jéferson, e você vem e faz uma loucura dessas! – neste ponto a sua voz falhou – você não tinha esse direito Jéferson!
Fiquei de pé, ainda incapaz de dizer alguma coisa. Quando Karina falou, foi com a voz firme novamente.
-Você não respeitou nada, passou por cima da nossa amizade de tantos anos, passou por cima da minha dor! Sabia que você me ofendeu?! Eu nunca... escondi de você... Jéferson, você sempre soube que eu amava o Fabiano! Mas não; agiu como se não soubesse... Egoísta, é isso que você é, um aproveitador...
-CHEGA! - não consegui me segurar; acabei explodindo. – EU JÁ PEDI DESCULPA! – gritei chorando.
-MAS EU NÃO VOU ACEITAR! – respondeu Karina aos berros. – ACHA QUE É FACIL PRA MIM PASSAR POR UMA HUMILHAÇAÕ DESSAS E FINGIR QUE ESTA TUDO BEM!...
esta capitulo terar continuação.
editado por cleudismar da silva
postado em 12/09/2009 às 20:03:18 na página biblioteca_ler
Conforme eu esperava, Paulo trouxe uma das duas malas eu levara na viagem. O estado da mala não era muito ruim. O mesmo não podia dizer das roupas – também não era nenhuma novidade – se a policia ligasse dizendo que não foi possível recuperar nada das minhas coisas, eu não me surpreenderia.
As poucas coisas que restaram de Fabiano, foi devolvido a sua família pelas próprias mãos de Karina.
Dias depois, quando me encontrei com ela, fizemos um breve comentário sobre o ocorrido e fui poupado de dizer que não queria mais falar do acidente por uma grande novidade: Karina conseguira comprar uma máquina de Braille.
-Que bom! – falei sorrindo.
-E a Michele me deu uma reglete que ela não estava mais usando – acrescentou ela – agora eu não preciso usar mais a reglete do Leonardo!
Segundo Karina, Leonardo havia passado uma atividade e ela estava tentando fazer.
-Pode fazer – disse eu – não quero atrapalhar.
Fiquei observando ela escrever com o punção na reglete. Ela tinha que escrever um poema de Manoel Bandeira e depois ler. Até onde eu estava sabendo, Karina não estava conseguindo ler com tanta facilidade como aprendera as posições dos pontos. Analisando uma folha, cheguei a conclusão que não era nada fácil.
-Tem certeza de que vai conseguir ler para o Leonardo?- perguntei devolvendo a folha ao seu lugar.
-Vou ter que tentar, não é? Tanto no instituto como nas aulas com o Leonardo estão exigindo que eu treine a leitura.
-Você tem muitas dificuldades?
-Tenho. Não consegui melhorar nada ainda. Mas vem aqui, vou te dar o alfabeto Braille pra você.
-Pra quê?
-Você tem que aprender, o Leonardo falou que quando ele estudava dois amigos o ajudavam, inclusive escrevendo o alfabeto...
-A letra “a” é tecla de numero “1”, o “b” as teclas “1” e “2”...
Depois que ela terminou o alfabeto eu perguntei:
-E como eu vou saber aí na máquina aonde são os números?
-Fácil esta vendo as teclas?
-Sim.
-Essa tecla aqui é para o espaço – e apontou uma tecla maior que as outras localizadas no meio do teclado. – Você começa a contar do meio para a ponta, primeiro do lado esquerdo.
-Então a tecla do espaço funciona como uma divisória? – perguntei.
-É aí você conta do meio para a ponta: um, dois, três... do lado direito a mesma a coisa, do meio para a ponta: quatro, cinco e seis... entendeu?
-Sim.
Abrindo um sorriso ela falou:
-Escreve o meu nome então.
Um pouco nervos, é verdade, posicionei a máquina na minha frente e com cautela digitei o “k” (1 e 2), o “a” (1), o “r” (1, 2, 3 e 5), o “i” (2 e 4), o “n” (1, 3, 4 e 5) e novamente o “a”.
-Acho que esta certo – disse eu meio confuso.
-Me deixa ver – dizendo isso Karina passou a ponta dos dedos na folha. – Esta certo, mas o “K” não esta como letra maiúscula.
-E como é a letra maiúscula em Braille? – falei na defensiva.
-Teclas quatro e seis, depois você digita o “k”.
-Ah você já sabe bastantes coisas, parabéns!
-Imagina tenho muito a aprender. Você sabia que o Braille foi usado durante a guerra?
-Durante a guerra? Não, não sabia.
-O Leonardo contou que a origem do Braille é bem antiga.
Karina fez uma ligeira pausa na qual cruzou as pernas e se ajeitou na poltrona. Em seguida continuou:
-Braille é um sobrenome de um francês, chamado Luis Braille. Segundo o Leonardo, Luis Braille i ficou cego aos três anos de cidade; depois de sofrer um acidente na oficina de seu pai. Com vinte anos, Louis começou a se empenhar em desenvolver uma forma mais simples de escrita e leitura para as pessoas cegas. Nos seus estudos, ele usou como base o sistema de escrita noturna, criado pelo capitão, acho da artilharia francesa.
-E era muito diferente do Braille?- perguntei interessado.
-Bem diferente. Pelo que eu entendi, era como se fosse um tabuleiro com 36 quadrados; não me lembro se esse número ou não; sei que cada quadrado estava relacionado com um som. Cada som era representado no tabuleiro por um plano paralelo de pontos. Aí, eu acho que os soldados se comunicavam através dos sons; com o fim da guerra, o capitão apresentou esse sistema a uma escola, para ser utilizado pelos alunos cegos, mas como disse o Leonardo, o sistema de leitura tátil vem desde o século XIV.
-Nosso... o Leonardo é bem inteligente – comentei pensativamente.
-Ele fez essa pesquisa na internet – explicou Karina juntando as folhas que estavam esparramadas sobre a poltrona. – Mas ele tinha mais ou menos uma idéia de como surgiu o Braille.
-Só isso que o Leonardo te falou aconteceu lá na França, e aqui no Brasil?
-Eu não lembro direito o ano que o Braille chegou aqui no Brasil, sei que faz muito tempo.
-Legal saber essas coisas – disse me levantando.
-O que você pedir para o Leonardo pesquisar na internet ele acha – falou Karina depositando a máquina na poltrona.
-A irmã dele pesquisou na internet, você quer dizer né? – corrigi-a pegando o retrato da família que estava sobre a mesinha de centro da sala.
-Não, o Leonardo mesmo pesquisou.
-Como?
-Tem um programa instalado no computador dele que lê tudo que aparece na tela.
-Nossa, ele é bem equipado.
-Sim, o programa é desenvolvido exatamente para pessoas cegas – Karina se levantou e com a bengala na mão me convidou para ir a cozinha comer um lanche.
Dois dias depois eu encontrei o Flavio em Jundiaí. Conversamos um pouco, ele me explicou que o Braille no Brasil, foi introduzido no ano de 1850 e quatro anos depois o sistema passou a ser ensinado regularmente. Fiquei em dúvida entre o Flavio e o Leonardo qual dos dois era mais inteligente.
No dia seguinte Karina me ligou dizendo que no sábado iria a Perus e que contava com a minha companhia. Com os problemas do trabalho e com os resultados da causa da queda do avião eu me esqueci que havia prometido acompanha-la naquela viajem. Não sei por que, mas eu estava meio cismado com aquela idéia de ir à casa que Karina vivera com Fabiano.
Mas como promessa é dívida, no sábado, às dez horas, eu e Karina embarcamos no ônibus intermunicipal com destino a Perus. Mesmo depois de tantos dias que Karina andara de ônibus, eu senti que ela estava um pouco nervosa. Fiquei pensando se o nervosismo era por conta da viagem ou se era porque dentro de alguns minutos ela estaria dentro de seu antigo lar.
Durante a viagem, fomo conversando sobre as aulas de mobilidade que ela estava fazendo.
-A professora Ilda fica bastante estressada quando eu trombo em alguma coisa – ia dizendo ela, - é muito difícil andar sem a bengala.
-Pensei que você já conhecia os obstáculos do prédio – comentei dando de ombros.
-O problema é que eu não me lembro direito dos locais exato onde tem obstáculos; ontem mesmo teve uma espécie de prova – Karina contou séria.
-E aí como você foi? – perguntei já sabendo a resposta.
-Com a bengala eu fui bem, mais a professora disse que eu deixo a bengala muito longe do corpo...
-E não pode?
-Bem... Na rua se estiver muita gente, eu vou bater a bengala nos pés das pessoas como no dia em que você me levou na Rua Barão de Jundiaí, lembra?
-É mais você esta melhor agora, não?
-A professora acha que não.
De fato, eu me lembrava muito bem do dia em que fomos a Rua Barão de Jundiaí escolher um presente para o meu pai. Karina deixava o braço muito longe do corpo. A bengala batia no calcanhar de qualquer pessoa que estivesse a nossa frente. Todas as vezes que íamos sair de uma calçada se eu não avisasse Karina continuava batendo a bengala muito a frente e não conseguia achar a calçada para descer devagar.
-A professora que eu tenho que andar sem segurar no braço de alguém – continuou Karina.
-Ótimo –falei sorrindo – toda vez que sairmos juntos agora, você vai andar do meu lado sem segurar no meu braço.
Quando descemos do ônibus, eu e Karina fomos surpreendidos por um vento gelado que não estava presente em Franco da Rocha. Seguimos em uma rua larga, mais de uma calçada muito precária. Passamos por uma oficina de carros e por uma lanchonete.
-Estamos em frente a clinica que você falou Karina – disse eu parando.
-Isso, agora logo ali na frente tem uma esquina, nós vamos descer a direita até o final dela. Lá embaixo nós dobramos a esquerda, o número da casa é 38.
Parecia estranho, mas era a Karina que estava me guiando. Olhei pra trás e tive uma idéia:
-Karina eu estava olhando aqui é uma rua que passa poucos carros, que tal você tentar andar sem segurar no meu braço?
-Pode ser – concordou ela.
Em minha opinião, ela andou bem. Quando tinha algum poste ou placa eu ia dizendo direita, esquerda e assim por diante; até ela bateu a bengala em um corsa, que disparou o alarme imediatamente.
postado em 12/09/2009 às 20:02:19 na página biblioteca_ler
A conversa com a diretora não foi nada satisfatória. A diretora alegou que Karina não poderia matricular-se nas aulas da sala de recursos, porque ela já havia terminado os estudos, exatamente como o professor Rogério previra.
-Lamento, mas não podemos abrir exeçoes – finalizou a diretora.
-E agora? – perguntei preocupado ao telefone.
-Eu não sei – respondeu Karina – na verdade eu nem estou preocupada.
-Como não esta preocupada? O professor Rogério falou que você precisa aprender a escrever naquela rege te – falei com firmeza.
-Não é rege te Jéferson é reglete.
-Tudo bem, mas não é importante você aprender a usar essa reglete?
-É importante sim, mais olha, eu não quero falar disso agora, eu estou sozinha em casa, queria sair um pouco, dar umas voltas. Tem como você vir aqui?
-Tenho eu só preciso tomar um banho.
Ao chegar à casa de Karina, notei que dona Matilde havia deixado algumas frutas sobre a mesa para caso Karina quisesse pegar encontra-las com mais facilidade. E não foram só as frutas, dona Matilde deixara também as roupas que Karina iria vestir, fora do guarda-roupa. Fiquei sentado no sofá da sala enquanto Karina se arrumava.
-Preciso de sua ajuda aqui – disse ela ao chegar à sala. Vinha segurando a bengala. Vestia um vestido não muito curto vermelho e os cabelos estavam molhados. – Fecha pra mim, por favor – e virou- se de costas. Fechei o zíper... e também os olhos ao sentir o seu cheiro.
-Algum problema Jéferson?
Saí de trás dela completamente sem graça. Tinha certeza que se ela estivesse enxergando, teria olhado diretamente nos meus olhos.
Enquanto caminhávamos, senti que Karina não estava muito a vontade, motivo: a bengala. Tentei argumentar dizendo que a bengala era um objeto muito útil para um cego e que já estava na hora dela deixar de lado o que os outros falavam e pensavam. Mas não teve jeito, ao chegarmos perto da câmara municipal, Karina pediu para sentar.
-Conheci um grupo bem legal lá no instituto – disse ela cruzando as pernas.
-Um grupo legal? – perguntei.
-Isso, eles são todos os amigos – continuou ela. Dois deles mora aqui em Franco, o outro mora em Jundiaí e os outros dois em Francisco Morato.
-Nunca vi um cego em Franco.
-Eles estavam me contando, aqui em Franco tem mais ou menos quarenta e dois cegos e em Jundiaí mais quarenta e seis.
-Nossa que interessante!
-Tem mais uma coisa.
-O que é?
-Talvez eu vá ter aulas de Braille com um deles.
-E pode?
-Pode, o importante é eu aprender.
Fiquei muito contente com aquelas noticias. Karina estava começando a se entusiasmar com as descobertas; aquilo era um ótimo sinal.
De repente...
-Eu queria te pedir uma coisa Jéferson – falou ela escolhendo as palavras.
-Pedir o que? – perguntei com receio.
-Eu tenho que ir à minha casa em Perus.
Fiquei em silêncio e baixei os olhos. Não encontrei nada pra falar.
-Eu quero pegar a minha carteirinha primeiro – disse como se aquilo justificasse alguma coisa. Continuei em silêncio.
-Mais eu vou entender se você não quiser ir.
-Imagina, eu vou sim! – falei rapidamente.
-Que bom. É que depois do acidente eu não fui lá mais... Preciso ver umas coisas.
Novamente o silêncio.
-Obrigada Jéferson – declarou ele de cabeça baixa. – Você é um anjo.
-Não precisa agradecer – falei pegando em sua mão. Eu vou estar sempre do seu lado, porque eu te amo...
Falei sem pensar. Quando percebi já tinha falado. Karina puxou a sua mão da minha lentamente. Um clima constrangedor pairava no ar. Não tive nem coragem de dizer algo para amenizar aquele clima; desconfiei que não houvesse nada a dizer.
-Me leva pra casa Jéferson, por favor.
Não sei se foi impressão minha, mas no caminho de volta pra casa, Karina parecia tensa. Chegou até a parar para me dizer que eu estava guiando-a de maneira errada.
-Deixa que eu seguro no seu braço e quando for passar em um lugar estreito você vai à frente!
E eu obedeci.
Os quarenta dias que o médico me deu acabaram-se rapidamente. Foi com muita alegria que os meus amigos me receberam de volta no trabalho. De alguma forma, eu sabia, a vida estava tentando voltar ao ritimo de antes. Entretanto, eu havia me acostumado a ficar em casa. Não pude deixar de sentir alívio, quando a primeira semana de trabalho chegou ao fim.
E não foi só a minha vida que estava voltando ao normal. O meu cabelo já estava do tamanho que sempre gostei, cobrindo assim a cicatriz no topo da cabeça. Até a cicatriz do meu rosto já não era muito nítida quando a barba ficava um pouco grande.
Depois de sair da casa dos meus pais, naquele sábado, rumei para a casa de Karina. Ela havia conseguido, depois de quase dois meses, pegar a sua carterinha de identificação. Após a entrevista com o médico, passou-se quinze dias para ser entregue o laudo com o resultado da entrevista. Depois, Karina ligou para e EMTU e agendou a hora de mais uma entrevista. E seguiu-se o mesmo processo: diálogo com a assistente social, exame com o médico e – finalmente – a carterinha foi entregue. Para Karina conseguir a carterinha da Companhia de Trens Metropolitanos foi a mesma coisa.
Na noite anterior, Karina tinha me chamado para conhecer um dos seus amigos, o que estava ensinando-lhe a escrever na reglete.
-Como é mesmo o nome do seu professor? – perguntei a ela no ponto de ônibus.
-Leonardo, e ele não é o meu professor, ele é meu amigo e esta me ensinando a usar a reglete.
Leonardo morava no Jardim Bandeirante, bairro que ficava na divisa de Franco da Rocha com Francisco Morato. Descemos do ônibus e então eu avistei Leonardo no ponto. Era um rapaz alto e magro, um pouco branco e de olhos azuis. Dirigimos até ele discretamente.
-Leonardo? – chamou Karina.
-Oi, tudo bem com você? – falou ele sorrindo.
-Tudo. Esse é o Jéferson – acrescentou Karina. Leonardo me estendeu a mão e perguntou:
-Como você esta Jéferson?
-Bem e você?
-Tudo bem. Sabia que você é a segunda pessoa de quem mais a Karina fala?
-Sério? – falei sorrindo. – E quem é a primeira pessoa de quem ela mais fala?
-Dela mesma – disse Leonardo sorrindo.
Karina defendeu-se:
-Ah eu falo de mim um pouquinho só.
-Claro, só um pouco – emendou Leonardo com sarcasmo.
Gastamos quatro minutos do ponto de ônibus até a casa do Leonardo e durante o trajeto demos boas risadas, pois o novo amigo de Karina adorava brincar.
Leonardo morava em uma casa grande, mas de pouco quintal. Ele nos conduziu até a sala. Era um cômodo confortável e com muito espaço. Do lado direito havia dois sofás e uma mesinha ao centro com um troféu. Uma escada indicava que os demais cômodos ficavam no segundo andar e vários quadros com fotos da família na parede encerravam a decoração da sala. Depois de uma breve conversa, Leonardo nos convidou para visitar o escritório da casa, que segundo ele, era um “local mais reservado”. No caminho passamos pela cozinha. Era menor do que a sala, tanto em largura quanto em comprimento. O fogão ficava do lado da pia, no meio uma mesa com seis cadeiras e do lado oposto a geladeira e o armário. Para se chegar no “local mais reservado”, tinha que subir uma pequena escada, mas já do lado de fora da casa. O “local mais reservado” era um cômodo médio com uma estante cheia de livros e algumas caixas de papelão nas prateleiras. Uma parede dividia o cômodo em duas partes. Sentamos em uma mesa de a única janela existente ali.
-Muito bem Karina – disse Leonardo – então podemos começar?
-Podemos – respondeu Karina. Havia várias folhas de sulfite em cima da mesa e também a reglete junto com o punção.
Lentamente Karina introduziu a folha na reglete, pegou o punção e em seguida começou a escrever. Leonardo havia me explicado que Karina estava aprendendo a posição dos pontos e a sua maior dificuldade era lembrar essas posições, uma vez que ela estava acostumada a escrever na máquina. Leonardo disse ainda, que depois de aprender a posição dos pontos Karina iria treinar a alfabeto de A a letra J, sempre formando frase coma as letras utilizadas.
Nas outras vezes em que eu fui à casa de Leonardo aconteceu algo estranho. Estavam reunidos lá, em sua casa, os outros amigos que Karina tinha me lado. Um casal de namorados, Flavio e Michele, e Bruno o mais novo da turma. Incrível que cada um deles possuía qualidades especiais. O Flavio trabalhava em uma escola particular em Suzano, grande São Paulo. O Leonardo era professor de informática em Santana. Quanto ao Bruno e a Michele, ambos tinham uma voz maravilhosa.
-Nós temos uma banda – disse ela quando eu elogiei a sua voz.
-Uma banda?! – estranhei.
-Exatamente – confirmou Bruno. – Eu e a Michele nos vocais e o Flavio no baixo.
-E o Leonardo? – perguntei perplexo.
-Bem, ele cuida da sonoplastia – falou Flavio.
-E qual é o nome da banda?
-Ponto de Vista! – disseram todos em uníssono.
E todas aquelas pessoas não mostravam nenhum abatimento por serem cegas. Cada uma delas tinha um motivo para seguir em frente na vida. Para elas não importava o fato de não enxergarem, muito pelo contrario, era isso que fazia brotar aquela coragem de ver os sonhos se realizarem e a cada conquista significava uma porta que se abria em suas vidas. E isso foi muito importante para Karina. E eu comecei a me sentir estranho ali naquela sala, rodeado por cinco cegos. Eles pareciam que sabiam das coisas melhor do que eu. Mas não era. Eles só enxergavam as coisas de maneira diferente e muitas das vezes, eles é que tinham razão; aquela sensação estranha, aquele algo estranho que eu comecei a sentir significava o reconhecimento de que aqueles cegos eram fantásticos. De que aqueles cegos enxergavam o que eu e boa parte da sociedade não éramos capaz de enxergar.
Com efeito, eu aprendi muitas coisas. Um dos amigos de Karina, Leonardo, Flavio, Michele e Bruno era radialista em uma emissora de rádio AM em Jundiaí. Eu não sabia que o cantor Roberto Carlos tinha um filho cego (em 2005, o Brasil o conheceria melhor por sua participação na novela América). Não sabia também que a banda de reguee Tribo de Jah tinha cinco integrantes cegos. Cheguei à conclusão que eu não sabia nada e tinha muito a aprender.
Aprendi também que existem no mundo pessoas oportunistas que agem de má fé para obter algum lucro. Estávamos saindo da estação de trem e de repente um homem de terno e gravata com uma bíblia na mão e falou:
-Com licença, moça, você é cega?
Karina virou o rosto na minha direção e deu um longo suspiro. O moço, não obtendo resposta, falou:
-Você já pensou em procurar Deus?
-Eu tenho Deus no coração desde criança – disse Karina um pouco alto, algumas pessoas que passavam na rua viraram os rostos com uma expressão de curiosidade.
-Na sede da nossa igreja – argumentou o sujeito – acontece muitos milagres, tenho certeza de que se você, irmã, for lá, o milagre vai acontecer, e você vai voltar a enxergar porque nós da...
-Olha aqui, senhor – retrucou Karina novamente – eu estou cansada, quero chegar logo em casa...
-Moça é importante ouvir a palavra de Deus...
-Senhor, eu tenho minha religião e acredito muito nela, vamos Jéferson?
-Vamos – falei guiando- a. O moço ainda insistiu:
-Tenho o endereço aqui da nossa igreja, não quer levar para nos fazer uma eventual visita?
Karina parou e virando-se disparou:
-Não quer anotar o endereço da matriz Cristo Ressuscitado para uma eventual visita?
-Não entendi – respondeu o moço com cara de quem havia entendido muito bem o significado daquela frase.
-Cristo Ressuscitado é o nome da igreja que vou todos os domingos rezar, porque não vai lá no próximo fim de semana?
Diante destas palavras, o homem disse um até logo meio-sem graça e seguiu o seu caminho.
-Incrível como tem gente idiota não é? – disse Karina batendo a bengala na precária calçada da Rua Sete de Setembro. –Até parece que se eu fosse à igreja dele eu voltaria a enxergar. Será que ele estava pensando que estou cega porque não freqüento a igreja dele?
-Essas pessoas são assim mesmo Karina – falei astutamente. – O mundo esta cheio de falsos fiéis, cuidado – preveni – tem uma caçamba de lixo bem à frente – dizendo isso, eu puxei-a para o lado direito.
Entrementes, a rotina seguiu. Todas as quintas – feiras, Karina ia ao instituto. No momento que o mês de maio entrou, ela conseguiu avançar para a terceira série nas aulas de Braille. Estava também aprendendo a usar o sorobã, objeto utilizado para fazer contas no sorobã, mais para mim era muito complicado.
-Você não esta se esforçando o bastante Jéferson! – criticou ela quando Leonardo me deu a reglete e pediu que eu escrevesse meu nome.
-Cuidado como fala comigo – contestei sorrindo – até ontem você não sabia nem fazer a letra “A”.
-Só que tem uma coisa, o papai e mamãe já aprenderam você bem que podia seguir o exemplo deles.
-Quem sabe o sorobã? – ofereceu Leonardo.
-Não. Cada macaco no seu galho. Reglete e sorobã não são comigo – disse tentando me livrar.
-Ótimo Karina – emendou Leonardo. –Assim nós podemos escrever tudo que achamos e pensamos dele sem correr nenhum risco.
Finalmente Karina estava se divertindo. A chegada de novos amigos cegos em sua vida afastou de vez aquele jeito deprimente dela encarar as coisas. Quando saímos juntos, era como nos velhos tempos, nem parecia que ela não estava enxergando. Todas as vezes que eu descrevia algo de interessante, ou ajudava a desviar de algum obstáculo na rua, sentia uma enorme sensação de gratidão nascer dentro de mim; era um prazer de ajudá-la sempre que fosse possível.
Na medida em que o mês de maio foi chegando ao fim, recebi uma ligação do dono da empresa aérea dizendo que alguns pertences dos sobreviventes estavam à disposição na delegacia da cidade onde o avião caiu. E saiu também o resultado das investigações na caixa-preta da aeronave. Segundo os laudos, a turbulência não teria provocado a queda do avião, mas um dos motores falhou junto com a turbulência.
Eu, particularmente, não fazia a menor questão de sair de Jundiaí e viajar até a cidade onde o avião caiu para por as mãos nas poucas coisas que restauram.
-O mais importante eram os meus documentos – disse para o meu pai – seja lá o que eles tenham conseguido recuperar para mim não faz diferença alguma.
-Ainda acho que você deveria ver as suas coisas – teimou ele.
-Ah, eu não vou pedir licença do serviço para viajar daqui até aquele lugar só para reaver uma mala com alguns pertences que provavelmente vão estar todos destruídos.
-E se o Paulo for ao seu lugar?
-Bem se ele quiser ir... Sem problemas.
O Paulo foi. Karina viajou com a sua mãe, não fazendo questão de esconder a expectativa de recuperar os pertences do marido.
postado em 12/09/2009 às 20:01:06 na página biblioteca_ler
Três dias depois Karina foi junto com sua mãe no instituto que o seu tio indicara. Segundo dona Matilde, uma assistente social iria fazer uma entrevista com Karina – entrevista esta conhecida como anaminési – a assistente social iria avaliar a condição social de Karina e quais seriam as suas necessidades físicas como pessoa. Karina não estava muito animada, mas prometeu se esforçar o máximo nas atividades.
No dia seguinte eu fiz questão de acompanhar Karina na visita a instituição. E foi naquele dia também que eu reparei uma coisa interessante: as reações das pessoas nas ruas. Elas se viravam para olhar; outras sussurravam algo para a pessoa ao lado; algumas desviavam com receio de atrapalhar o caminho. Olhei para Karina, os seus olhos mexiam de um de um lado pro outro, incapaz de ver um vulto sequer.
Quando entramos no trem naquela manha, senti pela primeira vez na vida indignação pelas aquelas pessoas que iam trabalhar. Consultei o meu relógio, faltavam dez pra sete. Fiquei em pé segurando Karina pelo braço durante cinco minutos. Para alguns, cinco minutos não é nada, mas o que mais me deixou indignado, era o fato de as pessoas olharem, sussurrarem para as outras, se esquivarem e na hora de ceder o lugar esperar o trem iniciar o movimento para poder cair em si. E aquilo era só o começo.
Descemos na estação Barra Funda. Pegamos o metrô sentido Itaquera. Logo que entramos, conseguimos nos sentar, embora fossemos descer na estação seguinte. Ao sairmos da estação Marechal Deodoro, dobramos a esquerda depois atravessamos mais uns três minutos, até que eu avistei a minha esquerda, a instituição.
-Espero me sentir mais confortável lá dentro - disse Karina após um longo silencio. – Ainda não me recuperei da sensação horrível de viajar nesses transportes coletivos; tenho certeza que todos me olhavam como se eu fosse um E.T.
-Calma – tranqüilizei- a – o pessoal olhou, apontou, mas pensa pelo lado bom: você não esta vendo eles te olharem.
-Não tem graça, Jéferson – disparou Karina furiosa.
A instituição era um prédio de quatro andares com a frente toda de vidro, um vidro verde bem escuro. Aproximamos-nos do segurança.
-Ela veio visitar o prédio – falei.
-Certo você vai até a recepção e procura a assistente Laura, é ela que vai mostrar o instituto a vocês.
Seguimos em direção a recepção. Do lado direito havia um elevador. Nos aproximamos da recepção e antes que eu dissesse alguma coisa, uma mulher magra com os cabelos escorridos até o ombro se adiantou exibindo um largo sorriso.
-Bom – dia, sou Laura Pedroso – disse ela pegando em minha mão. – E você é a Karina? – acrescentou para a minha amiga.
-Sim, sou eu.
-Ótimo, é um grande prazer recebe – la Karina- declarou Laura. – Tenho certeza que você vai gostar daqui. Conheço a sua estória, é uma situação delicada, mas tenho certeza que você vai superar tudo isso de cabeça erguida.
A assistente social virou – se pra mim e perguntou:
-Qual é o seu nome?
-Jéferson Aquino.
-E vocês são namorados? – tornou a perguntar Laura sem se importar em ser discreta.
Cheguei a abrir a boca para responder, mas Karina foi mais rápida:
-Não, não somos namorados. Vai demorar muito pra começar a visita?
Fiquei imaginando se a Laura percebera a frieza no tom da voz de Karina, que eu notara muito bem. O fato é que a visita começou. E tudo que vi era fantástico.
Um pouco a frente da recepção, passamos por duas catracas e seguimos em um corredor largo onde haviam dois elevadores – um de cada lado. Achei que entraríamos em um deles, mas não, continuamos em frente. Chegamos então numa espécie de trilha, que simulavam vários ambientes.
-Aqui nós temos a trilha – sensorial – explicou Laura. – São varias paisagens, Karina, todas elas repletas de detalhes, para que as pessoas que nunca enxergaram na vida, possam ter uma noção de como é, por exemplo, uma fazenda. Trás ela até aqui, por favor – e eu guiei Karina até a trilha que simulava uma fazenda. As outras paisagens simulavam o deserto; florestas e rochas.
Seguimos em frente. Ao longo da trilha, havia também alguns animais empalhados.
-Pode tocar – disse Laura a Karina.
Os animais empalhados eram: cachorro, cobra, lagarto e lobo.
-Nossa – falou Karina surpresa – é como se eu estivesse tocando em um lagarto de verdade!
-Exato – ponderou Laura – a idéia de empalhar esses animais é fazer com que os cegos saibam como esses animais são; porque existem pessoas que enxergam, mas nunca viram um lagarto de verdade, sabe... Então, a nossa idéia é transmitir esse conhecimento aos cegos, tanto com a trilha - sensorial quanto com esses animais empalhados.
Pra mim tudo aquilo era novidade. E no decorrer da visita surgiram mais novidades.
Depois da trilha – sensorial, fomos para a sala de Recriação. Segundo Laura a sala funcionava como uma espécie de espaço de convivência entre as pessoas.
-Os alunos se encontravam aqui nos intervalos das atividades – salientou Laura.
Era uma sala grande com mesas ao centro e um sofá confortável. Havia também uma geladeira, aonde as pessoas guardavam os lanches e podia se tomar água gelada a qualquer hora. Nos cantos, vitrines com projetos dos alunos. Inclusive, em uma das vitrines, eu reparei, tinha um papai – Noel, cuja cabeça era uma lâmpada. Contei para Karina e ela me respondeu: “serio!” Fiquei feliz de ver que ela estava gostando das surpresas da visita.
Não muito longe da sala de Recriação, uma saída para o elevador de serviço. Mais a frente e à direita, era possível ver a rua através do vidro que pegava de cima a baixo, formando, se é que pode – se dizer, uma parede de vidro com barras de ferro ao meio como divisório. Do lado esquerdo, havia janelas que dava para ver o muro do restaurante. Nesse espaço também havia armários encostados na parede. Perguntei a Laura para que serve os armários e ela respondeu que era para guardar brinquedos das crianças. E de fato, algumas crianças estavam ali, enquanto que uma mulher guardava uns brinquedos em um dos armários.
Quando chegamos à sala de informática, deparamos com uma sala ampla e fresca. O motivo que fazia a sala ser mais fria que as outras era porque havia ali seis computadores. Mais ao fundo, uma impressora Braille.
E finalmente chegamos à sala de aula. No meio, uma mesa redonda com quatro cadeiras e uma pequena mesinha para o professor, do lado esquerdo um armário com materiais usados durante as atividades com os alunos.
-Cada aluno tem três tipos de oficinas...
Laura teve a sua explicação interrompida por Karina.
-Oficinas?
-É, Karina, oficina é o termo que usamos para se referir ao atendimento. Durante – como eu ia dizendo – durante essas três oficinas, existe um pequeno intervalo de quinze minutos. Agora o professor Rogério vai explicar as atividades que você vai desenvolver nessas oficinas – Laura pegou na mão de Karina e falou: - espero que você tenha gostado da visita e mais uma vez: seja bem vinda.
-Obrigada – agradeceu minha amiga.
-Até mais Jéferson – disse Laura pegando em minha mão.
-Até e obrigado – agradeci.
Eu e Karina sentamos para ouvir e explicação do professor. O professor Rogério era um homem de meia – idade, auto e um pouco magro. Tinha a pele branca e os cabelos já com um leve tom grisalho, penteado de lado com muito gel. Cumprimentou Karina e depois a mim com muita simpatia.
Nas oficinas, disse o professor, Karina aprenderia informática, aulas de Braille e – principalmente – orientação e mobilidade. Teria também uma vez por mês a sessão psicoçial, onde os alunos discutiriam os problemas do cotidiano; cada sessão com um tema diferente.
-Cada época do ano tem uma festa – adiantou ainda Rogério. – Se não tiver a festa, há uma visita ao sítio da instituição. Em uma nova etapa Karina, nós recebemos a equipe PROSEJA. Essa equipe traz um pacote com varias opções de cursos e temos também a variação clínica, que avalia a pressão do olho.
Rogério fez uma pequena pausa. Depois continuou:
-Só que no momento é importante Karina você aprender mobilidade. Você precisa se acostumar a andar sozinha, principalmente aqui dentro do instituto.
-Como vai ser essa aula de... mobilidade? – questionou Karina um pouco apreensiva.
-Geralmente esse tipo de treinamento é feito em um corredor com varias cadeiras e brinquedos esparramados, você precisa passar por esses obstáculos, treinando assim o equilíbrio. Existe também o exercício de reconhecimento de área. Esse exercício permite que você aprenda a conhecer as paredes, ou seja, a parede será o seu guia.
-É possível treinar o equilíbrio em um corredor cheio de obstáculos? – espantou – se Karina. Rogério explicou:
-Você vai descobrir que é possível sim. Vai descobrir também que andar na rua sozinha é bem mais complicado.
Resolvi perguntar também.
-Professor Rogério, e as aulas de Braille?
-Aqui a Karina vai treinar o alfabeto Braille em uma máquina – e o professor se levantou e foi até a sua pequena escrivaninha, pegou a máquina e depositou-a sobre a mesa na frente de Karina. – Essa é a máquina de escrever em Braille – disse ele enquanto Karina tocava no objeto.
A máquina de Braille era menor do que a máquina de escrever comum. Não havia nenhum segredo em introduzir a folha – o segredo estava era nas teclas. Havia oito teclas, seis delas representavam as letras do alfabeto, explicou Rogério. Uma para a barra de espaço e a outra para o retrocesso (voltar atrás). Mais tarde, descobri que para cada regra de português e matemática, utilizava-se uma combinação de teclas diferente.
-Temos também a reglete – falou Rogério levantando- se novamente. Dessa vez ele foi até o armário e trouxe um objeto que me lembrou uma pasta fina.
-Essa é a reglete – disse entregando a reglete a Karina. – E isso é o punção – acrescentou ele. A ponta do punção parecia a ponta de um prego.
-Como se escreve nisso? – indagou Karina.
-Primeiro você abre a reglete – ensinou Rogério em seguida coloca a folha e fecha. Sempre que for escrever na reglete vai ser da direita para a esquerda, ou seja, você vai usar o verso da folha para escrever e quando for ler a frente da folha.
Eu acompanhei Karina no silêncio que se seguiu a explicação de Rogério. O professor entendeu que aquele silêncio só podia significar que não havíamos entendido nada; ele o punção e escreveu, depois pediu que Karina retirasse a folha.
-Aí esta escrito o seu nome – falou para Karina. – Nota-se que as letras estão em destaques na frente da folha e na parte de trás há apenas os furos feito pelo punção, chamados de protuberâncias.
-Esta escrito o meu nome aqui?
-Sim.
Peguei a folha da mão de Karina e só o que vi foi um monte de pontinhos.
-É complicada essa reglete – queixou- se Karina.
-Não é não – disse Rogério displicente. – Depois que você estiver familiarizada com o alfabeto Braille fica mais fácil. Em todo caso, nas aulas daqui, você vai usar a máquina. Mais vale lembrar que durante as aulas na sala de recursos, você deverá aprender a escrever na reglete.
Rogério levou a máquina e a reglete de volta para os seus lugares. Sentou-se entre eu e a Karina com uma expressão séria no rosto.
-Agora nós temos um problema Karina – falou brandamente. Karina se moveu na cadeira. – Você não esta estudando em nenhuma pública, de modo que você não pode se matricular para as aulas de Braille nessa sala de recursos.
-Como assim? – perguntei.
-A Karina mora em Franco da Rocha não é?
-Exato.
-A sala de recursos funciona em algumas escolas públicas de municípios que tem um número grande de cegos interessados a aprender, essa sala equipada com materiais especiais, os professores são treinados para atender os cegos e auxilia-los nas atividades escolares. Em Franco da Rocha, a sala de recursos funciona na escola Domingos Cambiazi – então os alunos cegos têm uma grande dificuldade em aprender a matéria na sala de aula normal, na sala de recursos eles podem estar tirando algumas dúvidas. Então fica difícil você ter aulas na sala de recursos, uma vez que já terminou os estudos.
No caminho de volta pra casa, um clima de incerteza pairava no ar. Pelo que eu entendi as aulas de Braille que Karina teria na instituição seria um complemento das aulas ensinadas na sala de recursos. Mas como Karina iria fazer o complemento das aulas que não teria? Rogério aconselhou Karina a procurar a professora Bruna, responsável pelas aulas de Braille na sala de recursos de Franco da Rocha, e conversar com ela, contar a sua história...
-Talvez ela chame você para ir conversar com a diretora da escola e tentar resolver o problema – disse Rogério.
Mas as chances de isso dar algum resultado eram pequenas, para falar a verdade.
-O que você achou do instituto? – perguntei discretamente para Karina dentro do trem.
-É muita coisa pra uma pessoa só.
Passaram-se os dias. Karina estava correndo atrás para conseguir fazer a sua carteirinha de transporte. Era uma tarefa que estava exigindo muita disposição. Primeiro ele foi à APAE conversar com a assistente social. No dia seguinte, Karina fez uma consulta e vinte dias depois seria realizada uma entrevista com o médico. Juntou todas essas coisas com as atividades da instituição, a expectativa de conversar com a diretora de ensino e o resultado não poderia ser outro: mau humor.
-Eu não estou preparada pra tudo isso! – suspirou Karina se jogando no sofá, após chegar da entrevista com o médico. No dia anterior, a professora Bruna havia ligado para dizer que a diretora não poderia recebê-las. O que significava que o impasse de aceitar ou não Karina na sala de recursos continuaria.
-Calma filha, vai dar tudo certo – tranqüilizou Matilde, a sua mãe.
Era impossível não ver o amor que Matilde e Ademar tinham pela filha. Tenho certeza que Karina jamais teria chegado aonde chegou se não tivesse esse amor para lhe dar forças e seguir em frente.
Todavia, uma coisa estava me tirando o sono durante a noite. Talvez em meio a tantos acontecimentos, o meu amor por Karina tenha ficado esquecido. Logo descobri que não era verdade. O que aconteceu foi que toda aquela expectativa de vê- la novamente, apagara- se no momento da queda do avião. Depois eu precisava ajudá-la a superar a perda do marido e da visão. Com os passar dos dias, fui ficando mais próximo de Karina, mais próximo como nunca estive antes. Eu não podia deixar de admitir: o meu amor por ela nunca morrera, só estava adormecido. À noite, deitado na cama, eu pensava em tudo isso. Sabia que dessa vez eu não me calaria com relação aos meus sentimentos.
postado em 12/09/2009 às 20:00:06 na página biblioteca_ler
Karina estava na casa de seus pais. Matilde, sua mãe, veio me receber no portão. Estava muito abatida, mas se alegrou a me ver. Deu graças a Deus por eu estar ali com vida. Serviu uma xícara de chá com biscoitos. Ademar também tinha uma expressão abatida no rosto quando veio me cumprimentar. Conversamos um pouco e depois eles me autorizaram a ir até o quarto ver Karina.
Abri cautelosamente a porta. Karina estava sentada em uma poltrona de frente pra janela. Tinha um retrato nas mãos – era o retrato de Fabiano. Encostei a porta levemente ao entrar...
-Karina? – chamei hesitante. Ela se virou e minha expressão mudou imediatamente.
Daquele rosto tão bonito de outrora restavam poucas coisas. O seu cabelo fora cortado; as orelhas estavam sem brincos – varias escoriações podiam ser vistas por todo rosto. Karina tinha uma fisionomia péssima – nunca a vi com olheiras e parecia mais magra. Da Karina de antes, só restava uma coisa: aqueles belos olhos pretos com um brilho intenso, talvez o brilho estivesse mais fraco, ainda assim era impossível não enxerga-lo. Cheguei mais perto.
-Perdi tudo Jéferson! – disse Karina pondo o retrato de Fabiano sob a cama. Estendeu os braços e dessa vez o abraço veio.
Ficamos ali abraçados. Abraçados como no dia do seu casamento. Não sei quantos minutos se passaram enquanto Karina chorava em meu ombro. Quando se afastou de mim, tornou a repetir:
-Perdi tudo.
Ela voltou a sentar – se na poltrona. Eu sentei na cama.
-Você não perdeu tudo Karina. Você esta viva.
-O Fabiano esta morto! – gritou ela. – O meu grande amor esta morto, assim como a minha visão!
-Também não é bem assim – falei pegando em sua mão. Ela soltou com violência ao gritar:
- O que não é bem assim Jéferson?! Pode vir um batalhão de gente até aqui, mais nada do que elas disserem vai aliviar a minha dor!!
Eu estava me sentindo estranho. Karina gritava olhando em minha direção – embora não estivesse me vendo.
-A vida precisa continuar Karina. Eu perdi um amigo e uma amiga, estou com o corpo cheio de cicatrizes...
-Eu tinha tantos planos! – rebateu ela. – Eu não sei se vou conseguir planejar alguma coisa desse... desse jeito!
Karina se levantou. Precisei tirar o pé esquerdo rapidamente do lugar em que estava, ou ela tropeçaria nele. Fiquei de pé também.
-Você vai poder planejar coisas como antes do acidente Karina – falei com receio. Não estava me sentindo a vontade.
-Nada vai ser como antes! – Karina balançou a cabeça negativamente. – Eu não tenho mais nada.
-Tem a mim! Sou o seu amigo Karina!
-Amigo que me abandonou há cinco anos!
Demorei a me recuperar do impacto causado por aquelas palavras. Karina estava agindo exatamente como eu esperava. Contudo, não esperava ouvir aquilo.
-Eu não te abandonei- disse me explicando – Só me afastei de você, porque eu a amo; não guardo rancor de nada.
Karina tateou a procura da poltrona. Com certa dificuldade sentou – se calada.
-Cadê aquela moça cheia de energia, hein?- falei sentando-me a sua frente. – Sempre enfrentamos os problemas de cabeça erguida. E agora você topou com um problema a sua altura – peguei a sua mão; estava agora bem próximo dela – a sua fé e a nossa amizade é maior do que tudo isso que esta acontecendo. Durante todo esse tempo eu estive afastado de você, mas agora eu estou aqui do seu lado e eu vou te ajudar a viver.
A mão direita de Karina pousou sob a minha. Em meio a lagrimas, Karina falou:
-Desculpa. Eu não deveria ter falado aquilo. É que – soluçando declarou: - é que lá, no avião quando eu te vi, naquele momento terrível, queria te abraçar... Soltei o cinto... e o Fabiano quis ir junto e eu não deixei...
Karina se atirou em meus braços e continuou a falar:
-Se ele tivesse junto comigo não teria morrido!
Dessa vez foi diferente. Não consegui dizer nada. Fiquei mudo. O que dizer? Sempre ouvi dizer que às vezes só de ouvirmos o desabafo de alguém já estamos ajudando. Mas eu estava me sentindo inútil. Karina era minha melhor amiga e a cima de tudo eu a amava. Não falei nada, fiquei ouvindo os soluços de Karina; as suas lagrimas molhando a minha camiseta... O cheiro de shampoo em seus cabelos... Acabei me entregando a emoção.
Todos se prepararam para a batalha que viria em seguida. Seria uma batalha difícil; Karina teria que ser forte e ia precisar de muita ajuda.
Como já era de se esperar não foi nada fácil. A começar coma relação de Karina e seus pais.
-Não precisa me segurar! – reclamava ela quando dona Matilde pegava em seu braço. – Eu ainda conheço essa casa, morei aqui durante dezoito anos!
E quando dona Matilde soltava o braço, logo Karina trombava em algum móvel da casa; o que já servia pra ela disparar um monte de palavrões.
Seu Ademar chegou a cogitar uma possível participação de um psicólogo para ajudar Karina. Mas a hipótese foi afastada por dona Matilde, que achou que Karina não aceitaria ser aliviada por um psicólogo. Foi um tio de Karina que indicou uma famosa escola para cegos localizada na capital paulista.
O tempo foi passando. Decidi dar um tempo na minha faculdade de biologia. Decisão esta, compartilhada por Sandra – que após o acidente ficou menos extrovertida. Também não era pra menos, todas às vezes em que estávamos juntos, lembrávamos de Tatiana e Marcelo; era muito difícil. Acredito que todas as vitimas de acidentes passavam por esse desafio: tentar recuperar a normalidade de antes. Eu cheguei a pensar que nunca a minha vida voltaria ao normal. É sempre assim, vemos coisas terríveis acontecerem todos os dias e nunca imaginamos que um dia venha acontecer com a gente. Eu mesmo quando via uma cena da novela ou de um filme achava uma tremenda bobagem. Hoje, porem, penso diferente; tento imaginar me dentro do personagem – o que eu faria se estivesse em situação parecida? Mudei muito os meus pensamentos depois daquele acidente.
No telejornal a noite anunciou que a caixa – preta do avião seria enviada a Alemanha para ser analisada e o presidente da empresa aérea declarou que estava fazendo o possível para recuperar e devolver os pertences aos sobreviventes e parentes das vitimas. Coisa que com certeza demoraria alguns meses, assim como o resultado das investigações feita na caixa – preta.
E eu embarquei junto com Karina naquela nova fase. O médico me deu uma licença de quarenta e cinco dias do serviço. O que me ajudou bastante, pois eu ia todos os dias na casa de Karina. Ela continuava deprimida, sempre calada, quase nem deixava o quarto. Ficava horas em sua companhia, mas era como se eu estivesse falando sozinho, então eu me calava e reinava o silencio – um silencio constrangedor... Nesses momentos, eu sentia pena dela. Meses depois fiquei sabendo que os cegos não gostam que sintam pena deles.
-Fala alguma coisa Karina – pedi a ela. Havia se passado vinte dias após o acidente. Nós estávamos sentados em uma mesa, na sombra de uma arvore no quintal da casa dela.
-Falar o que? – disse Karina.
-Ah conversa comigo, até agora você só me ouviu, ficou aí calada, é a sua vez de falar.
Decorreram – se alguns minutos de silencio total. Apenas as folhas das arvores faziam barulho.
-Eu to com sede Jéferson – falou Karina finalmente. – Busca um copo com água, por favor?
-Claro.
Busquei a água. Depois de tomar a água ela perguntou:
-Como esta o dia hoje Jéferson?
-O dia esta lindo – falei feliz por estar mantendo uma conversa “completa”com Karina. –O céu esta completamente azul, sem uma nuvem – acrescentei.
-Eu estava aqui pensando, - continuou Karina segurando o copo vazio – achei que nunca mais sentaríamos juntos para conversar.
-É. Aqui estamos juntos como nos velhos tempos – fiz uma pausa. Uma borboleta passou perto de nós e desapareceu no quintal vizinho. – Só tem uma diferença – completei.
-Uma diferença?
-Sim, naquele tempo, quando estávamos juntos, não existia esse silencio monótono que tem surgido entre os nossos diálogos.
Quase me arrependi de ter falado aquilo. Achei que eu estava pressionando a Karina. E ela respondeu:
-É muito bom estar aqui com você do meu lado num momento difícil como esse que eu estou passando. Mas é complicado pra mim, aceitar que nunca mais vou enxergar. É difícil ter que aceitar a morte do Fabiano. Eu preciso de um tempo, pode ter certeza Jéferson, você e todos vão se orgulhar de mim. Eu só preciso de tempo...
Abracei-a. Aquele era o primeiro passo, de muitos que viria a seguir.
postado em 12/09/2009 às 19:59:04 na página biblioteca_ler
Estávamos em janeiro de 2003. O Brasil inteiro estava na maior expectativa com o novo presidente. Pelas ruas o comentário de alguns era: ”dessa vez o país sai da lama”, ou: ”o salário agora vai aumentar”. Outras pessoas porem, dizia que Luiz Inácio Lula da Silva iria ser pior que Fernando Henrique quando descobrisse o peso do poder. Havia pessoas que chegaram a dizer numa possível mudança de moeda.
Estava de férias na faculdade. Tinha finalmente dado um jeito na minha vida. Comprei uma casa melhor e quando tinha que viajar ia de avião. Sempre tive medo de altura, mas viajar de avião não era tão ruim assim como algumas pessoas diziam.
A minha vida estava ótima. Das poucas vezes em que ouvi falar de Karina, soube que ela estava morando em Perus. Fiquei satisfeito de ver que eu já não me incomodava com a lembrança de Karina estar casada.
Conheci outras garotas, fiz novas amizades. Estava me sentindo bem, e então... Karina entrou em minha vida. Para algumas pessoas foi o destino, mas para mim foi coisa de Deus.
Eu ia voltar estudar no dia 28 e ia retornar ao trabalho no dia 04. Resolvi visitar a cidade de Teresópolis no Rio de Janeiro. Passei a véspera da viagem na casa dos meus pais. No dia seguinte às 13 horas, lá estava eu no saguão de entrada do aeroporto.
Era a primeira vez que estaríamos visitando a cidade de Teresópolis e o combinado era que se gostássemos da cidade, nas próximas férias voltaríamos lá.
-Espero que não chova – comentou Sandra uma amiga minha.
O grupo era: eu e o Marcelo, Sandra e Tatiana.
-Acho que vai demorar pra chover no Rio – disse Tatiana – a tal frente fria que os meteorologistas anunciaram não é muito forte.
De fato, o tempo estava nublado e batia um vento moderado; estava melhor do que os dias anteriores – onde os termômetros marcaram 31graus.
As 14horas e trinta minutos o avião decolou, conforme previsto. Era um focker 100 de uma companhia nacional e famosa. Enquanto me acomodava se na confortável poltrona, eu avistei, a umas três fileiras a minha frente, aquele rapaz acompanhado por um rosto familiar. Por um momento, achei que estava enganado, mas então ela se virou de lado e tive certeza, era Karina.
Fiquei ligeiramente inquieto. De repente toda aquela sensação boa que eu sentia ao ver Karina despertou dentro de mim. “Não, eu não posso ir até ela”, disse para mim mesmo. “Deixa de bobagem”, disse uma voz dentro da minha cabeça, “você só vai dizer um oi pra ela”. Não fui, consegui me segurar. Nesse momento, Fabiano olhou em minha direção. Seu olhar se deteve por um momento em mim. Ele se virou para Karina... e tenho certeza que não conseguiu dizer a ela uma só palavra, pois uma voz feminina deixou – se ouvir naquele instante.
-Atenção senhores passageiros, apertem o cinto de segurança, vamos passar por uma grave turbulência!
E o pânico tomou conta. Era como se todos estivessem levando um choque. Não tardaram, algumas pessoas começaram a passar mal. Até eu fiquei enjoado.
-Ah, meu Deus, o que é isso?! – ouvi Tatiana gritar ao meu lado. E a tal turbulência não parou. Uma mulher que estava sentada a minha frente teve que se livrar do cinto para poder ajudar o senhor sentado ao lado. Eles não eram os únicos. Várias pessoas estavam passando mal. O curioso é que a comissária de bordo não disse mais nada. Não se via ninguém...
Os meus olhos cruzaram com os de Karina. Ela desviou o olhar, em seguida olhou de novo. Disse qualquer coisa para o Fabiano e veio pra minha direção. Destravei o cinto e fui ao seu encontro.
-O que esta fazendo Jéferson?! – falou Marcelo enquanto eu segurava firme no encosto da poltrona mais próxima de mim. Agora os pertences dos passageiros já estavam todos no chão.
-Jéferson! – exclamou Karina.
Do outro lado, Fabiano abriu a boca para dizer alguma coisa, mais novamente não conseguiu dizer nada. Eu cheguei a abrir os braços pra abraçar Karina...
Naquele momento, a minha cabeça encheu-se de pensamentos. Pensei em meus pais. É angustiante saber que vai morrer e não poder fazer nada. Saber que você vai deixar tantas coisas pra trás.
O abraço não veio.
O que veio foi um tremendo choque, seguido por uma enorme bola de fogo e milhares de estilhaços de vidro e metais... depois veio a escuridão.
Acordei doze horas depois no quarto de um hospital de uma cidade que eu nunca ouvira falar. Senti que a minha cabeça estava enfaixada assim como o meu tronco. Reparei que os meus braços estavam cheio de escoriações e arranhões; inclusive na altura do meu punho esquerdo, estava uma pequena faixa com uma gaze. O relógio que papai havia dado de presente desaparecera. Com a minha perna esquerda parecia estar tudo bem, diferente da direita, que eu não sentia. Tentei falar, mas a minha boca parecia ter sido anestesiada – então tentei-me mecher, não dava, o meu corpo estava todo dolorido.
-Filho, você acordou! – falou uma voz abafada. Mamãe surgiu no meu campo de visão. Ela estava junto de meu pai e de meu irmão.
-Como vocês chegaram aqui? – perguntei com a boca dura. Mamãe me abraçou emocionada.
-Você precisa descansar filho – disse papai se aproximando da cama.
Fechei os olhos e adormeci.
Acordei horas depois, raios de sol penetravam pelo quarto. Adormeci novamente, tive pesadelos. Acordei assustado. Levantei-me rapidamente e senti uma dor terrível nas costas, havia queimaduras na região da minha coluna.
-Karina, cadê você Karina?!
Tentei sair da cama, a agulha do soro que estava preso no meu braço soltou – se.
-O que você esta fazendo?
Com um grande esforço o meu irmão conseguiu impedir que eu me levantasse.
-A Karina, Paulo – continuei a falar me lembrando do pesadelo – ela... ela tava no avião, cadê ela?! – percebi que a minha boca estava aparentemente normal, sem aquela dormência. Mas ao gritar, senti o lado direito do rosto doer e repuxar.
-Você precisa se acalmar Jéferson – disse Paulo me cobrindo com o lençol.
-Mais e a Karina? – insisti.
-Cara, eu não sei dela. Olha só, é melhor você ficar aí. Você não ta bem. Amanhã quem sabe...
-Eu preciso saber como ela esta!
Levantei – me novamente, joguei o lençol de lado. Só então vi que estava sem roupa.
-Onde estão as minhas roupas?
-Que roupas Jéferson? – falou Paulo segurando no meu ombro. – Você se esqueceu; tiraram você do meio de um desastre. Acabou de dar na televisão, já encontraram cento e cinco mortos... Você teve sorte de estar vivo, ta cheio de gente na UTI, por isso é melhor você se deitar e descansar. A mãe ta comendo um lanche junto com o pai, daqui a pouco eles estarão aqui.
-A Karina não pode estar entre esses mortos – balbuciei.
E voltei a mergulhar na escuridão.
Não foi fácil para mim se acostumar com a nova rotina. Teria que ficar mais sete dias naquele hospital. Segundo os médicos, eu tinha um corte na cabeça e na face – o que explicava a dor que surgiu quando gritei com meu irmão. Na altura da coluna, havia queimaduras de primeiro grau e também no punho esquerdo. A minha perna direita permaneceria imobilizada por mais alguns dias.
-Retiramos um pedaço de metal da sua perna – disse o cirurgião calmamente. – Media uns quinze centímetros, mais ou menos.
No todo, eu estava bem. Só ficaria com algumas marcas daquele trágico acidente. Tive que raspar a cabeça para os médicos darem ponto no corte. Os sinais das queimaduras ficariam pra sempre no corpo. E todas as vezes que eu vestisse um short, deixaria a mostra aquela cicatriz em minha canela.
Algumas pessoas não tiveram a mesma sorte que eu. No terceiro dia que estava no hospital, papai me informou que ao todo morrera cento e quarenta pessoas.
-É o maior acidente aéreo do país – afirmou Paulo.
Mas havia algo mais importante pra mim. Na manhã seguinte, após tomar café, fiz a pergunta que não estava querendo calar a minha mãe.
-Mãe a Karina estava naquele avião. Diz-me que ela não esta entre os cento e quarenta mortos. E então?
A resposta não veio de imediato. O que me deixou ainda mais aflito.
-Filho a Karina esta bem – disse mamãe cautelosamente. Respirei aliviado ao ouvir aquelas palavras. – Acredito – continuou mamãe – que a Karina vai receber alta antes de você.
-Que bom – falei ansioso – por um momento eu achei que ela estaria morta.
-Mais ela ta com um problema.
-Como assim? Mãe você acabou de dizer que a Karina esta melhor do que eu!
Mamãe se aproximou da cama. Puxou uma cadeira e sentou – se. Desde o dia do acidente ela estava ali, do meu lado. Parecia bastante cansada, mas se recusava a me deixar sozinho. Grande figura a minha mãe.
-O Fabiano não teve a mesma sorte que a Karina filho – explicou ela. – O Fabiano esta morto e a Karina não sabe.
Eu não consegui acreditar: Karina amava o Fabiano e ele estava morto.
-Como ela não sabe?! – perguntei indignado.
-Ela esta tentando superar uma outra grande perda: a visão.
-Que?!
-É Jéferson, a Karina perdeu a visão no acidente.
Abri a boca, porem não disse nada. Foi difícil de acreditar. Karina, com aqueles olhos tão bonitos, jamais voltaria a enxergar a luz do mundo. E tinha o Fabiano – ela o amava. Karina não suportaria tantas perdas de uma só vez.
Foi então que entendi aquele velho ditado: “Deus escreve certo por linhas tortas”. Aquele era o momento para eu estar ao lado de Karina. Não foi por um acaso que eu entrei no mesmo avião que ela... Entendi que nunca estamos livres do passado. Eu achei que ir ao casamento de Karina seria a ultima coisa que faria a ela. Eu estava completamente enganado.
Foi ótimo estar de volta em casa. Eu estava me sentindo péssimo naquele hospital. As cicatrizes em meu corpo ainda estavam recentes, por isso qualquer cuidado era pouco. Contudo, o alivio de estar de volta em casa, logo desapareceu. Vizinhos e parentes chegaram para me visitar e todos queriam ouvir como fora o acidente, e isto era uma coisa que eu queria esquecer. E para aumentar o tédio, mamãe e papai não deixaram que eu entrasse em contato com Karina.
-É uma situação complicada – disse papai. – Os pais dela podem não gostar de sua visita.
Eu não via motivo algum para os pais de Karina não gostarem da minha visita. Mais tentar convencer os meus pais não era fácil.
-O que você precisa filho é se alimentar direito e descansar – insistiu mamãe. Não teve jeito, só fui visitar Karina no dia seguinte, ainda depois de muita insistência.
postado em 12/09/2009 às 19:55:57 na página biblioteca_ler
O ano de 1997 chegou ao fim. E tive a certeza de que a minha amizade com Karina também. Não teve nenhuma ligação de feliz natal e nem de feliz ano novo. Também não teve presentes.
Consegui um emprego na secretaria de uma escola municipal em Jundiaí, cidade vizinha a Franco da Rocha. Com um grande esforço, consegui comprar uma simples casa não muito longe da escola.
Já estava começando a me acostumar sem a companhia de Karina quando recebi uma carta dela. E não era só uma carta.
O convite de casamento estava perfeito. Deixei – o de lado, peguei a carta – parecia mais um bilhete.
Jéferson,
Estou morrendo de saudades! O que aconteceu com a gente, hein?
Sinto falta das nossas conversas, das nossas brincadeiras.
Sei que esta magoado comigo, por isso me desculpe. Eu te amo como um grande amigo que você é. Da mesma maneira que você me ama, eu amo o Fabiano, tenta atender.
Dia 6 de maio vai ser um dia muito especial pra mim; gostaria que você estivesse presente. Tenho certeza que essa é a ultima coisa que te peço.
Um beijo de sua eterna amiga
Karina.
Quando dobrei a folha estava com as lágrimas escorrendo no rosto. Olhei novamente o convite. Uma gota de lágrima pingou sob o envelope. Karina estava certa aquela seria o ultimo pedido dela que eu realizaria.
Com muito esforço, comprei o presente e uma roupa nova pra mim. O casamento de Karina seria a nossa despedida havia me conformado com tal situação. Depois de casada eu não poderia chegar e convidar Karina para sairmos juntos, não ficaria bem.
Mas ao entrar na igreja, percebi que não seria fácil manter a calma e fingir que estava tudo bem.
A igreja Cristo Ressuscitado, localizada no centro de Franco da Rocha estava toda enfeitada. Na verdade, nunca tinha visto a igreja tão bonita. A decoração começou desde o lado de fora. O chão fora pintado do de branco. Na porta, rosas brancas cobriam todo o batente e seguiam os contornos dos bancos caprichosamente enfileirados. Um enorme tapete foi estendido da porta ao altar onde estavam os padrinhos da noiva e os padrinhos do noivo. Com uma batina branca e enfeites dourados o padre Adão e mais a frente o Fabiano. O noivo trajava um terno cinza, uma gravata também cinza e uma camisa branca. Parecia um tanto ansioso.
Ao entrar na matriz, fiz o vem a Jesus e me dirigi para a ultima fileira do lado direito. A igreja estava completamente lotada. Minutos depois Karina chegou. Estava mais linda do que nunca dentro do vestido de noiva. Com a grinalda na cabeça, Karina estava parecendo uma princesa dos contos de fadas. Ao vê – la entrar acompanhada de seu pai e ao som da marcha nupcial, vi que não seria fácil permanecer até o final da cerimônia. Baixei os olhos e comecei a fitar os meus sapatos. Agora seu Ademar entregava Karina para Fabiano.
-Meus caros fieis, estamos aqui reunidos em nome do pai do filho e do espírito santo, para celebrarmos a união de Fabiano Toledo e Karina Nascimento...
Senti a voz do padre Adão ir sumindo e diante dos meus olhos, surgir como um filme, Karina vestida de noiva acompanhada de seu pai. Eu estava no lugar de Fabiano, eu era o noivo.
Durante alguns minutos lutei para afastar aquela imagem da minha cabeça. Eu estava dentro da casa de Deus e estava cometendo um grande pecado desejando estar no lugar de Fabiano. Mas tal pensamento era mais forte do que eu...
Fui o primeiro a sair da igreja. Achei que estava chamando a atenção de mais. Havia deixado escapar um longo suspiro ao ver Karina colocando a aliança no dedo de Fabiano e desviei o olhar na hora do beijo, enquanto todos sorriam e aplaudiam o casal.
Caminhei lentamente até a casa dos meus pais. Chegando lá entrei no meu antigo quarto e fiquei olhando para o vazio. E não deixei de me perguntar: o que teria acontecido se eu tivesse aberto o meu coração para Karina logo que nos conhecemos? Será que ela teria se casado com Fabiano? Tarde demais para saber as respostas.
Troquei de roupa, peguei presente e fui para a festa. No portão, meu ainda falou:
-Você é jovem Jéferson. Vai encontrar alguém que te ame de verdade.
-Sim – foi o que eu consegui dizer.
Enquanto me dirigia para o salão tinha a impressão que o chão estava se abrindo aos meus pés. Na minha mão o presente de casamento de Karina. Seria o ultimo presente. Seria a ultima vez que falaria com ela. Seria também a ultima vez que a veria. Eu não teria mais lugar na vida de Karina. Agora ela era uma mulher casada, não teria mais aquela liberdade de outrora tão presente em nossas vidas.
O salão estava cheio. Não procurei saber, mas acho que tinha umas trezentas pessoas. Encontrei Karina tirando foto com umas amigas; quando me viu ela parou de sorrir, porém veio até onde eu estava.
-Que bom que você veio Jéferson. Eu estou muito contente em te ver – falou ela um pouco cautelosa.
-Me desculpe – disse eu – por não poder compartilhar essa felicidade que sei você esta sentindo. Eu não consigo você sabe...
-Eu não queria que fosse assim Jéferson.
-Eu também não.
Karina tirou os fios de cabelo que caiam sob o seu olho direito. Eu continuei:
-Eu não tenho mais lugar na sua vida Karina.
-Você sempre teve lugar na minha vida Jéferson! – rebateu ela começando a chorar.
-Não na sua vida de casada – devolvi sem me alterar. – Eu te amo jamais as coisas vão ser como antes.
Controlei a emoção que estava nascendo dentro de mim rapidamente. Ainda assim continuei:
-Eu sou fraco. Não vou conseguir suportar. Por isso é melhor nos afastarmos e...
Não terminei o que ia dizer. Karina se jogou no meu pescoço chorando. Foi um abraço apertado, nunca tínhamos feito aquilo: chorar um no ombro do outro. Quando havia algum problema, sempre resolvíamos numa boa. Era a primeira vez que aquilo acontecia. Não imaginava eu que dentro de alguns anos estaríamos chorando um no ombro do outro novamente.
-Você não pode chorar – disse eu afastando a de mim. – Hoje é um dia especial pra você. Aqui esta o seu presente – entreguei – lhe o presente e encerrei:- olha só Karina, felicidades pra você e... tchau.
Afastei-me rapidamente. Karina ainda me chamou:
-Jéferson espera!
-Mas eu não esperei. Continuei andando. No caminho avistei Fabiano. Fui até ele.
-Parabéns e felicidades – falei pegando em sua mão. – Agora eu preciso ir – acrescentei antes dele abrir a boca para agradecer. Ainda ouvi a voz de Karina me chamando:
-Jéferson espera!
Mas eu continuei indo decidido para a saída do salão. E eu estava achando que não mais veria Karina.
Uma vez na rua corri, queria ficar o mais longe possível daquele lugar – aquela festa não era pra mim. Atravessei a Estrada do Governo, passei por uma viela em frente ao colégio Befama e fui sair perto do posto de saúde, onde há três anos vi Karina pela primeira vez. Cheguei ao ponto de ônibus cansado e com os olhos vermelhos de chorar. No caminho de volta pra casa, encostei a cabeça na janela e fechei os olhos. Foi a primeira vez que senti aquele vazio enorme dentro de mim. Mas foi como li em um famoso livro: as pessoas não controlam seus destinos. E anos depois, eu voltei a sentir aquele vazio dentro de mim novamente.
A minha vida sofreu uma mudança brusca. Numa tentativa de esquecer de vez Karina comecei a fazer coisas que antes não fazia. Assistir a todos os jogos do mundial na França foi uma delas. Valia qualquer coisa para deixar a mente sempre ocupada. Passei a freqüentar mais a igreja, comprei alguns livros e finalmente consegui entrar para a faculdade de biologia.
Devo admitir que tal estratégia funcionou. Estava feliz com o meu emprego e com o salário. Em alguns fins de semana meus pais vinham me visitar junto com meu irmão. Tenho certeza que eles tinham noticias de Karina, mas eu não queria saber; então eles não diziam nada. Eu estava bem... Entretanto, quase cinco anos depois, Karina entrou novamente na minha vida.
postado em 12/09/2009 às 19:51:43 na página biblioteca_ler
A IDEIA DE MILENA
Afinal tudo havia chegado ao fim. De maneira bem dramática, é verdade. O velório começou por volta das vinte e uma horas. E nenhum dos presentes conseguia se conformar com a morte de Tico. Todos pareciam incapazes de dizer algo para o outro; era um respeito mudo à dor alheia. Os amigos de Tico fizeram questão que ele fosse velado vestindo uma roupa branca – a cor de que mais gostava.
Por volta das dez da noite, Marcio chegou ao velório. Teve que ir ao hospital para que um especialista cuidasse de seus ferimentos e depois teve que ir a delegacia prestar depoimento. Foi em direção de Rogério que estava abraçado com Roberta, ambos com olhos inchados de tanto chorar.
-Eu sinto muito Rogério – disse com a voz fraca. – Eu sei a dor que é perder alguém que realmente amamos de verdade.
-Sim – falou Rogério soltando Roberta, - como disse o Danilo, às vezes é preciso que alguém que nós realmente amamos morra para darmos valor a vida – e abraçou Marcio.
Do outro lado da sala, Milena falou para Simone:
-Eu acho que esse é a hora de você dizer tudo que sente por ele Simone.
-Ele jamais vai entender. De todos nós, quem esta sofrendo mais coma morte do Tico é ele.
-Mais um motivo pra você se declarar – opinou Tadeu. – Vai ser bom pra ele saber que existe alguém que o ame de verdade.
Simone não disse nada. Estavam sendo comum, de repente, todos se calarem. Minutos depois Horacio chegou. Levou os pêsames a todos os amigos de Tico. Até mesmo Diego, Rosana e Fernando foram prestar solidariedade ao grupo.
-Marcio eu preciso dar uma palavrinha com você – disse Horacio para Marcio.
O rapaz se afastou um pouco do caixão.
-O que foi delegado, pensei que já estava tudo esclarecido pra você.
-Sim, esta tudo esclarecido pra mim Marcio. O problema é o Caio, me ligaram do hospital; ele não tem muito tempo de vida, esta querendo falar com você.
-Falar o quê? – estranhou Marcio.
-Eu não sei.
Caio estava completamente irreconhecível. Os médicos tiveram que enrolar uma faixa em sua cabeça. Em sua boca havia um tubo pela qual respirava. Marcio se aproximou da cama junto com Horacio, imaginando o que aquele sujeito tinha para lhe falar.
-Chegue mais perto – disse Caio num sussurro. Marcio chegou mais perto da cabeça da cama sem dizer nada.
“Eu e o meu irmão”, começou Caio coma voz muito fraca, “trabalhamos oito anos para os seus pais. Durante todo esse tempo nunca recebemos um sinal de consideração da parte deles”.
Ficou em silêncio. Marcio continuou calado, enquanto Horacio fazia um grande esforço para ouvir o que Caio dizia; o delegado parecia muito interessado.
-A verdade – recomeçou Caio – é que eu e o Guilherme nunca fomos certinhos. Chegou um dia então que nós resolvemos se vingar do Floriano. Conseguimos desviar para nossa conta uma boa quantia de dinheiro – Caio tomou fôlego e prosseguiu: - Mas eu não lembro direito o que aconteceu, sei que o Floriano descobriu porem não sabia que era eu e o Guilherme.
“A sua mãe era mais inteligente, foi investigando até chegar a nós”.
-Hum – disse Marcio – por que esta me dizendo tudo isso?
-Para você ficar sabendo que os seus pais eram mesquinhos. Jamais ajudaram alguém, eles jamais se importaram em ajudar quem quer que fosse.
-Olha aqui... – começou Marcio.
-Espera – pediu Caio cada vez mais fraco. – O Guilherme e eu entramos como auxiliar geral na rede de supermercados e nunca fomos promovidos! Floriano e a Madalena só promoviam pessoas como eles, arrogantes e corruptos; não valorizavam a humildade e o trabalho honesto...
-Chega! – gritou Marcio. – Eu não vou ficar aqui ouvindo mentiras sobre os meus pais!
-Calma Marcio – pediu Horacio. – Calma.
-Calma uma ova delegado. Ele esta ofendendo a memória dos meus pais.
-Caio, continue por favor.
Antes de começar falar, Caio deu um longo suspiro. Reuniu forças para poder abrir a boca e dizer:
-É toda a verdade Marcio. Sei que vou morrer, por isso estou dizendo tudo pra você.
Marcio baixou a cabeça. Horacio tinha os olhos fixos em Caio.
-Depois de alguns dias – falou Caio ainda mais baixo que Marcio e Horacio tiveram que se aproximar mais da cama. Para ouvi – lo – interceptamos uma carta do seu pai. Na carta, o seu pai combinou com a sua mãe, para se encontrarem no aeroporto do Rio de Janeiro e juntos levariam o dinheiro – que nós ainda não tínhamos conseguido pegar – para um banco. Mas como eu disse, a sua mãe era muito esperta. Depositou o dinheiro no banco da Bahia e ao se encontrar com o seu pai no aeroporto, combinaram nos denunciar a policia. Não tivemos alternativa, precisávamos impedir. Colocamos uma bomba caseira no motor do carro e...
-BASTA! – explodiu Marcio se afastando da cama. – ALÉM DE MENTIROSO É ASSASSINO!
-Marcio, por favor! – pediu Horacio.
-DELEGADO DURANTE TODO ESSE TEMPO EU ACREDITEI QUE A MORTE DOS MEUS PAIS TINHA SIDO UM ACIDENTE! ESSE CARA MERECE MORRER!
Caio se debateu na cama. Os seus batimentos cardíacos começaram enfraquecer. Fez um aceno com a mão. Horacio se aproximou da cama e chamou Marcio. O rapaz hesitou, mais obedeceu.
-Não... não nego que sou um... um assassino – disse Caio fazendo um grande esforço para juntar as palavras. – Mas eu pre-preciso... terminar.
-Pode falar – incentivou Horacio. – Nós estamos ouvindo.
Após um breve momento de suspenso, Caio conseguiu dizer:
-A-anos... anos de- depois... o Guilherme... per- perseguiu o seu irmão... e- ele se... recusou a di- dizer aonde estava... o resto do dinheiro... e então... Guilherme o ma-matou.
Horacio viu a boca de Marcio se abrir. Mais ele não gritou, não conseguiu.
-Eu... precisava te dizer isso... Eu n-não teria te chamado se não fo-fosse muito importante... pra mim di- dizer a ver- verdade... pra você. Pa-para muitos... os seus pais... não pres- prestavam – encerrou Caio.
E Marcio perdeu o controle.
-É MENTIRA! EU NÃO VOU FICAR AQUI OUVINDO TUDO CALADO!
-Marcio você não pode gritar aqui!
-TUDO QUE ELE FALOU É MENTIRA!! OS MEUS PAIS JAMAIS SERIAM ODIADOS!!- berrou Marcio de novo, havia lagrimas em seus olhos.
NA cama, Caio parecia agoniado. Os seus batimentos cardíacos foram caindo rapidamente. Surgiu, na porta, uma enfermeira ( provavelmente atraída pelos gritos de Marcio). A enfermeira correu para a cama tentou reanimar Caio... Era tarde demais.
-Vamos sair daqui Marcio – disse Horacio. Os dois deixaram o quarto.
-Desculpe delegado. Eu não deveria ter gritado – falou Marcio meio sem jeito. – Mais é que esse cara acabou com quase toda a minha família!
-Esta tudo bem Marcio.
No dia seguinte, à tarde, foi o enterro. Se Rogério, Roberta, Tadeu, Milena e Simone tinham finalmente conseguido controlar as lágrimas durante o resto da noite passada, não obtiveram o mesmo resultado ao ouvirem as palavras do padre. Um enorme vazio tomou conta de todos. Nunca mais o rosto alegre e bonito de Tico seria visto pelos seus amigos.
Cada um jogou um pouco de terra sob o caixão e uma rosa. Por fim foi colocado a sua maquina fotográfica. Aos poucos as pessoas foram indo embora.
-Nós estamos indos Rogério, você não vem? – perguntou Roberta para Rogério que ficara perto da lápide de Tico.
-Num instante Roberta eu vou.
O rapaz respondeu sem olhar para a amiga. De longe, Simone ouviu atentamente. Foi falar com ele.
-Vai ser difícil agora sem ele não é?
-Vai. Vai sim, mas precisamos aprender a viver sem ele.
Ficaram em silêncio. Ambos olhavam para a lápide; era difícil de acreditar que ali, de baixo daquele chão estava o corpo de Tico.
-Rogério eu tenho uma coisa pra te dizer – quando terminou a frase, Simone percebeu que estava cheia de coragem. Rogério a encarou.
-Talvez outra pessoa, ou até mesmo você, ache que essa não é uma boa hora. Eu penso o contrario. Não existe melhor hora do que essa.
Rogério continuou a encara – la.
-Eu amo você Rogério.
O rosto de Rogério continuou impassível. Não movera um músculo sequer. E então ele sorriu e falou:
-Nada é por acaso, não é mesmo? Estou muito feliz de ouvir isso de você.
Abraçaram – se. Estava feito um laço entre Rogério e Simone. Na lápide estava escrito a seguinte frase:
AQUI JAZ TICO – CURUPIRA
AMANTE DA NATUREZA
E mais a baixo frase:
TONÍCO FERNANDES
1985 – 2008
Em outra parte de Vila das Arvores, Marcio conversava com Roberta.
-Eu pretendo mudar pra São Paulo – disse Marcio lentamente. – Só que antes eu tenho que ir ao Rio de Janeiro.
-Fazer o que? – estranhou Roberta.
-Uma visita ao túmulo dos meus pais. E você, vai continuar aqui?
-Não. Acho que todos vão embora daqui. Não tem mais clima algum continuar morando em vila das Arvores.
-Entendo.
Marcio segurou a mão de Roberta e deu-lhe um beijo.
Quatro dias depois Marcio desceu do táxi em uma tranqüila Rua do Botafogo, Rio de janeiro. Sem dar atenção ao olhar intrigado do taxista ele pagou a corrida e retirou todas as ferramentas de que precisava.
Durante aqueles dias que passaram Marcio refletiu muito sobre a estória de Caio. Acreditava na boa reputação de seus pais; por outro lado, Caio não teria motivo algum para chamá-lo em seu leito de morte e lhe dizer todas aquelas coisas. Talvez, Marcio pensou, toda aquela herança deveria ser sempre dos seus pais. Todo aquele dinheiro só lhe trouxera dor. Perdeu pai, mãe, irmão e um grande amigo, sem contar que a sua vida esteve por um fio diversas vezes. Marcio queria paz. E só tinha uma maneira de obter essa paz.
A chuva apertara. Marcio caminhou mais depressa; o vento batendo com toda a força em seu rosto. Nas mãos uma maleta, uma pá e uma picareta. Tinha finalmente chegado a frente ao cemitério. Devagar empurrou o portão e seguiu entre as lápides. Parou perto de uma onde estava escrito “FLORIANO BITENCURT NETTO 1948 – 1993 e MADALENA TAVAREZ NETTO 1965 – 1993”.
-Aqui estou – disse se ajoelhando junto a lápide de seus pais. – Vim devolver o pouco que vocês me deixaram do muito que conquistaram. Não posso continuar com esse dinheiro, porque não quero ter o mesmo fim que vocês. Perdoem-me.
Marcio ficou de pé. Cavou ao lado da lápide. Meia-hora depois, a herança de setecentos mil reais estava enterrada ao lado dos ossos dos pais de Marcio.
A chuva escorreu no rosto de Marcio quando ele terminou o serviço e levantou a face para o céu.
Um ano depois, Rogério, Roberta, Tadeu, Milena e Simone estavam juntos a caminho do saguão de entrada do aeroporto de Congonhas.
-Terminou de escrever o seu livro Rogério? – perguntou Marcio abraçado com Roberta.
-Falta o fim – respondeu o rapaz sorrindo. – Eu estou sem idéias e a Simone não ajuda em nada.
-Mentira – defendeu – se a moça indignada. – Ajudei muito. Quase escrevi o livro pra ele!
A turma caiu na risada.
-Estou me sentindo estranha – comentou Milena.
-Por quê? – indagou Roberta.
-São dois pares de casais, eu e o Tadeu estamos sobrando!
-Esta sobrando porque quer – disse Tadeu pomposo. – Eu estou aqui: livre, leve e solto!
Todos aplaudiram Tadeu, menos Milena que mudou de assunto:
-Vamos tirar uma foto?
O grupo se reuniu. Depois do flash, Rogério anunciou:
-Sabe pessoal, acabei de ter uma idéia para o fim do meu livro.
-“QUAL É A IDEIA?” – perguntaram todos em uníssono.
-Vou reunir todos os personagens e vou bater uma foto, o que acham?
O grupo caiu na risada.
FIM
18/ 02/ 2008 – 23H: 32M
VANDER CHRISTIAN
LEAL DOS SANTOS
postado em 12/09/2009 às 19:46:50 na página biblioteca_ler
Edmundo chegou ao cativeiro e após explicar que o tiro acertara Tico em cheio para Viviane, eles pegaram Marcio e colocaram dentro da saveiro.
-Pode ter certeza Edmundo, - disse Viviane olhando dentro dos olhos de Edmundo – que hoje a herança de setecentos mil reais virá para as minhas mãos. – Chegou mais perto de Edmundo. – E você estará fora da minha vida!
E empurrou Edmundo. Ele havia sido pego de surpresa. Desequilibrou-se e caiu no chão. Tempo que Viviane entrou na saveiro. Deu partida no veículo. Edmundo pensou que ela iria abandona – lo, mas de repente, Viviane fez o “cavalo de pau” e acelerou...
Logo Edmundo entendeu qual era o plano de Viviane. Ficou de pé.
A saveiro ganhou velocidade... Edmundo se jogou no exato momento que as quatro rodas da saveiro passou no local onde segundos atrás ele estivera caído. Viviane manobrou a saveiro de novo. Passou por Edmundo em alta velocidade ainda de ré e freou. Ao contrario do que Edmundo pensou dessa vez Viviane não tentou atropelar ele. Retomou a ré e com a pistola disparou uma, duas, três disparos. Edmundo cambaleou... Viviane efetuou mais três disparos – Edmundo tombou completamente morto.
Totalmente satisfeita, Viviane seguiu a toda na direção oposta em que Horacio vinha com a sua equipe.
A ambulância estava parada perto da cerca. Mais ou menos uma hora antes, Tico estava trancando o cadeado na bicicleta enquanto explicava para Rogério sobre a palestra de Aquecimento Global em uma Universidade.
Roberta, Tadeu, Milena e Simone entenderam o que tinha acontecido antes mesmo de chegarem perto. Rogério carregara Tico até a saída da mata só para não deixar o corpo exposto aos inúmeros mosquitos que havia dentro da mata.
Rogério estava de joelhos ao lado do cadáver de Tico. Tadeu pousou a mão no ombro do amigo incapaz de dizer alguma coisa. Simone levou as mãos na boca e abraçou Milena, ambas chorando. Roberta olhou para Tadeu também chorando, não tinha nada pra se fazer, só chorar.
-O que fazer agora? – perguntou Tadeu indo abraçar Roberta.
Para surpresa de todos Danilo disse.
-Chorem, não tenham vergonha disso. Às vezes é preciso que alguém que realmente amamos se vai para darmos valor à vida.
Seguiu – se silêncio a essas palavras. Era como se todos estivessem refletindo as palavras dita por Danilo.
-Ele encontrou o cativeiro Rogério? – perguntou Horacio interrompendo o silêncio.
-Sim – respondeu Rogério com a voz fraca. – Mas acho que será tarde demais.
-Não vai ser! Vamos pega – la! Todos em ação vamos lá!
-Eu também vou!
Horacio encarou Roberta.
-Eu confio em você – acrescentou ela.
-Ótimo, ótimo, vamos depressa! – se entusiasmou Horacio.
-Roberta!
Roberta se virou para Rogério. Ouve um momento de expectativa entre os dois. Roberta com medo de Rogério dizer algo desagradável. Rogério, por sua vez, tinha medo de Roberta dizer que não queria ouvir a sua opinião.
-Tenho certeza que vai dar tudo certo – disse Rogério por fim. Ainda tinha a voz fraca e os olhos vermelhos de chorar. – A Viviane e o Edmundo vão pagar pelo que estão fazendo. E você e o Marcio vão ficar numa boa, pode crer que vai.
Foi um momento bonito. O clima era de tristeza, mas a reconciliação de Roberta e Rogério foi bonita. Roberta abriu um longo sorriso e pulou para os braços de Rogério. Aquela foi a única cena que fez os demais presentes desviarem a atenção de Tico morto no chão.
Tadeu, Milena e Simone voltaram na ambulância que levou o corpo de Tico. Os carros da policia seguiram em busca de Viviane.
A patrulha nem precisou procurar muito. Localizaram o cativeiro e o corpo de Edmundo.
-Ela o matou – disse Roberta sombriamente desviando a atenção do cadáver de Edmundo. Os policiais cobriram o corpo com um saco preto. – Delegado, ela esta completamente louca.
-Sim.
-Por que tudo isso? – continuou Roberta. – Tudo por causa de dinheiro. Tantas pessoas envolvidas...
-Isso prova que você tem verdadeiros amigos Roberta. Não deixaram você sozinha nisso. Só lamento a morte do Tico, ele era muito inteligente.
-Quando eu disse “pessoas envolvidas” delegado, não me referia aos meus amigos. Eu estava dizendo do Caio e Guilherme e até mesmo do Diego e da Rosana, todos querendo os setecentos mil reais.
-Diego e a prima dele tentaram roubar a herança do Marcio?
-Tentaram. Foi no mesmo dia que tirei o dinheiro do cofre para impedir que a Viviane roubasse...
-Ah meu Deus! – exclamou Horacio. Imediatamente deu ordens aos policias para voltar.
-Por que vamos voltar? – interrogou Roberta entrando na viatura.
-Eu acho que sei aonde a Viviane foi!
Diego estava arrumando a bagunça que Guilherme deixou em seu quarto. Pegou o pato de louça e falou:
-Tenho que ver se a Carmem vai querer isso – disse. – Só que antes eu vou tirar esses plásticos daqui de dentro.
Diego ficou pasmo. Aquele pato velho que Rosana disse para Diego jogar fora estava servindo de cofre para a herança de setecentos mil reais.
-Esse dinheiro – falou Diego se levantando com um malote de dinheiro em cada mão – todo esse tempo aqui dentro de casa...
Fernando surgiu na porta do quarto acompanhado de Rosana.
-Diego de onde veio todo esse dinheiro? – Rosana perguntou completamente perplexa.
-Estava aqui Rosana. O tempo todo esse dinheiro estava dentro desse pato de louça.
Rosana se calou. Foi Fernando que disse:
-Por isso invadiram a casa de vocês.
-É a herança do Marcio – declarou Diego. – Eu só não entendo por que ele colocou dentro desse pato de louça e dentro da velha capela.
-Sinto dizer, mas a sua pergunta vai ficar sem resposta.
Na porta do quarto encontrava – se Viviane e Bianca. Ambas com um revolver na mão.
-Você fez um bom trabalho Diego – disse Bianca se adiantando para dentro do quarto.
Diego, Rosana e Fernando recuaram.
-Vamos Diego, coloque o dinheiro dentro dessa mochila – ordenou Viviane.
Nervoso, Diego pegou a mochila e começou a jogar os malotes de dinheiro lá dentro.
-Muito bem. Bianca isso foi mais fácil do que eu pensei.
Bianca sorriu.
-Esse dinheiro não é seu! – contestou Diego. Viviane se aproximou dele.
-Agora ele é meu. O que você vai fazer?
-Chamar a policia!
Viviane deu uma coronhada na cabeça de Diego. Rosana gritou ao mesmo tempo em que Bianca dizia para todos ficarem quietos.
Viviane e Bianca deixaram a casa de Diego. A mochila com o dinheiro foi colocada no banco do passageiro. No banco de trás Marcio permanecia desacordado e com as mãos amarradas.
-Pode guardar a arma Bianca – disse Viviane com um tom inocente. – Não vamos precisar dela por enquanto.
Sem perceber o perigo, Bianca colocou a arma dentro da saveiro. Não demorou a notar que acabara de fazer besteira.
-Receio- falou Viviane se aproximando de Bianca – que não vou precisar mais de sua ajuda.
E empurrou Bianca. A moça tropeçou na guia e caiu sentada no chão.
-Nós temos um trato!- gritou ela fazendo um esforço para se levantar.
Viviane se precipitou para a saveiro. Porem, antes que pudesse chegar ao trinco da porta, Bianca empurrou-a para o chão. Atracaram-se as duas.
Nesse momento, na esquina oposta, surgiu a viatura com Roberta, Horacio e Danilo. Tal visão deu a Viviane mais energia. Livrou-se de Bianca e entrou na saveiro e deu inicio a fuga. A outra viatura parou, desceu três policiais que prenderam Bianca.
A saveiro estava em alta velocidade. Preparava-se agora para fazer a interseção em circulo na Praça de Vila das Arvores. O objetivo de Viviane era rumar para fora da cidade.
O carro da policia vinha logo atrás. A perseguição estava chamando a atenção dos transientes que passavam na rua.
De repente da rodovia que dava para a saída de Vila das Arvores, surgiu o celta que pertencera ao Marcio. O carro impediu que Viviane entrasse na rodovia, pois Guilherme estava atirando. Rapidamente Viviane mudou os planos; teria que fazer novamente a interseção. O celta agora estava atrás da saveiro e na frente do carro da policia.
Viviane acelerou, tinha acabado de entrar na rodovia. Caio tomou o atalho e Danilo continuou sem desviar a atenção do carro a sua frente... Caio entrou nesse momento na rodovia e Guilherme jogou uma bomba caseira pra trás.
-PÁRA ESSE CARRO AGORA! – gritou Horacio. Danilo pisou no freio no exato momento que a bomba explodia. O carro deslizou e parou.
-Vamos ter que voltar! – disse Danilo. Não tinham escolha, teriam que voltar e pegar o atalho que Caio e Guilherme pegou.
E por toda parte pessoas gritavam. Nas janelas surgiam rostos à procura de quem e do que estava fazendo tamanho barulho. Os cachorros latiam sem parar, outros começavam a uivar...
Não restava a menor duvida de que os habitantes de Vila das Arvores jamais esqueceriam aquele dia.
Os três veículos estavam agora na rodovia. Guilherme tentava acabar com o carro da policia disparando varias vezes. Ao seu lado Caio guiava o carro com toda atenção e velocidade. Horacio devolvia os tiros em direção ao celta... Viviane estava concentrada na idéia de despistar Caio e Guilherme e a policia; todo dinheiro estava ali com ela. Não percebeu que Marcio recuperou os sentidos no banco de trás. O rapaz demorou a entender o que estava acontecendo e então avistou: ali, do seu lado uma faca. Com muita dificuldade conseguiu segurar a faca e iniciou a tentativa de se livrar das cordas em suas mãos.
Tinham agora acabado de passar pela ponte onde durante a manhã Roberta havia pagado o resgate para Viviane com dinheiro falso. Nesse ponto da rodovia, a situação mudou. Guilherme agora disparava contra o carro de Viviane. Era muito complicado para ela dirigir e atirar. Começou a fazer zigue – zague na pista. Aquele era um trecho simples e ela ia para a esquerda e voltava para a direita. Os disparos continuaram. Também a batalha de Marcio com as cordas. Na contra – mão veio uma carreta. O motorista, na tentativa de desviar da saveiro, jogou a carreta para o acostamento, mais não conseguiu voltar a pista e se chocou direto com varias arvores.
-Caio – disse Guilherme recarregando a arma – logo ali na frente tem um barranco, você vai ter que jogar a Viviane com o carro e tudo lá!
-Mas o dinheiro esta com ela! – rebateu Caio. O retrovisor direito do celta se espatifou com um tiro disparado por Horacio.
-Isso já não importa mais! Precisamos livrar a nossa pele!
-Esse carro nunca vai conseguir alcançar a saveiro!
-Eu vou dar um jeito!
Se virou e disparou contra a viatura. Agora foi parte do vidro da frente da viatura que se partiu. Horacio revidou junto com Danilo, que dirigia com uma mão e atirava com a outra.
-VAI, ACELERA! – berrou Guilherme. Disparou no pneu da saveiro. Viviane sentiu a velocidade diminuir... Nesse momento Caio trocou a marcha e acelerou.
Marcio continuava tentando se soltar. Estava difícil, por causa dos movimentos do carro.
Caio foi avançando. Tomou a direita abrigando Viviane ir para a esquerda. Roberta, Horacio e Danilo eram meros expectadores daquela disputa que iniciara.
Começando a sentir medo Viviane viu um astra se aproximar. Não podia retornar à direita. Atrás do astra vinha um uno. Viviane continuou firme, o motorista do astra jogou o carro para fora da pista e assim como a carreta não retornou ao asfalto. O motorista do uno também não conseguiu se livrar da saveiro – bateu violentamente no astra e explodiu em seguida.
Dentro de poucos segundos, Caio jogou o celta contra a saveiro. Viviane sabia que não poderia agüentar por muito tempo. Caio novamente jogou o celta contra a saveiro – o abismo estava chegando.
-ACABA LOGO COM ELA!!
-EU ESTOU TENTANDO!
Viviane conseguiu empunhar a pistola com firmeza. Disparou contra o celta – não obteve resultado.
E então Viviane fez algo que provou que ela era um ótimo piloto. Caio se afastou... estava preparando para mais uma batida. Viviane esperou. No momento certo ela freou, trocou de marcha e acelerou para a direita; no exato momento que Marcio conseguiu se livrar das cordas.
-O QUE VOCÊ FEZ?! – berrou Guilherme. Eles haviam passado direto... Saíram da pista. Caio perdeu o controle do carro. – PISA NO FREIO!!
-NÃO ESTA FUNCIONANDO!
O pânico tomou conta dos dois irmãos. Caiu na própria armadilha. Chegaram ao abismo. A primeira pancada acabou com a frente do celta. Caio conseguiu livrar – se do cinto e se jogar pra fora no momento em que veio a segunda pancada. Guilherme não teve a mesma chance, o carro continuou ladeira a baixo. Caio rolou e bateu a cabeça varias vezes nas pedras e até mesmo no chão, antes porem, de perder completamente os sentidos, assistiu o carro explodir com o seu irmão dentro.
-Como dizia a minha mãe, formada em inglês: the and!- disse Viviane satisfeita. Entretanto a sua alegria durou pouco.
Marcio pegou a faca e iria dar um golpe no braço dela. Mas Viviane foi mais rápida; acertou uma cotovelada no nariz de Marcio. Ainda assim, ele conseguiu passar para o banco da frente e agarrou o braço de Viviane com força.
-Pare o carro!
-Me solta!
Saíram da pista. A saveiro ia perigosamente em direção do abismo.
-AH, MEU DEUS, ELES ESTAO INDO EM DIREÇAO AO PRECÍPICIO!!- exclamou Roberta. Danilo também deixou a pista...
Viviane destravou a porta e se jogou. Marcio pressentiu o perigo e se jogou em seguida. A saveiro voou no precipício.
-PÁRA ESSE CARRO AGORA!! – trovejou Horacio. Sem que percebessem, tinham chagado perto do abismo, a intensa vegetação impediu a visão deles. Danilo acionou os freios bem na hora. Horacio saltou pra fora com o revólver na mão.
Viviane estava com a pistola. Marcio tinha a mochila com o dinheiro.
-Se entrega Viviane, você não tem mais onde fugir! – falou o delegado se aproximando cautelosamente da moça. Mais atrás vinha Danilo e Roberta.
-Se afasta delegado, ou eu atiro nele! – disse Viviane com a pistola apontada para o peito de Marcio, que sua vez, falou:
-Se atirar em mim o dinheiro vai se perder lá embaixo – o rapaz estava muito próximo do abismo de modo que se ele soltasse a mochila com certeza cairia no mesmo lugar que a saveiro.
-Me entrega a mochila Marcio!
-Eu não vou entregar, abaixe esse revólver!
-Você não tem saída Viviane. Se entrega logo!
-NÃO! – explodiu Viviane indo à direção de Marcio. – SE VOCÊ NÃO SE AFASTAR, DELEGADO, EU ATIRO NELE!
-Jogue a arma e se entregue Viviane!
-ME ENTREGA A MOCHILA, MARCIO, OU EU ATIRO!
-Você vai morrer antes de apertar o gatilho Viviane. Se entrega logo!
A tensão era grande. Horacio e Danilo apontavam as armas para ela. Viviane mantinha a pistola apontada para o peito de Marcio. E o rapaz ameaçava jogar a mochila no precipício.
Roberta resolveu interferir, sem pensar em nada, se adiantou para onde estava Viviane.
-A sua jornada acabou. É o seu fim Viviane.
-Pode ser Roberta. Mas antes, vou ter o prazer de ver o seu corpo cair como uma boneca feita de trapos bem aqui na minha frente.
E apontou a pistola para Roberta.
-NÃO!!
Foi tudo muito rápido. Marcio gritou “NÃO” e acertou a mochila no rosto de Viviane fazendo – a errar o tiro que acertaria em Roberta. Horacio disparou um tiro – acertou no ombro de Viviane, a pistola caiu de sua mão.
-Vai ser do meu jeito – disse ela tentando demonstrar firmeza.
E todos que ali estavam, assistiram incrédulos e sem reação alguma, Viviane se afastar, abrir os braços e deixar o corpo cair no precipício. Um grito agudo deixou – se ouvir no segundo seguinte àquela cena.
Roberta abraçou Marcio. Estava feliz e triste ao mesmo tempo.
-Calma – disse Marcio dando um beijo na cabeça de Roberta. – Esta tudo bem. Ela se foi.
-Marcio – falou Roberta chorando e encarando o namorado – o Tico também se foi, ele ta morto!
-Como isso aconteceu? – Marcio perguntou emocionado.
-Eu não sei bem direito; foi uma tragédia – a emoção voltou a tomar conta de Roberta. Marcio abraçou – a também emocionado.
postado em 12/09/2009 às 19:44:43 na página biblioteca_ler
Edmundo empurrou Marcio contra a parede. O novo cativeiro Marcio notou, era sinistro. Raízes de arvores brotavam de todas as partes do chão. Nas paredes, cipó e outras plantas entre um bloco e outro. A impressão que se tinha é que a mata surgira depois da casa ter sido construída.
-Fique de olho nele – falou Viviane impedindo Edmundo de sair pela porta do cômodo.
-E o meu celular?
-Vai ficar comigo. Houve uma mudança de plano. Preciso sair.
Logo após a saída de Viviane, Edmundo chutou a porta que deu uma tremida perigosamente. O seu plano particular também falhara.
-Que lugar é esse?
Edmundo fingiu não ouvir a pergunta de Marcio.
-Que lugar é esse? – repetiu Marcio de olho na pequena janela que ficava a poucos metros do chão.
-NÃO CHATEIA CARAMBA! – berrou Edmundo dando outro chute na porta. Dessa vez a porta foi pro chão.
Viviane discou o número do celular de Bianca com um novo plano na cabeça.
-Bianca é a Viviane. O Edmundo não pode atender. Estou te ligando porque tenho uma proposta para te fazer.
-Uma proposta? – perguntou Bianca desconfiada.
-Sim.
-Que tipo de proposta?
-Poderia me encontrar na rua do cemitério daqui uns quinze minutos?
-Sim.
-Ótimo, conversaremos melhor lá.
Bianca chegou primeiro. Viviane chegou minutos depois e pediu que Bianca entrasse na saveiro. Não muito longe Guilherme estacionou p pálio vermelho e sem tirar os olhos da saveiro ligou para o Caio.
-Esta na sua posição Caio?
-Estou.
-Na hora certa eu te ligo.
-A proposta que tenho pra te fazer Bianca é a seguinte: você me fala tudo que sabe sobre a herança pra mim e juntas, nós pegaremos e dividimos uma com outra.
A resposta de Bianca não foi imediata. Ela encarou com bastante atenção no rosto de Viviane.
-Por que esta fazendo essa proposta Viviane?
-A minha parceria com o Edmundo não esta dando certo – disse Viviane desviando o olhar de Bianca. Depois voltando a encara – la acrescentou: - E convenhamos, deixar o Edmundo de “fora” é uma idéia muito tentadora, não é mesmo?
-Sim... muito tentadora. Eu tenho uma idéia de onde esteja a herança... mas preciso ter certeza.
-E onde poderia estar?
-Não tenho nenhuma garantia que você repartirá a herança comigo.
-Ah, Bianca deixa essa suspeita de lado... Eu sei o quanto você odeia o Edmundo por ele ter te roubado tudo. E eu não to satisfeita com o serviço dele. Tira – lo do caminho é o melhor que temos a fazer.
Calaram-se as duas. Bianca considerava a proposta de Viviane e também queria se sair bem...
-Eu acho – falou Bianca escolhendo as palavras – que a herança esta na casa do Diego.
-Por que você acha isso? – Viviane parecia muito surpresa.
-O Marcio escondeu o dinheiro dentro da velha capela. No dia seguinte o Diego limpou lá dentro e agora não tem nada lá.
-Mas se o Diego realmente pegou a herança por que ele não foi embora? Ele continua trabalhando de faxineiro.
-É óbvio. O Marcio escondeu o dinheiro dentro de alguma coisa que estava dentro da capela. Diego deve ter levado pra sua casa sem saber que a herança esta dentro. Pelo que dizem, ele tem mania de pegar coisas sem importância e levar para casa.
-Faz sentido... com certeza o Marcio escondeu a herança dentro de algo improvável. Você tem razão, precisamos entrar na casa do Diego.
-Já entraram. Guilherme revirou a casa toda; só que a prima do Diego chegou e estragou tudo.
-Aqueles dois... Precisamos se juntar para vencermos esses caras. E então, aceita a minha proposta?
-Aceito.
-Excelente. Você vai pra sua casa e fica a minha espera. Enquanto isso vou dar um jeito no Edmundo e pegar o Marcio.
Bianca saiu da saveiro. Passou perto do palio sem notar Guilherme com o celular na mão.
-Caio, é uma saveiro prata, esta indo em sua direção.
-OK. Eu ligo pra policia e você invade a casa do faxineiro.
Viviane rumou para o novo cativeiro sem ver o celta que vinha um pouco mais atrás...
Roberta ficou indiferente ao fato de Tico dizer que teria de ligar para Horacio avisando – lhe do roubo do celta durante a noite. A verdade é que Roberta não estava agüentando ouvir a palavra delegado, de modo que, em respeito a amiga, Tico ligou da casa de Tadeu. Minutos depois Horacio invadia a casa de Guilherme. Estava vazia...
Caio sentiu que era melhor não arriscar mais. Ao ver a saveiro seguir em direção a mata fechada, discou para a policia.
Horacio ainda se encontrava na casa de Guilherme quando Bernardo ligou comunicando – lhe da denuncia que recebera de um suposto cativeiro no meio da mata.
-Vamos Danilo – disse agitado – é melhor não comunicar a Roberta, se não ela vai ter outro acesso de gritos.
Diego se apoiou na vassoura preocupado.
-O que será que aquele ladrão estava procurando em casa? – se perguntou. – Será que foi roubar o meu conversor de T.Vdigital? Se roubarem... como vou assistir aqueles filmes a noite?
Ele deixou a vassoura cair no chão.
-Ah meu Deus, a Rosana não ta em casa!
E deixando o carrinho, pá e vassoura pra trás, saiu correndo em direção a sua casa.
Guilherme recebeu o aviso de Caio que o delegado logo estaria longe de Vila das Arvores.
Novamente com muita habilidade, Guilherme invadiu a casa de Diego. Só que o pressentimento de Diego estava certo; ao dobrar a esquina, ele viu Guilherme invadir a sua casa. Na outra esquina surgiu a viatura da policia. Sem pensar Diego se colocou na frente da viatura. Danilo pisou no freio ao mesmo tempo em que Horacio colocava a cabeça pra fora da janela e gritava:
-Ficou maluco! Ta querendo morrer!
-O – o bandido... invadiu... a... minha casa... de novo! –falou Diego com dificuldade e tomando consciência de que poderia ter sido atropelado.
O rosto de Horacio se virou para a direção da casa. A porta aberta, o pânico estampado no rosto de Diego... veio então a compreensão.
-Rápido Danilo, vai!
Saíram os dois de dentro da viatura rapidamente; o revolver na mão...
Entretanto, Guilherme, ao arrastar a poltrona da sala com violência, viu a viatura parada em frente a casa. Precipitou – se para a cozinha empurrando mesa e cadeira...
Horacio chegou à sala. Danilo foi para os quartos. Nem sinal do ladrão.
Guilherme chegou à lavanderia. Depois, rápido como um gato, saltou o muro e saiu em um terreno baldio. Ligou para o Caio.
-O que você fez Caio? A policia quase me pegou!
-Droga! Agüenta aí, vou te pegar!
Acelerou o carro deixando as proximidades da mata fechada.
-Fugiu – falou Horacio para Diego. – Fugiu pelos fundos. Danilo da um giro por aí, ele não deve ter ido muito longe.
-Eu não acredito que vocês o deixaram escapar – disse Diego após a saída de Danilo. – Vocês eram dois e estavam armados!
O delegado fingiu não ouvir o comentário de Diego.
-Tem alguma coisa de valor aqui nessa casa? – perguntou
-Tirando o conversor para T.Vdigital que eu paguei três mil, não.
-Não é atrás de um conversor que esse ladrão ta. Deve ser algo muito importante. Em menos de vinte e quatro horas ele invadiu a sua casa duas vezes!
-Eu também estou assustado com essa estatística, delegado. Nem sair para trabalhar mais eu não posso.
-Você tem certeza que não trouxe nada de valioso pra casa nesses dias que passaram?
-Certeza absoluta.
-E a sua prima?
-Também não. É daqui pra casa do Fernando, da casa do Fernando pra cá.
-Quem é esse Fernando?
-Namorado dela.
Horacio ia abrindo a boca pra fazer outra pergunta sobre Fernando, mas foi interrompido pela chegada de Danilo.
-Olha delegado, o ladrão fugiu mais eu encontrei o pálio roubado e isso – disse Danilo entregando uma carteira para Horacio.
-Guilherme Pascoal. Um ótimo trabalho Danilo. Agora vamos ver o carro. Diego você pode ir à delegacia fazer o B.O. E qualquer coisa entra em contato comigo.
-Delegado, e quanto a denuncia sobre o suposto cativeiro?
-Mais tarde veremos isso.
Às quatorze horas Tico pegou a maquina fotográfica colocou-a dentro da mochila e se preparou para sair. Dos últimos dias, aquele era o que estava mais quente.
-Eu não vou demorar – falou Tico atirando a mochila nas costas. – Roberta, não fica assim; vai dar tudo certo.
Roberta olhou para o seu amigo sem dizer nada. Ainda usava a mesma roupa da manha – só dispensara o blusão.
Sem dizer mais nada, Tico deu um beijo na face de Roberta e fez o mesmo na face de Milena e Simone.
-Boa –sorte Tico – desejou-lhe Tadeu sorrindo.
-Obrigado.
Por um momento Tico sentiu que aqueles eram de fato seus melhores amigos. Fazia algum tempo que ele não sentia aquilo. E Tico teve certeza que os outros estavam sentindo o mesmo, porque eles abriram um largo sorriso. Montando em sua bicicleta, Tico acreditou que toda aquela má faze estava acabando; que em breve tudo voltaria ao normal.
Ao chegar na casa de Rogério, Tico encontrou o amigo montando em sua bicicleta. Depois de se cumprimentarem, partiram para a reserva de mata fechada.
-O pessoal que organizaram o concurso – falou Tico trancando o cadeado na corrente de sua bicicleta – fez uma palestra sobre o Aquecimento Global semana passada lá na Uni Santana, sabe onde é?
-Sei, um amigo do meu tio estuda lá - respondeu Rogério fazendo o mesmo com a sua bicicleta.
Os dois amigos atravessaram a cerca de arame farpado. Com as maquinas fotográficas nas mãos, a dupla de amigos deram inicio a exploração à mata.
-O objetivo desse concurso – continuou Tico – é mostrar para a sociedade a importância que tem essas reservas de mata. Aqui dentro, você pode ter certeza, Rogério, vai ter algum animal que não é encontrado em qualquer lugar; daí a importância de preservar as florestas, entende.
-Pode crer.
Não muito longe dali, Viviane dava uma ordem ao Edmundo.
-Por que você quer que eu amarre as mãos do Marcio?
-Porque nós vamos sair. Vai lá e amarra as mãos dele e volta aqui; tenho que lhe dizer uma coisa.
Edmundo obedeceu. Minutos depois, Marcio estava com as duas mãos amarradas e Edmundo olhando para Viviane a espera de uma explicação.
-Eu vou lhe dizer o que é...
Rogério se afastou de Tico. O amigo concordara em afastar – se um do outro na intenção de encontrar uma foto boa o mais rápido possível.
E então Tico avistou. Para ele foi uma surpresa sem tamanho encontrar uma casa, ou melhor, um casebre, no meio daquela mata. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi: Marcio.
A sua expectativa era tão grande que nem se lembrou de Rogério. Caminhou cautelosamente para evitar fazer barulho. Tico foi para o lado oposto da porta, onde havia uma janela. Chegou mais perto; o coração disparado. Precisava arriscar uma olhada...
De alguma forma, amarrar as mãos de Marcio fez com que ele decidisse algo que há muito estava querendo fazer. Marcio estava calculando qual seria a melhor maneira de pular a janela, quando, para a sua surpresa, na janela surgiu o rosto de Tico.
-Mais o que...?!
As palavras não saíram. Tanto Marcio como Tico se sentia demasiados felizes e surpresos para dizerem alguma coisa.
-Mar-Marcio... eu nem acredito! Nem acredito que te encontrei! – declarou Tico sorrindo.
-Psiu! – se apressou a dizer Marcio. – A Viviane e o Edmundo podem ouvir. Você precisa avisar a policia. Tenho certeza que eles estão tramando alguma coisa porq...
A frase de Marcio morreu aí. Viviane o avistou conversando com Tico. Ela se aproximou de Marcio empunhando a arma.
-RÁPIDO EDMUNDO, NÃO O DEIXA FUGIR! – Viviane gritou sem necessidade; Edmundo já ia ao meio da mata correndo atrás de Tico que fugia dali rapidamente.
Mesmo tendo as mãos presas, Marcio partiu pra cima de Viviane. Contudo, ela estava preparada: a flanela na mão direita estava encharcada de álcool... Novamente Marcio não teve chance.
O rosto de Tico sangrava. Conseqüência dos galhos que batiam em sua face enquanto corria. Mais tiros ecoou pela floresta.
.
Rogério parou ao ouvir os tiros. Correndo para a direita, ele gritou o nome do amigo.
Na outra extremidade da mata o impossível aconteceu. Ao mesmo tempo em que Rogério chegava a uma enorme clareira.
-TICO, TICO!!
Rogério ia gritar mais uma vez, mais não precisou; avistou Tico chegando do outro lado da clareira. Foi aí que aconteceu...
Tico abriu a boca, porem não saiu som algum. Os tiros pararam. Demorou um pouco para Rogério entender o que havia acontecido. O corpo de Tico tocara o solo cheio de mato da floresta.
Rogério correu; se esqueceu que em sua frente tinha uma enorme clareira cheia de espinhos. ”TICO, TICO!” gritou Rogério – coração sentindo uma enorme agonia e uma voz em sua cabeça tentando convence – lo de que o pior não acontecera.
Quando Edmundo viu o corpo de Tico caindo, teve certeza que o rapaz estava morto. Abrindo um sorriso, Edmundo retornou para junto de Viviane...
Rogério estava com o rosto e os braços cheio de escoriações e se manteve firme ao chegar ao lado de seu amigo.
-Tico o que aconteceu?
-O... Marcio... esta aqui! Você... precisa avisar a policia!
-De jeito nenhum! Eu não posso te deixar aqui!
-Não há mais nada para se fazer comigo...
-NÃO! Eu vou te levar para um hospital!
-Rogério... por favor...
Sem dizer mais nada, Rogério ligou.
-O que esta dizendo Rogério?! – exclamou Tadeu ao ouvir a narrativa de Rogério.
-É isso mesmo Tadeu. O Tico descobriu onde o Marcio esta e o Edmundo lhe acertou um tiro. Preciso que você comunique a policia agora!
-Cara isso não pode ter acontecido, o Tico só foi tirar umas fotos pa...
-CHAME A POLICIA RAPIDO! O TICO- NÃO – ESTA – BEM!
Tadeu ficou desesperado. Contou para todos o que ouvira e depois ligou para Horacio, que prometeu levar todos ao local do incidente e disse também que a ambulância estava a caminho.
-Você tem certeza que o Rogério te disse isso? – perguntou Roberta.
-Sim, disse – respondeu Tadeu quase num sussurro.
Momentos depois Horacio chegou. Roberta, Tadeu, Milena e Simone entraram na viatura policial. Eram quatro viaturas ao todo.
postado em 20/05/2009 às 14:54:58 na página biblioteca_ler
Quando Edmundo se juntou a Viviane ficou sabendo de todo o plano para a manhã seguinte.
-Você vai ter que buscar o carro Edmundo – ordenou a moça. – Amanhã numa hora dessas eu quero estar longe daqui.
-É pra eu ir agora?
-Sim, é melhor ir agora.
O dia chegou ao fim rapidamente. Já era noite quando Roberta decidiu aceitar o convite de Simone. Tamanho nervosismo que ela estava sentindo, Simone resolveu convida – la para dormir na sua casa.
Quando a madrugada chegou, Caio e Guilherme abriram o portão da casa de Marcio, arrombaram a garagem e silenciosamente empurraram o celta até a rua. Uma vez na rua, Caio e Guilherme entraram no carro e desapareceram na noite tranqüila de Vila das Arvores.
A impressão que Roberta teve é que mal se deitara Simone te acordou. A noite foi horrível para dormir, pois Roberta se revirou na cama na esperança que o sono viesse. Quando pensou que finalmente tinha “pegado” no sono, Simone a acordou.
Completamente nervosa Roberta foi para o chuveiro. Depois desceu para tomar café – mas acabou não comendo e nem bebendo nada. Decorrido alguns minutos ela pegou a mochila com os dinheiros falsos e rumou para o carro de Horacio que estava a sua espera. Quase num sussurro ela disse “bom - dia” ao delegado.
Entretanto, Roberta não era a única a se levantar às cinco da manhã. No meio da noite, Edmundo comunicou Bianca que Roberta resolvera pagar o resgate a Viviane. Imediatamente, Bianca bolou um plano: no momento que Viviane fosse repartir o dinheiro Edmundo lhe daria um tiro. Estava andando de um lado pro outro a espera da ligação de Edmundo.
O carro parou a poucos metros da ponte. A partir dali Roberta teria que seguir a pé. Horacio e a sua equipe, juntamente com Tico, Tadeu, Simone e Milena, ficariam escondidos.
Roberta sentiu a boca seca, cérebro trabalhando furiosamente. “Isso é uma falsa”, pensou. O que a Viviane iria fazer quando descobrisse que todo aquele dinheiro não valia um centavo?
Viviane pegou uma flanela, encharcou – a com álcool e apertou contra o nariz de Marcio. O rapaz acordou e logo em seguida adormeceu de novo. Sem muito cuidado, Edmundo colocou Marcio dentro da saveiro e rumaram para o local combinado.
Pensando em tudo que Viviane fizera, Roberta parou. Tinha chegado à ponte. Embora a ponte servisse para ligar Vila das Arvores a Monte Paulista, o movimento àquela hora da manhã era pouco. Os dois lados da estrada eram quase cobertos pela enorme vegetação; de modo que a placa que indicava a divisa das duas cidades não ficava amostra.
Roberta parou. A qualquer momento ela estaria junto de Marcio. Tinham ficado tão pouco tempo juntos...
Lentamente Viviane surgiu no meio da estrada. Roberta sentiu a sua mão que estava segurando a mochila tremer. Ainda lentamente Viviane se aproximou da sua rival. Parou. Havia em seu rosto um enorme sorriso.
-Cadê o Marcio? – Roberta perguntou ameaçadoramente. A saveiro parou do lado de Viviane. De dentro saiu Edmundo que falou:
-Esta aqui dentro.
-Ele esta desacordado – disse Viviane. – Decidimos que seria melhor para vigia – lo. Edmundo encarou Roberta meigamente.
Havia um distancia de aproximadamente quatro metros entre Roberta e Viviane.
-Deixe a mochila no chão e se afaste devagar! – ordenou Viviane sacando a pistola e apontando para Roberta. Ela obedeceu no primeiro momento.
-Entregue o Marcio!
Roberta não recuou. Com os olhos em Viviane repetiu o pedido:
-Entregue o Marcio, Viviane!
-Você não recuou Roberta.
-O que você quer! – explodiu Roberta pondo fim a sua tentativa de esconder e controlar o seu ódio. – A mochila esta aí com a droga do dinheiro, agora liberte o Marcio!
-Pra trás, Roberta, eu estou mandando!
A arma continuava apontada para Roberta, que resolveu obedecer.
Não muito distante dali, Horacio acompanhava tudo pelo binóculo. Enquanto que Tico se arriscava para ver através da intensa vegetação.
-Por que ela esta demorando a libertar o Marcio?
-Você acha que ela descobriu que o dinheiro é falso delegado?
-Creio que não Milena – respondeu Horacio sem muita convicção. - Mas é muito importante que a Roberta tenha calma.
Bianca não conseguia ficar quieta. O Edmundo deveria ligar a qualquer momento.
Viviane pegou a mochila. Seus olhos brilharam ao ver os malotes de dinheiro. O coração de Roberta batia acelerado...
Horacio se esqueceu completamente de ficar ajoelhado no chão. Ficou de pé e apertou o binóculo ainda mais nos olhos...
-Não to gostando nada disso – falou Tadeu tenebrosamente.
-Edmundo – disse Viviane – deixe o carro aí e venha até aqui.
O rapaz abedeçeu.
-O que foi?
-Entregue a sua arma.
-Que?!
-A arma, me entrega.
-O COMBINADO NÃO FOI ESSE! – gritou Roberta. – VOCÊ PEDIU O DINHEIRO E ESTA AÍ, AGORA ENTREGUE O MARCIO!
-CALA A SUA BOCA! – respondeu Viviane e se virando para Edmundo ordenou: - Entrega a arma, vamos!
-Por que isso agora Viviane?
-Eu não vou pedir de novo Edmundo! Fique aonde esta! – acrescentou, pois Roberta se adiantara em sua direção.
Sem muita satisfação, Edmundo entregou o seu revolver.
-Verifique se a quantia esta certa – disse Viviane segurando com firmeza a arma.
Bianca terminou a xícara de café e olhou zangada para o celular sob a mesa...
-Ah não, o que ela ta fazendo?!
-O que aconteceu?! – perguntou Tico ficando de pé. Tadeu, Simone e Milena também se levantaram.
-Não aconteceu nada! – embora Horacio tenha dito essas palavras, ele se afastou sorrateiramente até Danilo. – Vamos ter que usar o plano B – disse num sussurro – enquanto isso, eu disfarço a turma.
-Ok.
Danilo se juntou aos outros policiais e começou a explicar algo rapidamente.
-Só quando eu mandar! – gritou ainda Horacio para ele.
-E então?
Não precisou nem Edmundo responder. Era nítida a fisionomia de ódio e surpresa em seu rosto.
-A quantia esta errada; esse dinheiro não existe é falso! – dizendo isso Edmundo entregou uma nota para Viviane.
-Roberta venha até aqui.
Novamente Roberta obedeceu. Viviane devolveu o revolver de Edmundo.
-Achou mesmo que poderia me enganar com um truque tão baixo?
Antes mesmo de Roberta abrir a boca para responder, o seu rosto esquentou com um tapa de Viviane. Nesse momento, aconteceram varias coisas.
-Não deixa o Marcio sair do carro! – gritou Viviane para Edmundo. Ao mesmo tempo em que Marcio recuperava os sentidos e colocava a cabeça pra fora e gritava:
-Não deixa que eles me levem de volta pro cativeiro Roberta!
-Solta ele seu cachorro!
Roberta tentou ir à direção de Marcio que foi empurrado de volta para dentro do carro. Viviane impediu Roberta de chegar mais perto ameaçando atirar.
-FAÇA ALGUMA COISA HORACIO, AGORA! – Simone gritou indo em direção ao delegado. Ninguém agora parecia se importar em permanecerem escondidos.
E para a surpresa de todos, Horacio fez sinal para Danilo e a confusão começou. Do meio do mato saíram doze policiais atirando e indo na direção de Viviane. Quando ela ouviu os tiros entrou rapidamente na saveiro, deu ré e se afastou do local revidando os tiros.
-O QUE PENSA QUE ESTA FAZENDO!! – explodiu Roberta em meio ao tiroteio. Os seus amigos se aproximaram dela também parecendo todos muito confusos. – O MARCIO TA DENTRO DAQUELE CARRO DELEGADO! SUSPENDA O TIROTEIO!!
Mas Horacio não ouviu Roberta. Um dos policiais trouxe o carro e num segundo Horacio estava dentro do veiculo.
Com muita habilidade Viviane guiava o carro em meio ao matagal. Logo atrás vinha o corsa da policia. Horacio atirava, porém o solo era cheio de pequenos morros. O que dificultava a pontaria.
-VAMOS EDMUNDO, ATIRA TAMBEM!! – berrou Viviane que a intervalos esticava o braço pra fora e atirava na direção dos policiais.
-As chances de acertar são mínimas Viviane – retrucou Edmundo pulando no banco ( Viviane acabara de passar em cima de uma raiz de arvore). No banco traseiro, Marcio tombava de um lado pro outro. E então o celular de Edmundo tocou. Ele ia levando o aparelho ao ouvido, mas Viviane foi mais rápida.
-Não vai atender!
Edmundo ia protestar; quando o vidro de trás da saveiro se espatifou com um tiro. Agora mais três viaturas vinham perseguindo Viviane.
Mas logo Horacio desistiu. Retomou à ponte; Roberta, Tico, Tadeu, Milena e Simone estavam apavorados.
-Ela... escapou – disse Horacio com a voz fraca. E sem que ninguém notasse, Roberta começou a gritar:
-BURRO, COMPLETAMENTE BURRO, É ISSO QUE VOCÊ É! INCAPAZ DE PRENDER DUAS PESSOAS!! TAVA NA CARA QUE NÃO IA DA CERTO, ESTAVA ACHANDO QUE ERA TUDO BRINCADEIRA!!
-Roberta calma – tentou Milena.
-EU – NÃO – VOU – ME – ACALMAR!!
-Olha só Roberta, - falou Horacio – eu entendo que você esteja nervosa afinal de contas o Marcio é o seu noivo, mas...
-NAMORADO DELEGADO, ELE É O MEU NAMORADO! – trovejou Roberta completamente descontrolada. – E GRAÇAS A SUA INCOPETENCIA ELE NÃO TA AQUI DO MEU LADO!! O QUE VOCÊ ACHA QUE VAI ACONTECER AGORA QUE A VIVIANE DESCOBRIU A INTERFERENCIA DA POLICIA?!
Roberta gritava tão próximo do rosto de Horacio que o delegado sentia as salivas voar para os seus olhos.
-VOCÊ ACHA QUE ELA VAI LEVAR TUDO NA BRINCADEIRA?! AGORA NÃO VAI MAIS ACORDO, ESTA SATISFEITO!!
Os olhos dela agora estavam cheio de lagrimas. Simone pousou a mão direita sob o ombro de Roberta. Devagar ela se afastou de Horacio. Tico, Tadeu e Milena foram logo depois.
Roberta entrou na viatura de Danilo. Antes, porém, de Danilo dar partida no carro, Horacio se aproximou da janela e abandonando o seu tom de voz habitual, disse com frieza:
-Tem uma coisa Roberta. Eu vou esquecer que você me desacatou certo. Mas sou bom que saiba, eu sou policial há vinte anos; durante esse tempo houve situações parecidas e piores do que essa. E não foi tentando uma vez só que eu consegui soluciona – las tem que ter persistência! Viviane será presa junto com o seu parceiro por fim.
-Eu não quero a sua ajuda – falou Roberta secamente.
-ÓTIMO! – Horacio agora parecia bastante irritado. – O QUE VOCÊS IAM FAZER QUANDO TERMINASSE O PRAZO DE SEIS DIAS PARA ENTREGAR O DINHIRO?! VAMOS ROBERTA, DIZ! QUAL ERA O PLANO DE VOCÊS?!
Roberta não respondeu secou as lagrimas na manga da blusa e fingiu que ninguém gritara ao seu lado.
-Esta bem – continuou Horacio. – Só não vai fazer nada de errado pra depois sair por ai dizendo que a culpa é da policia.
-Vamos embora, por favor – pediu Roberta ao Danilo.
A viatura partiu deixando Horacio pensativamente...
postado em 20/05/2009 às 14:53:18 na página biblioteca_ler
Edmundo entrou na construção abandonada muito preocupado. Bianca dissera que queria falar com ele. Sabia muito bem qual seria o assunto. Do outro lado da rua, um gol preto estava parado. Após a entrada de Edmundo, Caio deixou o carro e também entrou na construção.
-Trouxe o que eu pedi?- perguntou Bianca secamente.
-Não.
-A tua falta de desempenho é muito notável, sabe. É algo de se admirar e...
-Pode pára – Edmundo interrompeu – a com frieza. – É fácil pra você só ficar dando ordens não é? Não se arrisca com nada.
-Quem disse que não me arrisquei?
Edmundo não falou nada. No canto da porta, Caio ouvia atentamente.
-Tive que falar com o delegado – disse Bianca. – Corri um grande risco.
-Você falou com o delegado?! – Edmundo agora estava com medo.
-É a única maneira de a Viviane ficar fora dos nossos caminhos.
-Você disse que não denunciaria...
-Se tivesse com o dinheiro nas mãos – terminou Bianca com cara de desdém. – Você não trouxe o que eu te pedi.
-Eu forcei o Marcio a dizer onde estava a herança. Ele falou que havia escondido dentro da velha capela, mas quando eu entrei lá não tinha nada; nem uma poeira!
-Não estava dentro da capela? – agora Bianca estava interessada. O mesmo pode se dizer de Caio.
-Não – disse Edmundo parecendo aliviado que Bianca se interessara pelo assunto. – A capela estava limpa, sem bagunça nenhuma.
No pensamento de Bianca, veio Diego dizendo:
-“Vou limpar tudo aqui, inclusive aí dentro”.
-Acho que sei quem pegou a herança – disse pensativamente.
-Você esta achando que o Marcio disse a verdade?
-Sim. Você vai invadir a casa do mais novo faxineiro de Vila das Arvores, porque é lá que o dinheiro esta.
-Tem certeza?
-Isso só vamos descobrir, depois que você entrar na casa.
-Guilherme, tenho novidades! – disse Caio para o irmão no celular.
-Então ele chegou dizendo que era irmão do Marcio? – disse pensativamente Horacio ao ouvir a explicação de Tadeu.
-Sim, mas pelo que o Marcio falou não existe possibilidade nenhuma desse Adriano ser irmão dele – completou Tadeu.
-Qual foi a reação do Marcio?
-Bom ele ficou nervoso... Agrediu o Adriano, aí eu e o Tico o seguramos.
-Certo – murmurou o delegado.
Tadeu não estava se sentindo bem. Estava indo para a casa de Roberta e topou com Horacio na porta da sua casa.
-Você acha que a estória do Marcio é verdadeira? – tornou a perguntar Horacio.
-Como assim? Olha aqui delegado, eu não estou gostando nada disso, certo?
-Tadeu esse rapaz foi assassinado coma paulada na cabeça. Existe denuncia na delegacia de Monte Paulista que lê foi visto aqui; tem carros desaparecendo lá e os suspeitos são daqui, entende. A Vila das Arvores não é assim. Desde quando a herança foi roubada...
-A Roberta não roubou delegado, ela “tirou” a herança para que a Viviane não roubasse – retrucou Tadeu defendendo a amiga.
-Mas ela deveria ter me comunicado!
Horacio ficou em silencio. Depois indagou:
-Só mais uma pergunta Tadeu: tem um carro na garagem da casa do Marcio?
-Tem.
-Que tipo de carro?
-Um celta, por quê?
-Por nada. Eu agora preciso falar com a Roberta, ela tem que entrar em contato com a Viviane.
Guilherme não teve dificuldades em arrombar a porta da de Rosana. Bagunçou a sala e não encontrou nada; passou para o quarto de Rosana e revirou – o todinho e não conseguiu encontrar nada que desse a entender que estaria ali a herança de setecentos mil reais. Foi para o quarto de Diego.
Edmundo se aproximou da casa de Diego. Notou que do lado oposto da rua tinha um gol preto parado e um homem dentro – teria que esperar para ver se o carro fosse embora.
Rosana estava chegando perto da casa de sua amiga Rayanne, quando se lembrou que pagara a revista de cosméticos errada. Deu meia volta para buscar a revista certa.
Guilherme deixou tudo fora do lugar no quarto de Diego. A casa não tinha cofre. O dinheiro com certeza estava em outro lugar. Mas onde?
Rosana chegou ao portão. Rapidamente Caio ligou para o seu irmão.
-Pinto sujeira, cara, se manda daí rápido!
Deu partida no carro, deixando – o mais próximo da casa. Enquanto isso, Edmundo deixou escapar um palavrão ao ver Rosana chegar. Teria de adiar a invasão a casa de Diego.
Quando Rosana abriu a porta Guilherme a empurrou para o chão no mesmo momento que deixava o quintal correndo e entrava no carro – que partiu em alta velocidade.
Horacio acabou de pisar na sala da casa do Marcio quando recebeu a ligação de Rosana.
-Roberta, eu passo aqui dentro de minutos para conversarmos – disse com urgência. – Parece que assaltaram a casa de Rosana!
Simone olhou para Milena que olhou para Roberta.
-Estranho, - falou Tadeu – por que assaltariam a casa de Rosana?
Ninguém respondeu.
-Eu não vi o rosto delegado! – exclamou Rosana. – Foi tudo muito rápido! Só vi que fugiu num carro preto que estava parado aqui em frente.
-Qual a estatura do individuo?
-Era... era alto, alto e forte – Rosana estava fazendo um grande esforço para parecer calma.
-O carro era um gol?
-Sim, era um gol preto.
-Guardava algo de valor em casa?
-Não.
O seu primo pode ter algo de valor?
-Tenho certeza que não.
-Tem certeza que não esta faltando nada?
-Certeza absoluta.
-Uma ultima pergunta, Rosana, lembra de já ter visto esse sujeito em algum lugar?
-Não, como disse delegado, foi tudo muito rápido. Mais a única casa daqui que tem um gol preto é a casa vizinha com a do Marcio.
-Muito obrigado Rosana. Qualquer coisa é só me ligar.
Caio parou o gol preto numa estradinha não muito longe da casa de Diego.
-Não vamos mais poder voltar para aquela casa!
-Não – disse Guilherme. – A policia com certeza já foi avisada. E o dinheiro não estava na casa do tal faxineiro!
-Precisamos de mais tempo – falou Caio sério. – E de um novo carro, não é?
-Com certeza.
Bianca andava de um lado pro outro ouvindo a narrativa de Edmundo.
-Vamos esperar uns dias – disse por fim.
-Bianca, você tem certeza que a herança esta naquela casa?
-Não. Mas precisamos ter certeza. Nesse tempo, continue enganando a Viviane.
Roberta olhou para o celular. Sentiu que a boca estava seca. Horacio a encorajou:
-Você tem que entrar em contato com ela para saber quais as exigências a serem feitas.
-Eu sei. Só que antes de tudo delegado, eu odeio ela.
Discou o número lentamente.
-Roberta – Viviane usou todo o seu cinismo. – Estava com saudades, tanto tempo que a gente não se fala! Espero que tenha novidades para me dizer.
-Não posso dizer o mesmo para você – disse Roberta se controlando para não gritar. – Tenho novidades sim. Estou com a herança. Estou disposta a pagar a liberdade do Marcio.
-Ótimo. Até que enfim você entendeu que comigo ninguém pode. Tenho que pedir umas coisas, por isso preste bastante atenção, só vou falar uma vez.
-Pode pedir – falou Roberta olhando para Horacio.
-Não vai ser mais como antes. Você vai colocar o dinheiro em uma mochila e o local de entrega será na ponte que divide Vila das Arvores a Monte Paulista amanhã de manhã, as 06h00min. Vá sozinha, entendeu?
-Entendi. E o Marc... – começou Roberta, porem Viviane interrompeu.
-Não tenho mais nada pra conversar com você.
Desligou o telefone.
-Que ódio! – Roberta gritou e jogou o celular no sofá.
-E então? – quis saber Horacio.
Por um momento ninguém disse nada. Ficou parecendo que a pergunta feita por Horacio não teria resposta. Mas Roberta respondeu lentamente:
-Ela quer o dinheiro dentro de uma mochila; que seja entregue na ponte amanhã cedo e que eu vá sozinha.
-Muito bom, precisamos nos preparar...
Após a saída do delegado, Tico, Tadeu, Simone e Milena tranqüilizaram Roberta dizendo que daria tudo certo.
-Se pelo menos tivéssemos o otimismo e bom humor de Rogério aqui com a gente – disse Roberta sonhadoramente.
-Bem lembrado Roberta – falou Tico. – Tenho que avisar ele que nós vamos tirar as fotos amanhã à tarde.
postado em 20/05/2009 às 14:51:45 na página biblioteca_ler
Ele olhou no relógio. 01h40min da madrugada. O vento parecia cortar – lhe o rosto. Contudo, precisava fazer o serviço àquela hora da noite. Se virou para ver onde deixara o carro. Precisava deixar o veiculo um pouco distante da pensão, porque queria fazer o menor barulho possível.
Tinha que se vingar. Ninguém o tratava daquele jeito; ainda mais uma mulher. Ia fazer com ela o mesmo que haviam feito com ele. Ela ia sentir a mesma dor que ele e ia implorar para a noite, na esperança que alguém a ajudasse. Quando visse que a noite não iria te ajudar, ela ia esperar que a morte chegasse lentamente.
Esses pensamentos invadiram a sua mente enquanto caminhava em direção a pensão. Os seus informantes haviam dito que era o quarto de numero quatorze e que não tinha muito movimento na casa. Também disseram que a dona deitava cedo... Com certeza não teria problemas.
O vulto atravessou a rua e foi direto para o portão da pensão de dona Graça. Retirou de dentro do bolso da calça um grampo e com muita agilidade introduziu – o na fechadura da porta. Pisando de leve, ele entrou no salão onde era a recepção da pensão. Tirando uma faca e um minifarolete de dentro do sobre – tudo, foi em direção à escada.
De repente uma voz perguntou:
-O que esta fazendo?
O susto de ouvir aquela voz as suas costas foi tão grande que ele precisou ser muito ágil para pegar a faca antes de cair no chão, pois deslizara de sua mão.
A dona da voz era a dona da pensão. Não contava com aquilo.
-O que pretendia fazer subindo lá em cima numa hora dessas da noite – tornou a perguntar dona Graça dessa vez ascendendo a luz do cômodo.
Ele ficou parado de frente pra dona Graça. Devagar empurrou a faca pra dentro da manga do sobre – tudo. O cérebro trabalhando rapidamente.
-“Essa mulher tinha que estar acordada há essa hora! Azar dela!” pensou.
Foi se aproximando de dona Graça.
-Se não disser o que veio fazer aqui eu chamo a policia! – ameaçou a senhora.
Ele chegou mais perto. Ela não recuou. A faca estava novamente em sua mão.
-Vim – disse quase sem mexer os lábios – fazer um serviço. Tem que ser agora e ninguém vai me impedir!
E cravou a faca na altura do coração de dona Graça.
A força que ele usou para enfiar a faca, também foi usada para retira – la do peito de dona Graça, esta foi caindo lentamente com os olhos vidrados no vazio.
-Você só estava no lugar errado, na hora errada – disse ele limpando o sangue da faca na camisola da mulher.
Agora mais rápido ele subiu as escadas. O corredor não era muito longo. Sete quartos de cada lado. O de numero quatorze era o ultimo do lado esquerdo. Com o minifarolete aceso na mão direita, ele se aproximou da porta. Introduziu novamente o grampo na fechadura e abriu a porta.
A única luz existente no quarto era o abajur sob a mesa – de – cabeceira que estava aceso.
Ele se aproximou da cama. Viviane estava deitada com o rosto pra cima, a mão esquerda sob a barriga e a direita embaixo do travesseiro. O homem ergueu a faca...
Foi muito rápido. Viviane abriu os olhos e viu o homem com a faca erguida, pronto para desferir o golpe. Mas a sua mão, que estava embaixo do travesseiro, puxou – como um passe de mágica – a pistola semi – automática e mirou no individuou...
Não deu resultado. O rapaz segurou o punho de Viviane com muita força ficando fácil desarma – la. Com as duas mãos ele apertou o pescoço de Viviane.
-Olha nos meus olhos! – gritou com o rosto quase colado com o da moça.
-V- você t- ta... m - morto! – tentou dizer Viviane com os olhos arregalados!
-Mesmo! Então olha bem nos meus olhos! É capaz de ver o gosto da vingança Viviane?! Achou que era só dar uma paulada na minha cabeça e estaria livre de mim! Olhe só pra você – e apertou com mais força; o rosto de Viviane agora estava vermelho e por mais que tentava afrouxar as mãos de Adriano, com mais força ele apertava. – O que esta achando Viviane? Agora você não é nada; incapaz de se defender e...
Adriano se calou. Largou Viviane enquanto dava um grito de dor. A joelhada que Viviane deu acertara no meio das pernas de Adriano, isso a deixou livre. A pistola estava longe e a faca também, ela precisava aproveitar aquela vantagem. Rapidamente pegou o abajur e mirou na cabeça de Adriano. O golpe falhou, porque na hora certa, Adriano ergueu o braço. O objeto se partiu ao meio fazendo um enorme corte no braço de Adriano.
Viviane se precipitou para a porta, mas não deu tempo; Adriano a agarrou.
-Eu vim te buscar Viviane! Não vou sair daqui sem você!
Adriano deu três socos no rosto de Viviane, fazendo - a perder um pouco o poder de reação.
-Tem um lugar que você vai gostar de conhecer!
E seguiu – se uma cena muito estranha. Adriano pegou os cabelos de Viviane, segurou com firmeza e puxou – a para o corredor. Viviane ia fazendo caretas sem nenhum poder de reação. O braço esquerdo de Adriano pingando sangue. As portas dos outros quartos fechados. “Por que ninguém sai?” perguntou – se Viviane. “Será que ninguém ouviu nada?”
Chegaram às escadas. Adriano parecia que não estava ouvindo os gritos de dor de Viviane. Estavam agora na recepção. Viviane soltou um grito mais alto ao passar pelo corpo de dona Graça no chão; tinha os olhos abertos e os braços estavam em um ângulo estranho – estava caída em cima de uma poça de sangue que saia do seu peito. Viviane começou a se debater, Adriano levando – a para a porta.
-EU NÃO VOU! – gritou Viviane e conseguiu escapar. – EU NÃO VOU! NÃO QUERO IR!
De repente a recepção da pensão não estava mais escura e vazia. A claridade do dia entrava através das janelas do cômodo. As pessoas que estavam nos quartos estavam todas ali, olhando para Viviane. Dona Graça já não era mais um cadáver no chão, estava la olhando para Viviane com expressão de curiosidade e surpresa no rosto.
-O que aconteceu Viviane? – perguntou.
Viviane piscou os olhos para espantar a imagem do corpo daquela mulher no chão.
-Eu... eu não sei... – foi o que Viviane conseguiu dizer.
Edmundo se adiantou para junto de dona Graça.
-Não sabia que você era sonâmbula Viviane – disse.
-Eu não sou sonâmbula – defendeu –se ela. – Foi um pesadelo.
-Pesadelo? Viviane, nós estamos na entrada da pensão, o seu quarto é lá em cima e você esta quase sem roupa!
Viviane caiu em si. Havia tido um pesadelo com Adriano e viera parar ali em baixo e estava só de robe. Subiu para o seu quarto sem dar atenção para os olhares curiosos das pessoas que acordaram com os seus gritos.
-Você pode explicar o que foi aquilo? – exigiu saber Edmundo, entrando no quarto de Viviane.
-Pára de fazer perguntas Edmundo. Já disse, tive um pesadelo com o Adriano.
-Certo. Amanhã cedo você acorda lá em baixo de novo, tendo outro pesadelo, e aproveita conta pra todo o mundo que tem o Marcio como refém e quer setecentos mil para libertá-lo.
-Edmundo, eu preciso tomar um banho e vestir uma roupa descente. Devia ir lá ao cativeiro ver o Marcio e parar de dizer bobagens.
A moça entrou no banheiro. Edmundo deixou o quarto.
Nem bem tinha deixado a pensão, o celular de Edmundo tocou. Era Bianca, queria vê - lo.
O delegado Horacio ligou o computador naquela manhã e releu o depoimento de Bianca. Alguma coisa o intrigava. Não tinha nada com o depoimento de Bianca, mas sim com o nome. Ele tinha a certeza que Bianca Stefany não lhe era estranho. Estava absorto em seus pensamentos, quando o telefone tocou. Para a sua surpresa era Álvaro, delegado de Monte Paulista, cidade vizinha de Vila das Árvores.
-Te liguei Horacio porque ontem foi roubado aqui um gol ano 98 e um palio ano 2000 – disse Álvaro tranquilamente. Tudo indica que os dois suspeitos são daí.
-Daqui?- estranhou Horacio.
-Sim. Segundo testemunhas os suspeitos residem aí em Vila das Arvore.
-Certo. Quais as cores dos veículos?
-O é preto e o palio é vermelho delegado.
-Muito bem, vou apurar os fatos.
-E não é só Horacio. Você ficou sabendo do corpo que foi encontrado perto da ponte?
-Sim, foi enterrado como indigente, não foi?
-Exato. Parece que passou uns dias ai também. Estava em uma pensão; poderia dar uma investigada pra mim?
-Claro, quando tiver novidades eu te aviso.
-Muito obrigado.
Horacio colocou o telefone no gancho ainda mais intrigado. Coisas estranhas estavam acontecendo em Vila das Arvores.
postado em 20/05/2009 às 14:50:26 na página biblioteca_ler
Horacio era o delegado responsável pela segurança de Vila das Arvores. As ocorrências são sempre as mesmas: vizinhos reclamando das galinhas dos outros vizinhos que invadem os seus quintais; briga de jovens.
Com uma calmaria dessas, Horacio passava a metade do tempo lendo um bom romance policial.
-Licença delegado. Tem uma moça aqui que deseja vê – lo.
Era o carcereiro pondo fim a calmaria.
-Pede pra ela entrar.
A porta se abriu e Bianca entrou. O delegado deixou cair a caneta que segurava enquanto lia.
-Sem te – se, por favor – disse sem saber se pegava ou não a caneta do chão. – Você é nova aqui?
-Isso – confirmou Bianca se divertindo com a confusão do delegado.
-Mais sim! Se é nova... Delegado Horacio a suas ordens.
-Muito obrigada – respondeu Bianca pegando na mão gigante do delegado com muita má vontade.
-O seu nome é...? – continuou ele ainda segurando a mão de Bianca.
-Sou Bianca Stefany.
-Encantado – falou finalmente soltando a mão da moça e se acomodando em sua cadeira. Bianca não escondeu o alivio por ter sua mão livre novamente.
-Delegado Horacio eu vim aqui fazer uma... não denuncia não, vim lhe dar um aviso.
-Um aviso?
-Sim, um aviso.
-Pode falar – disse o delegado com os olhos fixos em Bianca.
-Existe um homem nessa cidade – começou a moça – que herdou dos pais uma herança de setecentos mil reais.
A expressão do delegado Horacio mudou. Bianca continuou:
-E ele se encontra nesse momento, como refém de uma mulher.
-Não é possível! – exclamou Horacio ficando de pé.
-É a pura verdade – falou Bianca.
-Mas eu não fiquei sabendo nada disso! Os nomes, eu quero os nomes; dos seqüestradores da vitima, enfim, todos os detalhes, ou melhor, Bernardo não deixe de anotar nada! Bianca você poderia repetir tudo de novo, por favor? Para o meu escrivão registrar o seu depoimento.
-Tudo bem – disse Bianca um pouco irritada por ter que repetir as mesmas palavras novamente para o delegado. – Só que os nomes dos seqüestradores eu não sei. O da vitima é Marcio...
-Marcio do que?
-Eu não sei – respondeu Bianca começando a perder a paciência. – Delegado tem um grupo de adolescentes que pode lhe informar melhor do que eu.
-Esta bem. Vamos começar tudo de novo, por favor.
Enquanto Bianca narrava tudo que sabia, Bernardo digitava tudo.
Pra não parecer muito suspeito Edmundo certificou – se varias vezes se não tinha ninguém em especial o observando de longe para entrar na antiga capela. Marcio dissera que havia escondido a herança ali dentro... O plano de Edmundo era pegar todo dinheiro e fugir da cidade. Com o coração batendo acelerado ele empurrou a porta... para a sua surpresa a capela estava limpa, limpa e vazia.
-Você me paga Marcio!
-Mas o que é isso?
Rosana pegou o vaso de louça e fez a pergunta para si mesma já sabendo a resposta. Logo Diego chegou à sala com um copo de suco na mão.
-Diego o que significa isso?
-Ah isso aí eu achei lá dentro da capela, tava limpando...
-Pode jogar fora – disse Rosana colocando o pato de louça de volta à mesinha no centro da sala. – Agora todo lugar que você limpar vai trazer alguma coisa pra cá!
-Achei que você ia gostar.
-Deus me livre! – disse Rosana fazendo uma careta. – Isso deve ter uns setenta centímetros e ainda esta quebrado, por que eu ia querer uma coisa dessa na minha sala?
Com essas palavras Rosana encerrou o assunto. Diego pegou o pato e levou para o seu quarto.
-Vou ver se consigo vender para a dona Carmem – falou consigo mesmo. – Esta quebrado, mas ela adora esses enfeites de louça. Antes preciso tirar esses plásticos daqui de dentro. Bem, outra hora eu tiro. Só tenho que esconder em um lugar que a Rosana não encontre.
-Você esta achando eu sou otário é isso?!
Marcio foi jogado longe com o empurrão de Edmundo. O refém não tinha a menor idéia do que acontecera para ele ser agredido daquela maneira.
-Olha pra mim! – gritou Edmundo apertando o pescoço de Marcio. – Eu tenho cara de otário tenho?! – o rosto do rapaz ia ficando vermelho; Edmundo o soltou com violência. – Não tinha nada dentro daquela capela! Estava limpa, limpa e vazia!
-Co – como vazia?- perguntou Marcio com dificuldades.
-Você ta achando que pode bancar o engraçadinho comigo né?
-O que eu estou dizendo é sério. Alguém pegou a minha herança!
-Ah é? E o que a sua namorada esta esperando pra nos entregar o dinheiro?
-Talvez não foi ela que pegou...
-Cala a boca! Nós fizemos um trato, e você não cumpriu com a palavra; agora eu vou quebrar – lhe a cara!
-Não vai não! Edmundo se virou, era Viviane.
-O que o Marcio estava fazendo para você querer quebrar – lhe a cara?
-Ele esta tirando o pouco da paciência que eu tenho.
O rapaz andava de um lado pro outro. Ainda em tom autoritário, Viviane falou:
-Eu preciso dele inteiro. Cuidado com o que esta pensando em fazer.
-Cuidado você com o que o que esta pensando em fazer – disse Edmundo gravemente e deixou o cativeiro.
Após a saída de Edmundo, Viviane se virou para o Marcio e falou:
-Você esta dando muito trabalho, melhor se comportar...
Roberta retirou as revistas de dentro do guarda – roupa de Marcio, até encontrar uma fotografia dos pais do rapaz. Atrás da foto, escrito a caneta, a data: 04 / 04 76 – 06 / 01/ 93. Com o coração acelerado, Roberta foi até a sala e comparou a data da ultima carta escrita por Floriano do Rio de Janeiro a Madalena na Bahia.
-É isso! – exclamou Roberta.
-O que aconteceu? – perguntou Milena vendo a agitação da amiga.
-Aqui nessa foto tem a data 04 / 04 / 76, suponho que é o dia do casamento de Floriano e Madalena e a outra data é 06 / 01 / 93; que é o dia em que eles morreram. Isso quer dizer que pelo menos um pouco do dinheiro eles conseguiram guardar no banco!
-Esta dizendo – disse Milena surpresa – que desse “pouco” que eles conseguiram guardar no banco, restou setecentos mil reais?
-Sim! – confirmou Roberta feliz por Milena ter compreendido sua idéia.
-Pô, tinha bastante dinheiro eles hein?
-É. O Caio e o Guilherme devem ter feito...
Mas o que Caio e Guilherme devem ter feito Milena não soube, porque Roberta não terminou a frase. Simone vinha chegando à sala acompanhada por um homem.
-Pessoal temos visita – falou a jovem séria.
-Quem de vocês é a Roberta? – perguntou o homem.
-Sou eu.
-Delegado Horacio, como vai? – disse estendendo a mão. Roberta o comprimentou sem muito entusiasmo. Nesse momento Tadeu e Tico também chegaram à sala. O delegado continuou: - Roberta você é noiva do Marcio?
-Namorada – corrigiu a moça.
-Certo. E você sabe aonde esta a herança do seu namorado?
-Não – falou Roberta. – Olha só delegado, não era para o senhor estar aqui. Como foi que ficou sabendo da herança?
-Uma pessoa denunciou. Segundo a denuncia, o seu noivo...
-Namorado.
-... o seu namorado esta como refém de uma mulher. Confirma isso?
-Sim, o nome da mulher é Viviane. E ela deixou bem claro que não era para a policia se meter.
-Eu entendo a sua aflição Roberta. Mas eu tenho experiência em seqüestros. Antes de vir pra cá eu trabalhei numa cidade grande e a onda de seqüestros era enorme, prometo que não vou deixar que essa Viviane desconfie de nada. Inclusive já tenho um plano para conseguir a liberdade do seu noivo.
-É namorado delegado – disse Roberta com rispidez.
-E então, vocês aceitam minha ajuda? – perguntou o delegado aparentemente sem dar atenção no que Roberta dissera.
Todos ficaram meio apreensivos. Desde que tudo começou eles não receberam ajuda de ninguém mais velho. Agora vinha aquele homem fazendo perguntas e se dizendo delegado. O grupo olhou para Roberta... Mesmo sem muita emoção, Roberta concordou:
-Tudo bem, nós aceitamos a sua ajuda.
-Excelente. O plano é assim...
Viviane chegou quase às 21h10min minutos na pensão de dona Graça. Estivera jantando no modesto restaurante do Irineu, um português que já beirava os oitenta anos. A comida servida era boa e todos os turistas de Vila das Arvores comiam ali.
Entrementes, enquanto comia, Viviane decidiu que teria de mudar os seus planos com relação ao pagamento do resgate de Marcio. Queria se livrar logo dele e ir embora daquele lugar. Daria um ultimato para Roberta e seus amigos e também se livraria de Edmundo. Ainda traçava algumas idéias do seu plano, quando a voz de dona Graça a trouxe de volta a realidade.
-Você tem visita Viviane – disse a dona da pensão. Viviane parou com os pés no primeiro degrau da escada que dava para os quartos.
-“Quem viria me visitar numa hora dessas?” – se perguntou para si mesma.
-Aqueles dois rapazes – falou dona Graça que parece ter ouvido a pergunta de Viviane. -
Eles estão aqui há algum tempo.
Olhando atentamente os dois rapazes que dona Graça indicara, Viviane não os reconheceu. Intrigada, foi até onde os sujeitos estavam sentados.
-Estavam me esperando? – perguntou.
-Sim, estávamos – respondeu Guilherme.
-Queremos te pedir uma coisa – declarou Caio.
Como Viviane não disse nada, Guilherme se levantou e falou:
-Queremos que você deixe a herança do Marcio vir para as nossas mãos. Todo aquele dinheiro é nosso por direito. Você é capaz de nos ajudar?
Era nítido o cinismo. Viviane não deixou barato.
-Então vocês vieram aqui... me pedir que eu deixe os setecentos mil reais assim: como um presente? – falou Viviane também com cinismo.
-Se é esse o termo que você prefere usar, tudo bem – Caio falou tranquilamente. – Já dizia o meu primo Gasparetto: “existem muitas maneiras de se entender uma ordem”...
-Ah ta. Do nada vocês vêem aqui dizendo que é pra mim deixar o caminho livre porque a herança lhes perecem por direito... Isso não é possível, sabe por quê? Porque eu não costumo receber ordens de ninguém!
-Então você tem um problema – disse Guilherme elevando um pouco o tom da voz. – Pois já dizia a minha prima Flavianita: “se não vai por bem vai por mal”.
-Pro inferno os seus antepassados! Eu não vou...
-Calma Viviane! Nós só estamos tentando entrar num acordo.
-Não tem acordo!
-Ah vai ter sim – Guilherme se aproximou de Viviane. – Você não acha melhor aceitar os nossos termos? Se não seremos obrigados a dar um fim em você.
-Estou aqui, vamos não vão fazer nada?! – desafiou Viviane.
Caio e Guilherme a encaravam, ambos tinham o rosto impassível.
-Olha aqui – Viviane abriu a jaqueta de couro deixando a mostra que carregava uma pistola semi – automática na cintura. – Comigo não tem acordo nenhum. Acho melhor vocês saíram do meu caminho. Bem vindos ao século xxi e ao poder feminista.
Os dois irmãos se entreolharam aparentemente surpresos e preocupados.
-É ridículo! – explodiu Roberta ao ouvir o plano do delegado. – Eu não consigo ver a Viviane caindo num truque tão baixo como esse!!
-Não é truque – disse Horacio se levantando – é uma armadilha. Roberta é a única maneira que temos de tirar o Marcio das mãos da Viviane, sem que ela saiba que nós da policia estamos envolvidos.
-Delegado – Horacio parou de andar e encarou atentamente Tico – me deixa ver se entendi; nós vamos pagar o resgate com notas falsas?
-Sim – concordou Horacio recomeçando a andar. – Quando a Viviane pegar o dinheiro vai se mandar, entenderam? Ela não vai ficar aqui. Quando descobrir que o dinheiro é falso vai voltar e aí eu e a minha equipe prenderemos ela.
Roberta não se conformava:
-Ela não é boba delegado. Se descobrir que o dinheiro é falso antes de entregar o Marcio, vai acabar com a vida dele!
-Você esta agindo de maneira errada Roberta. A Viviane não vai matar o Marcio enquanto não tiver em mãos os setecentos mil.
Reinou o silencio. Parece que todos – até mesmo Roberta – haviam entendido que o delegado tinha certa razão.
-Não se preocupe, a minha equipe estará por perto se a caso tiver que intervir.
-Muito bem – disse Tico se levantando e pondo fim ao silencio – preciso fazer uma ligação.
O celular de Rogério tocou assim que ele saiu do chuveiro. Secando a mão na toalha e se embrulhando nela, foi até o seu quarto atender o aparelho. Era Tico querendo saber se fora ele que denunciara o seqüestro de Marcio ao delegado.
-Juro que não fui eu Tico. Apesar de não estar mais do lado de vocês eu continuo tendo muito respeito por todos e a Roberta disse que não queria a policia no meio, respeito a vontade dela.
-Tudo bem Rogério. Eu só precisava ter certeza.
Por um momento nenhum dos dois disse nada. Depois Tico falou:
-O delegado chegou aqui com um plano, não sei, mais acho que vai pintar sujeira.
-Qual é plano do delegado? – se interessou Rogério.
-Vai pagar a Viviane com notas falsas.
-Pode ser que funcione.
-É mais se ela descobrir que o dinheiro é falso e que a policia esta no meio, pode não sair boa coisa.
-O delegado não vai deixar que aconteça nada com o Marcio você vai ver.
-O problema que a equipe dele só tem dez policiais.
-E a Viviane é uma só – retrucou Rogério.
-Isso é verdade. Bom Rogério era só isso mesmo que eu queria saber.
-E tal concurso de fotografia?
-Olha eu vou confirmar a data na internet, aí eu te ligo beleza?
-Beleza. Até mais então.
-Até cara.
Quando Tico terminou de falar com Rogério, o vento já estava começando a mexer as folhas das arvores. Seria mais uma noite típica de inverno.
postado em 20/05/2009 às 14:49:04 na página biblioteca_ler
Todos se divertiam, bebiam, dançavam, beijavam, mas o aniversariante Fernando na fazia nada disso.
-Não vai dançar Fernando? – perguntou Tico tirando a blusa, pois já estava com calor de tanto dançar.
-Daqui mais um pouco – respondeu Fernando sem animo.
-Pelo menos toma alguma coisa.
-Já tomei. Esquenta não, se diverte aí.
Vendo que não adiantava insistir, Tico voltou a dançar. Fernando encostou-se no pilar ainda de cara amarrada. Então alguém bateu de leve em seu ombro. Era Rosana.
Fernando se virou e não conseguiu se conter.
-Rosana, você...!!
-Não me esperava não é?
-Eu não acredito, o Tico falou que você não vinha!
-Queria te fazer uma surpresa. Feliz aniversario Fernando. Aqui esta o seu presente.
-Eu não sei nem o que dizer Rosana!
-Não diz nada.
Rosana abraçou Fernando. Depois se beijaram ardentemente. Mais tarde quando os dois estavam dançando, Tico fez sinal de positivo para Fernando.
Marcio se revirou na cama. O colchão duro não estava ajudando muito. E o braço machucado começou a latejar.
Enquanto isso, Edmundo entrou no cativeiro, se dirigiu rapidamente para a porta onde Marcio estava. Destrancou a porta e ascendeu a luz. Marcio se levantou assustado.
-O que você esta fazendo aqui Edmundo?
-Quem faz as perguntas aqui sou eu Marcio – falou Edmundo ríspido. - Eu entro e saio daqui a hora que eu quero.
-Então me deixe em paz pelo menos a noite – dizendo isso Marcio voltou a se deitar dando as costas para o recém chegado.
-Pode se levantar. Precisamos conversar.
-Conversar o que? – Marcio perguntou o encarando Edmundo.
-Quero que você me diga onde esta a herança.
-Não vou dizer onde esta.
-Se você me disser te solto.
-Acha que eu vou acreditar em você?
-Estou falando sério Marcio. Se você disser onde esta eu solto você e mando a policia prender a Viviane.
-Ah agora eu entendi. Brigou com a sua parceira, né?
-Eu não estou brincando Marcio.
-Não vou falar.
Edmundo sacou o revolver. Se abaixou e puxou Marcio pelo pescoço. Apertando a arma na tempora do rapaz falou:
-É melhor dizer. Se não disser eu acabo com você e pode ter certeza que você estando morto a sua herança não vai cair em boas mãos. Entregue ela a mim e prometo que cuidarei bem dela!
Edmundo jogou Marcio no colchão.
-Primeiro você tem que me soltar – disse Marcio olhando para o revólver.
-Já falei que você não esta em condições de exigir coisas. Ta pensando que eu sou idiota? Você diz aonde esta a herança, eu vou lá e dou uma investigada, se eu encontrar ótimo, se não encontrar...
-Não confio em você.
-Problema seu. A minha paciência esta acabando.
-Sentado no colchão, completamente em pânico, Marcio tentava encontrar uma saída.
-Fiz uma pergunta minutos atrás! Estou esperando uma resposta Marcio!
O grito que Edmundo dera, acabou com as chances de Marcio inventar alguma desculpa. Acabou optando por dizer a verdade – ou quase toda a verdade.
-Esta... esta dentro da velha capela. Escondida dentro de um saco que esta embaixo de umas madeiras.
-Tem certeza disso? – indagou Edmundo com um brilho forte nos olhos.
-Sim. Isto é, se ninguém a encontrou.
-Alguém sabe que você a escondeu lá?
-Não. Eu ia dizer a Roberta só que você e a Viviane não deixaram.
-Hum – murmurou Edmundo enquanto guardava o revólver no cinto. – Certo. Amanhã eu vou até lá investigar; quando eu estiver com o dinheiro na mão eu venho aqui e te solto. A Viviane vai ter uma bela surpresa quando entrar e der de cara com a policia.
Milena e Simone chegaram à mesa para tomar café na manhã seguinte e já encontraram Roberta preparando as torradas.
-Bom dia Roberta, levantou cedo hoje, hein?
-Bom dia Milena, bom dia Simone. É eu não consegui dormir direito.
-Eu é quem o diga Roberta. Aquela cama do Edmundo não é muito confortável – falou Tadeu chegando na sala. O rapaz pos as mãos nas costas e fez uma careta.
-Cadê o Tico? – perguntou Simone abrindo a geladeira e retirando o pote de manteiga.
-Hoje ele vai demorar a se levantar ficou até as duas da manhã na festa do Fernando – falou Tadeu.
-O motivo pela qual eu não dormi bem nada tem a ver com os colchões – disse Roberta. Estou preocupada com o Marcio. O que será que estão fazendo com ele?
-Fica calma Roberta. A Viviane não vai fazer nada com ele. Ela só quer o dinheiro.
-Isso é que me preocupa Milena. O que a Viviane vai fazer quando os dez dias acabarem e não entregarmos o dinheiro a ela?
-Nós estamos bem encrencados. E a vida do Marcio correrá perigo se não acharmos o dinheiro.
-Não é só a vida dele que corre perigo – disse uma voz arrastada. – A vida de vocês corre mais perigo do que a dele.
-Rogério se você não ajuda também não atrapalha – retrucou Roberta sem olhar para Rogério.
-Realmente você mudou muito Rogério – disse Milena. – Até ontem você contava piadas e estava sempre querendo ajudar, agora esta sempre falando com friesa...
-Não fui só eu que mudei Milena. Vocês também mudaram tanto que estão dormindo até fora de casa.
-Existem muitas coisas para resolvermos. É muito importante que ficamos perto um do outro.
-Que tipo de coisas vocês tem para resolver?
-É o que nós também queremos saber – falou uma voz grave.
Ao ver Caio e Guilherme entrando na sala, Tadeu se adiantou:
-O que significa isso? Não se tem mais privacidade nessa casa!
-Notem que a culpa não é nossa - disse Guilherme. – A campainha esta queimada e nós tentamos explicar a você ontem à noite o nosso objetivo, porem a Simone disse que tinha de fechar a casa.
-Não devemos satisfações para vocês!
-Vocês vão descobrir que sim – disse Caio.
-Ah é? – ironizou Milena.
-Sabemos da existência da herança – falou Guilherme sorridente. – E queremos saber onde ela esta.
-Vocês estão loucos!
-Engano seu. O dono da herança perdeu o irmão dele por que o meu irmão aqui deu um tiro nele.
-Você! – exclamou Roberta.
-Isso mesmo – continuou Caio – é o que acontece com quem nos contraria. Pois já dizia a minha querida irmã Escolástica: quem não obedece deve ser castigado!
-Fora daqui! – gritou Roberta abrindo a porta da sala com agressividade.
-Só vamos sair quando vocês disserem onde esta...
-Ninguém vai dizer nada! – explodiu Roberta ainda segurando a maçaneta da porta. – E se não irem logo embora eu chamo a policia!!
Caio sacou um revolver. Todos ficaram tenebrosos.
-Não vai chamar coisa nenhuma. Ou vocês dizem aonde esta a herança ou vão todos fazerem companhia para o irmão do Marcio.
Reinou então um silêncio desagradável. Caio e Guilherme apontava o revolver pra cada um.
-Estamos esperando uma resposta.
-Não sabemos onde esta a herança – disse Roberta com a voz tremula. – Tem também uma outra pessoa interessada na herança.
-Quem é essa pessoa?
-Viviane.
-Uma mulher?! – riu Caio. – Ouviu Guilherme?
-Sim.
-Ela é perigosa – falou Roberta. – Esta nos ameaçando.
-Você acha que nós temos medo de uma mulher?
-Mas ela é perigosa esta nos ameaçando – teimou Roberta.
-Só que nós não temos medo de ninguém, tão pouco de uma mulher.
-Ela não é uma mulher comum!
-Não interessa. Queremos a herança de qualquer jeito.
-Daremos uns dias para vocês o dinheiro. Mas não somos de esperar muito, por isso é melhor que vocês se apressem, pois já dizia a minha irmã Anastácia: o tempo vale dinheiro.
Saíram os dois.
-Esta vendo Roberta como tem mais gente que sabe da existência da herança – falou Rogério.
Ninguém disse nada. Rogério foi embora sem também dizer mais nada. Momentos depois de sua saída, Tico chegou na sala bocejando.
-Quem esteve aqui? – perguntou.
-Rogério. Veio nos criticar.
-Você precisa conversar com ele Tico.
-É. Mais tarde eu falo com ele.
Viviane entrou no quarto de Marcio e assustou – se ao vê –lo deitado.
-Não vai comer nada?
-Comer o que? – perguntou Marcio sem se alterar.
-O Edmundo não trouxe o café?
-Ele nem veio aqui ainda.
-Não veio?
-Não.
-Aonde será que ele passou a noite? – disse a moça para si mesma.
De repente Marcio caiu na risada. Ria com gosto. Viviane olhou para ele surpresa.
-Do que você esta rindo?
-O Edmundo – falou Marcio sorrindo – ele esta enganando você!
-Do que você esta falando?
-O seu parceiro, esta passando a perna em você – disse Marcio tentando conter o riso.
-Você esta sabendo de alguma coisa?
-Não. Mas que ele vai dar o golpe em você isso vai.
-Eu se fosse você deixaria de ficar dizendo bobagens – disse Viviane recuperando os seus modos ríspidos. – A coisa esta feia pro seu lado. Se a Roberta não me entregar o dinheiro você morre.
-A Roberta jamais encontrara o dinheiro se o Edmundo chegar até ele antes dela.
-O Edmundo não vai fazer isso.
-Eu duvido. Você é rigorosa demais Viviane. Ele vai tentar resolver tudo por conta pró pia, ou então... vai procurar outra parceira.
-Você endoidou de vez Marcio. Vou trazer o seu lanche.
Após a porta se fechar, Marcio, sorrindo falou:
-A semente da desconfiança foi lançada.
Edmundo empurrou a porta da antiga capela com muita dificuldade. Havia muitas tranqueiras ali dentro. Mesmo assim, Edmundo entrou disposto a revirar tudo para encontrar a herança.
-Posso ajudar?
O rapaz assustou – se ao ouvir aquela voz. Se virou e deparou – se com...
-O seu divertimento agora é seguir os outros? Ou isso só esta acontecendo comigo?
-Receio – disse Bianca meigamente – de que eu é que deveria perguntar: o que você esta fazendo aqui Edmundo? Veio rezar? Desde quando você reza e ainda mais no que fora uma capela?
-Não vim rezar.
-Ah não veio rezar. Edmundo eu mandei você fazer o Marcio dizer aonde esta a herança, lembra – se?
-Lembro.
-E então, já sabe aonde esta?
-Bianca a Viviane não é boba. Se ela descobrir que eu estou conspirando contra ela eu morro!
-Se ela não é boba faça – a de boba, ou vou até a policia e conto tudo sobre o brilhante plano de vocês.
-Você vai se meter em encrenca.
-Esta me ameaçando?
-Entenda como quiser.
-Some da minha frente. Não quero te ver mais por hoje.
Ficaram os dois se encarando. Lentamente Edmundo se afastou. Bianca deu dois passos, mas se deteve. Virando – se para a capela falou:
-Algo me diz que ele ia pegar alguma coisa.
A moça olhou de um lado pro outro. Não viu ninguém, caminhou até a porta.
-Com licença moça, eu preciso limpar toda essa sujeira.
Bianca se virou surpresa. O sujeito parado a sua frente vestia um uniforme laranja e arrastava consigo um carrinho onde se lia a palavra lixo. Era Diego.
-Que estranho você ter que limpar justo aqui – falou Bianca com pouca educação.
-Pois é que pena, mas ordens são para serem cumpridas; vou limpar a praça toda hoje.
-Ah vai limpar a praça toda?
-Isso, inclusive aí dentro – disse Diego apontando para a capela.
Bianca pegou uma pastilha, ponhou na boca e jogou o papel no chão.
-Que isso moça? Seus pais não lhe deram educação? O lixo é aqui - e apontou o carrinho, só que Bianca já ia se afastando da praça.
-Se encontrar essa moça de novo, eu juro que vou virar esse carrinho de lixo em cima dela – protestou ele pegando o papel da pastilha.
Nesse momento passaram dois garotos com mexi ricas na mão. Os dois então decidiram começar uma guerra de cascas. Diego viu aquilo e gritou:
-Parem com isso seus pirralhos! Vão sujar a praça toda!
-Melhor pra você tio – falou um dos meninos – ou quer ficar sem serviço?
-As coisas não funcionam desse jeito moleque!
-Tem razão, não funciona mesmo – disse o outro garoto e recomeçou a jogar cascas no seu colega. Diego ia reclamar, mas uma das cascas acertou em cheio no seu nariz. Ele então gritou um monte de palavrões enquanto os garotos se afastaram gargalhando.
-Droga de serviço! Não tenho muita certeza se vou ficar tolerando desaforos, ah se eu tivesse com setecentos mil em minhas mãos juro que aqui eu não ficaria!
postado em 00/00/0000 às 14:31:03 na página biblioteca_ler
-Abre! Abre essa porta, Viviane!
Márcio gritava enquanto jogava todo o seu peso na esperança que está cedesse.
-Abre! Viviane abre essa porta!
Viviane se aproximou da porta. Girou a chave e com o revólver em riste, abriu a porta. Tinha a boca cortada pela briga com Roberta.
-Vai acabar sem voz, Márcio – disse trancando a porta. Ao ver a arma, Márcio recuou.
-Que lugar é esse?
-É um lugar muito especial para um cativeiro. Você pode continuar gritando, ninguém vai te ouvir.
-Acha mesmo que ninguém virá atrás de mim?
-Não acho tenho certeza.
-Um dia a certeza vai se transformar em frustração pra você.
-Enquanto esse dia não me chega vou continuar com plena certeza.
-Me deixa sair, Viviane.
-Você vai sair. Mas só depois que a Roberta pagar o resgate.
-Que resgate?
-Não seja mais idiota do que você já é Márcio. Isso é um seqüestro.
-Quando eu sair daqui eu vou... Você não tem esse direito. Deixa-me sair!
-Só depois que a herança estiver em minhas mãos.
-Herança?!
-Sim. O preço para você ficar livre é de setecentos mil reais.
-Você não presta! Já fiz isso uma vez e vou fazer de novo!
PAFT.
Viviane cambaleou para trás com a força do tapa. Mas manteve o revólver firme na mão, apontou para o Márcio, que recuou.
-Está com medo, Márcio? Não, não vou virar uma assassina. Só quero que saiba de uma coisa: a sua namorada têm dez dias pra me entregar os setecentos mil...
-Ela não sabe onde está!
-Se procurar acha.
-Posso dizer onde está. Mais você tem que me soltar.
-Não. Eu quero que ela encontre.
Viviane destrancou a porta, e antes de sair falou:
-Vou pedir pro Edmundo trazer um lanche para você.
A porta foi trancada por fora. Márcio sentou - se passando a mão de leve no ferimento feito a faca por Edmundo murmurou:
-Deus, por favor, ajude a Roberta!
-Fala – disse Simone para a moça parada em frente o portão.
-Gostaria de falar com o Edmundo.
-O Edmundo não mora mais aqui.
-Me disseram que a casa dele é esta.
-Realmente ele morava aqui, não mora mais. Mudou-se ontem.
-Pra onde?
-Não sei dizer.
A moça encarou Simone por um momento. Depois disse:
-Muito obrigada.
-Pronto pra ir, Caio?
-Sim. Mas temos de ficar atentos.
-Certo. Vamos tentar descobrir por que tudo gira em torno dessa casa.
-Quem era Simone?
-Uma moça procurando o Edmundo. Já vi aquela moça em algum lugar, só não consigo me lembrar onde.
-De qualquer forma, Roberta, o que vamos fazer para libertar o Márcio?
Não foi Roberta que respondeu a pergunta de Tico e sim Rogério.
-Não resta a menor dúvida, temos que chamar a policia.
-Viviane não quer a policia interferindo.
-Não temos que seguir o conselho da Viviane.
-Eu também não quero que a policia fique sabendo do seqüestro. Temos que procurar os setecentos mil.
-Começaremos por onde?
-Não sei Milena. Mas precisamos agir, o dia já está acabando.
--É só dizer o que temos de fazer, Roberta.
-Eu não vou fazer nada – disse Rogério. – O Marcio escondeu a herança onde ninguém pudesse encontrar.
-Rogério, se não procurarmos nunca acharemos.
-Roberta, não tem nenhuma pista. É como procurar agulha no palheiro.
-Está sendo preguisoço, Rogério. Tudo bem tem mais amigos.
-Não é nada disso, Roberta. O problema é que o Márcio foi covarde, deveria ter chamado a policia para prender a Viviane ficou com medo agora nós temos que arriscar as nossas vidas para salvá - lo.
-Ele não foi covarde! – gritou Roberta na defensiva. Já está bom demais só nós sabendo da existência da herança. A policia ia nos perguntar um monte de coisas!
-Teria que perguntar mesmo, nunca vi uma herança sem documento só dinheiro vivo. Parece muito suspeito...
-Quer dizer o que com isso?
-Não devemos nos expor. A Viviane vai fazer qualquer coisa com quem se por no seu caminho. Nós estamos em perigo, por culpa do Márcio que não teve coragem de chamar a policia para...
-Ah, agora a Viviane é perigosa, até ontem era Viviane avião! – provocou Roberta com ironia.
-Mas agora todos nós sabemos do que a Viviane é capaz. E eu não vou arriscar a minha vida por causa de um erro do Márcio.
-Já disse: não quer ajudar beleza. Tenho outros amigos para pedir ajuda!
-Só quero lembrar você, Roberta, que o Márcio jogou na sua cara que nós éramos um grupo de intrometidos.
-A minha memória continua muito boa.
-Não parece.
-Vai embora, Rogério, por favor.
-Eu vou. Mas quando a balança pender pro seu lado...
-Chega Rogério. Não quero ouvir mais bobagens.
-Bobagem é o que vai fazer ou o que fez ao roubar a herança do...
-Eu não roubei nada! O que eu fiz foi...
-Teve sorte que o Márcio te perdoou, já imaginou se ele tivesse mandado prender você. Está sendo burra de mais, Roberta!
-Vai embora, Rogério. Agora!
O rapaz caminhou pesadamente para a porta. Roberta sentou – se no sofá chorando. Os demais, que estiveram calados durante a discussão, permaneceram em silencio.
Caio e Guilherme esperou Rogério se afastar da casa para sair do esconderijo em que escutaram toda a briga, se dirigiram para a porta da sala.
-Talvez amanhã eu comece a trabalhar – disse Diego para Rosana.
-Que ótimo. Vou ficar sozinha nessa casa.
-Não vai mais embora?
-Mudei de idéia. Do que você vai trabalhar?
-Gari.
Rosana achou graça.
-Por que a graça? Não vejo nada de errado em trabalhar varrendo as ruas – falou Diego amarrando a cara para a prima.
-Está bem, desculpe.
-Achei que você ia me dar os parabéns...
-Ah, parabéns, Diego.
-Bom vou me arrumar a noite eu vou à festa de aniversario do Fernando.
-Vai o que?!
-Na festa de aniversario do Fernando.
-Não acredito! Depois de tudo que ele...
-Vou levar até um presente.
-Nunca esperava ouvir isso do Rogério – disse Roberta.
-Esquece Roberta. Ele só estava com a cabeça quente.
Simone ia falar porem a entrada brusca de Caio e Guilherme na sala a deixou sem fala.
-Quem são vocês? – perguntou Tadeu com espanto na voz.
-Oh, que indelicadeza da nossa parte. Perdoem a nossa falta de ouvir o desentendimento que vocês tive...
-Como é que vocês entram assim, sem tocar a campanha?
-Ficamos muito preocupados! – disse Guilherme tentando convencer. – Ontem toda aquela confusão com o pobre rapaz...
-Ele não é um pobre rapaz – falou Roberta secamente.
-Verdade que toda aquela briga é por causa de uma herança?
-Que absurdo! – exclamou Simone. – Vocês entram aqui sem bater na porta e querem fazer um monte de perguntas. Olha aqui, essa casa não é nossa só estamos aqui para por onde a procurar a heran...
-Sabemos que esse negócio de herança é complicado. E nesse caso nada melhor do que um bom advogado, pois já dizia o meu tio Paulo: não existe um problema familiar que tem um advogado com A maiúscula não resolva!
-Assim sendo – completou Guilherme – decidimos estudar advocacia e já que vocês estão precisando de ajuda... tamos aqui.
-Não estamos precisando de ajuda.
-É. Por favor vão embora. Precisamos fechar a casa. Como disse a Simone ela não é nossa.
-Ainda cedo – teimou Caio. – Pois já dizia meu avô Euzébio: nunca é tarde para visitar ou receber a visita de alguém.
-Sim, mas já é quase noite.
Edmundo saiu do mercado. Nas mãos uma sacola, com arroz, do mais barato, biscoitos todos quebrados e um pacote de leite em pó. Caminhava apressadamente. Distanciou-se logo das pessoas que finalizavam as conversas de domingo, no meio da rua ou enfrente as suas casas.
De repente, ele teve a sensação de que estava sendo seguido. Olhou para trás, mas não tinha ninguém. Apertou mais os passos... e novamente a sensação de que alguém o seguia.
- Confiei em você, Tico!
-Desculpa cara. Eu cheguei até a porta da casa dela, mas aí... Aconteceu um monte de coisas, Fernando. Eu sinto muito.
-Eu só mandei fazer a festa na esperança que ela fosse... Vou mandar cancelar tudo!
-Não, não vai não. Agora eu estou decidido a ir à festa.
-Mas sem a Rosana não vai ter graça.
-Vai sim, garanto.
-Não foi como esperávamos, não é?
-Sim, vamos resolver as coisas do nosso jeito. É só um bando de adolescentes metidos... Aqueles setecentos mil são nossos.
Edmundo parou abruptamente e olhou para as pessoas que andavam na rua. Contudo nenhuma delas parecia ter interesse em segui-lo. Recomeçou a andar rapidamente. Estava agora em uma estrada de chão próximo a mata. Um barulho de galho quebrando o fez se virar para trás e soltar uma exclamação.
-Você!
-Por que a surpresa Edmundo?
O rapaz ficou parado sem dizer nada. A moça continuou meigamente:
-Ou você achou que eu ficaria presa pro resto da vida?
Edmundo respondeu ainda sem muita firmeza na voz.
-Não pensei nisso Bianca. Simplesmente não esperava encontra-la aqui.
-Verdade? – perguntou Bianca ironicamente.
-E... Como você esta?
-Ótima, melhor agora.
-Eu também estou ótimo, mas tenho que ir.
-Ah, Edmundo precisamos conversar.
-Conversar? Olha Bianca eu realmente preciso ir andando talvez outra hora...
-Vai ser agora Edmundo. Que historia foi essa de você passar tudo que é meu no seu nome?
-Achei que tinha esse direito. Afinal você me tratava como escravo.
-Só que eu não disse e tampouco assinei papel algum dizendo que quando eu morresse você tomaria conta do que é meu. E eu só estava presa Edmundo. Você me roubou!
-Quem ficou cuidando de tudo aquilo fui eu. Confesso, achei que você na apareceria nunca mais.
-E o que você esta fazendo nessa cidade? – perguntou Bianca mudando de assunto. – E por que se mudou daquela mansão onde você estava morando até ontem?
-Não trabalho mais pra você – respondeu Edmundo rispidamente – não lhe devo mais explicação. Agora eu preciso ir andando.
O rapaz deu dois passos. Bianca então falou:
-Primeiro você vai me dizer sobre a herança.
Edmundo parou.
-Tenho certeza que é por isso que você esta nessa cidade.
-Como você soube? – perguntou Edmundo virando-se e encarando Bianca.
-Uma amiga minha era vizinha do Marcio, ela me contou que ele tinha se mudado pra cá. Vai me explicar ou não?
-O que você quer saber?
-Aonde é a casa do Marcio.
-Ele morava naquela mansão. Eu mudei de lá ontem e o Marcio hoje cedo.
-Se mudou pra onde?
-Eu ou o Marcio?
-Os dois.
-Eu estou morando em outro lugar e o Marcio... Bom ele esta como refém meu e da Viviane.
-Como assim?
-Ele não quis dizer onde esta a herança, aí eu e a Viviane resolvemos seqüestra-lo. O pagamento do resgate será a herança. O plano é bom, mas eu acho que a Viviane deveria acreditar na palavra do Marcio.
-Não estou entendendo.
-A Viviane deu dez dias para a namorada do Marcio encontrar a herança, só que ela não sabe onde o namorado escondeu. E a Viviane não quer acreditar que o Marcio esta dizendo a verdade.
-E você acha que realmente a namorada do Marcio não sabe onde esta a herança?
-Eu acho que ela não sabe. Mas a Viviane não pensa assim.
-Muito bem. Se você acha que o Marcio esta dizendo a verdade... Você vai fazer ele dizer onde esta a herança e você vai pega –lá pra mim.
Edmundo sorriu.
-Por que você acha que eu faria isso?
Foi a vez de Bianca sorrir.
-Você tem que me pagar Edmundo. Eu jamais permitiria que você ficasse me devendo.
-Estou trabalhando para a Viviane, Bianca.
-Sei disso. Você me roubou. Agora eu quero que você roube para mim.
-Você divide a herança comigo?
-Não.
-Então nada feito.
-Você vai roubar sim Edmundo – disse Bianca gravemente. – Se não fizer o que eu estou mandando eu conto para a policia que você me roubou e que esta participando de um seqüestro.
-Isso é chantagem Bianca!
-Não me diga! Você vai ameaçar o Marcio até ele dizer onde esta a herança, isso tudo é claro, sem que a Viviane saiba.
-Eu odeio você! – disse Edmundo com raiva.
-Tenho certeza que não me odeia tanto quanto eu odeio você. Estou morando de aluguel na Rua Pedro de Alcântara, numero dezessete. Agora eu preciso ir.
Se afastou rebolando. Edmundo disse para si mesmo:
-Vou fazer o Marcio dizer onde esta a herança. Mas você e a Viviane não quebrar a cara. Vou pegar todo o dinheiro e me mandar.
Sorrindo, Edmundo recomeçou a andar.
postado em 00/00/0000 às 11:50:26 na página biblioteca_ler
Simone abriu a gaveta da mesa de cabeceira. Ali dentro Marcio guardava as contas as correspondências e o álbum de fotografias.
O objetivo de Simone era tentar encontrar algo que esclarecesse onde estaria escondida a herança. A moça já estava perdendo as esperanças, quando ao retirar o álbum, deixou-se aparecer um envelope amarelo. Com o coração batendo mais forte Simone pegou o envelope e abriu.
Não continha a herança, mas sim os documentos de todos os bens deixados pelos pais de Marcio.
-Roberta! Roberta! – chamou Simone.
-O que é? – respondeu Roberta no corredor.
-Encontrei algo que pode ser importante.
Em seguida Roberta entrou no quarto.
-Que isso? – perguntou ao ver os papéis e o envelope no chão.
-São os documentos dos bens herdados pelo Marcio.
Roberta pegou um dos papéis. Nele dizia que os pais de Marcio tinham só em São Paulo cinco estabelecimentos comerciais. No Rio de Janeiro três, no Paraná dois e um na Bahia, e ainda eles eram sócios de uma academia de dança em Londres.
-Encontraram alguma coisa? – perguntou Milena entrando no quarto junto com Tadeu e Tico.
-Sim, vejam esse documento – disse Roberta entregando o papel para Tico, que juntou a cabeça com Milena e Tadeu para começarem a ler.
-Agora veja isso Roberta.
-O que é agora Simone?
-É uma correspondência da mãe do Marcio para o pai dele.
-Após ler o documento, Tico falou:
-Bom parece que eles venderam todos os imóveis e ficaram só com o dinheiro vivo.
-Talvez não tenha sido uma boa idéia.
-É. Mas por que será que eles venderam os imóveis?
-Não sei. Tem uma carta aqui da mãe do Marcio ela escreveu de Salvador para o pai de Marcio.
Em voz alta Roberta leu:
Salvador 08/ 04/ 92
Floriano estou precisando de ajuda! Descobri que tem alguém desviando dinheiro da Firma Supermercados. O mais grave porem, é que é gente de nossa confiança.
Preciso que você venha até aqui o mais rápido possível, pois quero dar mais detalhes por carta.
Sua esposa Madalena.
-Parece que os problemas com dinheiro dessa família não vem de hoje.
-Talvez tenha sido este o motivo que levaram eles a venderem todos os imóveis.
-Tem outra carta. O Floriano escreveu do Rio de Janeiro para Salvador.
Rio de Janeiro 05/ 01/ 93
Madalena o impossível aconteceu! Caio e Guilherme conseguiram escapar!
A voz de Roberta enfraqueceu.
-Caio e Guilherme, eles... eles era quem estavam desviando o dinheiro dos pais de Marcio...
-Não posso acreditar! – exclamou Milena.
-Continue a leitura Roberta – pediu Tadeu.
Eles podem estar em qualquer lugar, mas tenho certeza de que aqui no Rio eles não estão.
Quero que você faça o seguinte Madalena: pegue esse dinheiro que esta aí e venha pra cá. Estarei no saguão do aeroporto te esperando de carro para juntos irmos ao banco...
-Foram eles! – gritou Roberta deixando a carta cair no chão – não foi um acidente comum como o Marcio contou. O Caio e o Guilherme devem ter provocado o acidente, mexido no carro... Eles estão infernizando a família do Marcio desde aquela época. Mataram o Zeca na esperança de levarem o dinheiro, mas ao ver que ele só estava com um pouco, pediram para ele falar onde estava o resto; foi morto porque se recusou a falar. E agora estão nos ameaçando...
-Eu não estou entendendo o porquê da cisma Viviane?
-Tenho a sensação que você esta me enganando. Onde você passou a noite?
-Não me sinto na obrigação de responder o que faço a noite.
A moça encarou Edmundo demoradamente. Depois falou:
-Eu vou matar você Edmundo.
-E eu venho te buscar – disse Edmundo ainda de olho em Viviane. – Passei a noite na pensão.
-A chave do seu quarto estava na recepção e a dona Graça falou que você dormiu fora.
-Teria sido melhor se tivéssemos em um quarto com duas camas.
-Não será preciso. Mas eu estou de olho em você.
Edmundo foi para o quarto de Marcio.
-Encontrou? – perguntou Marcio.
-Fala baixo. Não procurei ainda.
-Não foi isso que combinamos.
-Nós não combinamos nada Marcio. Fica de boca fechada.
Assim que o rapaz saiu Marcio falou:
-Então é assim não é? Quero ver se ele vai encontrar o dinheiro dentro do pato de louça.
Diego retirou as madeiras de onde estavam e colocou tudo para fora. Seus olhos bateram em um saco velho sujo. Dentro dele não havia nada de interessante.
-Espere, isso é interessante – disse ele ao ver o pato de louça. – Vou levar pra casa.
-Você não pode fazer isso Roberta! – alertou Tico se pondo na frente da amiga. – Eles pediram para não chamarmos a policia!
-São dois assassinos Tico!! – gritou Roberta tentando passar pelo amigo
-A Viviane pode ficar sabendo e entender errado e...
-Dane-se o que a Viviane vai achar. Esses dois passam o dia todo dentro de casa, a policia vira busca-los aqui.
Foi para a porta. Só que esta se abriu primeiro.
-Vai sair Roberta?
-O que você esta fazendo aqui?
-Vim saber se você achou a herança.
-Não achei. É melhor você ir embora porque se você não se lembra te expulsaram daqui.
-Sabe Roberta, eu estou começando a achar que você não gosta tanto do Marcio assim não.
-Vai embora Viviane – pediu Roberta fechando os olhos.
-Tudo bem, mas antes quero que saiba de uma coisa: esta dando muito trabalho cuidar do seu namorado, então eu resolvi mudar o prazo de dez para seis dias.
Roberta congelou e mudou de cor.
-O combinado não foi esse – disse ela com urgência – eram dez dias!
-Pois é, eram dez dias, mudei de idéia. Melhor se apressar.
-Você não tem esse direito!
-Não discuta comigo Roberta!
-Olha só Viviane – tentou Tadeu – você disse que...
-Sei que eram dez dias – falou Edmundo pela primeira vez – só que o Marcio tem dado muitas despesas; decidimos mudar as regras. Isso é tudo.
-Cale a boca – ordenou Tico.
-O que disse?
-Cale a boca. Vocês foram expulsos dessa casa, saíram daqui a pancadas, deveriam ter vergonha de retornarem.
-Retornaremos aqui quando quisermos – falou Viviane esboçando um sorriso. – A Roberta terá o prazer de nos receber.
Dizendo isso Viviane se virou pra ir embora. Tico e Simone seguraram Roberta que ia voando no pescoço da moça.
-Calma Roberta – pediu Tico segurando com grande esforço a amiga.
-Me solta eu quero acabar com ela!
-Isso não vai resolver nada Roberta, volta aqui!
Tarde demais. Roberta se desvencilhou de Simone e já ia decidida para a rua.
-Você é covarde Viviane! – gritou ela. Viviane parou, juntamente com Edmundo e virou – se para encarar Roberta.
-Tudo isso poderia ter sido evitado Caio – falou Guilherme fechando o livro que estivera lendo.
-É eu sei. Se tivéssemos pegado esse dinheiro naquela época estaríamos em outra vida.
-Maldita hora que fomos falhar!
-Não falhamos Guilherme. A culpa foi toda da Madalena, ela que estragou tudo. Não levou o dinheiro para Rio lembra?
-É verdade. Ainda bem que eu... mas que gritaria é essa?
Guilherme se levantou e foi até a porta, seguido por Caio. Na rua Viviane gritava:
-Pode gritar, falar o que quiser, mas daqui seis dias eu vou querer o dinheiro!
-Você não tem coragem de assumir nada que faz! Por que não assume que esta com um refém no meio do mato e que...
-Você é louca, alem de caloteira é completamente louca!
-Já entendi tudo, você esta tentando disfarçar... Raptou um rapaz e não esta tendo condições de sustentá-lo é ou não é? Fala!
-Cala a boca! Nós temos um trato, você sabe muito bem o que vai acontecer se você não...
-Viviane vamos? –falou Edmundo ao ver que a Viviane falaria da herança; a rua já estava começando a encher de curiosos. – Tenho certeza que a Roberta vai nos pagar, ela só esta nervosa assim porque é mais uma devedora, logo passa – pegou Viviane pelo braço e tentando sorrir falou: - Tchau Roberta. Ligaremos para saber como você esta.
-Vamos entrar Roberta – disse Milena.
Na casa ao lado, Caio falou:
-A tal Viviane adora dar show né?
-Adora. Eu já entendi o que esta acontecendo...
Os curiosos foram embora. Ninguém notou, mas Bianca escutou tudo atentamente.
-Ela seqüestrou o rapaz que a expulsou da casa aí – falou Guilherme – e o pagamento do resgate será a herança. Realmente ela não é nada boba, essa Viviane.
-E eu acabei de ter uma brilhante idéia – disse Caio sorrindo.
-Fala então.
-Se a Viviane continuar com essa pressão pra cima do grupo, ficara muito difícil pra nós obtermos o dinheiro, contudo, ficara fácil se a Viviane estiver fora do caminho.
-O que faremos com ela?
-Uma ameaça, só isso. Se ela tiver bom senso desisti na hora.
-Se não tiver...
-... Acabaremos com ela.
Estava Rogério assistindo televisão quando a campainha tocou. Rogério foi atender, era Tico.
-E aí, cara, beleza? Vim conversar com você.
-Chega aí.
Tico entrou e permaneceu em silêncio.
-Você quer tomar café ou suco? Tem bolo também...
-Não quero nada Rogério, obrigado.
-Bom, aconteceu alguma coisa?
-Não. Eu só vim aqui por que... você foi hoje cedo lá na casa do Marcio?
-Fui. Eu não te vi por lá...
-Rogério por que esta agindo assim?
-Não consigo entender a burrada que vocês estão fazendo!
-Tem burrada nenhuma cara. Só estamos ajudando o Marcio porque ele esta em apuros.
-Se tivesse feito a coisa certa não estaria em apuros.
-Você não esta sendo o mesmo Rogério de antes. Você sempre gostou de aventuras e tudo isso que nós estamos fazendo pelo Marcio é aventura.
-Sempre gostei de aventura sim; só que na ficção e a ficção é diferente da realidade.
-Pensei que éramos amigos.
-Somos amigos. Mas isso tudo é perigoso. O Marcio deveria ter imaginado que se a Viviane não fosse presa ela retornaria.
-Você esta com medo do que?
-Não estou com medo de nada.
-Esta sim. Reconheço que essa encrenca na qual estamos metidos é perigosa, mas não tenho medo. Agora você não esta participando e esta com medo.
-Tive pesadelos.
-Pesadelos?!
-É, pesadelos... Gente gritando, sangue e enterro.
-Desde quando você acredita em pesadelos?
-Desde quando eles vêm em forma de aviso.
Tico ficou olhando o seu amigo. Aquela frase tinha encerrado o assunto. Então Tico resolveu falar sobre outra coisa.
-Eu não pude participar daquele concurso de fotografias, tem outro agora. Ta a fim de me ajudar?
-Aí sim eu ajudo.
-Eu vou indo, tenho umas coisas pra fazer.
Após a saída de Tico, Rogério sentou – se no sofá pensativamente.
postado em 01/02/2009 às 19:02:31 na página biblioteca_ler
CAPÍTULO 1
O COMEÇO DE TUDO
Essa história teve íniçio em abril de 1995. Tudo que aconteceu naquele ano só foi ter conseqüência anos depois.
Fico olhando para o retrato de Karina. Seus olhos castanhos, os seus cabelos longos e a sua pele branca e suave. Se pelo menos eu tivesse dito tudo que sentia por ela naquela época talvez as coisas tivessem tomado um outro rumo.
Era quatro de abril de 1995, fui acompanhar minha mãe a um posto de saúde. A idéia não me agradou, mas eu não tinha nada pra fazer em casa num dia chuvoso como aquele; ainda mais uma sexta feira. Marcaram o conselho de classe para aquele dia o que significava que ficariam três dias sem aula.
Tinham decorridos uns quarenta minutos que mamãe havia entrado na sala da dentista, quando eu avistei, atravessando a rua e vindo em direção do posto de saúde, aquela linda garota. Caminhava como se flutuasse – tinha o cabelo preso num bonito rabo- de cavalo e alguns fios caiam de lado... Segurava perfeitamente o guarda - chuva, protegendo si mesma e a mãe da chuva.
Passou em minha frente. Por um momento os meus olhos se encontraram os dela; desviou em seguida, mais ao perceber que eu continuava a encará-la, tornou a olhar... Senti meu rosto esquentar. O coração disparar a boca ficar seca...
Morávamos em Franco da Rocha, cidade pequena, nunca a tinha visto por ali.
Foi lá, no posto de saúde que a nossa amizade começou.
Karina havia mudado pra Franco da Rocha há uns quinze dias, morava com o pai e com a mãe, não tinha irmãos. Era o orgulho dos seus pais e ele também se orgulhava muito deles. Trocamos os números do telefone e me dando um beijo na bochecha falou:
-Gostei muito de você Jéferson.
Quatro de abril de 1995, jamais esqueci essa data. E eu, que não era muito acostumado a ter tanta intimidade com uma garota, estava adorando aquela experiência.
Nós conversávamos sobre tudo. Falávamos do colégio, de profissão, de religião, casamento, sexo... Era uma grande amizade: eu ia a casa dela, ela ia na minha. Íamos ao cinema, no parque, na danceteria, na igreja... Confiávamos um no outro.
Foi a minha timidez que não deixou eu abrir o meu coração pra ela. O tempo foi passando e cada vez mais a minha coragem de dizer o quanto eu a amava ia ficando menor. Tinha medo de perder a amizade dela. E eu era também muito novo. Eu tinha dezessete e ela dezesseis – não me sentia preparado para assumir um compromisso sério. Deixei como estava. Hoje, anos depois, quando vejo o retrato dela, choro de saudade daquele tempo. Imagine, a gente começava a conversar no telefone as vinte e uma hora e só parávamos lá pra meia-noite! Éramos completamente loucos.
Mais a verdade é que Karina era uma garota incrível; ajudava seus pais em casa, era super humilde com as pessoas e adorava teatro.
- Um dia Jéferson, você vai estar lá na primeira fila do teatro municipal, aplaudindo de pé a minha peça – dizia ela sorrindo. Era o seu sonho escrever uma peça de teatro e fazer sucesso. Era o seu grande sonho.
Dois anos depois de conhecer Karina tudo mudou. Havíamos acabado de assistir uma peça no teatro em um shopping e estávamos comendo um lanche, foi quando ele mencionou Fabiano.
- Ele disse que quer namorar comigo. O que você acha?
Ignorando a pontada de ciúmes que se manifestou em meu peito, respondi sinceramente:
- Bom você decide não é? Se você gosta dele e ele de você...
- Eu gosto dele – disse Karina com firmeza.
- Nesse caso – continuei sincero – aceita o pedido dele.
Nem bem tinha chegado em casa direito e já estava arrependido de ter incentivado Karina a aceitar o pedido de Fabiano. Senti-me tentado a ir até a casa dela e dizer que era para ela não aceitar o pedido de Fabiano por que eu a amava. Mas não falei... Eu e a minha falta de coragem! Karina seguiu o meu conselho. Estava amarradona no tal Fabiano.
Para piorar, no dia da minha formatura foi o dia escolhido por Karina para me apresentar ao Fabiano pessoalmente.
-Cara, se você soubesse o tanto que a Karina fala de você! – disse Fabiano apertando a minha mão.
-Ela também de uns dias pra cá tem falado muito em você – falei tentando parecer contente em conhecê-lo.
Embora eu tivesse morrendo de ciúmes, uma coisa era certa: tal Fabiano era firmeza. Mesmo assim, eu procurei ficar o mais distante possível do casal; achei que me sentiria bem melhor não tendo que fingir para eles a minha falta de entusiasmo diante o fato deles estarem namorando. Comecei a pensar no dia em nos conhecemos e em tudo que eu deveria ter falado, que nem reparei em Karina na minha frente.
-Jéferson, ta tudo bem?
-Que?
-Esta tudo bem?
-Sim. Claro...
Ela olhou dentro dos meus olhos. Resolvi continuar mentindo.
-Eu estava pensando, vai ficar chato agora que terminei os estudos.
-Não vi não – falou Karina sem tirar os olhos dos meus. – É o fim de um ciclo e o começo de outro.
-Verdade, eu é que estou esquentando a cabeça à toa.
Ficamos em silencio. Eu estava me sentindo sem jeito; Karina falou:
-Tem certeza que esta tudo bem Jéferson? Parece que você não gostou muito do Fabiano.
- Não... Quero dizer... Gostei dele. Estou bem.
Pra minha surpresa, Karina sorriu e falou:
-Você esta precisando de uma namorada Jéferson!
-Por quê?
-Pra te fazer companhia.
Não consegui ficar a vontade. Brincadeira, na minha própria formatura! Tudo culpa da minha falta de coragem.
Uma vez terminado o terceiro ano do ensino médio, comecei a trabalhar em uma papelaria. O salário era pouco, mas eu tinha que se virar até conseguir um emprego melhor.
E foi nessa época que a minha amizade com Karina sofreu um forte abalo. Ela continuava estudando e com o meu novo emprego, tornava - se difícil conseguir um tempo para sairmos. Eu estava sentindo muito a falta dela, mas não fazia esforço algum para entrar em contato e tentar marcar um programa, Não retornava as suas ligações. O recado na secretaria eletrônica era sempre o mesmo:
“- Jéferson o que esta acontecendo? Você não liga mais pra mim. Estou morrendo de saudades. Me liga quando chegar, por favor. Um grande beijo.”
Não liguei. Apesar de tudo estava melhor sem ter que ouvi – la falando em Fabiano. Achava estar fazendo a coisa certa.
O tempo passou. Estava com vinte dias sem eu falar com Karina. Os sábados e os domingos não eram mais os mesmos sem ela; todas as nossas conversas faziam parte de um passado distante. Mamãe estranhou minha atitude:
-Você e a Karina brigaram?
E eu ali, calado. Se eu soubesse a repercussão que essa minha atitude teria anos depois eu faria tudo diferente.
Dias depois, através de boatos, fiquei sabendo do noivado de Karina e Fabiano. E não tenho vergonha de dizer que chorei. Mesmo sabendo que a minha amiga estava vivendo um momento especial.
O noivado foi no dia 10 de novembro de 1997. Na segunda – feira, dia 12, ao chegar do trabalho, eu tive uma surpresa.
-Oi Jéferson.
Sentada, no sofá da sala, estava Karina.
-Oi Karina. Que surpresa – tentei parecer calmo e feliz em vê - la. – Faz muito tempo que você chegou?
-Umas duas horas – respondeu ela sem sorrir.
-Te falei que eu só chegava às sete.
-Eu sei. Só que parece que você esta fugindo de mim.
Senti um assomo de culpa. Não consegui pensar em nada para dizer. E reparei também que Karina não desviou o olhar de mim um só instante. Sentei – me de frente pra ela.
-Jéferson eu vim aqui pra saber por que você esta fugindo de mim, e eu não vou embora sem ouvir a verdade.
Tive a ligeira impressão que o mundo desabara na minha cabeça. Ainda tentei mentir:
-Não estou fugindo Karina. Eu só estou muito ocupado...
-Eu te conheço Jéferson – interrompeu Karina pegando a minha mão. – Você esta mentindo. Conta pra mim Jéferson, eu sou a sua melhor amiga, lembra? Quem sabe eu posso te ajudar.
Baixei os olhos. Fiquei olhando a mão de Karina segurando a minha. Não adiantava mais mentir. Havia chegado a hora de dizer para ela o que eu de deveria ter dito há dois anos.
-Você sempre me ajudou – falei sorrindo e olhando nos olhos de Karina. Meu coração batia acelerado e a minha boca estava seca igual ao dia em que nos conhecemos. – Agora é um problema só meu. Não vai ter como você me ajudar.
Fiquei de pé dando as costas para Karina, que permaneceu calada.
-Eu amo você Karina – disse me virando. – Eu amo você desde o dia em que passou na minha frente pela primeira vez, olhou nos meus olhos desviou o olhar e depois olhou de novo.
Incrível como as palavras saíram facilmente da minha boca. Karina não disse nada, permaneceu imóvel no sofá com as mãos penduradas como se estivesse a espera que eu colocasse a minha mão junto da sua. Eu estava esperando qualquer tipo de reação da Karina. Contudo, ela só disse uma frase, uma frase que partiu ainda mais o meu coração.
-Sinto muito Jéferson, mas dessa vez eu não posso te ajudar.
Foi o que ela falou. Me deu um beijo na bochecha e foi embora. Pela primeira vez senti raiva de Karina. Aquele era um momento tão complicado pra mim, e a única coisa que ela conseguiu dizer foi “sinto muito Jéferson, mas dessa vez eu não poso te ajudar!” Eu queria dizer mais coisas, explicar tudo que estava sentindo naquele momento queria colocar tudo pra fora! Mas Karina já ia decidida pra rua e eu não consegui ir atrás.
Nos dias que se seguiram, eu fiquei me perguntando se aquele teria sido a ultima vez que via e falava com ela. A resposta veio dias depois com mais um telefonema. Não aceitei o convite de Karina para jantar em sua casa.
postado em 01/02/2009 às 17:59:08 na página biblioteca_ler
CAPÍTULO 1
O COMEÇO DE TUDO
Essa história teve íniçio em abril de 1995. Tudo que aconteceu naquele ano só foi ter conseqüência anos depois.
Fico olhando para o retrato de Karina. Seus olhos castanhos, os seus cabelos longos e a sua pele branca e suave. Se pelo menos eu tivesse dito tudo que sentia por ela naquela época talvez as coisas tivessem tomado um outro rumo.
Era quatro de abril de 1995, fui acompanhar minha mãe a um posto de saúde. A idéia não me agradou, mas eu não tinha nada pra fazer em casa num dia chuvoso como aquele; ainda mais uma sexta feira. Marcaram o conselho de classe para aquele dia o que significava que ficariam três dias sem aula.
Tinham decorridos uns quarenta minutos que mamãe havia entrado na sala da dentista, quando eu avistei, atravessando a rua e vindo em direção do posto de saúde, aquela linda garota. Caminhava como se flutuasse – tinha o cabelo preso num bonito rabo- de cavalo e alguns fios caiam de lado... Segurava perfeitamente o guarda - chuva, protegendo si mesma e a mãe da chuva.
Passou em minha frente. Por um momento os meus olhos se encontraram os dela; desviou em seguida, mais ao perceber que eu continuava a encará-la, tornou a olhar... Senti meu rosto esquentar. O coração disparar a boca ficar seca...
Morávamos em Franco da Rocha, cidade pequena, nunca a tinha visto por ali.
Foi lá, no posto de saúde que a nossa amizade começou.
Karina havia mudado pra Franco da Rocha há uns quinze dias, morava com o pai e com a mãe, não tinha irmãos. Era o orgulho dos seus pais e ele também se orgulhava muito deles. Trocamos os números do telefone e me dando um beijo na bochecha falou:
-Gostei muito de você Jéferson.
Quatro de abril de 1995, jamais esqueci essa data. E eu, que não era muito acostumado a ter tanta intimidade com uma garota, estava adorando aquela experiência.
Nós conversávamos sobre tudo. Falávamos do colégio, de profissão, de religião, casamento, sexo... Era uma grande amizade: eu ia a casa dela, ela ia na minha. Íamos ao cinema, no parque, na danceteria, na igreja... Confiávamos um no outro.
Foi a minha timidez que não deixou eu abrir o meu coração pra ela. O tempo foi passando e cada vez mais a minha coragem de dizer o quanto eu a amava ia ficando menor. Tinha medo de perder a amizade dela. E eu era também muito novo. Eu tinha dezessete e ela dezesseis – não me sentia preparado para assumir um compromisso sério. Deixei como estava. Hoje, anos depois, quando vejo o retrato dela, choro de saudade daquele tempo. Imagine, a gente começava a conversar no telefone as vinte e uma hora e só parávamos lá pra meia-noite! Éramos completamente loucos.
Mais a verdade é que Karina era uma garota incrível; ajudava seus pais em casa, era super humilde com as pessoas e adorava teatro.
- Um dia Jéferson, você vai estar lá na primeira fila do teatro municipal, aplaudindo de pé a minha peça – dizia ela sorrindo. Era o seu sonho escrever uma peça de teatro e fazer sucesso. Era o seu grande sonho.
Dois anos depois de conhecer Karina tudo mudou. Havíamos acabado de assistir uma peça no teatro em um shopping e estávamos comendo um lanche, foi quando ele mencionou Fabiano.
- Ele disse que quer namorar comigo. O que você acha?
Ignorando a pontada de ciúmes que se manifestou em meu peito, respondi sinceramente:
- Bom você decide não é? Se você gosta dele e ele de você...
- Eu gosto dele – disse Karina com firmeza.
- Nesse caso – continuei sincero – aceita o pedido dele.
Nem bem tinha chegado em casa direito e já estava arrependido de ter incentivado Karina a aceitar o pedido de Fabiano. Senti-me tentado a ir até a casa dela e dizer que era para ela não aceitar o pedido de Fabiano por que eu a amava. Mas não falei... Eu e a minha falta de coragem! Karina seguiu o meu conselho. Estava amarradona no tal Fabiano.
Para piorar, no dia da minha formatura foi o dia escolhido por Karina para me apresentar ao Fabiano pessoalmente.
-Cara, se você soubesse o tanto que a Karina fala de você! – disse Fabiano apertando a minha mão.
-Ela também de uns dias pra cá tem falado muito em você – falei tentando parecer contente em conhecê-lo.
Embora eu tivesse morrendo de ciúmes, uma coisa era certa: tal Fabiano era firmeza. Mesmo assim, eu procurei ficar o mais distante possível do casal; achei que me sentiria bem melhor não tendo que fingir para eles a minha falta de entusiasmo diante o fato deles estarem namorando. Comecei a pensar no dia em nos conhecemos e em tudo que eu deveria ter falado, que nem reparei em Karina na minha frente.
-Jéferson, ta tudo bem?
-Que?
-Esta tudo bem?
-Sim. Claro...
Ela olhou dentro dos meus olhos. Resolvi continuar mentindo.
-Eu estava pensando, vai ficar chato agora que terminei os estudos.
-Não vi não – falou Karina sem tirar os olhos dos meus. – É o fim de um ciclo e o começo de outro.
-Verdade, eu é que estou esquentando a cabeça à toa.
Ficamos em silencio. Eu estava me sentindo sem jeito; Karina falou:
-Tem certeza que esta tudo bem Jéferson? Parece que você não gostou muito do Fabiano.
- Não... Quero dizer... Gostei dele. Estou bem.
Pra minha surpresa, Karina sorriu e falou:
-Você esta precisando de uma namorada Jéferson!
-Por quê?
-Pra te fazer companhia.
Não consegui ficar a vontade. Brincadeira, na minha própria formatura! Tudo culpa da minha falta de coragem.
Uma vez terminado o terceiro ano do ensino médio, comecei a trabalhar em uma papelaria. O salário era pouco, mas eu tinha que se virar até conseguir um emprego melhor.
E foi nessa época que a minha amizade com Karina sofreu um forte abalo. Ela continuava estudando e com o meu novo emprego, tornava - se difícil conseguir um tempo para sairmos. Eu estava sentindo muito a falta dela, mas não fazia esforço algum para entrar em contato e tentar marcar um programa, Não retornava as suas ligações. O recado na secretaria eletrônica era sempre o mesmo:
“- Jéferson o que esta acontecendo? Você não liga mais pra mim. Estou morrendo de saudades. Me liga quando chegar, por favor. Um grande beijo.”
Não liguei. Apesar de tudo estava melhor sem ter que ouvi – la falando em Fabiano. Achava estar fazendo a coisa certa.
O tempo passou. Estava com vinte dias sem eu falar com Karina. Os sábados e os domingos não eram mais os mesmos sem ela; todas as nossas conversas faziam parte de um passado distante. Mamãe estranhou minha atitude:
-Você e a Karina brigaram?
E eu ali, calado. Se eu soubesse a repercussão que essa minha atitude teria anos depois eu faria tudo diferente.
Dias depois, através de boatos, fiquei sabendo do noivado de Karina e Fabiano. E não tenho vergonha de dizer que chorei. Mesmo sabendo que a minha amiga estava vivendo um momento especial.
O noivado foi no dia 10 de novembro de 1997. Na segunda – feira, dia 12, ao chegar do trabalho, eu tive uma surpresa.
-Oi Jéferson.
Sentada, no sofá da sala, estava Karina.
-Oi Karina. Que surpresa – tentei parecer calmo e feliz em vê - la. – Faz muito tempo que você chegou?
-Umas duas horas – respondeu ela sem sorrir.
-Te falei que eu só chegava às sete.
-Eu sei. Só que parece que você esta fugindo de mim.
Senti um assomo de culpa. Não consegui pensar em nada para dizer. E reparei também que Karina não desviou o olhar de mim um só instante. Sentei – me de frente pra ela.
-Jéferson eu vim aqui pra saber por que você esta fugindo de mim, e eu não vou embora sem ouvir a verdade.
Tive a ligeira impressão que o mundo desabara na minha cabeça. Ainda tentei mentir:
-Não estou fugindo Karina. Eu só estou muito ocupado...
-Eu te conheço Jéferson – interrompeu Karina pegando a minha mão. – Você esta mentindo. Conta pra mim Jéferson, eu sou a sua melhor amiga, lembra? Quem sabe eu posso te ajudar.
Baixei os olhos. Fiquei olhando a mão de Karina segurando a minha. Não adiantava mais mentir. Havia chegado a hora de dizer para ela o que eu de deveria ter dito há dois anos.
-Você sempre me ajudou – falei sorrindo e olhando nos olhos de Karina. Meu coração batia acelerado e a minha boca estava seca igual ao dia em que nos conhecemos. – Agora é um problema só meu. Não vai ter como você me ajudar.
Fiquei de pé dando as costas para Karina, que permaneceu calada.
-Eu amo você Karina – disse me virando. – Eu amo você desde o dia em que passou na minha frente pela primeira vez, olhou nos meus olhos desviou o olhar e depois olhou de novo.
Incrível como as palavras saíram facilmente da minha boca. Karina não disse nada, permaneceu imóvel no sofá com as mãos penduradas como se estivesse a espera que eu colocasse a minha mão junto da sua. Eu estava esperando qualquer tipo de reação da Karina. Contudo, ela só disse uma frase, uma frase que partiu ainda mais o meu coração.
-Sinto muito Jéferson, mas dessa vez eu não posso te ajudar.
Foi o que ela falou. Me deu um beijo na bochecha e foi embora. Pela primeira vez senti raiva de Karina. Aquele era um momento tão complicado pra mim, e a única coisa que ela conseguiu dizer foi “sinto muito Jéferson, mas dessa vez eu não poso te ajudar!” Eu queria dizer mais coisas, explicar tudo que estava sentindo naquele momento queria colocar tudo pra fora! Mas Karina já ia decidida pra rua e eu não consegui ir atrás.
Nos dias que se seguiram, eu fiquei me perguntando se aquele teria sido a ultima vez que via e falava com ela. A resposta veio dias depois com mais um telefonema. Não aceitei o convite de Karina para jantar em sua casa.
postado em 00/00/0000 às 17:07:24 na página biblioteca
INTRODUÇAÕ
Jéferson era apaixonado por sua amiga Karina. Mas ele não tinha coragem de dizer tudo que sentia a ela. Um dia, Jéferson se encheu de coragem e se declarou, mas já era tarde. Desolado, o rapaz foi embora da vida de Karina, porém, quase cinco anos depois um fato acontece e Jéferson descobre que Karina esta precisando muito de sua ajuda.
(...) Deixei ela na sala e fui para a cozinha.
Passei por um corredor não muito grande onde do lado esquerdo era o banheiro e do lado direito dois quartos. No final do corredor a cozinha. Ao ver a decoração do cômodo, tive certeza de que a casa tinha o jeito de Karina. Abri a porta e sai no quintal; apesar de ser todo cimentado, perto do muro da divisa com a casa ao lado, havia um pequeno canteiro de terra preta com couves a alfaces plantadas e mais flores. Do lado oposto, a lavanderia com um tanque e um pequeno armário embutido na parede, que servia para guardar produtos de limpeza. Tive a minha atenção despertada por um par de tênis, que eu sabia, não era de Karina.
postado em 00/00/0000 às 16:53:33 na página biblioteca_ler
-Obrigado. CAPÍTULO 1
UMA VISITA ESTRANHA
-Abre! Abre essa porta, Viviane!
Márcio gritava enquanto jogava todo o seu peso na esperança que está cedesse.
-Abre! Viviane abre essa porta!
Viviane se aproximou da porta. Girou a chave e com o revólver em riste, abriu a porta. Tinha a boca cortada pela briga com Roberta.
-Vai acabar sem voz, Márcio – disse trancando a porta. Ao ver a arma, Márcio recuou.
-Que lugar é esse?
-É um lugar muito especial para um cativeiro. Você pode continuar gritando, ninguém vai te ouvir.
-Acha mesmo que ninguém virá atrás de mim?
-Não acho tenho certeza.
-Um dia a certeza vai se transformar em frustração pra você.
-Enquanto esse dia não me chega vou continuar com plena certeza.
-Me deixa sair, Viviane.
-Você vai sair. Mas só depois que a Roberta pagar o resgate.
-Que resgate?
-Não seja mais idiota do que você já é Márcio. Isso é um seqüestro.
-Quando eu sair daqui eu vou... Você não tem esse direito. Deixa-me sair!
-Só depois que a herança estiver em minhas mãos.
-Herança?!
-Sim. O preço para você ficar livre é de setecentos mil reais.
-Você não presta! Já fiz isso uma vez e vou fazer de novo!
PAFT.
Viviane cambaleou para trás com a força do tapa. Mas manteve o revólver firme na mão, apontou para o Márcio, que recuou.
-Está com medo, Márcio? Não, não vou virar uma assassina. Só quero que saiba de uma coisa: a sua namorada têm dez dias pra me entregar os setecentos mil...
-Ela não sabe onde está!
-Se procurar acha.
-Posso dizer onde está. Mais você tem que me soltar.
-Não. Eu quero que ela encontre.
Viviane destrancou a porta, e antes de sair falou:
-Vou pedir pro Edmundo trazer um lanche para você.
A porta foi trancada por fora. Márcio sentou - se passando a mão de leve no ferimento feito a faca por Edmundo murmurou:
-Deus, por favor, ajude a Roberta!
-Fala – disse Simone para a moça parada em frente o portão.
-Gostaria de falar com o Edmundo.
-O Edmundo não mora mais aqui.
-Me disseram que a casa dele é esta.
-Realmente ele morava aqui, não mora mais. Mudou-se ontem.
-Pra onde?
-Não sei dizer.
A moça encarou Simone por um momento. Depois disse:
-Muito obrigada.
-Pronto pra ir, Caio?
-Sim. Mas temos de ficar atentos.
-Certo. Vamos tentar descobrir por que tudo gira em torno dessa casa.
-Quem era Simone?
-Uma moça procurando o Edmundo. Já vi aquela moça em algum lugar, só não consigo me lembrar onde.
-De qualquer forma, Roberta, o que vamos fazer para libertar o Márcio?
Não foi Roberta que respondeu a pergunta de Tico e sim Rogério.
-Não resta a menor dúvida, temos que chamar a policia.
-Viviane não quer a policia interferindo.
-Não temos que seguir o conselho da Viviane.
-Eu também não quero que a policia fique sabendo do seqüestro. Temos que procurar os setecentos mil.
-Começaremos por onde?
-Não sei Milena. Mas precisamos agir, o dia já está acabando.
--É só dizer o que temos de fazer, Roberta.
-Eu não vou fazer nada – disse Rogério. – O Marcio escondeu a herança onde ninguém pudesse encontrar.
-Rogério, se não procurarmos nunca acharemos.
-Roberta, não tem nenhuma pista. É como procurar agulha no palheiro.
-Está sendo preguisoço, Rogério. Tudo bem tem mais amigos.
-Não é nada disso, Roberta. O problema é que o Márcio foi covarde, deveria ter chamado a policia para prender a Viviane ficou com medo agora nós temos que arriscar as nossas vidas para salvá - lo.
-Ele não foi covarde! – gritou Roberta na defensiva. Já está bom demais só nós sabendo da existência da herança. A policia ia nos perguntar um monte de coisas!
-Teria que perguntar mesmo, nunca vi uma herança sem documento só dinheiro vivo. Parece muito suspeito...
-Quer dizer o que com isso?
-Não devemos nos expor. A Viviane vai fazer qualquer coisa com quem se por no seu caminho. Nós estamos em perigo, por culpa do Márcio que não teve coragem de chamar a policia para...
-Ah, agora a Viviane é perigosa, até ontem era Viviane avião! – provocou Roberta com ironia.
-Mas agora todos nós sabemos do que a Viviane é capaz. E eu não vou arriscar a minha vida por causa de um erro do Márcio.
-Já disse: não quer ajudar beleza. Tenho outros amigos para pedir ajuda!
-Só quero lembrar você, Roberta, que o Márcio jogou na sua cara que nós éramos um grupo de intrometidos.
-A minha memória continua muito boa.
-Não parece.
-Vai embora, Rogério, por favor.
-Eu vou. Mas quando a balança pender pro seu lado...
-Chega Rogério. Não quero ouvir mais bobagens.
-Bobagem é o que vai fazer ou o que fez ao roubar a herança do...
-Eu não roubei nada! O que eu fiz foi...
-Teve sorte que o Márcio te perdoou, já imaginou se ele tivesse mandado prender você. Está sendo burra de mais, Roberta!
-Vai embora, Rogério. Agora!
O rapaz caminhou pesadamente para a porta. Roberta sentou – se no sofá chorando. Os demais, que estiveram calados durante a discussão, permaneceram em silencio.
Caio e Guilherme esperou Rogério se afastar da casa para sair do esconderijo em que escutaram toda a briga, se dirigiram para a porta da sala.
-Talvez amanhã eu comece a trabalhar – disse Diego para Rosana.
-Que ótimo. Vou ficar sozinha nessa casa.
-Não vai mais embora?
-Mudei de idéia. Do que você vai trabalhar?
-Gari.
Rosana achou graça.
-Por que a graça? Não vejo nada de errado em trabalhar varrendo as ruas – falou Diego amarrando a cara para a prima.
-Está bem, desculpe.
-Achei que você ia me dar os parabéns...
-Ah, parabéns, Diego.
-Bom vou me arrumar a noite eu vou à festa de aniversario do Fernando.
-Vai o que?!
-Na festa de aniversario do Fernando.
-Não acredito! Depois de tudo que ele...
-Vou levar até um presente.
-Nunca esperava ouvir isso do Rogério – disse Roberta.
-Esquece Roberta. Ele só estava com a cabeça quente.
Simone ia falar porem a entrada brusca de Caio e Guilherme na sala a deixou sem fala.
-Quem são vocês? – perguntou Tadeu com espanto na voz.
-Oh, que indelicadeza da nossa parte. Perdoem a nossa falta de ouvir o desentendimento que vocês tive...
-Como é que vocês entram assim, sem tocar a campanha?
-Ficamos muito preocupados! – disse Guilherme tentando convencer. – Ontem toda aquela confusão com o pobre rapaz...
-Ele não é um pobre rapaz – falou Roberta secamente.
-Verdade que toda aquela briga é por causa de uma herança?
-Que absurdo! – exclamou Simone. – Vocês entram aqui sem bater na porta e querem fazer um monte de perguntas. Olha aqui, essa casa não é nossa só estamos aqui para por onde a procurar a heran...
-Sabemos que esse negócio de herança é complicado. E nesse caso nada melhor do que um bom advogado, pois já dizia o meu tio Paulo: não existe um problema familiar que tem um advogado com A maiúscula não resolva!
-Assim sendo – completou Guilherme – decidimos estudar advocacia e já que vocês estão precisando de ajuda... tamos aqui.
-Não estamos precisando de ajuda.
-É. Por favor vão embora. Precisamos fechar a casa. Como disse a Simone ela não é nossa.
-Ainda cedo – teimou Caio. – Pois já dizia meu avô Euzébio: nunca é tarde para visitar ou receber a visita de alguém.
-Sim, mas já é quase noite.
Edmundo saiu do mercado. Nas mãos uma sacola, com arroz, do mais barato, biscoitos todos quebrados e um pacote de leite em pó. Caminhava apressadamente. Se distanciou logo das pessoas que finalizavam as conversas de domingo, no meio da rua ou enfrente as suas casas.
De repente, ele teve a sensação de que estava sendo seguido. Olhou para trás, mas não tinha ninguém. Apertou mais os passos... e novamente a sensação de que alguém o seguia.
- Confiei em você, Tico!
-Desculpa cara. Eu cheguei até a porta da casa dela, mas aí... Aconteceu um monte de coisas, Fernando. Eu sinto muito.
-Eu só mandei fazer a festa na esperança que ela fosse... Vou mandar cancelar tudo!
-Não, não vai não. Agora eu estou decidido a ir à festa.
-Mas sem a Rosana não vai ter graça.
-Vai sim, garanto.
-Não foi como esperávamos, não é?
-Sim, vamos resolver as coisas do nosso jeito. É só um bando de adolescentes metidos... Aqueles setecentos mil são nossos.
Edmundo parou abruptamente e olhou para as pessoas que andavam na rua. Contudo nenhuma delas parecia ter interesse em segui-lo. Recomeçou a andar rapidamente. Estava agora em uma estrada de chão próximo a mata. Um barulho de galho quebrando o fez se virar para trás e soltar uma exclamação.
-Você!
-Por que a surpresa Edmundo?
O rapaz ficou parado sem dizer nada. A moça continuou meigamente:
-Ou você achou que eu ficaria presa pro resto da vida?
Edmundo respondeu ainda sem muita firmeza na voz.
-Não pensei nisso Bianca. Simplesmente não esperava encontra-la aqui.
-Verdade? – perguntou Bianca ironicamente.
-E... Como você esta?
-Ótima, melhor agora.
-Eu também estou ótimo, mas tenho que ir.
-Ah, Edmundo precisamos conversar.
-Conversar? Olha Bianca eu realmente preciso ir andando talvez outra hora...
-Vai ser agora Edmundo. Que historia foi essa de você passar tudo que é meu no seu nome?
-Achei que tinha esse direito. Afinal você me tratava como escravo.
-Só que eu não disse e tampouco assinei papel algum dizendo que quando eu morresse você tomaria conta do que é meu. E eu só estava presa Edmundo. Você me roubou!
-Quem ficou cuidando de tudo aquilo fui eu. Confesso, achei que você na apareceria nunca mais.
-E o que você esta fazendo nessa cidade? – perguntou Bianca mudando de assunto. – E por que se mudou daquela mansão onde você estava morando até ontem?
-Não trabalho mais pra você – respondeu Edmundo rispidamente – não lhe devo mais explicação. Agora eu preciso ir andando.
O rapaz deu dois passos. Bianca então falou:
-Primeiro você vai me dizer sobre a herança.
Edmundo parou.
-Tenho certeza que é por isso que você esta nessa cidade.
-Como você soube? – perguntou Edmundo virando-se e encarando Bianca.
-Uma amiga minha era vizinha do Marcio, ela me contou que ele tinha se mudado pra cá. Vai me explicar ou não?
-O que você quer saber?
-Aonde é a casa do Marcio.
-Ele morava naquela mansão. Eu mudei de lá ontem e o Marcio hoje cedo.
-Se mudou pra onde?
-Eu ou o Marcio?
-Os dois.
-Eu estou morando em outro lugar e o Marcio... Bom ele esta como refém meu e da Viviane.
-Como assim?
-Ele não quis dizer onde esta a herança, aí eu e a Viviane resolvemos seqüestra-lo. O pagamento do resgate será a herança. O plano é bom, mas eu acho que a Viviane deveria acreditar na palavra do Marcio.
-Não estou entendendo.
-A Viviane deu dez dias para a namorada do Marcio encontrar a herança, só que ela não sabe onde o namorado escondeu. E a Viviane não quer acreditar que o Marcio esta dizendo a verdade.
-E você acha que realmente a namorada do Marcio não sabe onde esta a herança?
-Eu acho que ela não sabe. Mas a Viviane não pensa assim.
-Muito bem. Se você acha que o Marcio esta dizendo a verdade... Você vai fazer ele dizer onde esta a herança e você vai pega –lá pra mim.
Edmundo sorriu.
-Por que você acha que eu faria isso?
Foi a vez de Bianca sorrir.
-Você tem que me pagar Edmundo. Eu jamais permitiria que você ficasse me devendo.
-Estou trabalhando para a Viviane, Bianca.
-Sei disso. Você me roubou. Agora eu quero que você roube para mim.
-Você divide a herança comigo?
-Não.
-Então nada feito.
-Você vai roubar sim Edmundo – disse Bianca gravemente. – Se não fizer o que eu estou mandando eu conto para a policia que você me roubou e que esta participando de um seqüestro.
-Isso é chantagem Bianca!
-Não me diga! Você vai ameaçar o Marcio até ele dizer onde esta a herança, isso tudo é claro, sem que a Viviane saiba.
-Eu odeio você! – disse Edmundo com raiva.
-Tenho certeza que não me odeia tanto quanto eu odeio você. Estou morando de aluguel na Rua Pedro de Alcântara, numero dezessete. Agora eu preciso ir.
Se afastou rebolando. Edmundo disse para si mesmo:
-Vou fazer o Marcio dizer onde esta a herança. Mas você e a Viviane não quebrar a cara. Vou pegar todo o dinheiro e me mandar.
Sorrindo, Edmundo recomeçou a andar.
postado em 00/00/0000 às 16:38:57 na página biblioteca
INTRODUÇAÕ
Roberta esperou. A qualquer momento ela estaria junto de Márcio. Tinham ficado tão pouco tempo juntos...
Lentamente Viviane surgiu no meio da estrada. Roberta sentiu a mão que estava segurando a mochila tremer. Ainda lentamente, Viviane se aproximou da sua rival. Parou. Havia em seu rosto, um enorme sorriso.
postado em 09/04/2008 às 18:14:20 na página biblioteca_ler
Mais que um beijo.
Não quis que ninguém soubesse do retorno do namoro entre eu e o Edson, tirando a Juliana e a Carla. Eu ainda não estava convicta que daria certo.
As férias chegaram ao fim para tristeza minha o mês de agosto entrou trazendo um monte de trabalhos escolares. Setembro chegou num piscar de olhos, trazendo agora o aniversário do Valter. Sempre muito discreto, ele reunia os amigos e ia para a pizzaria fazer bagunça.
Depois de muita reflexão, decidi que se era pra mim ficar numa boa com o Edson, teria também que fazer as pazes com o Valter.
No dia do seu aniversário, eu cheguei da escola fui para a casa dele. Caminhei lentamente pensando no que ia dizer. Cheguei e já fui entrando; queria ver ele dizer que não ia me receber. Não estava na sala; fui à cozinha, também não estava, no início do corredor que dava para os quartos eu o chamei.
Apareceu penteando os cabelos.
- Me desculpa ir entrando sem chamar é que...
- Tudo bem. Não tem importância.
Percebi que o Valter tinha acabado de tomar banho.
- Aconteceu alguma coisa Joyce pra você vir até aqui? – falou – Parece que você quer dizer alguma coisa.
- Eu vim te dar os parabéns e desejar que essa data se repita por muitos e muitos anos; que você consiga realizar todos os seus sonhos, nunca desista deles, vai em frente!
- Obrigado. Obrigado mesmo pela força.
Sorriu timidamente eu retribuí o sorriso.
- Você quer um suco? – o ofereceu – Tava saindo do banho...
- Aceito sim e se você deixar eu faço o suco.
- Então vamos.
Foi na cozinha que tudo aconteceu. Ao pegar a lata de açúcar eu deixei cair à tampa no chão e no momento que fui pegar o Valter também se abaixou para pegar. A sua mão tocou a minha. Não foi a mesma sensação de antes; era como se o meu corpo estivesse levado um choque... Foi ali o nosso primeiro beijo. Mas não ficou só no beijo. De repente um desejo invadiu o meu corpo e o dele, desejávamos a mesma coisa...
E não conseguimos resistir a essa tentação.
******
É difícil como eu me senti depois do que aconteceu naquele dia. Fiquei mais confusa ainda; decididamente eu precisava de ajuda, mas quem poderia me ajudar? Lembrei-me de um colega que tinha quase a idade de papai, era médico super inteligente e poderia me ajudar. Como casa dele era perto do hospital onde trabalhava, fui até lá. Quebrei a cara; o vi com uma amante. Voltei arrasada pra casa, notei que tudo tava errado. Será que eu estava sendo uma galinha, como dissera a irmã do Edson?
Bem, o Valter me perdoou. Não trocou de turma, mas todos os dias na hora do intervalo vinha conversar comigo. E quando falei que estava namorando com o Edson, não falou nada, mudou de assunto, sobre o acontecimento do dia do seu aniversário também não conversamos mais.
Quando pareceu estar tudo resolvido, que tudo ficaria por isso mesmo, veio uma bomba pra cima de mim, uma bomba que eu não esperava e não estava preparada...
Fui na casa da Juliana fazer um trabalho de biologia durante a manhã. Na hora do almoço ela me veio com aquele molho de bacalhau... Senti um enjôo, veio uma ânsia de vomito, pedi pra ela levar aquele molho o bem longe o possível de mim. Foi só, ficou nisso.
De tarde fui pra casa, na hora da janta comi um pouco, na boa, sem sentir nada.
Só que de noite a ficha caiu. Eu sempre adorei bacalhau ao molho e aquele enjôo eu nunca tinha sentido e tinha mais; a minha menstruação estava atrasada. Vários pensamentos vieram em minha cabeça. Em pânico não consegui dormir.
No outro dia estava péssima. Fui beber o café com leite não consegui. Sorte que fui à última a levantar; papai e mamãe tinham ido caminhar. Não consegui almoçar, saí fui andar para tentar organizar os pensamentos. Eu precisava era ter certeza, de repente eu nem tava grávida.
Precisava comer, melhorar a cara, só que não conseguia, vinha uma inquietação... Era a insegurança por não ter usado camisinha. Eu só iria ficar tranqüila se tivesse certeza. Com o coração a mil fui até a farmácia comprar um daqueles testes.
Nem voltei pra casa; entrei no banheiro da praça mesmo. Fiquei tonta quando o teste deu positivo.
Chorei. Soquei várias vezes a parede do banheiro, quebrei o espelho quando vi a minha imagem refletir nele. Lembrei-me de tantas as vezes que prometi a mim mesma, que não engravidaria solteira. Dos professores dizendo que não valia a pena perder a virgindade sem existir amor. Das palestras que assisti, dos filmes, das novelas, todos eles diziam para se prevenir... Eu falhei, chutei a porta com raiva, mas quebrar as coisas não iria resolver os meus problemas, me lembrei da minha mãe... E do meu pai dizendo que não suportaria. Quase fui atropelada ao atravessar a rua sem olhar, estava sem rumo e nem direção, perdida estava sozinha.
Sentei-me encostada no muro. A culpa era minha, eu não tinha nada que ter ido na casa do Valter naquele dia, caramba! Eu não tinha que ter aceitado transar com ele sem camisinha, culpa era e é minha!
Como eu ia chegar em casa e dizer que estava grávida e que o pai era o meu melhor amigo?! Como eu ia olhar pra minhas amigas? Como seria a minha vida dali pra frente? Não, eu não estava preparada...
Com a cabeça quente do jeito que eu estava, acabei tendo a idéia mais louca e mais feia que existe. Não procurei as minhas amigas, não fui contar pra minha mãe, como deveria fazer.
******
Resolvi me isolar. Não ia falar pra ninguém que estava grávida e abortaria esse filho...
É crime esse aborto se for ilegal, eu iria tentar ajuda com algum médico. Sempre ouvi dizer que se for ter um filho e não ter recurso era melhor tirar e eu não teria recursos porque, com certeza papai me expulsaria de casa e se fosse para o meu filho nascer eu ter que abandona-lo em um orfanato eu preferia abortar, pelo menos eu não o veria nascer. Sequei as minhas lágrimas e fui pra casa decidida a ir no hospital na segunda-feira.
******
Era loucura o que eu planejei em fazer. Marquei a consulta com o Robson, meu colega. Estava disposta a tudo pra continuar ao lado de meus pais e dos meus amigos. Fui à última a ser consultada.
- Joyce?! Você aqui, aconteceu alguma coisa? – o estranhou a me ver entrar.
- Aconteceu, Robson. É só você que pode me ajudar.
- Você está sozinha? Cadê a sua mãe?
- Eu estou sozinha, minha mãe não sabe que to aqui, ninguém sabe.
- Certo. O que está acontecendo?
- Robson, eu estou grávida!
Ele mudou a sua fisionomia. Deixou escorregar a caneta em suas mãos.
- Espera aí – balbuciou ele chegando mais próximo de mim para ouvir melhor. – Você disse que está...?
- Grávida.
A sua boca se abriu.
- Joyce, você...! Eu não posso acreditar!
- Eu também não quero acreditar – falei começando a chorar. – Mas é verdade.
- Alguém sabe que você está grávida?
- Não.
Ele se levantou e pediu pra mim ficar calma.
- Eu vou fazer algumas perguntas e vou pedir também uns exames para...
- Não vai precisar, Robson.
- Como não vai precisar, Joyce?
- Eu quero abortar essa criança.
O meu coração batia fortemente. A minha boca estava completamente seca. O Robson se aproximou de mim e disse firme:
- Você não vai tirar essa criança. Eu não vou deixar.
Não contava com aquilo. Eu sabia que ia ser difícil, mas contava com a ajuda do Robson.
- Robson, você sabe muito bem que eu não posso ter essa criança, isso destruiria toda a minha família!
- O aborto é um crime, Joyce! Se você veio até aqui pra buscar a minha ajuda eu vou te ajudar, mas para que você encare tudo que vier a sua frente de cabeça erguida. Vai ser difícil para seus pais entenderem, vai ser difícil para você ter que encarar tudo isso, contudo é o que se deve fazer.
- Essa gravidez não estava nos meus planos, Robson, eu não quero ter esse filho! O aborto é um crime se for ilegal, mas eu estou aqui, dentro de um hospital e conversando com um médico!
- As coisas não são tão simples assim, Joyce como você está pensando. Abortar uma criança, não é como tirar um dente, você vai estar pondo um fim na vida de um ser que está sendo gerado por você e que é o seu filho!
- Se for pra essa criança sofrer, é melhor que ela não seja gerada!
- Por que você vai sofre, Joyce? Eu conheço você e tenho certeza de que será uma boa mãe, assim como os seus pais serão bons avós.
- Eu não estou preparada ainda pra sua mãe, Robson, você vai me ajudar a fazer o aborto. Toda mulher tem o direito de ter um filho.
- Deveria ter pensado nisso antes. Uma mulher escolhe se quer ser mãe ou não, antes de ficar grávida. Não seja ignorante, Joyce, vai por um fim na vida de seu futuro filho, porque está com medo de ser mãe.
- Você não conhece os meus pais direito! Eles vão me matar, se eu errei fazendo sexo sem camisinha, quero concertar o erro agora. Você acha que eu seria feliz em ter um filho sem vontade?
- Não se repara um erro com outro erro, Joyce? Pensa um pouco, você é inteligente! Agora mesmo que a tua mãe vai te matar só porque você está grávida? Acha que você vai passar esses nove meses sem ter ajuda de ninguém?
- Eu não quero, Robson, quando o meu filho estiver grande eu olhar para ele e me lembrar que eu não queria ter ele eu não quero que ele saiba o quanto os meus pais sofreram com isso! Se o aborto é um pecado, Robson, pecado maior é ter um filho sem querer!
- Você vai aprender a amá-lo! Todos vão amá-lo. Tira essa idéia louca da sua cabeça, por favor.
- Sou eu que vou levar o nome de irresponsável. Não vai ser a minha mãe, não vai ser o meu pai, não vai ser você e nem o pai dessa criança, não vai nenhum de vocês que vai ser apontado nas ruas, que vai ser falada; vai ser só eu, como se eu tivesse feito sozinha o filho!
- Aí vai depender de você, Joyce. Se você for forte como parece ser, encare isso de cabeça erguida com orgulho.
- Eu não vou conseguir ter orgulho de estar grávida com dezessete anos, Robson! Eu não quero ter esse filho!!
Fui até a porta. Com a mão na maçaneta da porta falei:
- Se você não me ajudar, eu conto pra sua mulher e pra suas filhas que você tem uma amante!
Robson empalideceu-se. Ficou por um momento pensando no que dizer, quando falou tinha um toque de rispidez na sua voz.
- Por favor, Joyce, eu quero o seu bem. Eu sou um médico formado há oito anos. Durante todos esses anos eu vi muitas crianças nascerem; pra mim isso é uma felicidade enorme, é um dever cumprido. Nós fazemos um juramento pra salvar vidas não acabar com elas.
- Ah é? Do que adianta você falar em juramento? Você jurou no altar da igreja que seria fiel a sua esposa! Você é fiel?
- Isso não está em questão agora, Joyce, é em você que você tem que pensar agora.
- Eu posso acabar com o seu casamento! Quantos anos ela tem? Diz! Quantos anos ela tem? Dezessete? Fala!
- Deixe os acontecimentos da minha vida fora do assunto, Joyce. Você pode fazer o que quiser, mas eu não vou permitir que você tire essa criança.
Perdi a cabeça. Com as duas mãos empurrei a estante que estava próxima de mim.
- Não faz isso, Joyce! – pediu o Robson tentando me segurar.
- Você não disse que eu posso fazer o que eu quisesse?! – falei chutando as cadeiras.
- Eu vou acabar com tudo isso aqui!
Consegui me livrar dele. Virei a sua mesa com toda a força e empurrei a porta que dava pra sala de parto.
- Joyce, isso não vai fazer bem pra você, procura ficar calma!! – pediu Robson urgentemente.
- Ficar calma por quê?! Você vai me ajudar?! Você não presta é um cafajeste, que só presta pra enganar os outros!!
Quebrei mais coisas. Logo entrou um médico e uma enfermeira atraídos pelos meus gritos.
- O que está acontecendo aqui? – perguntou o médico com ignorância.
- Ele está se recusando a me ajudar, ele não é um profissional como...
Não falei mais nada, senti uma agulha entrar em minhas costas e depois a escuridão.
******
Quando retornei a abrir os olhos, estava deitada em um sofá com o Robson sentado na minha frente.
- O que aconteceu? – perguntei me levantando.
- Está tudo bem Joyce. Agora vamos conversar calmamente.
- Quem me deu aquela coisa que me fez apagar?
- Fui eu. Você ia destruir tudo e estava chamando a atenção com os seus gritos.
- Robson, por favor...
- Sou eu que peço por favor, Joyce. Ouça o meu pedido: tira essa idéia boba da sua cabeça. Eu chamo a Milena aqui agora e termino o nosso romance escondido de três meses. Eu vou com você na sua casa e te ajudo a falar para os seus pais! Eu faço tudo que você quiser! Mas não tire essa criança!
Chorando abracei o Robson. Ele estava certo; eu tinha que ser forte. Tinha que ser mulher!! Só que não seria fácil.
- Obrigada – eu disse olhando para o rosto do meu amigo; notei que ele também olhava. – Obrigada por tudo.
Tornei a abraçá-lo. Respondi todas as perguntas que ele me fez. Foi aí que me senti mais leve. Eu não estava só, tinha o Robson. Ao sair do hospital fui até a capela. Pedir forças a Nossa Senhora Aparecida...
- Nossa Senhora Aparecida, tu que és mãe me ilumine, me cubra com o seu manto, me dê forças para encarar o que virá pela frente. Eu lhe peço Nossa Senhora: dai-me coragem. E prometo levar a fé para todos aqueles que necessitam de ajuda. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém.
******
Pisei os pés em casa e não foi como das outras vezes. Não ia falar para os meus pais naquele dia. Senti-me suja ao dizer para minha mão que eu estava na lanchonete com o Edson, a partir daquele dia passei a ser uma traidora para os meus pais, eles depositaram em mim toda a confiança e por minha vez não correspondi.
Senti-me mais suja ainda ao me lembrar do Edson, nós estávamos bem! E tinha o Valter, como ele reagiria quando soubesse? Ser pai era o seu maior sonho. Senti ódio de mim por querer acabar com o sonho do Valter. Porém de tudo restava ainda um dúvida: como eu ia fazer com os dois? O Edson era o meu namorado e o que o Valter era? Meu amigo. E eu engravidei dele. Nós três íamos sair feridos com certeza.
Foi uma noite péssima. Não podia ser melhor, a hora da verdade estava chegando. Decidi que com o Edson e o Valter eu me entenderia depois. De manhã fui para a escola completamente aérea.
- Nossa, Joyce hoje você está daquele jeito. O que aconteceu com, hein? – disse Juliana
O Edson não apareceu na escola e o Valter também não. Na medida em que a tarde ia chegando ao fim, fui ficando mais calada. Às seis da noite papai chegou do serviço, tinha chegado à hora. A campainha tocou anunciando a chegada do Robson. Mamãe estranhou ao vê-lo entrar e me complementar. Já o meu pai não estranhou, ficou dói contente em recebê-lo.
Era costume nosso jantarmos as oito da noite, então mamãe serviu café com bolo para o Robson. O assunto demorou no futebol, depois foi para a violência. Quando o assunto entrou no numero de crianças nascidas durante o ano, o meu coração disparou. O Robson olhou para mim e não adiantava fugir, desviando o olhar de mim ele iniciou o que seria pra mim o pior dia e o pior momento da minha vida.
- Bruno eu vim até aqui numa hora dessas para conversar um assunto muito sério e peço para e para a Célia que fiquem calmos. Vai ser difícil eu sei mas, tentem ficar calmos, por favor.
- O que aconteceu, Robson? – perguntou mamãe... Cobri o rosto com as mãos.
- A Joyce foi me procurar ontem – disse Robson cautelosamente – Para e pedir ajuda e eu disse que ajudaria.
- Você Joyce? Ta com algum problema? – quis saber meu pai, continuei com as mãos no rosto.
- Ela está com um problema sim, Bruno. Porém não é um problema grave.
- Que problema você tem filha? – perguntou mamãe já nervosa.
- A Joyce, Célia ela ta grávida.
Ergui a cabeça chorando e vi mamãe abrir a boca e levar as duas mãos na boca como que para abafar o grito, só que não saiu grito nenhum. Já papai nem se mexeu, ficou parado como se o Robson não tivesse dito nada.
- Filha, diz que isso é mentira!
- Não é mãe – falei chorando – Me desculpe mãe mas, eu to grávida.
- Não... Assim você acaba comigo, Joyce. Tanto que te avisei, tanto que eu te pedi!
- Eu não queria mãe, eu juro que não queria que isso fosse verdade!
- Como isso foi acontecer, Joyce? Sempre que você saía eu falava pra você se cuidar pra ter juízo! Não valeu de nada, né? Você fingia que me ouvia, era isso?
- Claro que não, mãe eu sempre ouvi o que a senhora dizia só que eu não consegui me segurar! A culpa não é sua mãe, a culpa é toda e só minha!
Robson ouvia calado. Papai continuava do mesmo jeito, sentado no sofá com os olhos em mim e em mamãe.
- Grávida com dezessetes anos, Joyce! Você não tem vergonha?! As suas amigas todas aproveitando a juventude, procurando uma vaga nas faculdades, procurando um trabalho e você grávida! Você sabe com quantos anos eu engravidei de você?! Com vinte e cinco anos e eu já estava casada com o seu pai!!
- Mãe, eu não queria ter esse filho eu ia tirar mais o Robson não deixou!
- Quê?! – foi papai quem gritou. Era a primeira vez que ele falava.
- É isso mesmo, Bruno. – disse Robson – ela queria tirar o bebê eu que não deixei.
- Ficou louca, Joyce? Acha pouco o fato de estar grávida?
- Pai eu tenho medo do que...
- Pra ficar grávida você teve medo.
- Eu não quero esse filho! – gritei.
- Agora vai ter! – retrucou papai quase gritando. – Você vai ficar com ele aí na sua barriga durante nove meses, pra você ver como é difícil ser mãe!
- Calma, Bruno – pediu Robson.
A mãe, como eu esperava, disse um monte de coisas que fez eu sentir uma vergonha enorme. Papai não disse muita coisa somente acrescenta algumas coisas nas falas de mamãe. O Robson foi embora logo depois de dizer que o começo da minha gravidez estava ótimo. Após a sua saída, corri para entrar no quarto e chorei muito.
Me lembrei de quando era uma criança. Não sabia que naquele tempo eu era feliz. Acordava cedo e brincava a manhã inteira. Depois a tarde toda e de noite ia dormir tranqüila sem quase acordar. Na infância eu não tinha preocupação... Era feliz e não sabia. Mamãe chamou na porta, queria me ver eu não queria ver ninguém. Ela insistiu tive de abrir a porta ia ser assim agora, não tinha como fugir.
- Como você está se sentindo?
- Bem – respondi tentando disfarçar.
- Eu não queria que fosse assim. Tinha sonhos... Mas já que aconteceu... Eu quero te ajudar em tudo e estar sempre ao seu lado.
Ela me abraçou. Então agradeci a ela por tudo que ela tinha feito por mim e tudo que ainda iria fazer.
- O Edson já sabe? – perguntou ela sorrindo.
Tive vontade de sumir. Não sabia o que responder. Fiquei em dúvida se falava ou não que o filho era o Valter. O que mamãe ia pensar de mim? Que eu era uma galinha como dissera Liza.
- Não – respondi sem convencer.
- Ele precisava ficar sabendo. Se você quiser eu chamo ele até aqui aí vocês conversariam melhor e...
- Não mãe, não precisa, amanhã talvez eu falo com ele.
Mas eu não tinha muita certeza se teria coragem de contar para o Edson que o filho não era dele. Só que logo a verdade chegaria em seus ouvidos então eu precisava agir. Contei tudo para a Juliana e ela ficou do meu lado. Grande amiga a Juliana mas, ela também me falou um monte de coisas e me aconselhou a falar primeiro com o Edson e não conseguia nunca uma boa explicação. Gostava tanto dele! Aí veio aquela atração chata pelo Valter que resultou nessa gravidez. Tinha quase certeza que o Edson não me entenderia e nunca iria me perdoar...
Outro dia papai pediu para falar comigo.
- O que foi, Pai?
- Só queria te dizer que... Que eu não estou com raiva de você. Afinal eu vou ser avô, não é?
- É mas, eu traí a sua confiança.
- Não, você não me traiu. Traiu a si mesma. É bem verdade que eu sonhava com você me dando um neto mas, depois te casada, terminado os estudos e tendo frutos desses estudos...
- Me adiantei, não é?
- Sim. Até pra nascer, você nasceu antes de completar nove meses. Sabe, Joyce é tão difícil ter de se acostumar com o fato de você estar grávida. Eu te vi nascer, andar, ir a escola, virar moça mas, nunca imaginar você grávida mas, eu acostumo, pode deixar. E o Edson já sabe que vai ser pai?
- Não eu ainda não falei pra ele.
- Será que ele vai gostar?
- Não sei, talvez sim.
- Por que talvez?
- Acho que ele não esperava... Igual a mim, vai ser uma grande surpresa.
Foi um alívio quando sai de perto do meu pai. Estava ficando muito perigosa o rumo daquela conversa.
******
Com muito custo cheguei à decisão: falaria para o Edson na quinta à noite. Uma coisa porem, estava me incomodando: o Valter não estava indo a escola. Só que eu tinha algo mais importante pra resolver.
- To te achando tão estranha, Joyce. Está acontecendo alguma coisa?
Eu Já estava nervosa, quando ele perguntou isso fiquei mais ainda.
- Está.
- O que?
- Eu não sei como isso foi acontecer, Edson. A minha vida estava um calvário e... Agora está pior.
- Fala logo o que é Joyce!
- Primeiro eu preciso saber o que você sente por mim.
- Por quê?
- Eu preciso saber, Edson. É muito importante!
- Está bem. Algum tempo atrás, eu pensei que gostava de você. Agora... Eu gosto de você demais! Sofro por você, tenho ciúmes de você, não consigo viver sem você.
Só Deus sabe como eu me senti naquele momento. O Edson me surpreendeu ao dizer essas palavras. Comecei a chorar; no momento que eu ia falar pra ele que estava grávida de outro, ele me disse tantas coisas bonitas.
- Me perdoa Edson? – pedi chorando.
- Te perdoar?
- Eu fiz uma coisa muita grave e preciso que você me perdoe.
- Te perdoou. Agora fala logo o que é.
Olhei pra ele. O seu rosto tão bonito estava com um traço de preocupação. Se eu pudesse não falaria.
- Eu estou grávida do Valter.
O Edson estava tão próximo de mim, que vi os seus olhos ficarem vermelhos e a sua expressão mudar.
- Grávida do Valter? – disse ele com a voz fraca.
- É, Edson, não sei como isso foi acontecer! – ao falar isso me atirei nos braços dele. E novamente ele me surpreendeu, ao contrário de que eu pensava, ele me abraçou e pediu que eu ficasse calma.
- Como isso foi acontecer?
- Não sei! Fraqueza minha, insegurança sei lá! Eu estraguei tudo! Estraguei sua vida estraguei a minha vida, estraguei a do Valter!
- Calma, Joyce – pediu Edson chorando. – Vamos conversar. Você gosta de mim?
- Gosto – respondi com sinceridade
- E o que você sente pelo Valter?
- Nada de importante.
- Você tem um filho dele aí dentro.
- Juro pra você Edson eu queria tirar mas, não deixaram.
- Tirar?! Joyce, o sonho do Valter é ser pai, você ia acabar com o sonho dele!
- Quero ficar com você... Porque é de você que eu gosto.
- Então nós vamos ficar juntos... Por que é de você que eu gosto.
- Não vai dar certo! Dentro de mim, tem uma parte do Valter, não vamos conseguir ser feliz tendo uma criança entre nós!
- Vamos sim. É queremos.
- Você quer?
- Quero e você?
- Quero... Muito.
- Então você agora vai explicar pro Valter tudo, pra que ele entenda e não fique magoado.
- Você me surpreendeu sabia? – falei tentando sorrir.
- Eu faço tudo por você.
Nos abraçamos fortemente. Estava feito o laço entre ele e eu.
******
No dia seguinte o Valter novamente não foi para a escola. Achei estranho era o quarto dia seguido! Cheguei em casa e fui telefonar pra ele. Sua mãe falou que ele tava com catapora. Pensei em ir visitá-lo mas, acabei me lembrando que eu também não tivera catapora. Agradeci a dona Lurdes e desejei melhoras pro Valter. O jeito era esperar. Não sei qual seria a reação dele.
Para piorar, veio novamente aquela ânsia chata, agora acompanhada por uma tontura. Mamãe fez questão de dizer que viria muito mais pela frente.
Veio o sábado. Logo de manhã e telefone tocou, fui atender era o Valter. Disse que estava melhor e com saudades de mim. Falei que também estava sentindo sua falta e que precisava falar muito com ele. Só que eu teria de esperar mais uns dias... Ele tinha compromisso.
Na tarde do sábado fui finalmente conhecer a casa do Edson. Adorei os pais dele. A Liza me olhou demoradamente quando me viu sentada provocando uma deliciosa geléia de morango. Fiquei imaginando qual seria a reação dela e dos seus pais quando descobrisse que eu estava grávida de outro.
******
É incrível como dormi bem naquela noite. Sabe fazia muito tempo que eu não conseguia dormir daquele jeito. Sonhei que estava fazendo o chá-de-bebê; aí entrou a Liza trazendo uma banheira azul e dizendo que queria considerar meu filho um sobrinho dela.
Acordei disposta, comi tudo que estava na mesa, estava com uma fome!
Dez horas o telefone tocou. Era a vizinha do Valter.
- Joyce é você?
- Sim é ela que está falando.
- É... Joyce, eu...
- O que aconteceu Madalena? – perguntei desconfiada.
- Joyce, o que eu tenho pra te dizer é muito grave!
O meu coração disparou: algo me dizia que alguma coisa de ruim tinha acontecido.
- Fala logo, Madalena o que é!?
- O carro que o Valter estava... Capotou e... Ele está entre a vida e a morte no hospital!
O telefone caiu da minha mão no mesmo momento em que eu gritei. Mamãe chegou na sala nesse momento.
- Joyce! O que foi?
- Mãe... O Valter...
Fiquei tonta. Tomei água com açúcar. Nunca imaginei que um dia fosse passa por aquilo. Uma agonia tomou conta do meu corpo; um desejo enorme de ver o Valter, saber como ele estava.
- Mãe, arruma um carro! O Valter sofreu um acidente e eu quero saber como ele está!
- Joyce mas...
- É urgente mãe, por favor!
Liguei para Madalena para saber em qual hospital estava Valter. Enquanto isso, mamãe procurava um táxi.
******
Parecia que ia morrer dentro do táxi. Meia hora para chegar no hospital! Saltei do carro primeiro que mamãe. Fui direto para a recepção.
- Quero saber o quarto que está o paciente Valter Soares! – falei sem fôlego.
- Que isso, Joyce – reclamou mamãe também cansada – esqueceu que você não pode correr!?
- Preciso ver o meu amigo, mãe!
- Calma moça – pediu a recepcionista – ele está na U.T.I você segue o corredor direto, lá no fim dele você vira pra esquerda e sobe uma escada, terceira sala à esquerda.
Que raiva que me deu. Tamanho era o desespero e a droga da U.T.I era nos quintos e ainda minha mãe buzinando em meu ouvido:
- Cuidado, Joyce com a escada, você pode se ferir!
Cheguei na U.T.I e o que eu vi fez as minhas pernas bambearem. O meu amigo tão bonito, tão cheio de vida e saúde estava ali com a cabeça enfaixada, com um tubo que cobria o nariz e a boca; os braços com agulhas de soro. Não suportei, abracei a minha mãe chorando. E o Valter ali, deitado naquela cama completamente imóvel.
Fomos para a sala de visitas. Lá estava à dona Lurdes e o seu Carlos abracei-os.
- Como isso foi acontecer? – perguntou mamãe.
- Eles foram desviar de um outro carro que vinha na contra mão – disse seu Carlos chorando. – o Jonas, que estava no volante perdeu o controle do carro, o carro por sua vez capotou várias vezes... Jonas morreu antes de entrar no hospital.
Conheci o Jonas quando tinha treze anos, adorava ele. Já fazia três anos que eu não o via, agora vivo, eu não mais o veria.
Logo depois o Edson chegou com os seus pais...
O médico chegou e atendendo o pedido de dona Lurdes, falou:
- O Valter sofreu traumatismo craniano. O estado dele é muito grave. Ele vai ter que passar por uma cirurgia complicada, é rezar para ele sobreviver.
- Quais são as chances dele sobreviver? – perguntei aflita.
O doutor olhou para nós, por um momento pareceu que ele não tinha o que dizer.
- Bom... Nós estamos fazendo o possível... Pensar positivo.
Tenho certeza que todos sentiram que as chances eram poucas.
Sentei-me no sofá. O Edson sentou-se ao meu lado. Decididamente aquele ano não foi dos melhores. Olhei para os pais do Valter, depois para o Edson. Era a hora de acabar com a farsa.
Fui à janela, me virei para todos e comecei:
- Eu não sei como será de agora para frente... Por isso eu quero dizer que... Eu estou grávida do Valter.
Todos olharam pra mim. De repente minha face esquentou. A minha mãe tinha me dado um tapa na frente de todos.
- Repete o que você disse! – pediu mamãe.
A sala em silêncio.
- É isso mesmo! – falei claramente.
Levei outro tapa.
- Isso é pra você aprender a ter vergonha nessa sua cara, sua mentirosa! Enganando todos nós!
- Calma Célia – pediu o pai de Edson. – Joyce você está dizendo que está grávida do Valter? E o Edson?
- Eu sei, pai – falou Edson tranquilamente.
- Você acha isso certo, Edson? – ironizou Carmem. – ficar escondendo isso de nós?
- Não estava escondendo, mãe. Nós eu e a Joyce, só estávamos esperando a hora certa para falar.
Lurdes, desesperada perguntou:
- O meu filho está sabendo disso?
- Não eu...
- Ele não sabe que ia ser pai? – perguntou Carlos.
- Foi como o Edson falou, seu Carlos, nós estávamos esperando o momento certo.
- Como isso foi acontecer, filha? – exigiu saber mamãe. – Namorando um rapaz e grávida do Valter, do Valter, Joyce! O seu amigo!
- Isso não importa mais mãe.
- Como não importa? Você acha isso certo? Uma pouca vergonha dessas!
- Mãe, não adianta fazer mais nada!
- Adianta sim. – falou Lurdes. – Eu quero que o Valter fique sabendo ao menos que irá ser pai assim que sair do coma.
- É isso mesmo. – completou Carlos. – Ele tem o direito de saber.
******
Ficou decidido assim eu falaria toda verdade pro Valter quando ele saísse do coma. Quando papai ficou sabendo, falou pra mim que não era pra repetir toda essa loucura novamente e me aconselhou a ir à igreja rezar. Pedi desculpa e jurei que não tornaria a repetir aquilo de novo.
******
Resolvi ficar a noite no hospital. No final da tarde, levaram o Valter para a sala de cirurgia. Eu e os pais dele ficamos tensos; andando e um lado para o outro. Passaram-se as horas... Eu, dona Lurdes e seu Carlos fazendo uma corrente de oração para que Deus salvasse o Valter.
Completou cinco horas que ele estava na sala de cirurgia. Jamais vou esquecer aquele dia, o médico entrou na sala trazendo um olhar de pena.
- E então, doutor? – perguntou aflita dona Lurdes.
O doutor olhou para nós. O Relógio na parede marcava onze e meia da noite.
- Nós – falou o médico devagar – fizemos o possível... Ele não vai resistir por muito tempo.
Seu Carlos abraçou dona Lurdes. Eu chorando pedi para ver o Valter.
- Ele não fala e...
- Por favor é de extrema importância!
- Está bem, pode ir.
Senti um vazio dentro de mim. O Valter não podia morrer. Entrei na sala onde ele estava. Aproximei-me da cama. Com as lágrimas escorrendo pelo rosto, abracei-o e chamei o seu nome.
- Valter, fala comigo! Abre os olhos, sou eu quem está aqui, a Joyce.
Mas, ele continuou imóvel, sem se mexer. Chorei abraçada com ele, enquanto me lembrava de tudo que vivemos... Não, ele não podia morrer, tinha um filho dentro de mim e o sonho dele era ser pai. Tão jovem, tão bonito morrer assim de uma hora pra outra.
Tentei me controlar um pouco. Sentei-me e olhando para o rosto de meu amigo, falei:
- Valter – sorri como fazia quando conversava com ele um assunto que me envolvia – lembra do dia que você me jogou dentro do rio, eu nem sabia nadar; gritei feito louca até você ir me salvar. Quando você fez dezessete anos, eu joguei você na lama, lembra? Aí você, com o corpo cheio de lama, falou que quando eu fizesse aniversário iria me jogar dentro de uma fossa!
Olhei pra ele. Parecia que eu estava falando sozinha.
- Só estou dizendo isso por que...? – quase não conseguia falar; as lágrimas estavam me dominando. – Porque você vai ficar sempre aqui, no meu coração, pra sempre...
Foi aí que para minha surpresa ele abriu os olhos, sorriu pra mim.
- Valter, diz que você vai ficar bem! Fala pra mim que tudo isso vai passar!
- Não posso – disse com a voz fraca.
- Por quê?
- Estaria te enganando – ele falava com muita dificuldade. Parecia que lhe faltava ar nos pulmões. – Já te enganei muito – completou.
- Mentira – falei pegando a sua mão – eu é que sempre te enganei, nunca tinha coragem de dizer a verdade.
- Eu sempre te enganei – disse ele tão baixo que quase não ouvi. – Tinha vergonha de te dizer o que eu sentia o sinto por você – as lágrimas começaram a surgir nos seus olhos, me deu uma pena dele. – Sabe por que nós sempre se entediamos?
- Porque sempre fomos amigos.
- Não. Eu me apaixonei por você e você também sente alguma coisa por mim! Eu sinto. Todas as vezes que ficávamos juntos, só nós... Eu tinha vontade de te dizer mas, não tinha coragem! Agora já não adianta, é tarde demais!
Chorou. Chorou como uma criança.
- Por que nunca me falou? Eu ia te entender, juro que ia!
- Não podia. Você sempre era pra ser minha amiga, não mais que isso. Era uma paixão proibida.
- Que se acabou no dia do seu aniversário – completei.
- Aquilo – teve dificuldade para pronunciar o resto. – Aquilo foi uma besteira. Você era a minha amiga, só isso. Foi um erro meu!
Socou levemente o travesseiro.
- Foi uma besteira nossa – falei secando as lágrimas. – uma besteira que... Que poderá realizar o seu sonho!
- Poderá?
- Eu estou esperando um filho seu.
A reação do Valter me partiu o coração.
Em meio às lágrimas veio o sorriso. E como ele não podia pular ou gritar, se debateu com as mãos e com as pernas. Sua respiração acelerou como se ele estivesse correndo... Tentou se levantar para me abraçar só que não conseguiu. Então o abracei. A emoção nos dominou por completo.
- Um filho! – exclamou.
- Sim, um filho seu!
- Agora... Agora que eu estou aqui, quase morrendo... Vou ser pai! – dizendo isso, o meu amigo desandou a chorar.
- Valter, olha só; eu... Eu tiro, se for para você morrer triste eu tiro!
- Não! Eu vou morrer feliz, Joyce, muito feliz.
- Esse filho merece um pai como você, Valter.
- Mas como... Como isso é possível, diga ao Edson que o momento dele chegou. Vocês dois merecem.
- Quem merece esse filho é você, Valter, é seu sonho crescer e...
- Sinto muito, Joyce. Sinto muito...
Abraçamos-nos. Ele já estava ficando mais fraco, ainda assim pediu:
- Quero que prometa uma coisa pra mim, Joyce. Você promete?
- Sim. Eu prometo que se for um menino, você vai levar ele aos domingos junto com o Edson para jogar bola e que vai soltar pipa com ele, que vai ensiná-lo a andar de moto?
- Prometo – respondi soluçando de tanto chorar. A voz do Valter foi ficando mais baixa e mais demorada.
- Proo... Promete que... Que se for menina, você... Vai levar ela nas aulas de balé e vai fazer a festa de quinze anos dela e também o casamento na... Na igreja.
- Prometo, Valter.
A hora estava chegando. Seus olhos foram ficando vermelhos.
- Te amo, Joyce – disse ele quase não agüentando mais.
- Eu também te amo, Valter. Pra mim você foi um grande amigo, mais que um amigo, foi o meu amante... Não vou te esquecer nunca!
- Também não.
Senti a sua mão afrouxar o aperto sobre a minha.
Partiu sorrindo.
Debrucei-me sobre ele como nunca fizera antes.
- Não! Por favor, Valter, não!
Não restava mais nada. Fechei os seus olhos. E chorei como jamais acho que vou chorar de novo. O Valter ali deitado... Era apenas um cadáver... Era o que restava do meu amigo... Que era pai do meu filho.
******
A emoção continuou no enterro. Pobre dona Lurdes, não merecia aquilo, o seu Carlos também não e eu também não merecia! Será que eu conseguiria viver sem meu amigo? O meu filho, já sem pai! É incrível, as coisas acontecem com as outras pessoas e nós não ligamos, achamos que nunca vão acontecer conosco!
Joguei flores e um punhado de terra sob o caixão. Que momento horrível aquele: jamais tornaria a ver o rosto alegre e bonito do Valter. Por quê? Comecei me questionar, por que as pessoas partem tão cedo? Fazendo nós que aqui ficamos, sofrer!
Abracei dona Lurdes, depois seu Carlos. Naquele momento ouvi da mãe do Valter essas palavras:
- Pode contar conosco, Joyce pro que der e vier. Estaremos sempre do seu lado.
Agradeci, dizendo que eles também podiam contar comigo pra tudo. Na saída do cemitério porém, notei que algumas pessoas me olhavam de um jeito estranho. Percebi na hora o motivo daqueles olhares. A morte do Valter trouxe a verdade a todos do que tinha acontecido antes do acidente. Para as pessoas, eu seria sempre a traidora, a moça que engravidou do próprio amigo. Seria aquela moça inteligente, quieta, mais que de repente, apareceu grávida.
******
Acabei, no entanto, surpreendendo a mim mesma. Encarei tudo de cabeça erguida. Foi uma batalha difícil. Na escola, percebi que quando passavam, as pessoas cutucavam as outras e falavam aos cochichos; os professores olhavam pra mim como quem diz: “Logo você!”. Mas o mais difícil pra mim era conviver sem a presença do Valter. A minha mãe disse que era pra mim fingir que ele estava viajando e que iria demorar a voltar... Mas pra mim isso não funcionou eu sabia que a sua ausência não era uma viagem.
Outra surpresa pra mim foi os pais do Edson. Eles apoiaram a sua decisão de cuidar do meu filho como se fosse filho seu. Liza chegou em mim outro dia e perguntou se fosse menino qual nome eu daria.
Quanto ao Edson, nossa, ele foi muito carinhoso comigo, deu o maior apoio.
******
Demorou também para mim me acostumar que estava grávida. Um monte de coisas chatas; ver uma comida que sempre gostei, de repente não poder nem sentir o cheiro. Ter de descer as escadas sempre segurando no corrimão pra ter cuidado de não cair e acontecer alguma coisa, ir ao banheiro de hora em hora e os meus pés inchando como uma bexiga... Decididamente eu não estava preparada mas, depois entendi que todas essas coisas e algumas precauções eram para o meu próprio bem e pro bem da criança que vai nascer.
Eu também andava muito estressada, com medo de não conseguir ter o bebê, de não conseguir cumprir as promessas que tinha feito ao Valter e que saudade!
******
No quinto mês de gravidez fiz a Ultra-Sonografia na qual fiquei sabendo que seria mãe de uma menina. Não consegui esconder o meu desapontamento; queria tanto que fosse um menino.
- Não fique assim, Joyce – disse o Edson me abraçando. Estávamos em sua casa. Deitei no seu colo; não estava me sentindo nada bem.
Também não sei o por quê? Queria que fosse menino. Senti um receio ao ficar sabendo que seria menina; algo estranho...
- Joyce não fique pensando nisso. Sendo menino ou não, será o seu filho – falou o Edson. E você vai ter que amá-lo. E tem mais: eu vou estar sempre do seu lado – completou.
- Feche os olhos. – pediu e obedeci. – Agora escuta com bastante atenção esta música que eu vou cantar.
O Edson começou a acariciar o meu rosto com as suas mãos e cantando:
“Hoje eu descobri;
Uma coisa que há no mundo.
Que tocou o meu coração bem lá no fundo...
Acho que é paixão;
Talvez seja mais profundo,
Eu só sei que ela é meu próprio mundo.
- Sabe?
- O que?
- Ela é meu grande amor.
- Então me diga o que nela te tocou?
Ééé um olhar de princesa ao luar, mexeu
Com um coração e dessa vez eu saberei
O que é amar...”
Adormeci. Quando acordei estava deitada na cama do Edson e já estava de noite. Chegando em casa mamãe também me deu o maior apoio dizendo que quando estava grávida de mim queria também que fosse homem, no entanto, me amava muito.
Tinha também outra preocupação comigo; o casamento. O Edson conseguiu passar para a turma da noite porque conseguiu emprego numa soverteria. Meu pai e o seu Carlos se juntaram com o pai do Edson e compraram a casa. Foi uma corrente muito forte que nós formamos.
Quando completou seis meses e meio de gestação, me casei. Um dos meus maiores sonhos era de casar na igreja. Não foi como sonhei mas, adorei mesmo assim... Quando entrei na igreja, notei que algumas mulheres fizeram um olhar de censura mas, continuei firme, olhando para o Edson que estava me esperando no altar. Estava finalmente realizando o meu sonho.
******
Depois de casada tive de me acostumar também a viver sem meus pais. Foi outra parada dura; o Edson saia logo cedo e só voltava no final da tarde e mamãe e papai não podiam ir sempre lá. A casa tinha seis cômodos, três no andar de baixo e três no andar de cima, não tinha nada de luxo, tudo muito simples.
Mesmo estando sozinha, uma coisa eu estava adorando, podia receber quem eu quisesse, ficar do jeito que eu quisesse... Uma liberdade que eu não tinha quando era solteira. Só que mamãe não entendeu assim, pediu para um colega minha, que morava mais perto de casa que fosse lá dar uma força algumas vezes, durante o dia ver se estava tudo bem comigo. Uma mulher grávida não pode ficar sozinha, disse mamãe.
Elen era minha colega dês de quando eu estava na quinta série. Ela era três anos mais velha que eu.
Nos quatro primeiros dias foi tudo bem mas, depois Elen começou levar com ela a sua prima Mariana e eu não fui muito com o jeito dela. Tipo bem esnobe, sabe, adorava se meter na minha vida. Pelo jeito, ela também não gostou de mim...
Mesmo assim, consegui conversar na boa, sem arrumar confusão. Chegou o sétimo mês de gestação e foi aí que explodi com a tal Mariana. Elen desceu para a cozinha dizendo que ia fazer um chá de erva doce pra mim, eu não estava muito bem. Fiquei sozinha no meu quarto com ela.
- Que nome você vai escolher? – perguntou ela com um ar de deboche.
- Ainda não escolhi – respondi sem vontade.
- É verdade que você queria que fosse menino no lugar de menina? – insistiu Mariana.
- É, eu tinha preferência por menino.
- Eu também quero ter primeiro um menino, a preocupação é menor – olhou pra mim e perguntou: - O que você ia fazer se o Valter estivesse vivo? Sim, porque tenho certeza que ele não iria querer viver separado sabendo que tinha um filho com você e o Edson não ia ficar feliz de toda hora ver o Valter indo visitar o bebê quando nascesse. Ia ser bem estranho, né não?
- Não sei talvez não.
- Olha, nunca tinha visto uma história como a sua, Joyce, namorando um rapaz e ficar grávida do melhor amigo, parece até novela!
- Você está brincando comigo, é isso, Mariana?
- Não, claro que não, é que estranho; parece que você não é dessas mulheres...
- Chega! Não quero mais ouvir! Vai embora, por favor!
- Credo, Joyce, eu só estava...
- Não quero saber! Eu não gostei de você dês de o primeiro dia em que eu te vi, agüentei demais e quer saber de uma coisa eu já cansei!
- Você é mesmo cheia de graça, né? Sabe que eu estou dizendo a verdade e fica aí, se fazendo de certinha!
- Pedi pra você ir embora.
- Sim, eu vou sair, só que antes quero dizer umas boas pra você.
Ela se aproximou de mim e disse:
- Você não queria que fosse uma menina, porque tem medo de quando essa criança crescer e fazer o mesmo que você fez, afinal uma filha dá mais trabalho do que um filho!
- Não fala do que você não sabe!
- O que está acontecendo aqui?
Elen chegou trazendo o meu chá.
- Essa aí – falei apontando para Mariana. – está se intrometendo na minha vida! Eu quero que ela vai embora!
A Elen pediu que eu me acalmasse e a Mariana, antes de sair falou:
- Eu vou, mais eu volto quando você ficar grávida de outro amigo seu!
Não consegui me conter. Saí correndo atrás de Mariana com a Elen gritando que era perigoso eu correr mas, eu não escutei e continuei a correr. No primeiro degrau da escada, perdi o equilíbrio e rolei até o ultimo degrau...
Foi horrível, bati várias vezes à barriga no chão. Uma forte dor tomou conta de mim. Elen gritava por socorro; Mariana cobriu o rosto com as mãos e desapareceu... Chorando eu gritava que estava perdendo o bebê.
O socorro demorou mais veio. Os vizinhos atraídos pelos meus gritos e os da Elen, chegaram querendo saber qual o motivo. Fui colocada dentro de um carro em estado grave. Comunicaram a minha mãe e também o Edson.
Pedia a Deus para que eu não perdesse o bebê... Lembrei-me do Valter pedindo que eu prometesse que realizaria todos os seus pedidos com relação ao seu filho... Mas a dor era muito forte.
Chegando no hospital, fui jogada em cima de uma maca e levada às pressas para a sala parto e eu chorava pedindo para que salvasse meu filho... Que o Valter salvasse nossa filha.
Fizeram cesariana em mim. Por precaução, minha filha foi levada para a incubadora. E todos os dias quando a via chorava pensando no Valter. Não só nele como em um monte de coisas que me aconteceu naquele ano.
Recebi a visita de todos. Com o Edson presente, escolhemos o nome. Chamar-se-ia Gabrieli.
A pobrezinha ficou trinta dias na incubadora. Tive tanto medo.
******
Mas, para compensar quando ela foi para a casa fizeram uma festa, até parecia que ela tinha nascido naquele dia. Com todos juntos me senti finalmente feliz como não me sentia há muito tempo.
Quando completou quinze dias que Gabrieli estava em casa, tive a impressão de que o Valter estava ali, no quarto comigo. Minha filha estava dormindo e eu observava ela dormir; era incrível como parecia com o Valter, de mim, ela só tinha o nariz, o resto era tudo do Valter.
Então senti a sua presença. Era como se ele estivesse ali do meu lado, observando a nossa filhinha dormir.
- Valter? – chamei tolamente.
Senti que o Valter disse: “fala, Joyce que eu estou ouvindo”.
Então eu falei.
- A nossa filha é tão linda, não é? Parece com você.
“Ela tem a sua beleza”, senti ele dizer.
Sorri procurando ver o seu rosto. Mas não consegui... Aí chorei. Eu estava sendo boba, o Valter estava morto, não podia voltar. As pessoas que amamos mesmo depois de morta continuam vivas dentro de nós, disse uma voz dentro da minha cabeça. Aconteceu bem rápido. No vidro da janela surgiu o rosto bonito do Valter.
- Estarei sempre do seu lado, Joyce – disse ele. – Eu te amo muito, muito...
Desapareceu. O meu corpo estava todo suado e eu estava chorando. Aí a Gabrieli acordou sorrindo, me deixando completamente confusa.
E todos os dias, no mesmo horário, eu ficava com a esperança de vê-lo novamente. Mas sentia que ele estava sempre do meu lado...
******
Gabrieli agora está com quatro anos; é a coisa mais linda. O Edson continua trabalhando na sorveteria e a noite faz curso de bibliotecário. Eu estou, graças a Deus, terminando o primeiro ano de Psicologia. Eu e o Edson estamos muito bem, recebo todos os sábados a visita dos pais do Edson e em alguns domingos levo a Gabrieli para os pais do Valter verem e brincarem com sua netinha. E ainda procuramos um tempo para irmos à igreja rezar para a alma do Valter e ao cemitério levar flores.
Agora sim posso dizer que encontrei a tão esperada paz.
Autor: vander.christian
postado em 09/04/2008 às 18:13:06 na página biblioteca_ler
Conselho de Pai.
Eu não demorei a perceber; era verdade o que o Edson dissera durante o tempo que eu era amiga do Valter que ele dizia alguma coisa sobre suas namoradas eu me sentia estranha, incomodada, sei lá, era esquisito, era ciúme e eu não sabia, mas eu, gostando do meu melhor amigo? Coisa mais chata. Por outro lado, não podemos mandar em nosso coração.
De noite, deitada na cama e olhando para o escuro, cheguei à conclusão que tudo que estava vivendo era conseqüência da idade. A minha mãe uma vez me falou que nós jovens não sabemos o que é o Amor, porque achamos que amamos todas as pessoas que ficamos. Quando ela me falou isso fiquei brava, disse que os jovens às vezes sabem de mais coisas que os velhos. Agora vejo que na matéria de amor os velhos sempre têm razão.
Queria o Edson, tinha uma atração grande pelo Valter. Que dureza!
Resolvi tentar falar com o Valter, encontrei-o antes de chegar em sua casa. Estava brincado com uma menina de quatro anos. Parei e fiquei observando ele brincar, dizia ele que o seu maior sonho era ser Pai. Acreditem o Valter era o único rapaz que conheci que tem esse sonho. Aproximei-me lentamente dele.
- Oi, Valter. – falei com vontade de estar em qualquer outro lugar menos ali. Ele continuou brincando com a menina. – Você podia me ouvir um pouco?
- Fala. – disse ele secamente.
- Tinha que ser em um outro lugar.
Ele olhou para a menina. A menina inocentemente falou:
- É sua namorada?
-Não. – defendeu-se ele fazendo um grande esforço para não ficar vermelho. – Renatinha, eu vou ter que sair, mais tarde eu venho brincar com você, ta bom?
- Ta. – dizendo isso, a menina foi correndo para a sua casa.
Fomos conversar na sombra de uma árvore não muito longe da casa dele.
- Estou esperando você começar. – disse sentando-se.
- Desculpa.
Ficou calado. Continuei:
- Desculpa por tudo que fiz.
- Não dá. – falou ele olhando para mim. – Não da pra desculpar o que você fez.
- Tudo tem perdão. O que você está fazendo é exagero.
- O que você fez foi um exagero. E ainda colocou toda a sala contra mim. Enquanto que eu só queria o seu bem... Achei que a nossa amizade viria em primeiro lugar, mas você achou que eu estava mentindo, da uma tapa na minha cara, como se eu fosse seu inimigo! Agora vem me pedir desculpa...
- Eu estava com a cabeça quente, Valter! O Edson não me ligou, porque não sabia que eu tinha pedido pra você...
- Não interessa! Nada vai ser como antes... Você acha que é fácil eu voltar a fazer aquelas brincadeiras com você depois daquela tapa? Você tinha que ter vergonha!
- As coisas não funcionam dessa maneira, Valter. Eu estava nervosa, porque você estava dizendo coisas da minha vida particular pra sala inteira, sendo que no sábado eu pedi pra você dizer tudo; estávamos sozinhos, cadê que você falou! Queria me ver passar vergonha na frente dos alunos é isso?
- Queria que todos soubessem que ele estava te enganando! Não vou te desculpar; e eu tenho vergonha de pisar os pés na sua sala de aula novamente.
- Você está sendo radical demais. Já reconheci que errei, que você estava certo, agora você vai me perdoar.
- Por que eu vou te perdoar?
- Porque você gosta de mim.
Ao falar isso, vi em seus olhos o que antes eu não fora capaz de ver. Vi que a timidez o impedia de dizer que gostava de mim.
- Por que está dizendo isso?
- Estou dizendo a verdade e a verdade tem que prevalecer.
- Da onde você tirou essa idéia? – falou ele agitado e ficando de pé.
- Vai dizer que nunca gostou de mim?
- Sempre gostei de você, até que...
- Não é desse “gostar” de que eu estou falando.
- Eu sei do que você está falando.
- Olha pra mim.
- Já conversamos demais.
- Olha pra mim – insistiu. Devagar ele ergueu os olhos e me encarou. Sem que eu falasse qualquer coisa ele começou timidamente:
- Às vezes... Quero dizer; acho que sempre gostei de você.
- Então me perdoa.
- Você me feriu.
- Me perdoa, por que...? Acho que também gosto de você. Preciso ficar perto de você pra me decidir.
- Você já se decidiu. Bateu-me, porque achou que o Edson era incapaz de te trair...
- Por favor Valter...
- Quem sabe um dia eu te perdoe.
Saiu. Por alguma razão não consegui ir atrás dele. Então eu pensei: será que eu estava gostando realmente dele?
******
Aos trancos e barrancos fui levando a vida. Durante a noite eu via os olhos do Edson e dali a pouco via os de Valter. Fazia agora três meses que toda aquela confusão começou. Eu e o Valter não conversávamos mais; quanto ao Edson nós ainda conversávamos algumas vezes, sendo que uma vez, novamente num momento de fraqueza minha o beijei. Eu e ele não estávamos como antes, mais estávamos bem.
Por isso, estranhei quando Liza, a irmã do Edson chegou em casa querendo falar comigo. Era uma quinta-feira de tarde, mamãe tinha ido na casa de uma amiga e papai estava em seu quarto ditado, aproveitando o seu dia de folga. Abri a porta e ela entrou feito um raio gritando:
- Então é você que está acabando com a vida do meu irmão! A sua cara já me diz tudo, ninguém mais tem paz naquela casa, com o Edson jogado pelos cantos, sem conversar e sem comer; será que você não percebe o mal que está fazendo a ele?
- Eu não sou responsável pela falta de paz que o Edson leva pra casa de vocês – me defendi rapidamente.
- Galinha é isso que você é, uma galinha que agarra todos que encontra pela frente, até mesmo os amigos!
- Dobre a sua língua pra falar de mim assim!
- O Edson não fala outro nome se não for o seu e você apaixonada por um rapaz que até ontem era o seu amigo. Que nome você quer levar?!
- Sai daqui, agora! Vai embora da minha casa!
Abri a porta imediatamente. Só que a Liza não saiu calada. Fechei a porta com raiva, foi aí que percebi que papai estava de pé na escada me olhando.
- Pai, o senhor ta aí faz muito tempo?
- Sim – disse ele se dirigindo para o sofá. – Filha vamos conversar.
- Eu sei quem ela é, filha.
Baixei a cabeça sem saber o que dizer.
- Presta a atenção no que eu vou te dizer, Joyce. – fez uma pausa na qual eu senti vergonha dele. – Decida o que você quer da sua vida, de um rumo pra ela, um rumo certo, não deixe que os outros a estraguem. Logo você vai completar dezoito anos, aí o que você fizer será de sua responsabilidade, mas por favor, filha, não estrague os melhores momentos de sua vida com uma gravidez... Eu não suportaria.
- Pai... Eu prometo que nunca vou te decepcionar. Você é um pai e tanto.
Abracei meu pai. Coitado dele, ouviu tudo que aquela garota atrevida gritou.
- Você pode namorar quem você quiser filha. – disse me dando um beijo na minha cabeça. – Só que tem de ter juízo. Você gosta do Edson?
- Sim, mas...
- Decida filha, se é realmente dele que você gosta.
Entendi o que papai quis dizer. Ele estava certo, eu precisava dar um rumo na minha vida.
******
Chegou às férias de julho. Diferente dos outros anos, não fui viajar. Eu estava vindo do mercado bem distraída, quando Carla, uma amiga, se pos na minha frente.
- Joyce, aqui está o convite para você ir no aniversário da Rosana.
- Você conseguiu mesmo, Carla! Deixa eu ver.
Peguei o convite. Era realmente bonito. A minha colega de infância estava de parabéns. Pena que estava morando longe, mas eu disse que iria do mesmo jeito.
******
O convite era para toda a família, só que papai e mamãe não quiseram ir. Juntou a Juliana, a Carla e eu e fomos. A festa ia começar às nove da noite, chegamos meia hora depois.
As coisas que tinha na área tiraram tudo, inclusive o cachorro bob. Juntaram quatro mesas grandes para colocar os comes e bebes e na outra mesa estava o bolo de chocolate com recheio de morango. Na minha opinião, estava tudo um exagero para quem disse que seria uma festa mais simples. A aniversariante estava linda com um vestido Champanhe cheio de brilho; achei o máximo. Entreguei o presente pra ela e fui me sentar com a Juliana e a Carla.
Quando já tinha se passado duas horas que eu já estivera lá, vi o portão se abrir e para a minha surpresa, quem entrou fora o Edson. Chegou sorrindo, cumprimentando todos, foi até a Rosana entregar o presente...
Ele estava tão bonito! Deveria ter imaginado de que ele iria, afinal de contas os seus pais eram amigos dos tios de Rosana. Não demorou muito ele me viu. Deu um discreto aceno com a mão.
Um pouco antes de acordar o bolo ele pediu para falar comigo.
- O que foi, agora?
- Você ta linda. Ta mais bonita que a aniversariante.
- Que exagero Edson.
Na verdade eu estava gostando daquilo e muito.
- Falo sério Joyce, você está muito bonita.
Olhei para ele. Quando minha boca tocou a sua, pareceu que eu tinha finalmente chegado a uma decisão, fiquei o resto da festa com ele.
Autor: vander.christian
postado em 09/04/2008 às 18:12:01 na página biblioteca_ler
Eu sem o Valter
A partir daquele dia o meu mundo virou de ponta cabeça. O Valter foi até a secretaria a passar ele para outra turma. Não tardou comecei a sentir a falta dele. Sentia falta do abraço apertado que ele dava a me ver chegar na escola; sentia falta do beijo caprichado na minha bochecha direita, de suas brincadeiras, do seu jeito. Sabe, nunca pensei que fosse tão difícil conviver sem o meu amigo. Ele dava opinião nos trabalhos, me tirava as dúvidas era um amigo e tanto!
Agora ele já estava em outra turma, junto com outras garotas que eu nunca topei! O que ele fazia comigo, estava fazendo agora com aquelas garotas de nariz empinado... Que dói!
Para piorar ainda mais, tinha de suportar a cara de cínico do Edson.
Outro dia esperou que todos saíssem da sala para me dizer:
- Queria falar com você. Tenho umas coisas para dizer.
- Pra mim chega – respondi secamente. – O que eu tinha que ouvir de você eu já ouvi.
O duro é que eu também sentia falta do Edson. Era maravilhoso o tempo que passávamos junto. Sentia falta dos seus beijos, dos seus toques, do seu cheiro, agora estou sem nada!
Azar meu, teria de me acostumar.
Eu também mudei fiquei mais irritante, mais calada, fiquei com raiva de tudo!
Fui na casa de Juliana fazer uma redação.
- Esse tema é muito difícil – disse minha amiga.
- Odeio fazer redação.
- Ah, eu gosto, só que sobre a alfabetização? Não sei nada sobre isso!
- Se ao menos o Valter...
Parei no meio da frase. Não queria falar do Valter. Mas Juliana queria.
- Olha só, Joyce, eu não entrei aquele dia na discussão e não disse nada depois, mas você não tinha que ter agido daquele jeito, você tinha que ter dado uma chance pro Valter.
Não agüentei, explodi:
- Quer saber, Juliana? Eu tava certa e o Valter não tínhamos nada que dizer aquelas coisas pra toda a sala ouvir. Eu não gosto disso! Ainda fui boazinha de deixar ele começar a falar; o tapa tinha que ser no começo! Agora você está dizendo que a culpa é minha?!
- Calma, Joyce. Eu não disse que a culpa é sua não precisava de você bater nele.
- Juliana, você me conhece muito bem; eu não gosto que falem da minha vida para todos ouvirem!
- Mas agora não estão todos sabendo que o que o Valter falou é verdade?
- Não! Eu não falei pra ninguém, porque terminei o namoro com o Edson. Vamos mudar de assunto?
- Tudo bem, mas você não está arrependida pelo que fez?
- Juliana, o que você quer? Que eu diga que estou com vergonha? Vamos parar por aqui; a minha tolerância está chegando no fim!
- Certo, desculpa então.
- Vamos fazer a redação.
O duro é que eu não consegui me concentrar. Juliana terminou a redação dela enquanto que eu não tinha chegado nem no meio da minha. Acabei confessando à minha amiga:
- Estou arrependida, Juliana. Arrependida pelo que fiz.
- Amiga, ponha tudo pra fora – disse ela calmamente. – Não sinta vergonha.
Chorando me atirei nos braços dela.
******
Passaram-se os dias. Estava ficando cada vez mais difícil conviver longe do Valter. A culpa era minha agora eu sabia.
Por isso, todos os dias tenho vontade de chorar. Eu sentado na minha cadeira, rodeada de amigos, tenho vontade de gritar e corre até o Valter, pendurar-me no seu pescoço, dize que a culpa é toda minha. Pedir perdão e uma outra chance.
Mas não tenho essa coragem. Não sei o porquê, mais não tenho. Talvez seja a vergonha; é deve ser mesmo. Todos os dias calada, vejo o Valter chegar na escola e ir se juntar com a turma dele, sem nem me olhar. Começo então a me lembrar dos momentos em que passávamos juntos... Não conseguia me conter e chorava.
******
Outro dia, bem na hora do intervalo, fui ao banheiro e uma das novas “amigas” do Valter trombou comigo na porta.
- Isso aqui está ficando estreito demais, pelo jeito, né? – disse a vaca se achando.
Como eu andava bem irritante da porta continua a mesma; você é que engordou muito uns dias pra cá.
Dali à pouco estávamos uma puxando o cabelo da outra precisou o inspetor vir separar. No meio da gritaria dos outros alunos eu escutei o Valter dizer para a vaca:
- Não liga não, Simone. A inveja mata.
Que ódio que me deu!
E para piorar quando eu estava indo para casa, ouvi alguém me chamar. Era o Edson.
- O que, que você quer? Nós não temos mais nada para conversar!
- Calma, Joyce. Você tem que me ouvir!
- O que, que eu tenho de ouvir? Que quando você beijava a Irene era como se estivesse me beijando?
- Não é isso Joyce. Você não pode fingir que eu não existo. Escuta, tenta entender...
- Eu não tenho e nem vou entender nada, Edson. Será que deu pra perceber?
- Vai entender sim. Você também está com os seus sentimentos confusos.
- Ah, é?
- É, você gosta do Valter.
Aquilo era demais, rispidamente eu falei:
- Edson, você anda com a sua cabeça cheia de fantasias, só que me faz um favor, me deixe fora delas, ta legal?!
- Ficou incomodada com a verdade.
- Quer verdade? Você ta é misturando as coisas!
- Não estou, você gosta de mim, mas sente uma atração forte pelo Valter. Percebo pelo jeito que você olha pra ele. O mesmo que aconteceu comigo está acontecendo com você também.
- Incrível – falei – você serve pra ser escritor, tem uma mente perfeita.
- Para com isso Joyce. Nós estamos confusos... E só há uma maneira de acabar com essa confusão; ficando juntos.
- Como é que é?
- Ficando mais tempo juntos. Estávamos muito afastados.
Ele foi se aproximando. Senti novamente o seu calor, o seu perfume... Ele estava próximo demais. Esqueci tudo que tinha acontecido quando senti o gosto do beijo dele.
Autor: vander.christian
postado em 09/04/2008 às 18:11:02 na página biblioteca_ler
A história do Edson.
Aquele dia foi tumultuado. Senti-me uma celebridade, rodeada de gente me perguntando o que tinha acontecido. Tive de me conter para não bater em mais ninguém, para evitar mais aborrecimentos, disse ao Edson que conversaríamos melhor de noite. Saí da escola e fui direto para a casa de Juliana. Ouvimos um pouco de música e depois a ajudei a fazer almoço, mas não tocamos no incidente ocorrido na sala. Durante a discussão ela ficou calada, por isso, achei melhor não pedir a sua opinião.
À noite fui falar com o Edson. E o que eu pensava que seria uma conversa calma se tornou outra discussão.
- Por que o Valter falou aquilo, Edson – perguntei.
Estávamos em uma praça longe da minha casa e da dele também.
- Não sei. Você deve saber – disse ele abrindo os braços.
- Por que eu deveria saber? – estranhei.
- Será que não deu pra perceber ainda, Joyce?
- Perceber o que, Edson?
- O Valter gosta de você.
- Quê?!
- É isso mesmo Joyce, o Valter gosta de você, sempre gostou.
- Ah, não, Edson, você está falando besteira – me levantei e fiquei de pé na frente dele – Porque está dizendo isso?
- Porque é verdade. Da quase pra ver escrito na cara dele: “eu gosto da Joyce”.
Quando ele disse isso comecei a me irritar.
- Olha, Edson, eu não acho que tenha sido esse o motivo que levou o Valter à dizer aquele monte de besteira – falei tentando parecer calma. Logo depois percebi, que, o que eu falei, também o irritou.
- Então você acredita no que ele falou? Foi um monte de besteira, mas você acreditou.
- Não falei isso, Edson. Eu simplesmente não consigo ver o Valter gostando de mim, logo de mim que sempre fui sua amiga.
- Você entende entendi os sentimentos dos homens, Joyce. Ele não tem coragem de falar e acaba guardando tudo dentro do peito.
- Edson, eu sempre fui amiga do Valter. É impossível acontecer isso que você está dizendo.
- Pergunta pra ele.
Balancei a cabeça negativamente. Sentei-me de novo.
- Quando eu pedi para o Valter dar o recado pra você, ele não quis dizer algo... Por que você não foi ao encontro como combinamos?
Ele sustentou o meu olhar por um momento, mas depois ele se afastou do banco onde eu estava. Sem olhar pra mim me disse:
- Eu não estou enganando você, Joyce.
Ficou de frente pra mim.
- O que você fez no sábado e no domingo?
-Joyce, eu... Eu não queria que você fosse desse jeito.
- Como assim você não queria que eu fosse desse jeito, Edson? Me diz!
Uma voz dentro da minha cabeça dizia que o que o Valter dissera era verdade. Contudo eu precisava ouvir da boca do meu namorado.
- Não sei se gosto realmente de você. Os meus sentimentos estão confusos...
- Quem estava com você no sábado à noite? – perguntei com a voz seca.
- Com a Irene.
Não consegui segurar as lágrimas. Talvez uma outra garota no meu lugar bateria nele, gritaria, xingaria, mas eu continuei firme ali, quase nem sentia minhas lágrimas escorrerem, queria ouvir tudo.
- Quem é essa Irene?
- Joyce, não é... Desculpa, por favor.
- Fala, Edson. Quero sabre de tudo.
Faz-se silêncio por um instante. A rua em frente à praça estava movimentada. Pessoas se dirigiam para as suas casas, cansadas de trabalhar. Era o fim de uma segunda-feira e eu ali esperando o Edson dizer aquelas coisas todas em que a cada palavra era uma pedra atirada em meu coração, mas eu continuava esperando ele terminar de matar o meu coração.
- A conheci em uma festa – iniciou-o sentando-se ao meu lado. – Eu senti uma grande e forte atração, acabou virando um namorico; até que eu a chamei pra assistir um DVD comigo na minha casa.
- E me deixou esperando no ponto de táxi.
- Não é isso, Joyce, eu não sabia o que sentir ou em que pensar e ainda mais o que fazer!
- É essa explicação que você tem pra me dar?! Você me deixa esperando lá no ponto, porque não é capaz de decidir entre eu ou essa tal de Irene!!
- Eu ia te explicar tudo Joyce. Foi aí que o Valter chegou, nós discutimos e ele não me deu o recado.
- Mentira! Você não me engana mais, Edson. O Valter estava dizendo a verdade e eu briguei com ele!
- O Valter não me deu o recado, Joyce, por isso, eu não fui. Não sabia de nada!
- Quanto tempo que já faz que você vem me enganando?
- Joyce, tenta entender, os meus sentimentos estão confusos. Quando eu estava com a Irene parecia que ela era você e quando eu estava com você se transformava nela, é uma confusão enorme!
- Se você tivesse pensado em mim não teria se atraído por essa garotinha!
- Joyce, por favor, eu gosto de você.
- Você me deixou magoada, Edson. Te perdi e perdi ainda o meu melhor amigo.
Fui embora chorando. E com a certeza que o Edson também ficou chorando.
Cheguei em casa arrastada, já passava das dez quando entrei no banheiro para tomar banho. Parecia que eu tinha apanhado mais que uma vez. Eu tinha pegado pesado cedo com o Valter acreditando que ele estivesse louco, mas não; louca estava eu ao dar um tapa daqueles no meu amigo.
Deixei que a água morna caísse sobre minha face e escorrer por todo o meu corpo. Nunca pensei que o Edson fosse fazer aquilo comigo. Agora eu sabia como era se sentir traída.
- Está acontecendo alguma coisa, filha?
Era mamãe. Antes que ela falasse qualquer coisa desliguei o chuveiro e disse que estava tudo ótimo.
Autor: vander.christian
postado em 09/04/2008 às 18:05:27 na página biblioteca_ler
Os caminhos se separam
Tudo começou naquele dia. Eu pedi à ele que levasse um recado ao Edson, meu namorado. Edson e Valter se conheciam desde criança, porem nunca foram mais que colegas.
Os dois quase não andavam juntos, por isso só fui conhecer o Edson três anos depois de me tornar amiga de Valter.
Era uma sexta-feira à noite quando pedi para o Valter dar o recado.
- Você passa na casa do Edson e diz que amanhã eu estar de boa em casa e não vou fazer nada. Que se topar, nós vamos ao cinema.
- Joyce, você gosta realmente do Edson?
- Não sei, às vezes acho que sim – respondeu com um ar de muita sinceridade.
- Ta certo, eu dou o recado pra ele.
Valter deu o recado. Mas ao transmitir o recado à mim, notei que ele estava escondendo algo.
- Conheço você. Valter – falei pra ele – tem alguma coisa que você não quer me falar.
- Só que dessa vez você está enganada. – disse ele sério. – Não estou escondendo nada.
Não me convenceu. Aprendi a perceber quando o Valter está mentindo. Mas aprendi também não forçar ele a dizer o que não quer.
Durante a tarde de sábado me arrumei. Sempre gosto de ficar bonita quando saio com o Edson para que todos me olhem e para que o Edson sinta orgulha de ter uma namorada linda. As dezenove horas fui para o ponto de táxi, local combinado por nós. Esperei. Deu vinte horas e o Edson não apareceu.
O pânico tomou conta de mim. Alguma tinha acontecido. O Edson nunca me deixou esperando antes. Lembrei-me do Valter. Ele tinha um algo à mais pra me contar, porem não me falou. Ofegante toquei a campainha da casa do meu amigo. Lurdes, a mão dele saiu na porta.
- O que aconteceu, Joyce? Parece que viu um fantasma!
- Não vi não, dona Lurdes! Eu quero falar com o Valter é urgente!
- O Valter não está. Aconteceu alg...
- Ele foi pra onde?! – eu estava aflita, não deixei que ela terminasse a frase, cortei-a.
- Ele foi pra casa do tio dele.
- Ah, não! Diga que isso é mentira!
- Não é, ele foi hoje à tarde, agora você quer me explicar o porquê de tanta afobação?
- Nada, não é nada, eu só queria conversar com o Valter urgentemente, só isso. Muito obrigada dona Lurdes e desculpe o incomodo.
Fui rapidamente para casa. Ignorando as especulações do meu pai e da minha mãe, entrei no meu quarto e liguei para a casa do Edson. Falei com a irmã dele e ela disse que ele tinha saído, mas pra onde não sabia. Os meus pensamentos ficaram confusos, se o Edson saíra de casa e não apareceu no local combinado para nos encontrarmos é que alguma coisa tinha acontecido. Mas o quê?
- Você está bem filha?
- Estou mãe. To ótima!
- Você não ia no cinema?
- Ia mãe. Não vou mais.
- Por quê?
Quantas perguntas! Quando eu disse que ia ao cinema, mamãe perguntou se era mesmo ao cinema que eu ia, com quem e que era pra mim ter juízo. Agora que eu não fui, ela continua com as perguntas do mesmo jeito! Pode uma coisa dessas?
Só consegui dormir de madrugada. Quando acordei, foi a vez de papai perguntar:
- Você ta com uma cara péssima, Joyce. Não dormiu bem?
- Não. Eu... Estava com insônia.
Liguei para o Edson, estava ocupada. Tentei de novo, continuava ocupado.
Morar em cidade grande é ruim por causa disso, demora para gravarmos o caminho das casas. Eu nunca fui à casa do Edson. Ele me disse o ônibus que eu tinha que pegar, o ponto onde eu tinha que descer... Mas nunca fui lá. Então não me restava outra alternativa se não continuar tentando ligar para o Edson. A irmã dele falou que o Edson tinha ido jogar bola e que só voltaria a noite. Deixei o recado para ele ligar pra mim quando chegasse. Não ligou.
Nunca desejei tanto que chegasse a hora pra mim ir pra escola. Precisava conversar com o Edson! Só faltava ele não ir! Nunca vi gostar tanto de falar na aula.
Entrei rapidamente na sala. Ele não tinha chegado ainda. Os momentos passaram e a professora entrou. Pronto. Se ele viesse só iria restar o intervalo.
Quando a primeira aula estava acabando ele chegou. Sentou-se três cadeiras à minha frente, como de costume.
- Vamos ver se agora você sossega – disse Juliana minha amiga.
- Não sei por quê? Tanta agitação! – falou Valter em voz alta.
- Você sabe muito bem o porquê da minha agitação, Valter. – retruquei zangado por ele falado alto.
- É porque precisa – continuou ele em voz alta mais sorrindo – se preocupar assim de repente ele teve um contra tempo.
- Só que eu não recebi nenhuma noticia dele, por isso estava preocupada.
- Ah, vai ver ele tava com outra.
Eu senti que os meus colegas de classe pararam de conversar e se viraram para trás. Senti também meu rosto esquentar. E também senti raiva do Valter precisava falar aquilo para todos ouvirem?
- Eu não admito que você fale uma coisa dessas, Valter! – falei com raiva.
- Eu também não!
Sem que eu percebesse, o Edson se levantara e encarava Valter. O meu amigo olhou assustado para o restante da sala. Levantou-se e encarou Edson no olho.
- Vai ter coragem de dizer que é mentira, Edson?
Antes de o Edson dizer qualquer coisa, eu me levantei e peguei nos braços de Valter, fazendo-o ficar de frente para mim.
- Valter, cala a sua boca! Esse assunto não lhe diz respeito – gritei sacudindo-o.
- Me diz respeito sim – disse Valter em um tom mais grave. – Nunca mais me peça Joyce, para levar recados ao Edson. Alias, se eu fosse você, terminaria o namoro com ele, porque ele ta te enganando!
- Só que ela não é você – falou Edson em um tom de voz elevado.
Imediatamente me coloquei entre o Edson e o Valter. Ignorando os meus colegas que estavam de olho, falei:
- Eu não admito que você fale da minha vida pra todos ouvirem!
- É bom que todos saibam quem é você! – Valter falou fingindo que eu não estava na sua frente.
- Chega, Valter! Não quero ouvir mais uma palavra sua!
- Agora eu comecei, Joyce e vou até terminar!
- Você não sabe do assunto direito, cara! É melhor você parar por aí – disse Edson tenso.
Mas o pior é que o Valter não parou.
- Ele tava assistindo DVD com outra garota no sábado, quando eu fui levar o rec...
Paff!
Não me segurei. Aquilo foi demais. Quando fui perceber já estava batendo no rosto de Valter. Seguiu-se um momento de silêncio. Edson olhava para mim assustado. Valter olhava o chão sem piscar. Eu quebrei o silêncio.
- Falei que não queria ouvir mais nada, Valter. Você me obrigou a fazer isso.
Encarando-me, me disse:
- Nunca imaginei que você fosse capaz de fazer isso comigo, Joyce.
- A culpa não é minha. Eu avisei.
- Pensava que éramos amigos – dizia com uma voz calma, olhando diretamente nos meus olhos.
- Você está errado, Valter. Não precisava falar para todos os meus colegas do fundo. Todos concordaram. De fato o meu amigo agira errado... Só que foi aí que ele fez uma coisa que jamais me passou pela cabeça em fazer.
Pegou o material e chutando algumas cadeiras e carteiras saiu da sala sem dizer nada.
Autor: vander.christian
postado em 27/02/2008 às 18:55:37 na página biblioteca_ler
Enfim juntos.
Dado se aproximou de Carla...
-Carla? Carla, acorda!
Sentiu o seu pulso. Se levantou e foi até aonde estava Dany. Sentiu o seu pulso também. Voltou pra perto de Carla.
-Vou te levar daqui! Carla pode ficar sossegada. – quando ele ia pegando Carla nos seus braços, uma voz atrás dele falou:
-Deixa ela aonde está. E levanta a mão pra cima.
Dado se levantou e se virou. Edmundo apontava um revolver pra ele.
-O que você quer?
-Aonde está a Bianca e o que aconteceu com a Dany?
-Não sei.
-É melhor deixar de brincadeira, Dado.
-Não estou brincando! Cheguei aqui e encontrei a Carla e a Dany desmaiadas. Quando você chegou, eu estava levando a Carla pro médico, está muito fraca.
-Acontece que... – começou Edmundo, porém nesse momento o celular de Dado começou a tocar.
-Posso? – perguntou Dado.
-Eu atendo.
Edmundo pegou o celular com a mão esquerda e com a direita apontava o revolver para o Dado.
-Alô?
Dado ouviu a voz de Carol.
-Dado, nós raptamos a Bianca. Está tudo bem com ela, só que precisa de um médico.
-Ok, então. Tchau.
-Tchau.
Se virou para o Dado e falou:
-Eu fico com o celular. Agora me diz, Dado, pra onde você levaram a Bianca?
-Não sei. Não tenho idéia do que a Carol está falando.
-Vou lhe dar um minuto pra você me dizer onde está ela. Se não dizer eu atiro.
-Você não está pensando direito, Edmundo! Não teria lógica a Carla estar...
-O tempo está se esgotando.
Edmundo colocou o relógio perto dos olhos de Dado. Ele viu os segundos passarem...
-Vou apertar o gatilho... Diga adeus, Dado!
Pahh...
Carla, recuperou os sentidos, pegou um pau que estava perto e nocauteou Edmundo.
-Está tudo bem, Dado? – perguntou ela.
-Está – respondeu Dado dando um suspiro. – Essa foi por pouco!
* * * * * *
-Quer dizer que eu não falei com você e sim, com o Edmundo?
-Exato.
-E ele estava apontando uma arma pra você?
-Sim.
-Gente, que mancada!
-Mas agora está tudo bem – falou Raul. – A Bianca vai ficar presa até nós decidirmos quando ela deve sair. Estou muito admirado da sua idéia, sabe Gabriel. Eu nunca imaginei que... Bem...
-Depois que eu seqüestrei a Carla, fiquei... Digamos que inspirado para um outro desses.
-Mas quem deu à falsa noticia do desfile?
-Eu! – falou fazendo cara feia.
-Parece que você não gostou muito, não é?
-Ele ficou parecendo um intelectual... Terno, gravata e óculos. O cabelo então um charme só.
Dado sorriu.
-Rá, rá, rá. Ta rindo do que palhaço.
-Você deve ter ficado engraçado mesmo. Mas como você chegou primeiro do que eu? Quer dizer, eu fui correndo...
-Eu fui de bicicleta.
Dado sorriu mais ainda.
-De óculos, terno, gravata e cabelo penteado, com cara de intelectual montado numa bicicleta!
Todos riram. Raul falou:
-Podem rir. Mas se eu não tivesse chegado a Carla já estaria lá em cima com os anjos, porque ela estava levando um baile de Bianca.
Saiu nervoso.
* * * * * *
Carla entrou no cativeiro de Bianca com o rosto coberto para não ser reconhecida.
-Mas tira daqui! Me tira daqui! – gritou Bianca.
-Calma. Se ficar gritando assim, não vai conseguir nunca vai sair daqui!
-Quem é você?! O que você quer?!
-Apenas me divertir. Não é legal se divertir?
-A policia vai prender você! Aí, quem vai rir vai ser eu! Você vai ver.
Carla se levantou. Dirigiu-se até a porta. Mas antes de sair falou:
-Eu acho muito difícil a polícia localizar você aqui, Bianca.
Após Carla sair, Bianca começou a chorar.
* * * * * *
Carla brincava com o Igor, Dado chegou.
-Você não parece muito feliz, né? – perguntou Dado enquanto se sentava no chão.
Carla hesitou um pouco e depois falou:
-Eu to feliz. Não tanto quanto deveria estar...
-Por que?
-Porque aonde eu vou, as pessoas me olham de um jeito estranho. Apontam o dedo pra mim, como se eu estivesse feito algo pra eles.
-É impressão sua, Carla! Antes também eles olhavam, afinal de contas você sempre foi famosa.
-Fica assim não, Carla. Pra mim você vai continuar sendo a Carla de sempre. Sabe que quando eu estava, um dia entrei primeiro na sala de aula e encontrei um caderno, nele tinha vários poemas e textos de amor. Tinha um que dizia assim:
“Que me importa a lua;
Se as estrelas iluminam
Meu caminho.
Que me importa a chuva;
Se o sol me aquece.
Que me importa o mundo;
Se tenho você.
Que me importa a distancia;
Se posso tela perto de mim.
Que me importa o ‘Tudo’
Se o pouco que tenho me satisfaz.
Que me importa a tristeza;
Se as lágrimas me ajudam
A viver.
Que me importa a separação;
Se mesmo assim não te esqueço.
Que me importa a solidão;
Se o mais importante na minha
Vida é ‘Amar Você’”.
Os dois se beijaram apaixonadamente. Enquanto o Igor, brincava feliz ao lado deles.
Fim
Autor: vander.christian
postado em 27/02/2008 às 18:53:50 na página biblioteca_ler
Acerto de contas.
Thiago chegou no “estúdio” e observou Bianca sentada de costas pra ele.
-Trouxe a água que pedi, Edmundo?
-Receio que não – disse Thiago se pondo na frente de Bianca.
-Que isso!? – assustou-se a moça. – O que está fazendo aqui? Quem te convidou para entrar aqui.
-Calma Bianca. Se pensa que me agrada estar aqui está enganada. Vim aqui, porque você é a única pessoa que pode me ajudar.
-Eu? Como é que eu posso te ajudar?
-Fui enganado – começou Thiago sentando-se – fui enganado pela Carla e por todos.
-E daí?
-Daí que eu quero me vingar dela.
-Será que você pode ser mais claro?
-Durante dois anos, eu tinha o Igor como meu filho, hoje, porém descobri que ele é o filho do Dado.
-Nossa! – exclamou Bianca. Quer dizer que ela te enganou durante esse tempo todo?
-Não... Quer dize foi!
-Por quê?
Thiago socou o ar. Levantando-se gritou:
-PORQUE NÃO EXISTE NINGUÉM HONESTO NAQUELA FAMÍLIA! SÃO TODOS MENTIROSOS E TRAIDORES!!
-Mas você nem desconfiou?
-COMO E POR QUÊ EU IRIA DESCONFIAR?
-As relações... Vocês não...
-ELA ME ENXEU DE ÁLCOOL NO DIA, PARA QUE EU NÃO ME LEMBRASSE DE NADA!
-Está bem tenta ficar calmo. O que você quer que eu faça?
-Quero que você dê uma entrevista na revista; jornal, tv, sei lá... Onde você quiser, falando da história fascinante da Carla.
-Hum, interessante. Mas por que você quer que eu faça isso?
-PORQUE EU QUERO! – berrou Thiago impaciente. – VOCÊ NÃO TEM RAIVA DELA?! VOCÊ NÃO VIVE PROCURANDO UMA MANEIRA DE DEIXAR ELA LA EMBAIXO?! ENTÃO APROVEITA!
-Mas porque não...
-ESTA FAZENDO PERGUNTAS DEMAIS, BIANCA! VAI DAR A ENTREVISTA OU NÃO?!
-Ta, eu vou dar a entrevista.
-Ótimo. Agora eu preciso ir... Esse lugar me dá náuseas.
* * * * * *
Quando a Carla entrou na sala de Carol, recebeu os votos de boas vindas de todos.
-Eu senti tanto sua falta! – disse Carol abraçando a irmã.
-Mas agora eu estou de volta, portanto, ninguém mais vai ficar se preocupando comigo. Meu velho maninho querido! – e abraçou o Raul.
-É mana Carla, você não sabe o que nós passamos nesse tempo todo que você esteve fora. Arrumando uma falsa modelo, entramos numa cozinha e deixamos cair, meio que sem querer, um sonífero nas bebidas de pessoas conhecidas, tomando banho de pó-de-mico e fomos ameaçados.
-Depois eu vou querer saber de tudo. Banho de pó-de-mico, francamente... Mas onde está o Igor?
-No quarto, com o Dado.
* * * * * *
Carla entrou. Pegou Igor nos braços, o beijou, o rodou em seus braços e o beijou novamente... As lágrimas começaram a rolar em sua face.
-Estava olhando ele – disse Dado – se parece um bocado comigo.
-Sim, parece mesmo. A orelha parece muito com a sua.
-Agora o nariz parece com o seu...
* * * * * *
Gabriel estava deitado olhando o teto. Estava chorando. Alguém bateu em sua porta e sem esperar resposta entrou. Era Maya.
-Você está chorando?
-Eu fiz tudo errado. O plano no início parecia muito bom, mas depois... Hã!
Maya sentou-se ao se lado e falou-lhe.
-Eles entenderam porque você teve que agir assim daquela maneira. Por isso não fica assim.
-Entenderam, mas não vão me perdoar nunca.
-Vão sim, é só uma questão de tempo.
-Acho que vou embora. Recomeçar minha vida num outro lugar.
-Por que isso agora, Gabriel? Você sempre viveu com a gente...
-Eu perdi um monte de amigos! – falou ele ficando de pé – E a pessoa de que eu mais gosto nunca vai aceitar ficar, ou viver comigo.
-Como você sabe?
-Não sei.
-Fala quem é, talvez aí eu posso ajudar.
Gabriel encarou Maya no olho.
-Essa pessoa é você.
Fez-se silêncio por um instante. Depois...
-Está falando sério?!
-Nunca na minha vida inteira falei tão sério.
-Juro que nunca imaginei que o meu amor seria correspondido...
Gabriel sorriu e com um forte abraço ele a beijou.
* * * * * *
Thiago, sentado observava o copo cheio de água em cima da mesa. As lembranças voltavam em sua cabeça.
Carla estava sentada. Ele chegou do serviço e beijou a.
-O Igor está dormindo?
-Ta. Chorou a tarde toda.
-É, mas logo, logo ele cresce aí para mais de chorar tanto assim!
Thiago aproximou a mão do copo. Lembrou-se da primeira vez em que beijou Carla. A lembrança desapareceu. Apesar de o copo estar cheio ele bebeu só um gole... A lembrança do beijo voltou agora mais nítida.
Passado alguns minutos a imagem foi ficando escura. Cada vez mais distante... Thiago foi atingido por uma tonteira, caiu da cadeira pro chão. Veio à escuridão e depois... A morte.
* * * * * *
Após o enterro de Thiago, Carla se jogou no sofá e falou:
-Ele não deveria ter feito isso. Ainda tinha lugar pra ele aqui entre nós.
-Agiu sem pensar – disse Raul, depois de uma pausa completou: - Agora você viu Carla, como todos te olharam?
-Vi. A Bianca não perdeu tempo. São Paulo inteiro sabe o que eu fiz.
-Ela deve estar se sentindo a rainha da “cocada preta”.
-Tudo que ela mais queria era isso emendou Carol.
-Preciso me vingar...
-Não há nada que você possa fazer Carla.
-Há sim, vou dar uma surra nela.
-Você não pode fazer isso. Pensa no seu filho!
-Não se preocupe Carol. Eu vou BATER NELA e não apanhar!
-Carla, isso é loucura. Carla volta aqui!
-Tarde demais... – disse Priscila.
* * * * * *
Gabriel e Maya estavam se beijando quando Dado entrou.
-Me desculpa não sabia que...
-Não precisar se desculpar. Não poderia adivinhar.
-Mas é que você... Eu pensava que... – Bibi fez uma cara feia e Dado começou a ficar vermelho. – Eu pensei que você fosse...
-Gay! – completou Bibi gozando de seu estimado amigo.
-É! – concordou Dado meio que sem muito jeito.
-Não sei porque todos pensam isso dele. – disse Maya.
-As pessoas não sabem observar direito. Até você, né Dado? Só porque eu me visto diferente você achou que eu fosse Gay.
-Desculpa, Gabriel.
-Tudo bem. Se Maya aceitar, eu te chamo pra ser padrinho de casamento.
-E então, Maya?
-Tudo bem, mas com condição: a Carla vai ter que estar ao seu lado.
-Então ta tudo certo.
* * * * * *
-A Bianca não quer falar com você.
-Mas eu quero falar com ela!
-Ela não aceita certas pessoas, então não insista. – disse Dany com um ar ríspido.
-Se eu não entrar por bem, vou entrar por mau.
-Vai ter que passar por cima de mim.
Carla foi pra cima de Dany. Quando já estava bem perto dela, agarrou os longos cabelos de Dany e os puxou.
Carla acertou um tapa na cara de Dany, que a fez se desequilibrar e cair. Carla foi pra cima, mas Dany segurou a perna dela e com o pé chutou um pouco a baixo do joelho de Carla, que deu um grito de dor. Dany se levantou e ia acertar um soco em Carla, só que esta foi mais rápida os braços de Dany. Carla empurrou Dany até a parede, começou a gritar...
-Pode gritar. – disse Carla – Acha que alguém vai escutar qualquer grito de uma vagabunda e ainda vai ajudar?
-Tenho certeza Carla. – respondeu Bianca para a Carla.
Carla parou de jogar Dany contra a parede, esta caiu ao chão desmaiada. Carla se virou e encarou Bianca.
-Eu sabia que você viria se mostrar, Carla – falou Bianca com um sorriso no rosto.
-Tenho uma idéia muito diferente de quem gosta de se mostrar – retrucou Carla.
-Você bateu na Dany... Vem me bater se conseguir vem!
Carla foi. Procurou os cabelos do Bianca e os puxou. Porem Bianca não pegou os de Carla, mas sim começou a golpear Carla no estomago. Foram vários socos e um empurrão. Carla sentiu falta de ar.
-Vem – chamou Bianca – eu pensei que você fosse mais forte.
* * * * * *
-Mas por que ela foi até lá? – perguntou Dado fazendo cara de preocupado.
-Ela falou que queria se vingar – respondeu Carol.
-Ela não tinha que ir procurar encrenca. Vocês deveriam ter impedido ela de ir.
-Não deu tempo, Dado – falou Raul.
-Tenho que ir lá – dizendo isso Dado saiu correndo.
* * * * * *
Carla segurou os cabelos de Bianca e puxou com muita força, enquanto que, com a mão esquerda acertou um soco na cara de Bianca. Ela cambaleou pra trás...
* * * * * *
-Da o fora daqui, Bibi – disse Raul com raiva.
-Espera. Eu tenho um plano pra cortar as asinhas da Bianca.
-Que plano? – quis saber Priscila.
-Bem...
* * * * * *
Bianca pegou o pescoço de Carla e apertou. Carla tentou recuar, mas perdeu o equilíbrio e caiu novamente. Bianca colocou os pé no pescoço dela, sorrindo ela falou:
-Posso acabar com você agora mesmo sabia Carla?
Ela estava fraca. Nitidamente Bianca era mais forte. PAFT, fora um soco no rosto. PAFT, fora outro. PAFT, mais outro. Ela perdeu os sentidos. Bianca se afastou...
-Psiu, moça!
-Quem é você? Eu deixei você entrar?
-É uma emergência, moça! Então precisando de uma modelo pra desfilar em Campo Limpo, mandaram eu vir atrás de você!
-Um desfile? – disse Bianca sorrindo – Eu vou!
-Mas tem que ser agora.
-Então vamos.
* * * * * *
-Escuta! – disse Bianca já cansada de andar – Será que não tem um carro pra levar-nos até a estação?
-Não!
Nesse momento do meio do mato, saíram dois tipos encapuzados...
-O que está acon... – ela não terminou. Priscila com um algodão encharcado de algum líquido fez com que Bianca desmaiasse e foi levada por Raul e Bibi.
* * * * * *
-Pronto! – disse Bibi e sentando no sofá – Agora quando ela acordar vai ter uma bela surpresa.
-Por que, que eu tive que me vestir daquele jeito? – queixou-se Raul para Carol. – Eu fiquei muito estranho. Por que, que tem que ser sempre eu?
-Quer parar de reclamar Raul?! Parece uma criança chorona!
Ele olhou assustado pra sua irmã.
Autor: vander.christian
postado em 27/02/2008 às 18:52:22 na página biblioteca_ler
Descoberta inesperada.
Carla caminhava com cuidado no meio do mato. De repente ela escutou um barulho. Parou. Logo viu um homem caminhando rapidamente. Carla continuou a caminhar cautelosamente. Chegou na casa onde fora o seu cativeiro. Entrou. Rapidamente ela pegou a faca, olhou em volta e não encontrou álcool. Começou a jogar as coisas no chão, foi aí que escutou uma tosse. Carla correu rapidamente pro banheiro.
Rafa entrou e logo percebeu que tinha algo errado.
-Caxias!? Caxias!? – gritou ele, enquanto tirava do bolso uma chave. Colocou na fechadura e girou. – Carla?! Carla?! – Rafa saiu do quarto e foi para a direção do banheiro em que Carla estava. Abriu a porta e... “PAM”. Carla o acertou com uma tabua que encontrara no banheiro aproveitou pra pegar o álcool e saiu.
* * * * * *
-Se você não pára de andar, Carol, vai fazer buraco no chão – disse Priscila.
-Temo que tenha acontecido algo de grave, Priscila.
-É, mais talvez não.
Nesse momento Raul entrou.
-Raul, aconteceu alguma coisa?... – parou ao ver Caxias entrar com a arma em riste – O que você quer? – ofegou ela.
-Calma Carol. Eu vou matar você de qualquer jeito – disse Caxias em um tom agressivo.
-E a Carla? O que você fez com ela?
-Ela fugiu. Começou a gritar feita louca e o rapaz que você mandou ir procurar o esconderijo escutou.
-Mas eu não mandei ninguém atrás dela!
-Ah, imagina que você não mandou. Mas eu avisei que não era pra chamar ninguém e já que a Carla escapou, eu acabo com você e seu irmão.
-Mais tem que ter uma explicação! Eu juro que não mandei ninguém resgatar a Carla.
-Então aquele indivíduo, que ajudou a Carla a fugir, caiu do céu é isso!
-Hum... É... Senhor Caxias a Carol tem razão, hoje só esteve aqui na casa dela o Gabriel, o Dado, o Thiago e... E só! – Caxias pensou.
-Muito bem. Quero que você me fale o que conversou com a cada um deles.
-Sinto muito, mas eu não sou obrigada a falar o que nós conversamos.
Caxias se aproximou dela e falou:
-Então, Carol eu vou ser obrigado...
-Se encostar as mãos na minha irmã eu...
-Você vai fazer o que, Raul?
-Como sabe meu nome?!
-Eu... Eu... Não interessa! Quero saber...
-Estou achando que você...
-EU JÁ DISSE QUE NÃO INTERESSA! EU QUERO SABER O QUE FOI CONVERSADO COM AS PESSOAS QUE ESTIVERAM AQUI! – fez uma pausa e depois continuou mais calmo – Será que vocês não entenderam que eu posso matar todos vocês, agora?
-Só que não entendemos é porque...
-Quieta! Vamos, Carol, fale o que foi conversado.
-Bem... É... Eu e o Thiago nós tivemos uma pequena discussão...
-Por que?
-Porque eu falei a verdade.
-A verdade sobre o que?
-Sobre... – ela fixou o olhar no revolver que estava na mão de Caxias. – soube o Igor, que não é filho dele.
-Você contou isso pra ele?
-Sim – Carol respondeu e olhou para os demais que estavam na sala.
-Vocês, têm certeza que ela falou pro Thiago que...
-Absoluta! – disse Maya.
De repente a sala mergulhou em um silencio profundo. Caxias começou a andar. Parou. Olhou pra todos e disse:
-Já que a Carol contou a verdade pro Thiago e suponho que pro Dado também, eu acho que ta na hora de falar a verdade pra vocês também.
Ele levou a mão atrás de seu pescoço e puxou a mascara.
Todos que ali estavam presentes não conseguiram abrir a boca pra falar alguma coisa. Somente a expressão no rosto de cada um dizia que ninguém sabia o que estava por vir.
Foi a Maya que quebrou o silencio:
-BIBI!
* * * * * *
Carla se ajoelhou perto de Dado.
-Calma Dado vai ficar tudo bem. Eu vou ascender o fogo e esquentar a faca pra retirar a bala.
-É melhor chamar um médico...
-Vai demorar muito.
-Assim vai doer era melhor uma anestesia.
-Vai doer sim. Mas as pra agüentar. Nós mulheres sentimos dor, mas nem por isso deixemos de dar a luz aos filhos de vocês Homens!
-Por que você não me contou que o Igor é o meu filho?
-Não deu tempo, lembra? Logo eu fui seqüestrada.
-Todos diziam que ele era filho do Thiago.
-É. Inventei isso pra que não saíssem por aí, dizendo que não sabia quem era o pai. Como você descobriu?
-Sua irmã falou pra mim e pro Thiago. Ele não gostou muito da idéia do Igor ser meu filho, mas nem sei porque e nem faço idéia!
-Pra mim isso nunca seria descoberto por ninguém e nem pensei na possibilidade que minha irmã iria me trair.
-Então você nunca iria falar a verdade pra mim?
Carla encarou Dado de um jeito um pouco furioso.
-Você não merecia saber a verdade. Você me enganou!
Os dois ficaram em silencio por um momento. Dado falou:
-Eu precisava ter só você. Então eu fui pra São Paulo explicar que... – Carla o interrompeu.
-O Gabriel disse que você não iria mais voltar.
-Os pais da Marcela não entenderam assim tão rápido quanto eu esperaria.
-Você não me ligou...
-Fiquei com vergonha de inventar mais mentiras. Acredite Carla eu nunca deixei de te amar. Ninguém sabe como eu me senti quando cheguei na sua casa e a vi com o Thiago e Igor nos braços dele.
-Então você ainda me ama?
-Claro! E nunca vou deixar de amá-la.
Os dois se beijaram apaixonadamente.
* * * * * *
-Então foi você que seqüestrou a minha irmã! Eu vou te quebrar a cara, seu canalha! – Raul partiu pra cima de Bibi, este recuou.
-Espera! Eu tenho o direito de contar porque agi assim. Você não está de acordo Carol?
-Sim. É melhor ouvir o que ele tem a dizer, Raul.
-Eu... Olha... Ta bom, fala!
-Vocês têm que entender que... Era difícil pra mim. Quer dizer... Eu sou amigo do Dado, não podia ficar mentindo pra ele. Foi muito confuso. A Carol me chamou e eu meio que sem pensar aceitei falar para todos que o Igor era filho do Thiago.
“Mas aí o Dado voltou e começou a sentir o peso dessa mentira”. Então, planejei seqüestrar a Carla que assim a Carol falaria a verdade. Porém logo vi que ela pagasse o resgate e também ameaças. De nada adiantou, que aí resolvi falar com a Carol, mas acabamos discutindo. As coisas começaram a melhorar hoje, dei uma dica pro Thiago e pro Dado dizendo que a Carol tinha uma história pra contar a eles... Queria me livrar logo da Carla, ela já estava começando a ficar desconfiada.
Ainda hoje mesmo, ela tentou tirar a minha mascara. Acreditem! “Eu estou muito contente que tudo tenha acabado”.
-E eu vou acabar com você! – gritou Raul.
-Não! Ele ainda não falou onde está a Carla.
-Por favor, Carol acredite em mim, um rapaz a ajudou a fugir, não sei quem é.
-E veio – disse Raul – apontando isso aí – e apontou com o dedo o revolver – pra minha cabeça, só para saber a verdade, não é?
-É, eu precisava ter certeza de que tudo tinha sido resolvido. Bom, agora eu preciso ir. Se muito me engano a Carol falou que era pra eu nunca mais pisar os pés aqui...
-UM MOMENTO! – gritou Raul – Você vai procurar a Carla e trazê-la eu lhe entrego a policia – virando-se para os demais completou: - estão de acordo?
- “Estamos” – responderam todos juntos.
-Ta bem eu vou procurá-la.
* * * * * *
-Vamos Carla. Se eu me apoiar no teu ombro talvez conseguiremos sair daqui.
-Não tenho a mínima idéia de que lado fica a estrada que vai pro Bandeirantes.
Nesse momento a voz de Bibi ecoou pela mata:
-Carla, Carla!
-Aqui, Bibi! – gritou Carla agitando os braços.
-Que bom que te encontrei, Carla. Dado o que aconteceu?!
-Você ainda pergunta? Era você, não era Bibi?
O rapaz baixou os olhos e depois falou:
-Eu já expliquei tudo.
-Do que vocês estão falando?
-Foi ele, Dado. Foi ele que me seqüestrou.
-Bibi?!
-Já expliquei tudo a todos. Eles pediram que viesse procurá-la.
-Vai embora Bibi! Nós vamos sozinhos.
-Foi o teu irmão que pediu pra eu levar você lá, na porta da casa dele. E eu vou te levar. Quanto a você, Dado... Eu te levo pro médico, porque foi eu que acertei o tiro em você. Vamos?
Dado e Carla se entreolharam.
* * * * * *
Thiago apertou a campainha. Logo Edmundo apareceu.
-Fala.
-Quero falar com a Bianca.
-Está ciente de que não é bem vindo aqui?
-Tenho um assunto muito sério pra falar com a Bianca.
-Mas eu tenho ordens pra não te receber.
-Edmundo é bom que saiba que algumas horas pra cá eu estou tendo dificuldades pra controlar a minha raiva.
Edmundo pegou o revolver, apontou pro Thiago e disse:
-E eu tenho muitas habilidades para controlar a minha fúria de algumas pessoas como você.
Thiago se aproximou de Edmundo forçou uma risada falou:
-Sabe, Edmundo entrei nessa casa escondido... E sabe aonde fui parar? Na cozinha da Bianca. Ah, na ocasião eu estava com meu amigo Raul e ele meio que sem querer, deixou cair umas gotas de sonífero no suco e no café...
-O que tem isso?
- ... O resultado foi que você dormiu durante seis horas seguidas. Então, se não me deixar entrar por bem, de nada vai adiantar, pois eu posso entrar escondido.
-Ok. Mas se a Bianca me mandar embora, pode mandar preparar o seu enterro.
-Não esquenta preparei tudo.
Autor: vander.christian
postado em 27/02/2008 às 18:51:01 na página biblioteca_ler
O cativeiro.
Na sala...
-Você está bem? – perguntou Carol para Dado, enquanto a ajudava a ficar em pé.
-Ta tudo bem. Não se preocupe. Por que não me falou antes que o Igor é o meu filho?
Carol se afastou de Dado. Ele contemplou um momento as paredes da sala e falou:
-Não tive coragem. Na verdade você agiu muito mal com a Carla.
-Olha quem fala.
-Não importa. Você é a única pessoa que pode segurar o Thiago. Vai atrás dele – fez-se uma pausa então agiu – Agora!
Dado não disse nada e saiu correndo.
* * * * * *
-Sabe o que eu acho? Você não confia que a sua irmã vai pagar o resgate – falo-lhe Caxias sentando-se na cama de Carla. Ele consultou o relógio, se levantou e falou: - Preciso averiguar um negócio... Daqui mais um pouco você vai... Bom deixa pra lá.
* * * * * *
Thiago parou pra recuperar o fôlego. Em seu rosto, as lágrimas se misturavam com o suor.
Ele se jogou no chão; passou os braços em volta dos joelhos e ficou observando o chão com as lágrimas escorrendo em seu rosto.
De repente, tudo à sua volta começou a rodar. Veio à lembrança de primeira vez em que beijou Carla. Ela parecia que realmente gostava dele. A lembrança agora era outra... Carla chegou toda sorridente e disse: “Estou grávida, Thiago!” A cena mudou. Agora ele estava sentado; quando o telefone tocou. Era Carol. “Nasceu, Thiago. É um lindo garotão!”
Thiago abriu os olhos... Estava sentado no chão, no meio de mato. A voz dentro da cabeça dele dizia: “Você foi traído. Enganado... Traído... Traído... Enganado”. Thiago colocou as mãos na orelha e gritou: “Pára! Chega!”, mas a voz continuou: “Traído, enganado, te fizeram de trouxa...”. Socorroo! Não, Pára! “ENGANADO! ENGANADO!”. Socorro! Me tira daqui!! CHEGA-EU-NÃO-QUERO-MAIS-OUVIR!! Socorro, alguém me tira daqui! Thiago esperou. Depois ouviu novamente: “ME TIREM DAQUI!!”
Ele começou a caminhar na direção da voz. Não tardou a avistar uma casa com várias ramas de flores e mato nas paredes, se aproximou...
* * * * * *
Caxias, que ia se afastando do mato, também ouviu Carla gritar.
-Droga! Se alguém estiver por perto vai ouvir. Pegou o revolver e deu meia volta.
* * * * * *
Dado parou pra recuperar o fôlego. E disse para si mesmo: - Onde será que ele se meteu?
* * * * * *
Na casa de Carol...
-Mas por que ir atrás deles?
-Porque é bem capaz deles se matarem!
-Está bem. Isso é se eles já não estiverem mortos, porque... O Dado bateu no Thiago, e agora o Thiago bateu no Dado, quero dizer, eles já devem ter...
-Pare de falar bobagens e vai atrás deles! – berrou Carol.
* * * * * *
Thiago entrou. Carla correu pro seus braços.
-Calma Carla. Está tudo bem, vamos sair daqui.
Eles começaram a correr. Bem mais atrás, vinha Caxias atirando, tentando acertar Thiago. Carla era praticamente arrastada por ele que corria o mais rápido que podia. Os dois se embrenharam no mato mais ainda e Thiago falou:
-Depressa, Carla se abaixa!! – era obedeceu. Thiago pegou uma pedra e arremessou na direção oposta que ele e Carla estavam. Logo, Caxias apareceu com a pistola na mão e disparou três vezes na direção em que Thiago jogou a pedra. Thiago arremessou outra pedra... E depois outra. Foi suficiente pro Caxias se meter no mato.
-Rápido Carla! Vamos sair daqui. Eles recomeçaram a correr, porem, num ritmo mais lento.
* * * * * *
Dado parou. Escutou o primeiro tiro, outro, outro e mais outro...
* * * * * *
-Droga! – disse Raul – Estão lutando!
* * * * * *
Dado escutou um barulho de galho quebrando. Se virou e... Nesse momento um tiro o acertou na perna. Dado se sentou... Uma forte dor tomou conta de seu corpo. “Tenho que manter os olhos abertos” – murmurou pra si mesmo.
* * * * * *
-Pronto, acho que despistamos ele.
-Será? – perguntou Carla sem fôlego.
-Não importa agora você vai me explicar porque mentiu pra mim! Por que você me enganou?!
-Está louco? Eu não te enganei!
-Louco estava eu quando acreditei em você! Eu estava louco, cego quando você me chamou pra ir à sua casa e foi me enchendo de cerveja! Você não presta!
-Você está completamente maluco!
-Não se faça de desentendida! Sua irmã me contou tudo! Você é uma vagabunda! Sabe o que eu vou fazer, Carla? – ele se aproximou dela – vou contar pra todos os jornais o que você apronto. Quando chegar amanhã e vai ver o quanto vão falar de você, vai estar mal falada na boca do povo.
-Você não vai fazer isso! – Carla partiu pra cima de Thiago, arranhando o rosto. Com os pés, ela chutava; contudo ela estava demais.
-Eu não gosto de bater em mulher – disse Thiago segurando Carla – mas eu vou esquecer isso... “Paff!!”
Carla caiu no chão, com o tapa que Thiago lhe deu. O rapaz se afastou em silencio.
* * * * * *
-Vai atrás deles falou Carol, huf, e quem encontra eles? Só espero que...
-Xiiih, se gritar eu atiro – Raul se virou de vagar e...
-Ai! Quanto mais eu rezo mais assombração me aparece!
-Falei pra você ficar quieto. O que você está fazendo aqui?
-Eu... Eu... É... – gaguejou Raul olhando para o revolver apontado para seu peito.
-Isso não interessa. Vamos pra casa da sua irmã.
-Espera! Você primeiro seqüestra a minha irmã casula, agora quer a mais velha? Não...
-Eu só pedi pra você me levar na casa dela, mas se você começar o sabichão acabo com você agora mesmo. Vamos! – disse Caxias num tom amedrontador.
* * * * * *